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                          IEDI na Imprensa - Indústria tem o pior junho desde 2014

                          Publicado em: 04/08/2026

                          Valor Econômico

                          Todas as quatro grandes categorias da pesquisa do IBGE apresentaram queda ante maio

                          Marcelo Osakabe e Lucianne Carneiro 

                          A redução das tensões no Oriente Médio pesou sobre o desempenho da produção de derivados em junho, tirando ímpeto de um dos poucos setores que ajudava a segurar o dinamismo indústria brasileira, que enfrenta há tempos um ambiente de juros e endividamento altos.

                          De acordo com a Pesquisa Industrial Mensal – Produção Física (PIM-PF), o setor apresentou baixa de 1,8% em junho na comparação mensal. Em maio, o indicador cedeu 0,9% (após divulgação inicial de recuo de 0,2%).

                          Foi a maior queda mensal desde dezembro de 2025 (-1,9%) e também a maior para um mês de junho desde 2014 (-2,9%). O resultado ficou abaixo do piso das estimativas coletadas pelo Valor Data, que variavam entre recuo de 1,4% e alta de 0,8%, com mediana em 0,6% de decréscimo.

                          Frente a junho de 2025, a produção industrial subiu 1,7%, abaixo do piso das projeções coletadas, que iam de alta de 2,1% a 5,8%.

                          Todas as quatro grandes categorias da pesquisa do IBGE apresentaram queda ante maio. Bens de capital tiveram recuo de 1,1% em junho; bens intermediários baixaram 1,1%; bens duráveis registraram retração de 3,2% em junho e bens semiduráveis e não duráveis diminuíram 4,1%.

                          Entre os 25 ramos industriais pesquisados, 16 mostraram queda. A produção de coque, derivados de petróleo e biocombustíveis liderou as baixas com perda de 5,9%.

                          “A atividade de petróleo é a que teve maior impacto no campo negativo. Não está sozinha para explicar a queda geral, mas o segmento responde por algo de 14%, 15% da estrutura da indústria e é o segundo mês de queda”, afirmou o gerente da pesquisa, André Macedo, responsável pela pesquisa do IBGE.

                          Com o resultado do mês e a revisão de maio, o desempenho do setor segundo trimestre caiu de 1,2% para 0,3% nos cálculos do ABC Brasil. Já o carrego estatístico para o terceiro trimestre - o resultado esperado caso os próximos trêrs meses mostrem estabilidade - é de -1,5% atualmente.

                          O cálculo “consolida um claro viés de baixa para o setor industrial no próximo trimestre. Esse viés desfavorável impactou também o carrego de 2026 como um todo, que recuou para +0,6%”, destaca o banco em comentário enviado a clientes.

                          Para a XP Investimentos, o resultado disseminado - 16 dos 25 ramos recuaram em junho - mostra que o bom desempenho da indústria na largada do ano foi “sonho de uma noite de verão”.

                          “A composição é ainda menos animadora do que sugere o número cheio. A indústria extrativa subiu 1,9% no trimestre, após alta de 2,3% no primeiro, e respondeu por praticamente todo o avanço trimestral do agregado, ao passo que a indústria de transformação recuou marginalmente, 0,1% no segundo, depois da expansão de 1,2% no trimestre anterior”, destacam os economistas Rodolfo Margato e Alexandre Maluf em relatório.

                          Após a divulgação do dado, o indicador de alta frequência do Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre da corretora passou de 0,47% para 0,40% na comparação trimestral. Para o ano, a projeção segue em 2%.

                          André Galhardo, da Análise Econômica, ressalta a queda três vezes maior do que a mediana das análises esperava e credita o resultado não apenas ao cenário de juros altos, mas também aos estoques altos e alguma devolução do efeito da guerra no Oriente Médio sobre o setor de petróleo e gás.

                          “O petróleo chegou a US$ 120 no auge do conflito e passou um bom tempo na casa de US$ 100 o barril. Em junho, caiu rapidamente para US$ 70, algo que eu e muitos economistas não imaginávamos, até por causa de toda a destruição de capacidade produtiva que ocorreu”, explica.

                          Em sua avaliação, houve ainda certa contribuição dos estoques altos de minério de ferro no país, que também prejudicou a atividade do setor de mineração. De forma semelhante, a indústria manufatureira influencia. “A recuperação vista na virada do ano do setor foi recomposição dos estoques. Agora, mesmo com um alívio pequeno da Selic, o setor chega num momento delicado, em que os estoques estão elevados, mas os juros e a inadimplência ainda estão altos e a atividade econômica está perdendo ritmo.”

                          Após o dado de junho, Galhardo cortou sua projeção para o crescimento da produção industrial neste ano de 2% para 1,2%. “É mais que o 0,6% registrado em 2025, mas algo bem tímido considerando a média dos dois anos, e que a economia como um todo deve avançar 2% em 2026.”

                          Para Macedo, do IBGE, não é possível ver um impacto direto da guerra do Oriente Médio no recuo de produção de derivados de petróleo em junho, avaliação diferente do que tem para os produtos químicos, que foi a segunda maior influência na queda da PIM-PF em junho.

                          “Os produtos químicos têm a parte de adubos e fertilizantes, que sofre com os efeitos da guerra. Em junho, a queda foi de 4,3%, que elimina o ganho de 3,6% do mês anterior e é maior que a média da indústria”.

                          Perguntado se o resultado mais recente sinalizava mudança de rota, Macedo reconheceu que a dinâmica da indústria mudou.

                          “Em maio e junho, houve queda de 2,7%. Não elimina totalmente a alta de 4,4% nos primeiros quatro meses, mas é uma leitura diferente do que tinha sido observado. O resultado do semestre encerrado em junho mostra interrupção da trajetória ascendente”, disse.

                          Rafael Cagnin, economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento da Indústria (IEDI), ressalta que ao ambiente de Selic alta e forte endividamento das famílias se juntam incertezas relacionadas ao cenário eleitoral e também à reforma tributária.

                          “Para o segundo semestre, mesmo com a queda da Selic, o contexto continua o mesmo. Em um cenário de forte incerteza, não apenas de quem ganha eleição mas de qual será a política econômica, faz sentido adiar todo o gasto possível”, observa, lembrando que o setor de bens de capital amargou o quinto trimestre consecutivo de baixa.

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