IEDI na Imprensa - A estagnação industrial brasileira
Valor Econômico
O problema é de produtividade e de custo de produção, e é nesses termos que a agenda industrial precisa ser discutida
Sergio Vale
Quando se discute a indústria brasileira, a comparação usual tem sido com o próprio passado. Compara-se a produção de hoje com a de 2011, a participação no PIB de agora com a dos anos 1980, e daí se extrai um diagnóstico. Falta um outro aspecto: o que aconteceu com a indústria dos demais países no mesmo período? A Unido publica índices trimestrais de produção da indústria de transformação de até 134 países, com ajuste sazonal, tornando-se uma fonte rica de comparação entre países. Com essa base dá para responder a duas perguntas: onde o Brasil está nesta comparação e se nos desconectamos da tendência mundial ou não.
No primeiro trimestre de 2026, a produção manufatureira global cresceu 3,1% em relação ao mesmo período do ano anterior. A América Latina foi, ao lado da Europa, a única região com produção abaixo do nível do ano anterior. O Brasil cresceu 1,5% frente ao trimestre imediatamente anterior, impulsionado pelo petróleo, e 0,04% frente a um ano antes. Ordenados os países pelo crescimento interanual, o Brasil ficou em 54º lugar entre 80 economias com dados disponíveis no trimestre, diagnóstico também realizado pelo IEDI.
Mas não é um trimestre fora da curva. Em amostra fixa de 123 países, o Brasil saiu da 36ª posição no terceiro trimestre de 2024, auge do ciclo de consumo e crédito, e passou por 56ª, 92ª, 99ª e 107ª nos quatro trimestres seguintes. Cinco trimestres para devolver o ganho de 2024. A série anual mostra que o roteiro se repete: em quinze anos, o Brasil chegou ao terço superior do ranking duas vezes, em 2013 e em 2024, nas duas, na 30ª posição, e nas duas voltou à metade inferior no ano seguinte. São repiques de demanda doméstica sobre uma trajetória de perda relativa.
A série longa não traz muito alento. O índice de produção brasileiro atingiu o pico no primeiro trimestre de 2011 e fechou 2025 cerca de 16% abaixo desse pico. A mediana mundial registrou um aumento de 33% no mesmo intervalo. No acumulado de 2010 a 2025, o Brasil ocupa a 86ª posição entre os 89 países com série completa. À frente da Argentina, da Mauritânia e da Ucrânia. Atrás de Japão e Itália, que são os casos que a literatura usa como exemplo de estagnação industrial madura.
Antes de 2010, o quadro era mais suave. No superciclo de commodities, o Brasil esteve no terço superior: 27º percentil em 2004 e, de novo, em 2010, ano em que a produção cresceu 10,1%, contra 5,8% da mediana mundial. Mas a virada foi rápida e saímos do 27º percentil em 2010 para o 80º em 2011, sem retorno sustentado à metade superior desde então.
Para datar o descolamento, aplicamos um teste simples de quebras estruturais à série do hiato de crescimento, a variação interanual do Brasil menos a mediana dos 21 países com série completa desde 2002. O critério de informação, teste econométrico de identificação, seleciona duas quebras: no quarto trimestre de 2013 e no quarto trimestre de 2016. Saem três regimes: hiato médio de -0,1 ponto percentual ao ano até 2013, de -8,5 pontos entre 2014 e 2016 e de -0,8 ponto a partir de 2017.
O descolamento não foi uma deriva lenta. Foi um episódio de três anos que respondeu por cerca de 25 pontos percentuais de perda relativa, seguido de não recuperação. De 2017 para cá, o país cresce perto do ritmo mundial, nunca acima dele, e, por isso, o rebaixamento de nível virou permanente.
O corte setorial amplia o cenário de estresse. De 2010 a 2025, a produção brasileira encolheu em 20 dos 22 ramos com dados comparáveis. As duas exceções são o papel e a celulose e o refino de petróleo, ancorados na base de recursos naturais, e são também os únicos ramos em que o Brasil superou a mediana mundial. Os maiores hiatos estão onde a manufatura mundial mais avançou. Na farmacêutica, que cresceu 68% no mundo, a produção brasileira caiu 15%, o que representa um hiato de 84 pontos percentuais. Em eletrônicos, o hiato é de 89 pontos. Em veículos, de 83. Em máquinas e equipamentos, de 48.
Cabe aqui um cuidado com a janela de comparação, pois ela altera o sinal. Partindo de 2003, oito setores acumulam crescimento. Partindo do pico de 2010-11, os mesmos oito registram uma contração. Outros equipamentos de transporte, +51% contra -23%. Farmacêutica, +29% contra -16%. Veículos, +25% contra -34%. O ganho dos setores de tecnologia e de escala concentra-se integralmente no ciclo 2003-2010. Do pico em diante, todos recuaram. Os trabalho-intensivos caem em qualquer janela, com ou sem choque chinês.
Junto isso ao que tratei em artigos anteriores. Pela decomposição da identidade de Baldwin, a indústria perde em três canais simultaneamente. Na comparação internacional, o país saiu do terço superior para o quinto inferior, num episódio entre 2014 e 2016, que nunca foi revertido. No corte setorial, cresce o que é ancorado em recursos naturais e recua o que incorpora tecnologia.
Sobra o câmbio, que é a explicação preferida do debate brasileiro. Ela não se sustenta nesses dados. O melhor desempenho relativo da indústria coincidiu com o período do real valorizado. A queda no ranking coincidiu com a década de moeda depreciada. A depreciação real acumulada desde 2011, de cerca de 35%, não se converteu em ganho de posição. O problema é de produtividade e de custo de produção, e é nesses termos que a agenda industrial precisa ser discutida.
Por isso, na crise da guerra tarifária, o Plano Brasil Soberano se torna apenas um paliativo. A questão estrutural passa por um país que sempre teve tarifas de importação altas, sempre quis internalizar excessivamente a produção, com infindáveis políticas de conteúdo nacional, e quase nunca buscou abrir mercado de exportação por meio de acordos comerciais, que a literatura econômica aponta como o canal que muda o jogo. Não à toa, a Polônia, com forte ligação industrial com a Alemanha, cresceu quase 100% em sua indústria desde 2010, enquanto o Brasil caiu 14%. Índia e Vietnã abriram suas economias e reduziram tarifas, o que impulsionou o crescimento de suas indústrias.
O Brasil manteve suas tarifas estagnadas em um nível elevado, entre as maiores do mundo. Ajustar o custo interno, como a reforma tributária começa a fazer, é necessário, mas não basta.
O que salta aos olhos é que Trump está levando os Estados Unidos, com a nova rodada tarifária, a adotar as maiores tarifas do mundo e seguir a mesma política industrial que nunca deu certo na América Latina. Declínio industrial começa por aí.
Sergio Vale é economista-chefe da MB Associados.
