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                          IEDI na Imprensa - PIB desacelera no 2º trimestre, e analistas já reveem projeções

                          Publicado em: 02/09/2026

                          O Globo

                          PIB cresce 0,5% no segundo trimestre com queda no consumo em cenário de juro alto

                          Carolina Nalin e Vinicius Nader

                          Economia perdeu fôlego e cresceu 0,5% no segundo trimestre, uma queda em relação ao período anterior. Índice foi puxado pela redução no consumo das famílias, o que deve afetar desempenho do PIB ao longo do ano.

                          O Produto Interno Bruto (PIB), soma de todos os bens e serviços produzidos na economia, perdeu fôlego no segundo trimestre e cresceu 0,5% ante os três primeiros meses do ano, quando o avanço foi de 1,1% ante o quarto trimestre de 2025, informou ontem o IBGE. A freada foi puxada pelo consumo das famílias, que caiu 0,4% na comparação com o primeiro trimestre.

                          A desaceleração era esperada —as projeções de analistas apontavam para crescimento de 0,4%, segundo pesquisa do jornal Valor —, mas a queda no consumo das famílias não estava no radar de economistas. Isso colocou as projeções em "viés de baixa". Há possibilidade de o crescimento econômico deste ano ficar abaixo do 1,9% apontado atualmente pelas estimativas de mercado.

                          — A desaceleração era o cenário base. Está em linha com as nossas projeções desde chamou a atenção foi a composição—disse Natalie Victal, economista chefe da gestora de recursos Sul América Investimentos.

                          Na comparação com o segundo trimestre de 2025, o consumo cresceu 0,5%, um terço do 1,5% projetado pela equipe da Sul América. O IBGE ressaltou que o movimento foi acompanhado de um aumento de 4,7% na massa salarial — a renda somada de todos os trabalhadores —e de um avanço de 11,1% no saldo de operações de crédito para pessoas físicas.

                          — A renda ainda estava resiliente, e as famílias ainda têm conseguido empréstimos. Apesar dessa "renda ampliada", houve queda no consumo — afirmou Natalie.

                          COMPRAS ANTECIPADAS

                          Segundo a economista, pode ter havido alguma "antecipação". Com a ampliação da isenção do Imposto de Renda (IR) para quem ganha até R$ 5 mil por mês e o reajuste do salário mínimo, a partir de janeiro, as famílias podem ter comprado logo no início do ano bens mais caros, que poderiam adquirir depois. Ou as famílias podem estar com os orçamentos apertados por causa de dívidas, completou Bráulio Borges, economista da LCA Consultores.

                          É o caso da cabeleireira e esteticista Fabiola Ronzey, de 40 anos, que está no momento tentando se reorganizar financeiramente, após se separar do marido, com quem acumulou dívidas. Ela voltou a morar com o pai, mas os gastos do casal ficaram. Para dar conta dos débitos, acabou pagando apenas o mínimo da fatura de dois cartões de crédito, entrando no rotativo.

                          — Estou tentando parcelar a dívida. Tenho contado coma ajuda da minha mãe, e venho realmente fazendo cortes de gastos não essenciais, como saídas sociais ou para refeições fora de casa —disse Fabiola.

                          Segundo economistas, forças antagônicas atuam sobre o consumo. De um lado, o mercado de trabalho ainda aquecido ajuda a sustentar a renda. De outro, juros elevados — tanto devido à política do Banco Central (BC) quanto às taxas de mercado — e endividamento excessivo corroem os orçamentos domésticos. Entre as duas forças, o governo tem lançado nos últimos anos medidas de estímulo, como a volta da regra de reajuste do salário mínimo, a isenção do IR para trabalhadores de média renda e programas de crédito.

                          — Demorou um pouco, mas a demanda interna reagiu negativamente. Dado o tamanho do juro e o tempo em que as taxas estão em níveis elevados, era de se esperar — disse o economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), Rafael Cagnin, para quem o efeito das medidas do governo já se dissipou.

                          Para Borges, da LCA, o desempenho do segundo trimestre devolve a economia ao padrão de desaceleração, com crescimento baixo, que vem desde o mesmo período de 2025. O primeiro trimestre deste ano foi ponto fora da curva, com reaceleração, puxada, segundo ele, por mais gastos dos governos, um comportamento sazonal típico de anos eleitorais — devido às restrições da legislação, os governos correm para inaugurar obras no início do ano, mas o ritmo para no segundo semestre.

                          Agora, sem o apoio dos gastos dos governos sobre a atividade, o peso dos juros elevados e do endividamento excessivo sobre o consumo das famílias fala mais alto. Para Natalie, da SulAmérica, é preciso observar como esse jogo de forças se dará daqui para a frente. O mercado de trabalho segue aquecido e, junto de medidas já lançadas pelo governo, serve de "colchão" para a desaceleração, mas a economista agora vê um crescimento um pouco abaixo dos 2% que ainda projeta para o ano.

                          Na visão de Henrique Danvyi, economista do banco Santander, os estímulos fiscais já não devem ser suficientes para sustentar o consumo. Com isso, o PIB poderá ficar estacionado neste semestre, disse Danyi:

                          —Podemos ter um PIB mais "de lado" no segundo semestre. Vamos continuar vendo esse acúmulo de enfraquecimento na capacidade de consumo das famílias.

                          André Valério, economista do Banco Inter, reduziu sua projeção para o ano de 1,8% para 1,7%. "Esperamos que o PIB apresente variações modestas nos próximos dois trimestres, com os consumidores ainda muito restritos pelas condições financeiras adversas e o agro deixando de ser uma contribuição positiva tendo passado o período sazonal de colheita, além dos potenciais impactos negativos do El Nino", afirmou.

                          No segundo trimestre, a queda no consumo das famílias foi compensada por um aumento de 1,2% nos investimentos, na comparação com o primeiro trimestre. Mas nenhum dos economistas ouvidos pelo GLOBO viu sinal de início de um ciclo de aportes, dada a incerteza elevada.

                          COMMODITIES PUXAM

                          Pelo lado da oferta, a composição foi ruim, lembrou Natalie, da SulAmérica. O destaque foi a alta de 2,8% no PIB da agropecuária (leia mais abaixo), mas serviços (alta de 0,2%) e indústria (0,1%) ficaram perto da estagnação. A indústria só cresceu porque as indústrias extrativas, com destaque para a produção de petróleo, saltaram 3,4%. Tanto a agropecuária quanto a indústria extrativa produzem matérias-primas que não dependem dos ciclos da demanda doméstica e são impulsionadas por boas condições de clima e investimentos de longo prazo.

                          Sem o desempenho dessas atividades, o crescimento do segundo trimestre seria nulo, disse Juliana Trece, coordenadora do Núcleo de Contas Nacionais do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGVIbre). Para ela, os setores cíclicos da economia sofrem de um esgotamento do modelo de crescimento puxado pelo consumo:

                          —E pode ser mais desafiado radiante, pois, independentemente de quem seja o presidente a partir do ano que vem, haverá algum ajuste fiscal.

                          O governo demonstrou preocupação com a composição do PIB. O dado do IBGE frustrou a expectativa oficial, de crescimento de 0,8%, segundo nota da Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Fazenda. Com isso, há possibilidade de redução da projeção da Fazenda para o PIB do ano, hoje em 2,3%.

                          Colaboraram Thaís Barcellos e Letícia Guimarães (estagiária sob a supervisão de Danielle Nogueira)

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