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Introdução. O
objetivo desta Carta IEDI é apresentar
os principais resultados das contas externas
brasileiras em 2015, com ênfase no desempenho
das transações correntes. Os
dados foram extraídos da nova série
histórica do Banco Central do Brasil
(BCB), divulgada a partir de abril do ano
passado. Essa série baseia-se na 6ª
edição do Manual de Balanço
de Pagamentos e Posição de Investimento
Internacional (BPM6) do Fundo Monetário
Internacional (FMI), que foi elaborada com
as finalidades de: (i) adaptar as estatísticas
às transformações ocorridas
na economia internacional nos últimos
quinze anos nas esferas produtiva, comercial
e financeira; (ii) incorporar avanços
metodológicos em tópicos específicos;
(iii) harmonizar as estatísticas do
setor externo com as macroeconômicas,
especialmente o Sistema de Contas Nacionais
(System of National Accounts, SNA 20082).
Além de mudanças na estrutura
de contas do balanço de pagamentos
(BOP), também foi adotada uma nova
convenção de sinais. Uma das
mudanças mais importantes nesse quesito
foi a atribuição de sinais negativos
para as captações líquidas
na conta financeira e vice-versa (sinais positivos
para concessões líquidas), ao
contrário do padrão adotado
nas edições anteriores. Para
maiores detalhes sobre a BPM6, consultar o
link: http://www.bcb.gov.br/?6MANBALPGTO
A comparação de curto prazo
(ou seja, com o desempenho de 2014) será
privilegiada. Isto porque, enquanto a nova
série inicia-se em janeiro de 2014,
a série anterior, que adotava a metodologia
da 5ª edição desse Manual
(BPM6), estende-se de janeiro de 1947 a fevereiro
de 2015. Quando considerado necessário,
a base de dados antiga (que continua disponível
no site do BCB) será utilizada para
ampliar o período de análise.
Assim, será mantida a convenção
de sinais adotada na BPM5 (captações
líquidas com sinal positivo e vice-versa).
Panorama Geral.
O saldo do balanço de pagamentos (BOP)
brasileiro em 2015 foi positivo em US$1,57
bilhão, cifra expressivamente menor
(-85,5%) que a registrada no ano anterior
(US$ 10,8 bilhões). Esse resultado
decorreu de movimentos opostos nas duas principais
contas do BOP. Por um lado, o saldo da conta
financeira (que registra o fluxo líquido
de capitais entre o país e o exterior),
embora tenha se mantido superavitário,
sofreu forte deterioração, recuando
de US$ 101 bilhões para US$ 56,2 bilhões
(-44%). Por outro lado, o déficit nas
transações correntes diminuiu
praticamente na mesma intensidade (-43,7%),
de um pouco mais de US$ 100 bilhões
em 2014 para US$ 58,9 bilhões em 2015.


A comparação de curto prazo
já revela que a conta de transações
correntes sofreu um forte ajuste na passagem
de 2014 para 2015. Contudo, uma apreciação
mais rigorosa da dimensão desse ajuste
requer a ampliação do horizonte
temporal. Para tanto, é necessário
considerar o período de vigência
do regime de câmbio flutuante (adotado
em janeiro de 1999 após a crise cambial
que levou ao colapso do sistema de bandas
cambiais), que resulta numa dinâmica
diferenciada do ajuste externo em comparação
aos regimes de câmbio administrado adotados
anteriormente. Além disso, essa ampliação
exigiu a “união” das duas
séries de BOP, o que não compromete
a análise, pois as diferenças
metodológicas não são
significativas. O gráfico abaixo sugere
que o ajuste foi bem mais expressivo em 2015
do que em 2002, quando a combinação
de uma forte depreciação cambial
com o baixo dinamismo da atividade doméstica
resultou numa redução de US$
15,8 bilhões do déficit em transações
correntes, de US$ 23,2 bilhões para
US$ 7,6 bilhões.

Todavia, a comparação dos valores
absolutos não é a mais apropriada
para esse tipo de análise. Nesse caso,
o indicador mais adequado é a razão
entre o saldo em transações
correntes (TC) e o Produto Interno Bruto (PIB).
Nesse critério, o ajuste em 2002 foi
muito mais intenso: o déficit em TC
recuou de 4,2% em 2001 para 1,5% (ou seja,
2,7 pontos percentuais). Já na passagem
de 2014 para 2015, a queda foi de somente
1 ponto percentual (de 4,3% para 3,3%).

Assim, a seguinte questão se coloca:
quais foram os determinantes dessa diferença
na intensidade do ajuste externo em 2002 e
2015, a despeito da vigência do mesmo
regime cambial? Vale mencionar igualmente
que o grau de abertura externa, comercial
e financeira, que também condiciona
a dinâmica das contas externas, não
sofreu alterações significativas
desde janeiro de 2000 (quando a abertura financeira
foi ampliada).
O primeiro fator a ser considerado é
a conjuntura mundial. Nos dois momentos, a
situação macroeconômica
internacional foi marcada pela desaceleração
do crescimento, ou seja, pelo desempenho desfavorável
da demanda externa. Outro importante condicionante
das exportações brasileiras,
o desempenho dos preços das commodities,
também não parece explicar a
diferença: estavam em patamares deprimidos
até 2002, a partir dos quais emergiu
a primeira fase de alta dos anos 2000 que
se encerrou com a crise financeira global.
No período recente, embora ainda em
patamares superiores aos vigentes no início
do milênio, uma nova fase de baixa teve
início em 2011 e se intensificou em
2014 (ver Carta IEDI n. 702). Todavia, vale
mencionar uma diferença entre os dois
momentos considerados: após a crise
financeira e econômica global de 2008-2009,
o comércio internacional tornou-se
menos dinâmico, com taxas de crescimento
inferiores ao produto global.


O segundo fator a ser considerado é
o desempenho macroeconômico doméstico.
Nesse caso, como ensinam os modelos de macroeconomia
aberta, as variáveis relevantes são
a taxa de câmbio real efetiva (preço
relativo entre os bens externos e internos)
e atividade econômica. Nos dois períodos,
a trajetória cambial foi favorável
ao ajuste externo. Contudo, em 2001/2002,
a depreciação do câmbio
foi mais expressiva do que em 2014/2015. Como
as exportações e importações
respondem às mudanças na taxa
de câmbio com um lag temporal,
também é importante considerar
a variação acumulada: entre
1999-2002, esta foi de 110% contra 52% entre
2012-2015. Ou seja, a mudança de preços
relativos desponta como um importante fator
explicativo do ajuste externo nos dois momentos,
bem como da sua maior intensidade em 2001/2002.

Já o segundo condicionante interno,
a atividade econômica doméstica,
indicaria um ajuste mais forte em 2015 do
que em 2002. Isto porque, o desempenho do
PIB no período recente foi muito pior
do que em 2001/2002. Desde o primeiro trimestre
de 2015, o PIB registrava variações
negativas e expressivas. De acordo com a previsão
atual do mercado (boletim Focus do BCB divulgado
dia 5 de fevereiro), sua queda será
de 3,21% em 2015.


Em suma, os fatos estilizados apresentados
acima não fornecem uma resposta conclusiva
para a pergunta colocada. Por um lado, o desempenho
da economia internacional nos dois períodos
foi relativamente semelhante. Por outro lado,
no caso das variáveis macroeconômicas
domésticas, que foram favoráveis
ao ajuste externo nos dois períodos,
enquanto a trajetória da taxa de câmbio
real efetiva é coerente com o maior
ajuste externo em 2001/2002, a evolução
do PIB sugeriria um resultado oposto. Em outras
palavras, os fatores conjunturais, externos
e internos, não são suficientes
para explicar o ajuste relativamente mais
suave ocorrido em 2015.
Assim, ao que tudo indica, fatores de natureza
estrutural estão por detrás
da menor queda do indicador TC/PIB no período
recente, dentre os quais se destacam as mudanças
ocorridas na estrutura da indústria
brasileira entre os dois momentos considerados,
quais sejam, a perda de densidade da cadeia
industrial doméstica, que alguns denominam
de desindustrialização precoce.
Contribuíram para essas mudanças
a interação de diversos fatores,
sejam internos – como o longo período
de apreciação cambial (2003-2007
e 2009-2010), a deficiente infraestrutura
e a complexa e excessiva carga tributária
incidente sobre a produção industrial
–, sejam externos – como o acirramento
da concorrência no mercado internacional
(associado ao efeito-China, à grande
recessão, entre outros fatores) e a
reestruturação das cadeias globais
de valor.
Essas mudanças refletiram-se nas pautas
exportadora e importadora do Brasil, que se
tornaram ainda mais assimétricas. A
participação dos produtos manufaturados
(especialmente de maior conteúdo tecnológico)
nas compras externas aumentou ainda mais e,
no caso das exportações, o movimento
contrário foi observado. Como já
destacado pelo IEDI, a participação
desses produtos no total exportado regrediu
de 53% para 34% entre 2005 e 2014 (Carta IEDI
n. 706) e exportações brasileiras
recuaram do 41º lugar para a 51ª
posição no ranking
mundial da complexidade entre 2004 e 2014
(ver Carta IEDI n. 716).
Essa nova composição da pauta
de comércio exterior alterou as sensibilidades
das exportações e importações
em relação às variações
tanto da taxa de câmbio como da absorção
doméstica e da demanda externa. Além
disso, a estrutura das demais subcontas das
transações correntes, que respondem,
igualmente, às variações
cambiais e do nível de atividades,
também sofreu alterações
entre os dois momentos considerados, que influenciaram
a intensidade do ajuste externo em 2015, como
detalhado a seguir.
As Transações Correntes.
Na nova metodologia do BOP,
as transações correntes são
desagregadas em quatro subcontas: (i) balança
comercial; (ii) serviços; (iii) renda
primária, que corresponde às
“rendas” da metodologia anterior;
(iv) renda secundária, que equivale
às “transferências unilaterais”
da metodologia anterior. Somente essa última,
que é a menos relevante no caso do
Brasil, manteve-se praticamente estável
entre 2014 e 2015. Em contrapartida, as três
principais subcontas reagiram, em diferentes
intensidades, à depreciação
do real e à retração
acentuada da atividade econômica em
2015.

No caso da balança comercial, a passagem
de um déficit de US$ 6,3 bilhões
para um superávit de U$S 17,7 bilhões
decorreu da maior queda das importações
(-25,3%) relativamente às exportações
(-15,4%). Consequentemente, a corrente de
comércio diminuiu significativamente,
em 20,4%. Já em 2002, enquanto as importações
retraíram-se 15%, as exportações
avançaram 3,7% e essa corrente recuou
5,4%.
Assim, o ajuste em 2015 foi mais perverso,
pois se ancorou na redução tanto
das compras como das vendas externas, o que
decorreu da combinação dos fatores
conjunturais (externos e internos) e estruturais
mencionados na seção anterior,
dentre os quais se destacam: no caso das importações,
a maior intensidade da recessão em
2015 num contexto de maior conteúdo
importado da produção industrial;
no caso das exportações, a menor
participação dos produtos manufaturados
teve dois efeitos simultâneos, quais
sejam, ampliou o impacto da queda dos preços
das commodities sobre o valor das vendas externas
e reduziu a elasticidade das quantidades exportadas
à depreciação cambial
e às demandas externa e interna (que
também afeta essas quantidades no caso
de economias de dimensão continental
como a brasileira). Esses efeitos somados
ao baixo crescimento mundial e às mudanças
na dinâmica do comércio internacional
no contexto pós-crise explicam o comportamento
atípico das exportações
em 2015.

No âmbito da subconta de serviços,
a redução do déficit
foi expressiva, de 23,7%. O resultado
negativo dessa conta praticamente dobrou de
patamar na passagem de 2004 para 2005 (quando
superou US$ 8 bilhões) e aumentou continuamente
a partir de então, superando US$ 40
bilhões em 2012. Os dois itens que
foram os principais responsáveis por
essa trajetória – viagens internacionais
e aluguel de equipamentos – tiveram
contribuições opostas para o
ajuste ocorrido em 2015. O item “viagens”
aumentou a elasticidade desta subconta a depreciações
da moeda doméstica, pois esse tipo
de gasto é muito sensível e
reage rapidamente às variações
cambiais. Em contrapartida, a maior relevância
do item “aluguel de equipamentos”
(que inclui aluguel de equipamentos pela Petrobras)
atuou no sentido contrário. Esse item
recuou somente 4,8% na base de comparação
utilizada.
Finalmente, o déficit da subconta “Renda
primária de investimentos” diminuiu
18,7%, de US$ 52,5 bilhões para US$
42,7 bilhões. Embora essa conta seja
estruturalmente negativa devido ao elevado
passivo externo líquido da economia
brasileira, sua composição também
se alterou devido às mudanças
na estrutura desse passivo a partir de 2005,
que reduziram o chamado descasamento de moedas,
quais sejam, o aumento da participação
dos estoques de investimento direto e de investimento
em carteira no país e a redução
da dívida externa (ver Carta IEDI n.
700). Com isso, as rendas denominadas em reais
(lucros e dividendos do investimento direto
e em ações e juros de títulos
negociados no mercado doméstico) passaram
a superar as rendas denominadas em dólares
(juros de títulos negociados no mercado
externo e outros investimentos), o que tornou
essa subconta mais elástica às
variações do PIB e da taxa de
câmbio. Enquanto as remessas de lucros
e dividendos foram negativamente afetadas
pela recessão, bem como pela alta da
taxa de câmbio (que reduz o seu valor
em dólares), as remessas dos juros
dos títulos negociados no mercado doméstico
foram desestimuladas por essa alta, ou seja,
pela depreciação cambial.
A Conta Financeira. O
superávit da conta financeira recuou
US$ 101 bilhões em 2014 para US$ 56,7
bilhões em 2015, menor cifra registrada
desde 2008 (US$ 28,3 bilhões, na série
antiga). Todavia, a queda de 44% não
foi tão forte como a observada no ano
da crise financeira global (68% na mesma base
de comparação), quando seu efeito-contágio
atingiu de forma indiscriminada as economias
emergentes, independentemente da situação
dos fundamentos macroeconômicos.
Já em 2015, além das piora das
condições de liquidez internacional
para essas economias (mas, em menor intensidade
do que em 2008) – associada às
expectativas de alta da taxa de juros básica
dos Estados Unidos e à turbulência
financeira na China (ver Carta IEDI n. 700)
– a crise econômica e política
doméstica e seus reflexos adversos
sobre a classificação de risco
de crédito do país e o apetite
por risco dos investidores globais também
contribuíram para a redução
do fluxo líquido de capitais externos
entre o país e o exterior. A forte
queda desse fluxo decorreu da deterioração
das três subcontas da conta financeira.
O ingresso líquido de investimento
direto recuou 13%, do investimento em carteira
46,7% e os outros investimentos passaram de
um superávit de US$ 4,2 bilhões
para um déficit de US$ 20,5 bilhões.

O principal determinante da deterioração
do resultado da conta financeira foi a redução
de 37% do ingresso líquido de capitais
no país, de US$ 188,3 bilhões
para US$ 119,2 bilhões (praticamente
o mesmo resultado de 2013 na série
antiga). Nesse caso, os três itens
também recuaram, mas a maior retração
(55,5%) foi registrada pelo investimento em
carteira no país, seguido pelos outros
investimentos (49%) e pelo investimento direto
no país (IDP). Todavia, a despeito
da queda de 22% do IDP, estes somaram US$
75,1 bilhões (4,2% do PIB) e cobriram
a totalidade do déficit em conta corrente
em 2015. Além disso, sua composição
também melhorou: houve um aumento da
participação no capital para
75% do total (ante 60% em 2014).

Contribuiu decisivamente para esse resultado
do IDP o desempenho registrado em dezembro,
que somou US$ 15,2 bilhões, acima das
projeções do mercado e do BCB
(US$ 6,1 bilhões). A participação
no capital respondeu por 86% do total, um
percentual bastante elevado. Parte importante
desse resultado decorreu do ingresso de recursos
no setor de eletricidade, gás e outras
utilidades (US$ 2 bilhões), associado
ao leilão das hidrelétricas.


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