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O Papel do Preço do Investimento
Fixo. Se, em 2012 a economia
do País pouco cresceu (taxa de 1,0%)
e redução de 4,0% na formação
bruta de capital fixo (FBCF), o ano de 2013
apresentou melhor desempenho, com incremento
de 2,5% do PIB e recuperação
da FBCF, com expansão de 5,2%. A crise
internacional iniciada em setembro de 2008
interrompeu um período de expansão
econômica, caracterizado pelo incremento
dos termos de troca e investimento em alta,
apesar das dificuldades enfrentadas pela indústria
de transformação doméstica.
A retomada em 2010-2011 também ocorreu
com taxas de inversão elevadas (medidas
a preços constantes). Porém
o biênio seguinte poria em questão
o quão consistente seria de fato tal
retomada, especialmente no que diz respeito
ao investimento fixo.
Quando o dinamismo econômico é
liderado pelo investimento, o crescimento
industrial tende a ser mais favorecido. Em
contrapartida, quando é pelo consumo
das famílias, parte maior da demanda
é em serviços. Acresça-se
que, com a FBCF capitaneando, melhoram-se
as condições para combinar crescimento
com menor pressão sobre os preços
em geral.
De fato, o caráter primacial do preço
do investimento fixo requer analisar duas
questões. Primeiramente, o preço
da inversão por si só importa:
investir num país exige mais ou menos
recursos do que em outro? Numa economia globalizada,
decidir imobilizar recursos na forma de maquinaria
e instalações exige colocar
na ponta do lápis os preços
de se investir em diferentes localidades.
Logo, transnacionais e até empresas
que atuam num determinado país consideram
ou passam a levar em conta distintas opções
para operações.
A outra questão está no preço
relativo da FBCF: o empreendedor tende a se
arriscar mais havendo perspectivas de ter
maior retorno real em períodos futuros.
Assim, se o preço relativo da inversão
fixa declinar significa que o momento se mostra
mais propício para a empreitada, uma
vez que esta irá lhe proporcionar uma
cesta maior de consumo mais adiante.
Comparando o Nível do Preço
do Investimento. O primeiro
ponto – o preço do investimento
per se – pode ser tratado pelas Penn
World Tables em sua versão 8.0 (PWT8).
Estas tabulações trazem o preço
do investimento – FBCF mais variação
de estoques – para extensa gama de países
desde 1950, indo até 2011. Tal índice
toma como parâmetro o preço do
PIB dos EUA (equivalente a 1 para o ano de
2005).
Antes de prosseguir, vale um alertar que,
como qualquer bem ou serviço, um elevado
preço da inversão pode ser consequência
da alta qualidade das máquinas, equipamentos,
instalações etc. Ademais, uma
redução no preço do investimento
pode ser seguida ou acompanhada de incremento
no investimento, com a referida queda criando
condições propícios para
a retomada da inversão. Porém
o incremento da formação bruta
pode ser acompanhado de aumento de seu preço.
Nesta situação, o preço
do investimento é efeito, não
causa. O ponto crucial consiste no fato de
tal aumento poder se tornar óbice,
em especial se não forem criados diferenciais
(qualidade, ambiente para investir etc.) que
valham o custo maior.
Mesmo sem contrapor a outros países,
é possível ver o quão
cresceu tal medida do preço da inversão
no Brasil. Em 1985, o nível do preço
da formação bruta de capital
estava em 0,28 (ante 1 para o preço
do PIB dos EUA em 2005) e terminou registrando
1,35 em 2011.
Aliás, o preço em 1985 era um
dos menores tomando-se amplo espectro de países,
ficando só um pouco à frente
da China e África do Sul. Todavia este
preço abaixo se devia em parte à
acumulação de capital do final
dos anos 1970 e dos problemas decorrentes
da crise da dívida externa. Algo análogo
ao preço barato de uma mercadoria quando
esta é de baixa qualidade. Depois de
recuar em 1986, o preço em tela aumentou
até 1990, com a alta inflação
do Brasil. Com isto neste último ano,
o preço da inversão do País
se encontrava acima daquele dos integrantes
dos ASEAN-4 – Malásia, Filipinas,
Tailândia e Indonésia –,
assim como dos demais membros dos BRICS. Também
superou os de outros países sul-americanos,
da Europa Oriental e mesmo de Canadá
e dos Estados Unidos.



Posteriormente, com a recessão enfrentada
pelo País em 1991-1992, o preço
do investimento retrocedeu. O mesmo cresceu
até 1994 na esteira do processo de
estabilização dos preços
no País. Daí declinou até
1999. Este período de queda do preço
da formação bruta coincide em
larga medida com o chamado miniciclo do investimento,
de 1995 a 1998. Assim, mesmo a redução
do preço da inversão não
tendo sido elevada, ocorreu pari passu
a um aumento da FBCF: o comportamento do preço
concorreu para ampliar os investimentos.
Em 1999, o Brasil passou para um regime de
câmbio flutuante, ocorrendo uma depreciação
cambial. Embora em 2000, tenha havido apreciação
cambial e aumento no preço do investimento
frente ao ano anterior, o patamar do preço
do investimento, ficou abaixo daquele observado
em 1990. Com tal patamar em 2000, o Brasil
apresentou um indicador maior do que o da
China, Índia e Rússia e África
do Sul, mas inferior ao de todos os integrantes
do G7, bem como dos países da Europa
Ocidental e Setentrional constantes do gráfico.

Até 2002, o preço da inversão
declinou, ficando em 0,36, o menor nível
desde 1987. Daí em diante o preço
do investimento passou a crescer, mesmo com
a apreciação cambial, que costuma
baratear os bens de capital transacionáveis
– máquinas e equipamentos. É
provável que, de 2004 a 2008, a expansão
da inversão, devido ao acréscimo
da renda e melhorias na distribuição
de renda, concorreu para o aumento no preço
da formação bruta pelo próprio
incremento na procura por maquinarias, instalações,
construções e habitações.
Assim, em 2008, ano da eclosão da crise
internacional, preço do investimento
do Brasil atingiu 0,98, considerando como
parâmetro o preço do PIB dos
EUA em 2005 (igual a 1).
Em 2009, o recuo da FBCF do Brasil foi acompanhado
de ligeiro acréscimo no preço
do investimento. O incremento do preço
da formação bruta ocorreu até
2011, último ano com disponibilidade
de dados pelas PWT8. Desta forma, à
frente do Brasil, estão Noruega, Austrália,
Honduras, Suécia, Costa Rica e Japão.
Assim os países dos BRICS, da ASEAN-4
e mesmo o G7 (exceto o Japão) e boa
parte da Europa se tornaram mais barato para
investir do que o Brasil.
Numa economia global, a decisão de
imobilizar recursos na forma de maquinaria
e instalações envolve confrontar
os preços de se investir em diferentes
localidades. Logo, transnacionais consideram
distintas opções para a (re)localização
de suas plantas. E há evidências
sobre haver uma relação negativa
entre nível de preço do investimento
e agregação de valor na indústria
de transformação.
Assim os dados até 2011 das PWT8 realçam
a alta do preço do investimento frente
ao de outros países acenando para dificuldades
em se recolocar a economia brasileira no rumo
trilhado de 2004 a 2008. Aliás, não
apenas recolocar, mas também adequar
as políticas econômicas às
especificidades da redistribuição
de renda e melhoria social da população.
Até porque o contexto internacional
está longe de ser o mesmo.


Comportamento do Investimento
Fixo e seu Preço Relativo.
Recolocar o investimento para capitanear a
economia tem sido um desafio, até por
falhas de coordenação, comunicação
das autoridades governamentais. Um enfoque
mais detido requer observar mais variáveis.
Afora o próprio deflator da formação
bruta de capital fixo (FBCF), devem ser observados
o deflator da FBCF em máquinas e equipamentos
(M&E), bem como os preços relativos
da FBCF e da FBCF em M&E.
Como visto, em 2010 e 2011 o preço
do investimento no Brasil já rivalizava
com o de países “caros”
(boa parte, economias avançadas), atuando
no sentido contrário à atração
empreendimentos estrangeiros. Em 2010, o deflator
da FBCF cresceu 3,3%, enquanto o investimento
em M&E, apenas 0,6%. No ano seguinte,
ambos os deflatores cresceram 4,0% e 2,6%,
respectivamente. Em 2012, os deflatores da
FBCF e da FBCF-M&E cresceram mais ainda
e no mesmo patamar, 4,2%. Ou seja, de 2010
a 2012, houve incremento no preço da
FBCF, mais do que da FBCF em máquinas
e equipamentos. Isso está em linha
com os programas habitacionais, construções
de arenas para a Copa do Mundo e obras de
infraestrutura de vulto como as hidrelétricas
na Amazônia, que concorrem para o aumento
dos preços da FBCF em construções.
Em 2013, o deflator de inversão em
M&E cresceu mais do que o da FBCF como
um todo, ano em que a indústria de
transformação se recuperou,
crescimento de 2,7% (em 2013, houve retração
de 2,4%). De qualquer modo, como um todo,
os dados apontam para ampliação
do preço do investimento nos moldes
como é elaborado no âmbito das
PWT8.

Passando para os preços relativos da
FBCF, analisa-los é útil, pois
o empreendedor tende a se arriscar mais, caso
haja maiores perspectivas de retorno real
em exercícios futuros. Ilustrando,
se o preço relativo da inversão
fixa declinar significa que investir ficou
relativamente menos oneroso que os outros
bens e serviços: o momento se mostra
mais propício para a empreitada que
lhe proporcionará uma cesta maior de
consumo mais adiante. Os preços relativos
estão expostos tanto em termos do PIB
quanto em termos do consumo final. A razão
entre deflatores da FBCF e do consumo final
permite expurgar possíveis efeitos
do preço das exportações
de bens e serviços, presentes no caso
do deflator do PIB.
Tendo em conta a possibilidade de certa superestimação
no comportamento dos preços relativos
da FBCF em fins dos anos 1980, estes não
mais voltaram a níveis tão baixos
quanto os logrados em grande parte a década
de 1970. Entretanto, no passado recente, vem
se observando alinhamento entre expansão
econômica com ampliação
da taxa de FBCF e diminuição
no preço relativo da inversão
fixa.
Atendo-se ao preço relativo da FBCF,
com 1985 como ano-base (preço relativo
nele igual a 1), o mesmo aumentou quase sem
interrupções de 1999 a 2004,
saindo de 0,96 para 1,10, pico do século
XXI. O preço relativo da inversão
fixa em termos do Consumo Final (CF) se comportou
de modo similar, alcançando 1,07 em
2004, também a maior magnitude do século
atual. Logo, de 1999 a 2004, investir em instalações
e M&E foi se tornando relativamente mais
caro do que consumir.
A partir de 2005, o preço relativo
da FBCF passou a declinar, chegando a 1,05
em 2007. Quanto à razão entre
deflatores da FBCF e do consumo final, recuou
para 1,01. Em 2008 – ano de expansão,
mas também do início da crise
internacional – e em 2009, o preço
relativo do investimento fixo em termos tanto
do PIB quanto do CF cresceu para 1,08 e 1,05,
respectivamente. Quanto ao preço relativo
da FBCF em maquinaria, no período seguinte
ao miniciclo de inversão, teve aumento
até 2005 (em termos de PIB) e até
2004 (em termos de CF). Depois, a razão
entre deflatores da FBCF em M&E se retraiu
até 2007, em relação,
seja ao produto agregado, seja ao consumo
final. Mas, distinguindo-se do preço
relativo da FBCF, o preço relativo
da FBCF em M&E voltou a cair já
em 2009.
Quer o preço relativo do investimento
fixo quer o preço relativo da FBCF
em M&E declinaram até 2013. Os
preços relativos da FBCF em termos
do PIB e em termos do CF desceram, pela ordem,
até 0,97 e 0,94. Tais patamares em
2013 foram os mais baixos desde 1999. A razão
entre deflator da FBCF em máquinas
e equipamentos e deflator do PIB e a razão
entre aquele e o deflator do consumo final
declinaram até 1,12 e 1,08, os menores
desde 1987. Isto é, após o investimento
fixo – total e em M&E – ter
recuado em 2012, os preços relativos
continuaram a declinar, processo que vem ocorrendo
desde 2010, contribuindo para a recuperação
da FBCF em 2013.
No entanto os números acima devem ser
matizados com aqueles das PWT8, anteriormente
expostos. Se o incremento do investimento
até 2008 ocorreu com aumento do preço
da inversão, de 2004 a 2007, o preço
relativo da FBCF, em termos seja do PIB, seja
do consumo final, declinou. Logo, para o empreendedor
doméstico, foi sinalizado um preço
de bens de capital em termos de bens de consumo
menor, favorecendo neste sentido o investimento.
Com o mercado doméstico aquecido, as
oportunidades de negócio cresceram.
Após 2008, tais preços relativos
voltaram a declinar, concomitantemente a um
preço do investimento cada vez mais
alto frente a outros países até
2011, conforme as PWT8. Resumindo, o Brasil
se tornou mais caro para investir do que outras
economias a exemplo de vários países
do G7, asiáticos e demais integrantes
dos BRICS, embora investir esteja ficando
mais barato do que consumir para quem reside
no País (de acordo com as contas nacionais
para dados até 2013).


Comparação Internacional:
O Preço Relativo da FBCF em Termos
do PIB. Tratando de forma comparada,
pode ser contrastada a razão entre
deflatores da FBCF e do PIB do Brasil com
a de outros países a partir de base
de dados da ONU. O ano-base adotado foi 1985.
Logo para este ano todos os países
registram o mesmo patamar, de 1,00. Uma limitação
é que os dados mais atuais são
para 2012.
Vale lembrar que, de 2010 a 2013, o preço
relativo da inversão fixa do Brasil
declinou. Em 2012, o nível desta razão
de deflatores ficou em 0,99, continuando a
diminuir no ano seguinte, quando chegou a
0,97. Ou seja, um patamar abaixo do de 1985,
sendo que a última vez que ficou
em situação menor que em 2013
foi em 1999. Dentre as economias do G-7, o
preço relativo da FBCF ficou praticamente
estável de 2010 a 2012, mas todos ficando
em patamar inferior ao brasileiro.
Passando para os Tigres Asiáticos e
os ASEAN-4, apenas Cingapura (tigre), Filipinas
e Indonésia (dos ASEAN-4) experimentaram
recuo de seus respectivos preços relativos
de 2010 a 2012. Cingapura, Filipinas e Malásia
registraram, em 2012, preço relativo
da FBCF abaixo do brasileiro. Por sua vez,
os tigres Coréia do Sul, Hong Kong
e os demais dos ASEAN-4, Indonésia
e Tailândia observaram, em 2012, preço
relativo acima do brasileiro.
Dentre os BRICS selecionados, África
do Sul foi o único país cuja
razão entre deflatores da inversão
fixa e do PIB recuou tanto em 2010 quanto
em 2011. África do Sul e Índia
terminaram a série com preço
relativo do investimento fixo abaixo do brasileiro.
Quanto à China, chegou em 2011 com
esse indicador acima daquele do Brasil, lembrando
que tais resultados consideram 1985 na condição
de ano-base.
Já Argentina, Chile, Colômbia
e México chegaram em 2011 com um preço
relativo da FBCF abaixo do brasileiro, embora
só Colômbia tenha logrado diminuição
do indicador em todos os anos, de 2010 a 2012.




O Preço Relativo do Investimento
Fixo em Termos do Consumo Final.
Este segundo grupo de comparação
possui caráter complementar, pois o
preço da formação bruta
de capital fixo é contrastado com o
preço do que é gasto pelas famílias
e pelo governo, sem a influência que
preço das exportações
pode exercer no deflator do PIB.
Calculando-se o preço relativo da FBCF
em termos do consumo final – consumo
das famílias e consumo do governo –,
constata-se que o indicador para o Brasil
pouco se distingue da razão entre deflator
da FBCF e deflator do PIB. No entanto, por
expurgar possíveis impactos dos preços
das exportações, permite confrontar
melhor as opções de investir
e consumir considerando os preços dos
dois atos.
Neste sentido, pelas comparações
internacionais, cumpre ressaltar que a República
da Coreia e a China apresentaram, em 2012,
uma razão entre deflatores da FBCF
e do consumo final inferior à brasileira
(1985 como ano-base). Pelo preço relativo
do investimento fixo em termos do produto
agregado, ambos os países terminaram
a série com indicadores maiores que
o do Brasil. Tal diferença provavelmente
explicita o peso das vendas externas nessas
economias asiáticas.




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