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                          IEDI na Imprensa - Em queda, indústria brasileira tem desafio de novas tecnologias

                          Publicado em: 02/12/2025

                          Valor Econômico

                          Produtividade por hora trabalhada no setor cai 0,9% ao ano ao longo de 30 anos

                          Lucianne Carneiro

                          No momento em que a indústria mundial caminha para a quinta revolução, ou já atingiu esse estágio na visão de alguns, a produtividade por hora trabalhada da indústria de transformação brasileira mostra a vulnerabilidade do setor e acumula queda de 0,9% por ano entre 1995 e 2024, mostra estudo da economista Silvia Matos, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).

                          O levantamento calcula que, em 1995, a produtividade por hora trabalhada da indústria de transformação era 78% superior à da economia como um todo. Quase 30 anos depois, em 2024, a diferença foi reduzida a 9%. Em 1995, o patamar da indústria era de R$ 58,8 (valor adicionado dividido por hora trabalhada), valor que caiu 23% até 2024, para R$ 45,3, a preços reais de 2021. Como comparação, houve aumento de 12% na produtividade da economia como um todo. O valor da agropecuária avançou de R$ 7,5 para R$ 40,6 no período.

                          Pelos dados do IBGE, a indústria de transformação brasileira opera em patamar de produção equivalente ao de março de 2009 e 16,4% abaixo do recorde, em maio de 2011. A situação atual da indústria brasileira impõe desafios adicionais para o setor incorporar as novas tecnologias digitais, além de aumentar o risco de acirramento da concorrência com competidores internacionais, apontam especialistas.

                          No mundo, o debate sobre o futuro das operações industriais está pautado pela capacidade de unir tecnologias digitais e automação, com sistemas autônomos que possam antecipar as necessidades das empresas. A avaliação é do diretor-executivo da empresa de automação industrial Rockwell Automation, Blake Moret, que defende que a jornada da indústria vai da automação em direção à autonomia: “Trata-se de adaptação e aprendizado. Os sistemas podem ter desempenho ainda melhor ao longo da vida e este é um paradigma diferente do que aquele no qual crescemos. Sistemas que aprendem, organizações que aprendem, e tecnologias que nos permitem aprender. Isso será fundamental para distinguir os vencedores dos perdedores nos próximos anos”.

                          Este foi o tema principal da Automation Fair, feira de automação industrial que teve sua 34ª edição realizada pela Rockwell no fim de novembro em Chicago (EUA). Cerca de dez mil participantes de todo o mundo se reuniram em palestras, treinamentos e mesas de negociações para tratar do futuro da indústria mundial.

                          Em companhias brasileiras de maior porte ou de segmentos de destaque, tecnologias como inteligência artificial, internet das coisas, robótica avançada e gêmeos digitais (reprodução digital em tempo real) estão em operação ou no radar. Mas a realidade é diferente para empresas industriais como um todo.

                          “O Brasil tem casos de sucesso, indústrias que estão na fronteira e conseguem inovar, mas na média são muitas empresas pouco produtivas. Se uma indústria tem processos e produtos mais defasados, neste momento de inovação tão rápida vai enfrentar mais dificuldades”, diz Silvia Matos, que é coordenadora do Boletim Macro Ibre. Entre representantes da indústria, a avaliação é de que há avanços em automação e inovação no país, mas também se reconhece que o ritmo é menor que o necessário e as ameaças existem.

                          “A indústria brasileira está na direção correta e tem avanços, mas eles precisam ser compatíveis com o nível mundial. E a velocidade ainda não é a necessária”, diz o diretor-executivo do Instituto para o Estudo e o Desenvolvimento Industrial (IEDI), Rafael Cagnin.

                          Uma das sinalizações desses progressos é a Pesquisa de Inovação (Pintec) 2024, com foco em tecnologias digitais, feita pelo IBGE, pela Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) e pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

                          Pela Pintec, a adoção de inteligência artificial pelas empresas industriais brasileiras mais que dobrou entre 2022 (16,9% do total) e 2024 (41,9%). A participação das empresas com utilização das seis tecnologias digitais investigadas pelo IBGE aumentou de 3,7% em 2022 para 5% em 2024. São consideradas, na pesquisa, as seguintes tecnologias: análise de big data, computação em nuvem (serviço pago), inteligência artificial, internet das coisas, manufatura aditiva (impressora 3D) e robótica.

                          Para o superintendente de projetos de inovação da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Carlos Bork, boa parte das grandes indústrias já se prepara para a nova visão de tecnologia, que permite aumento de produtividade e de eficiência. Na visão dele, essa tendência deve se espalhar pela cadeia de produção aos poucos, mas para isso é preciso suporte e há riscos. “Os industriais estão sob pressão [do mercado] para adquirir novas tecnologias. [...] Mas, se não tiver apoio de políticas públicas que fortaleçam a indústria, vamos ser engolidos”.

                          Vice-presidente sênior e diretor de cadeia de suprimentos da Rockwell, Bob Buttermore diz que a capacidade de um país competir neste novo ambiente depende das ações pragmáticas de empresas e governos, além da atenção ao preparo da mão de obra. “Os países têm seus desafios. Mas todo país tem oportunidade de competir neste novo ambiente. É uma questão do que empresas e governos fazem de forma pragmática para estimular os investimentos. Trata-se de construir a indústria do futuro, construir eficiência desde o início.”

                          Um obstáculo inicial para a inovação - e apontado de forma unânime - é o ambiente macroeconômico dominado por taxa elevada de juros. Esta é uma realidade não apenas do ciclo atual, mas de diferentes períodos da economia brasileira, o que inibe investimentos e recursos para pesquisa e desenvolvimento. “O custo de capital elevado é uma camisa de força”, resume Cagnin.

                          A falta de qualificação, seja dos trabalhadores, seja dos próprios empresários, também é uma influência negativa. A despeito dos avanços na educação brasileira dos últimos anos, a qualidade ainda deixa a desejar. Para as novas tecnologias, é necessária formação adicional, questão que afeta até países mais desenvolvidos, como debatido na Automation Fair. Nesses quesitos, afirmam os estudiosos, o papel do setor público é fundamental, além de treinamentos em linha com a demanda da indústria.

                          Na análise da economista Silvia Matos, a formação de capital humano sustentada pelo setor público é um dos diferenciais de países com indústria avançada, como é o caso da Alemanha, e também de empresas de destaque no Brasil, como a Embraer. “A indústria é intensiva em capital humano e tecnologia para garantir o melhor nível de inovação. E o setor público é importante nesses quesitos, senão só as grandes inovam. Centros tecnológicos permitem a geração de novas ideias.”

                          Se o apoio público para qualificação e treinamento é mais aceito, o apoio via incentivos fiscais e financiamento com custo menor divide opiniões. Está em curso desde o início de 2024 o programa Nova Indústria Brasil (NIB), voltada para estimular produtividade e competitividade do setor produtivo. A atual onda de medidas protecionistas no mundo é um dos argumentos a favor da estratégia, mas há quem discorde por viabilizar a sobrevivência de empresas não produtivas.

                          Diretor de Desenvolvimento Produtivo, Inovação e Comércio Exterior do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), José Luis Gordon afirma que o setor produtivo “não tem escolha a não ser acompanhar essa agenda de digitalização”. Ele condena o que chama de “criminalização da política industrial” e destaca a dificuldade de se manter uma política industrial de longo prazo no Brasil. “Para mudar a indústria, é preciso uma política de médio e longo prazos, como fizeram China, Coreia do Sul, União Europeia e Estados Unidos. É preciso colocar a indústria no centro da agenda do desenvolvimento econômico. Não existe uma política [industrial] perfeita, vai aos poucos melhorando, implementando, ajustando.”

                          Nessa frente, cita iniciativas como o programa Mais Inovação - com R$ 57 bilhões -, a linha de crédito Indústria 4.0 - de R$ 12 bilhões - e o edital para centros de pesquisa e desenvolvimento (P&D). As iniciativas são parcerias do BNDES com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).

                          A jornalista viajou a convite da Rockwell

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