IEDI na Imprensa - Falta de qualificação agrava queda de produtividade
Valor Econômico
Valor gerado por hora trabalhada na indústria de transformação caiu 7% desde 2021
Vinicius Konchinski
A queda recorde no desemprego no Brasil e a mudança nas ambições dos trabalhadores após a pandemia acrescentaram um elemento ao histórico problema de produtividade da indústria brasileira: a falta de mão de obra qualificada interessada em atuar no setor.
Nos últimos 30 anos, a indústria nacional perdeu 22% de sua capacidade de gerar valor para cada hora trabalhada, segundo estudo da economista Silvia Matos, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre). Essa queda está relacionada, principalmente, à incapacidade do setor de agregar tecnologia a seus processos para se manter competitivo ante concorrentes internacionais, mas também à dificuldade de manter um quadro de empregados qualificado para essa tarefa.
Márcio Guerra, superintendente de Economia da Confederação Nacional da Indústria (CNI), acrescentou que, a partir de 2021, essa dificuldade se acentuou. Até 2020, só 5% dos industriais citavam a falta ou o custo da mão de obra como um dos principais problemas da indústria em pesquisas de sondagem realizadas mensalmente pela confederação. Desde então, esse percentual subiu de forma constante, atingindo 23,1% no segundo trimestre do ano passado e se tornando a quarta maior queixa de empresários do setor. Nesse mesmo período, a produtividade caiu 7%.
De acordo com outra pesquisa da FGV Ibre, realizada em outubro, 52,3% das indústrias dizem ter problemas para contratar ou reter funcionários. Por conta disso, enfrentam dificuldades para entregar produtos, cumprir prazos e até aceitar novas encomendas. “Há quem busque tecnologia para contornar a falta de trabalhador, mas há também quem simplesmente desista de incrementar sua produção”, disse Guerra.
O economista da CNI reconheceu que parte do desajuste da indústria com sua mão de obra decorre do bom momento da economia nacional. Ao final de 2025, o desemprego caiu a 5,1%, o menor nível da história, o que significa que há menos trabalhadores disponíveis para o setor. Ele acrescentou que um fator comportamental tem sido determinante nos problemas de contratação. “60% dos brasileiros querem trabalhar por conta própria. Entre os jovens, isso chega a 70%”, disse, citando dados do Datafolha. “Houve uma mudança no desejo do trabalhador.”
Marilane Teixeira, pesquisadora do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Universidade Estadual de Campinas (Cesit-Unicamp), apontou que essa mudança se consolidou após a pandemia. Ela afeta a economia como um todo, mas a indústria de forma mais intensa, dada sua forma de trabalho. “Nenhum jovem quer trabalhar confinado no barracão oito horas por dia”, disse. “Prefere trabalhar num escritório ou até mesmo fazer seu horário como entregador.”
A pesquisadora ressalta que, apesar do novo comportamento, a remuneração ainda é fator decisivo nas escolhas profissionais no Brasil. Ela aponta que um emprego na indústria perdeu atratividade porque já não paga tão bem quanto antes. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2015, o rendimento médio de um trabalhador da indústria era 5% superior à média geral. Em 2021, os valores se igualaram. Hoje, o trabalhador industrial ganha 2% menos do que a média.
Tal situação criou um dilema para o setor: ele não consegue ser competitivo por não ter um quadro de funcionários qualificado; ao mesmo tempo, não obtém ou retém esse quadro justamente porque perdeu competitividade, e não consegue pagar bem seus trabalhadores. “Claro que gostaríamos de pagar mais, mas isso vira um custo agregado ao preço do produto”, rebateu Guerra. “Se o preço sobe, perdemos ainda mais mercado.”
Bruno Imaizumi, economista da 4intelligence, afirma que parte da solução desse impasse cabe à própria indústria. Ele lembrou que, mesmo demandando trabalhadores qualificados, o setor apresenta alta rotatividade, o que prejudica o aprendizado. Ressaltou também que a indústria é historicamente fechada à participação feminina - 80% de seus empregados são homens. “A indústria vai ter que abrir sua cabeça para enfrentar a falta de mão de obra. Está difícil, mas ainda dá para contratar”, disse, lembrando que mais de 14% dos trabalhadores brasileiros se sentem subutilizados, ou seja, trabalham menos horas do que gostariam ou precisam.
Imaizumi também recomendou uma mudança de postura do empresariado. “Acho que falta ao empresário a visão de ‘mentor’, que existia antigamente. Hoje, ele quer contratar um empregado que chegue completamente pronto para o trabalho.”
Rafael Cagnin, diretor-executivo do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), ressaltou que, sozinha, a indústria não conseguirá superar suas deficiências. Para ele, o setor tem importância crucial para o desenvolvimento do país, mas sofre com os juros elevados, que inviabilizam investimentos e a expansão da produção. “Não é mão de obra a grande propulsora da produtividade. É a inovação, a tecnologia, é a máquina nova. É isso que vai tornar a indústria competitiva.”
Segundo Cagnin, a idade média das máquinas e equipamentos usados na indústria nacional é de 14 anos, e 60% deles já ultrapassaram a vida útil indicada pelo fabricante.
A socióloga Adriana Marcolino, diretora-técnica do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), ressaltou que a indústria tem sido beneficiária de incentivos fiscais voltados à inovação. Citou, inclusive, a Lei do Bem, de 2005. Mas disse que o investimento do setor em pesquisa e desenvolvimento ainda é baixo.
Matos, da FGV Ibre, avalia que determinadas políticas públicas criaram uma certa “acomodação” da indústria, tornando-a “dependente” do Estado. Guerra, da CNI, por sua vez, falou em “acomodação” de trabalhadores. Afirmou que o aumento do Bolsa Família de R$ 400 para R$ 600, em 2022, ampliou as dificuldades de contratação formal. “O trabalhador informal faz suas contas ao receber uma oferta de emprego. Prefere ganhar menos e manter o benefício a ter um emprego com carteira assinada”, disse.
Um estudo de Daniel Duque, também do FGV Ibre, apontou que a expansão do Bolsa Família desestimulou a participação de homens jovens na força de trabalho, especialmente no Norte e Nordeste. O próprio Duque, porém, diz não acreditar que esse efeito tenha gerado problemas para a indústria. “Isso pode ocorrer em alguns locais do país e em empregos de salário realmente baixo”, ponderou.
Paula Montagner, subsecretária de Estatísticas e Estudos do Trabalho do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), disse que a indústria deveria se esforçar para mostrar ao trabalhador que pode ser um bom ambiente profissional. “Todo mundo quer estar em um lugar moderno, em que se sinta valorizado. Ninguém se interessa por trabalhar em um ambiente sujo e barulhento”, afirmou, descrevendo a realidade de parte das pequenas e médias empresas do setor.
Uma pesquisa realizada pelo Sindicato das Indústrias Metalmecânicas e Elétricas de Maringá, por exemplo, constatou que o trabalho na indústria ainda é visto como atividade pesada, braçal e suja de graxa por trabalhadores. Fora isso, oferece trabalhos fora do perímetro central, nas bordas da cidade, o que é considerado uma desvantagem.
Montagner disse que o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), vinculado à CNI, e o governo têm investido na capacitação de trabalhadores. Neste ano, o Ministério da Educação (MEC) lançou uma campanha de divulgação dos cursos da rede federal de ensino com o slogan “Vem ser profissa”, destacando a importância da formação técnica para o desenvolvimento profissional.
Para a subsecretária, entretanto, a própria indústria precisa liderar o processo de qualificação. Segundo ela, o investimento em novas máquinas e equipamentos criará a demanda por cursos de formação, que surgirão conforme a necessidade. “Uma coisa só caminha junto com a outra”, afirmou.
