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                          IEDI na Imprensa - Uma luz na escuridão moral

                          Publicado em: 19/05/2026

                          O Estado de São Paulo

                          Enfraquecido eleitoralmente por seus próprios atos, Flávio Bolsonaro torna-se risco menor para a estabilidade institucional

                          Jorge J. Okubaro

                          A revelação de que políticos com possibilidade de êxito na disputa dos mais altos postos eletivos da República tiveram ou têm vínculos com gângsteres que atuavam com desenvoltura nos melhores ambientes sociais e econômicos talvez cause a impressão de que, em algum momento, este País perdeu o prumo. A essa sensação de degradação moral podem somar-se outras, como a de que tal perda seja apenas a culminância de um lento, longo, mas inexorável processo de estagnação econômica e social.

                          Dirigentes políticos eram generosamente financiados pela rede de corrupção que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro estendeu sob os olhos temporariamente complacentes do órgão incumbido de regular suas atividades. A decomposição ética de parte do sistema político desvelada pelas investigações da Polícia Federal (PF) a respeito de crimes cometidos pelo Banco Master, de Vorcaro, é mais uma entre muitas informações e situações que preocupam o cidadão já às voltas com as agruras cotidianas.

                          No plano global, terminada a visita histórica a Pequim, da qual saiu menor do que entrou, o presidente norte-americano Donald Trump continua a ameaçar o mundo com irresponsáveis bravatas belicosas e anúncios que afetam a estabilidade da economia mundial, ainda fortemente dependente do petróleo cujo fluxo internacional continua sob risco. Daí a inflação (estimulada pela alta do petróleo e, consequentemente, dos alimentos) mais ameaçadora num mundo que cresce menos. Em abril, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), medida oficial da inflação brasileira calculada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), subiu 0,67%, a maior variação para o mês desde 2022.

                          Analistas econômicos advertem para os riscos em todo o planeta. “Por quanto tempo podemos conseguir combinar uma economia resiliente com uma política caótica?”, perguntou-se Martin Wolf, o principal colunista do jornal britânico Financial Times.

                          O cenário é ruim para um país como o Brasil, que entre 2011 e 2021 viu seu Produto Interno Bruto (PIB) per capita reduzir-se de 31,18% para 26,44% da média dos 19 países mais ricos, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). É como se, na comparação com o resto do mundo, em vez de permanecer na posição ruim em que já estava, tivesse andado para trás.

                          Nem tudo, porém, é infortúnio. Recente estudo da McKinsey Global Institute sobre o redesenho do comércio mundial provocado pelas mudanças tarifárias impostas unilateralmente pelo governo Trump aponta que as mudanças podem favorecer a posição brasileira no cenário internacional. “Com perfil geopoliticamente mais neutro, o Brasil desponta como parceiro confiável e competitivo neste momento em que novas alianças e relações comerciais estão sendo firmadas”, diz o estudo. “Parece seguro afirmar, contudo, que o distanciamento da relação comercial entre China e Estados Unidos pode aproximar as duas potências do Brasil. Mais do que isso. Além das oportunidades de curtíssimo prazo decorrentes do redirecionamento imediato da demanda, há uma abertura para aproveitar o redesenho do mapa do comércio global e se inserir de uma nova forma nas cadeias de produção.”

                          E, do ponto de vista da economia em geral, até o Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê que, apesar da guerra no Irã ou por causa dela, o crescimento da economia brasileira pode ser até maior do que o que estava sendo previsto antes do início do conflito. Para o resto do mundo, a previsão foi reduzida.

                          Na indústria de transformação, o Brasil vem perdendo posições na comparação com outros países e, no quesito do ritmo de expansão da produção industrial, hoje ocupa a metade inferior numa lista de 83 países, segundo o Instituto de Estudos de Desenvolvimento Industrial (IEDI). Mas o que antigos polos industriais do País veem como desindustrialização é compensado (ainda que parcialmente) pela interiorização da produção manufatureira, tendo a região Centro-Oeste se transformado na grande receptora de novas fábricas.

                          No mercado de trabalho, que continua muito ativo (o aumento do desemprego no primeiro trimestre é sazonal), um dado estimulante é a redução do número de trabalhadores que estão há mais de dois anos sem conseguir ocupação. No fim de março, eram 1,079 milhão de trabalhadores nessa situação, 21,7% menos do que no primeiro trimestre de 2025.

                          Mas, para o futuro do País, seguramente o mais reconfortante evento das últimas semanas é a constatação de que, há pouco considerado fortíssimo candidato à Presidência da República, e em ascensão, o senador Flávio Bolsonaro viu boa parte de suas possibilidades de vitória escorrer pelos dedos depois da publicação de seu diálogo assombroso com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ao longo do qual implora por uma ajuda financeira daquele a quem trata com afeto por “irmão”. Enfraquecido eleitoralmente por seus próprios atos, Flávio Bolsonaro torna-se risco menor para a estabilidade institucional. É como se, da escuridão moral em que certos políticos sobrevivem, surgisse alguma luz.

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