IEDI na Imprensa - PIB cresce 1,1% no 1º tri com medidas, mas investimento cai
O Globo
Consumo das famílias foi o maior desde 2024. Isenção de IR, reajuste do mínimo e obras públicas puxam atividade, mas analistas preveem ritmo menor à frente
Vinicius Neder, Mayra Castro e Bernardo Lima
Isenção de IR, salário mínimo e novo consignado puxaram consumo das famílias. Analistas e governo esperam desaceleração até fim do ano.
O Produto Interno Bruto (PIB), conjunto de todos os bens e serviços produzidos no país, cresceu 1,1% no primeiro trimestre ante os três últimos meses de 2025, informou ontem o IBGE. O motor do crescimento econômico foi o consumo das famílias, que avançou 1%, turbinado por medidas do governo, mas o investimento seguiu estagnado. Para economistas, é um sinal de que a expansão nesse patamar não se sustentará, com ritmo menor até o fim do ano e em 2027.
No segundo semestre do ano passado, já tinha havido uma desaceleração, com o consumo das famílias e o PIB praticamente estagnados. O resultado da economia no início deste ano já era esperado — o dado do IBGE veio igual ao que apontavam as projeções do mercado —, por causa de medidas como o início da vigência da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil por mês, o reajuste do salário mínimo e o novo modelo de crédito consignado para trabalhadores do setor privado.
‘CRESCIMENTO TEMPORÁRIO’
A alta de 1% no consumo das famílias é a maior variação desde o terceiro trimestre de 2024. Segundo o coordenador de Contas Nacionais do IBGE, Ricardo Montes de Moraes, a renda disponível para as famílias e as concessões de crédito, que impulsionam as compras a prazo, cresceram.
— Houve crescimento da massa salarial e um aumento na oferta de crédito, mesmo com juros altos. A expansão da renda costuma virar consumo —disse Moraes
No acumulado em 12 meses, o crescimento de 2% do PIB se deu com altas de 1,2% no consumo das famílias e de 2,3% no consumo de governo, com contribuição positiva da demanda externa, mas avanço de apenas 0,4% nos investimentos.
É uma composição “preocupante” da demanda, que resulta num crescimento “circunstancial e temporário”, segundo a economista-chefe para a América Latina do banco francês BNP Paribas, Fernanda Guardado, que foi diretora do Banco Central (BC):
—Esse tipo de crescimento sinaliza menos crescimento potencial à frente. É menos sustentável ficar crescendo baseado em consumo. Se não estamos investindo, não teremos capacidade produtiva para atender esse aumento de demanda lá na frente.
INVESTIMENTO MENOR
A taxa de investimentos ficou em 16,5% do PIB, menor nível para primeiros trimestres desde 2020, quando foi de 16,2%. A formação bruta de capital fixo (FBCF, a conta dos investimentos no PIB) até cresceu 3,5% ante o quarto trimestre de 2025, mas a alta apenas compensou a queda de 3,4% do fim de 2025. Em relação ao primeiro trimestre de 2025, houve queda de 1,4%.
Segundo Juliana Trece,coordenadora do Núcleo de Contas Nacionais do Instituto Brasileiro de Economia (FGV Ibre), não houve aumentos significativos em máquinas e equipamentos para toda a indústria. Os investimentos foram sustentados, sobretudo, pela importação de plataformas de petróleo e pela indústria de construção.
O economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), Rafael Cagnin, acrescentou que a construção atendeu à demanda de medidas dos governos, como mudanças no crédito imobiliário, com liberação de depósitos compulsórios para os bancos que emprestarem mais, melhores condições no Minha Casa, Minha Vida, programa de moradia popular, e mais obras públicas contratadas por estados e municípios.
‘CICLO POLÍTICO EM AÇÃO’
O economista Cláudio Frischtak, presidente da Inter.B Consultoria, lembrou que essas obras aceleram no início de todos os anos de eleições. Isso porque as regras eleitorais proíbem, a partir de meados do ano, inaugurações por parte de candidatos à reeleição ou governantes em busca de eleger o sucessor. Somadas às medidas de estímulo ao consumo do governo federal, elas formam o que o consultor chamou de “ciclo político em ação”:
— O trimestre deu um pequeno arranque, mas a minha leitura é que isso tem a ver com o ciclo político. Tem menos a ver com o governo federal do que com estados e municípios. Os governos locais ganharam projeção e capacidade de investimentos nos últimos anos.
O “ciclo político” deverá seguir fazendo efeito neste segundo trimestre. Entraram em vigor em abril e maio medidas como o Desenrola 2.0 e pagamentos antecipados do 13º salário aos beneficiários do INSS. Mas o fôlego desse impulso poderá ser curto.
—É um crescimento que não se sustenta, se o governo “tirar o pé”. A partir do momento que ele parar de gastar, parar de estimular, a economia também para de crescer — disse a economista Juliana Inhasz, professora do Insper.
Com a perda de dinamismo, a tendência para os próximos trimestres e o ano que vem é de desaceleração da economia.Afreadaseráreforçada pelo efeito restritivo dos juros elevados. E a combinação do choque nos preços de combustíveis e insumos, por causa da guerra no Oriente Médio, com a demanda estimulada poderá limitar o ciclo de baixa na taxa básica de juros (a Selic, em 14,5% ao ano), iniciado em março pelo BC. O excesso de gastos públicos impede cortes maiores, disse Rafaela Vitória, economista-chefe do Inter:
— Em ano de eleição, acabamos desorganizando mais ainda as contas públicas. Precisaríamos de regras mais críveis para controlar o gasto público, evitando estimular a demanda e mantendo a inflação mais controlada. Esse é o caminho para que o BC possa cortar os juros de maneira mais significativa.
INDÚSTRIA ESTAGNADA
O fôlego curto também dificulta que a reaceleração da demanda no início do ano sirva de ignição para a produção nacional. Pela ótica da oferta, a agropecuária cresceu 2% ante o quarto trimestre de 2025, impulsionada pela supersafra de soja, os serviços avançaram 0,5% e a indústria cresceu 1%, com destaque para a construção civil, a mineração e a indústria petrolífera. A indústria de transformação, que engloba a fabricação dos bens acabados geralmente consumidos na economia, manteve-se praticamente estável, com alta de 0,1%, um sinal de fôlego curto no crescimento, disse Cagnin, do IEDI.
O Ministério da Fazenda reconheceu, em nota, que haverá uma desaceleração na economia, mas demonstrou confiança na flexibilização da política de juros. “No quarto trimestre é esperada uma retomada à medida que a indústria manufatureira ganhe tração em resposta à flexibilização monetária em curso. A SPE segue projetando crescimento de 2,3% para o PIB de 2026, sustentado pela expansão da indústria e dos serviços, a despeito da desaceleração esperada da agropecuária”, diz a nota da Secretaria de Políticas Econômicas (SPE).
