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                          IEDI na Imprensa - PIB cresce 1,1% no 1º tri com medi­das, mas inves­ti­mento cai

                          Publicado em: 30/05/2026

                          O Globo

                          Con­sumo das famí­lias foi o maior desde 2024. Isen­ção de IR, rea­juste do mínimo e obras públi­cas puxam ati­vi­dade, mas ana­lis­tas pre­veem ritmo menor à frente

                          Vinicius Neder, Mayra Castro e Bernardo Lima

                          Isen­ção de IR, salá­rio mínimo e novo con­sig­nado puxa­ram con­sumo das famí­lias. Ana­lis­tas e governo espe­ram desa­ce­le­ra­ção até fim do ano.

                          O Pro­duto Interno Bruto (PIB), con­junto de todos os bens e ser­vi­ços pro­du­zi­dos no país, cres­ceu 1,1% no pri­meiro tri­mes­tre ante os três últi­mos meses de 2025, infor­mou ontem o IBGE. O motor do cres­ci­mento eco­nô­mico foi o con­sumo das famí­lias, que avan­çou 1%, tur­bi­nado por medi­das do governo, mas o inves­ti­mento seguiu estag­nado. Para eco­no­mis­tas, é um sinal de que a expan­são nesse pata­mar não se sus­ten­tará, com ritmo menor até o fim do ano e em 2027.

                          No segundo semes­tre do ano pas­sado, já tinha havido uma desa­ce­le­ra­ção, com o con­sumo das famí­lias e o PIB pra­ti­ca­mente estag­na­dos. O resul­tado da eco­no­mia no iní­cio deste ano já era espe­rado — o dado do IBGE veio igual ao que apon­ta­vam as pro­je­ções do mer­cado —, por causa de medi­das como o iní­cio da vigên­cia da isen­ção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil por mês, o rea­juste do salá­rio mínimo e o novo modelo de cré­dito con­sig­nado para tra­ba­lha­do­res do setor pri­vado.

                          ‘CRESCIMENTO TEMPORÁRIO’

                          A alta de 1% no con­sumo das famí­lias é a maior vari­a­ção desde o ter­ceiro tri­mes­tre de 2024. Segundo o coor­de­na­dor de Con­tas Naci­o­nais do IBGE, Ricardo Mon­tes de Moraes, a renda dis­po­ní­vel para as famí­lias e as con­ces­sões de cré­dito, que impul­si­o­nam as com­pras a prazo, cres­ce­ram.

                          — Houve cres­ci­mento da massa sala­rial e um aumento na oferta de cré­dito, mesmo com juros altos. A expan­são da renda cos­tuma virar con­sumo —disse Moraes

                          No acu­mu­lado em 12 meses, o cres­ci­mento de 2% do PIB se deu com altas de 1,2% no con­sumo das famí­lias e de 2,3% no con­sumo de governo, com con­tri­bui­ção posi­tiva da demanda externa, mas avanço de ape­nas 0,4% nos inves­ti­men­tos.

                          É uma com­po­si­ção “pre­o­cu­pante” da demanda, que resulta num cres­ci­mento “cir­cuns­tan­cial e tem­po­rá­rio”, segundo a eco­no­mista-chefe para a Amé­rica Latina do banco fran­cês BNP Pari­bas, Fer­nanda Guar­dado, que foi dire­tora do Banco Cen­tral (BC):

                          —Esse tipo de cres­ci­mento sina­liza menos cres­ci­mento poten­cial à frente. É menos sus­ten­tá­vel ficar cres­cendo base­ado em con­sumo. Se não esta­mos inves­tindo, não tere­mos capa­ci­dade pro­du­tiva para aten­der esse aumento de demanda lá na frente.

                          INVESTIMENTO MENOR

                          A taxa de inves­ti­men­tos ficou em 16,5% do PIB, menor nível para pri­mei­ros tri­mes­tres desde 2020, quando foi de 16,2%. A for­ma­ção bruta de capi­tal fixo (FBCF, a conta dos inves­ti­men­tos no PIB) até cres­ceu 3,5% ante o quarto tri­mes­tre de 2025, mas a alta ape­nas com­pen­sou a queda de 3,4% do fim de 2025. Em rela­ção ao pri­meiro tri­mes­tre de 2025, houve queda de 1,4%.

                          Segundo Juli­ana Trece,coor­de­na­dora do Núcleo de Con­tas Naci­o­nais do Ins­ti­tuto Bra­si­leiro de Eco­no­mia (FGV Ibre), não houve aumen­tos sig­ni­fi­ca­ti­vos em máqui­nas e equi­pa­men­tos para toda a indús­tria. Os inves­ti­men­tos foram sus­ten­ta­dos, sobre­tudo, pela impor­ta­ção de pla­ta­for­mas de petró­leo e pela indús­tria de cons­tru­ção.

                          O eco­no­mista-chefe do Ins­ti­tuto de Estu­dos para o Desen­vol­vi­mento Indus­trial (IEDI), Rafael Cag­nin, acres­cen­tou que a cons­tru­ção aten­deu à demanda de medi­das dos gover­nos, como mudan­ças no cré­dito imo­bi­li­á­rio, com libe­ra­ção de depó­si­tos com­pul­só­rios para os ban­cos que empres­ta­rem mais, melho­res con­di­ções no Minha Casa, Minha Vida, pro­grama de mora­dia popu­lar, e mais obras públi­cas con­tra­ta­das por esta­dos e muni­cí­pios.

                          ‘CICLO POLÍTICO EM AÇÃO’

                          O eco­no­mista Cláu­dio Frisch­tak, pre­si­dente da Inter.B Con­sul­to­ria, lem­brou que essas obras ace­le­ram no iní­cio de todos os anos de elei­ções. Isso por­que as regras elei­to­rais pro­í­bem, a par­tir de mea­dos do ano, inau­gu­ra­ções por parte de can­di­da­tos à ree­lei­ção ou gover­nan­tes em busca de ele­ger o suces­sor. Soma­das às medi­das de estí­mulo ao con­sumo do governo fede­ral, elas for­mam o que o con­sul­tor cha­mou de “ciclo polí­tico em ação”:

                          — O tri­mes­tre deu um pequeno arran­que, mas a minha lei­tura é que isso tem a ver com o ciclo polí­tico. Tem menos a ver com o governo fede­ral do que com esta­dos e muni­cí­pios. Os gover­nos locais ganha­ram pro­je­ção e capa­ci­dade de inves­ti­men­tos nos últi­mos anos.

                          O “ciclo polí­tico” deverá seguir fazendo efeito neste segundo tri­mes­tre. Entra­ram em vigor em abril e maio medi­das como o Desen­rola 2.0 e paga­men­tos ante­ci­pa­dos do 13º salá­rio aos bene­fi­ci­á­rios do INSS. Mas o fôlego desse impulso poderá ser curto.

                          —É um cres­ci­mento que não se sus­tenta, se o governo “tirar o pé”. A par­tir do momento que ele parar de gas­tar, parar de esti­mu­lar, a eco­no­mia tam­bém para de cres­cer — disse a eco­no­mista Juli­ana Inhasz, pro­fes­sora do Ins­per.

                          Com a perda de dina­mismo, a ten­dên­cia para os pró­xi­mos tri­mes­tres e o ano que vem é de desa­ce­le­ra­ção da eco­no­mia.Afre­a­da­se­rá­re­for­çada pelo efeito res­tri­tivo dos juros ele­va­dos. E a com­bi­na­ção do cho­que nos pre­ços de com­bus­tí­veis e insu­mos, por causa da guerra no Ori­ente Médio, com a demanda esti­mu­lada poderá limi­tar o ciclo de baixa na taxa básica de juros (a Selic, em 14,5% ao ano), ini­ci­ado em março pelo BC. O excesso de gas­tos públi­cos impede cor­tes mai­o­res, disse Rafa­ela Vitó­ria, eco­no­mista-chefe do Inter:

                          — Em ano de elei­ção, aca­ba­mos desor­ga­ni­zando mais ainda as con­tas públi­cas. Pre­ci­sa­rí­a­mos de regras mais crí­veis para con­tro­lar o gasto público, evi­tando esti­mu­lar a demanda e man­tendo a infla­ção mais con­tro­lada. Esse é o cami­nho para que o BC possa cor­tar os juros de maneira mais sig­ni­fi­ca­tiva.

                          INDÚSTRIA ESTAGNADA

                          O fôlego curto tam­bém difi­culta que a rea­ce­le­ra­ção da demanda no iní­cio do ano sirva de igni­ção para a pro­du­ção naci­o­nal. Pela ótica da oferta, a agro­pe­cu­á­ria cres­ceu 2% ante o quarto tri­mes­tre de 2025, impul­si­o­nada pela super­sa­fra de soja, os ser­vi­ços avan­ça­ram 0,5% e a indús­tria cres­ceu 1%, com des­ta­que para a cons­tru­ção civil, a mine­ra­ção e a indús­tria petro­lí­fera. A indús­tria de trans­for­ma­ção, que engloba a fabri­ca­ção dos bens aca­ba­dos geral­mente con­su­mi­dos na eco­no­mia, man­teve-se pra­ti­ca­mente está­vel, com alta de 0,1%, um sinal de fôlego curto no cres­ci­mento, disse Cag­nin, do IEDI.

                          O Minis­té­rio da Fazenda reco­nhe­ceu, em nota, que haverá uma desa­ce­le­ra­ção na eco­no­mia, mas demons­trou con­fi­ança na fle­xi­bi­li­za­ção da polí­tica de juros. “No quarto tri­mes­tre é espe­rada uma reto­mada à medida que a indús­tria manu­fa­tu­reira ganhe tra­ção em res­posta à fle­xi­bi­li­za­ção mone­tá­ria em curso. A SPE segue pro­je­tando cres­ci­mento de 2,3% para o PIB de 2026, sus­ten­tado pela expan­são da indús­tria e dos ser­vi­ços, a des­peito da desa­ce­le­ra­ção espe­rada da agro­pe­cu­á­ria”, diz a nota da Secre­ta­ria de Polí­ti­cas Eco­nô­mi­cas (SPE).

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