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                          IEDI na Imprensa - Indústria da transformação vai na contramão e aprofunda déficit comercial

                          Publicado em: 06/05/2026

                          Valor Econômico

                          Apesar de bom desempenho de venda de aeronaves, saldo do setor tem novo recuo no primeiro trimestre

                          Marta Watanabe

                          Enquanto o superávit da balança comercial total do Brasil aumentou 47,6% no primeiro trimestre ante iguais meses de 2025, a balança da indústria de transformação acumulou déficit de US$ 19,7 bilhões, aprofundando em 1,2% o saldo negativo, na mesma comparação. As exportações de bens industriais subiram apenas 2,8%, menos da metade da taxa dos embarques totais, que cresceram 7,1%. E as importações de bens industriais cresceram em 2,3%, 1 ponto percentual acima das totais do país.

                          Os dados são do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), com base nos números da Secretaria de Comércio Exterior (Secex/Mdic). O levantamento analisou o desempenho da balança da indústria de transformação considerando quatro níveis de intensidade tecnológica, conforme critério da OCDE: alta tecnologia, média-alta, média e média-baixa tecnologia.

                          O levantamento mostra que, apesar do bom desempenho da exportação de alguns setores, como o de aeronaves, que também apresentou queda de importações, houve aumento de desembarques de alguns ramos importantes, como veículos e indústria farmacêutica. O grupo de média-baixa tecnologia, porém, que costuma amortecer os déficits dos ramos de maior intensidade tecnológica, manteve superávit, mas com saldo menor do que igual período de 2025.

                          O déficit da balança da indústria de janeiro a março foi amenizado pelo bom desempenho da exportação dos ramos da alta tecnologia, mais precisamente de aeronaves, destaca Rafael Cagnin, economista-chefe do IEDI.

                          Os embarques brasileiros totais de bens industriais no primeiro trimestre de 2026 alcançaram US$ 43,9 bilhões, valor recorde em dólares correntes para o período, US$ 1,2 bilhão acima do que as vendas externas de iguais meses de 2025. O avanço na receita de exportação de aeronaves correspondeu a 59,6% desse crescimento.

                          Cagnin explica que os embarques da aviação têm certa volatilidade, porque são produtos de valor unitário elevado, que dependem do cronograma de entregas da grande fabricante brasileira do setor, a EmbraerCotação de Embraer. O economista lembra também que há uma base de comparação relativamente baixa. No início de 2025, diz, já havia tensões comerciais importantes, com expectativa de como seria conduzida a política tarifária do presidente americano, Donald Trump. No decorrer do ano passado, porém, as aeronaves foram excluídas do tarifaço e acabaram “blindadas” da política tarifária mais gravosa de Trump. “Isso permitiu ao setor operar depois com relativa normalidade”, avalia.

                          Além disso, diz Cagenin, no primeiro trimestre de 2026 houve uma ampliação da entrega de aviões pela EmbraerCotação de Embraer, principalmente no ramo de aviação comercial. “Há uma fila [de entregas] em grandes fabricantes globais de aeronaves e a EmbraerCotação de Embraer tem conseguido ampliar o market share nesse contexto. A empresa tem inovado, entrando cada vez mais no segmento de aviões de maior porte e com desempenho energético competitivo.” A companhia também tem entrado no ramo de defesa e segurança, frente de demanda que vem crescendo, com o aumento de gastos militares no mundo inteiro, observa. “Embora seja apenas um trimestre, o período reflete essas estratégias de diversificação de portfólio da companhia nas últimas décadas.”

                          Mesmo com o desempenho positivo das exportações de aeronaves, o levantamento do IEDI mostra que o grupo de alta tecnologia teve déficit comercial de US$ 11,4 bilhões no primeiro trimestre, mantendo o tradicional saldo negativo, ainda que com melhora ante o déficit de US$ 12,5 bilhões de iguais meses de 2025. Além da fabricação de aeronaves, integram a alta tecnologia a indústria farmacêutica e o complexo eletrônico. Esses dois ramos se destacaram pelo aumento das importações, com altas respectiva de 21,6% e 5,3% de janeiro a março ante iguais meses do ano passado. As importações do grupo, porém, recuaram 2,5%, também sob influência de aeronaves, cujos desembarques caíram 45,7% na mesma comparação.

                          Um destaque negativo, aponta Cagnin, vem da média-alta tecnologia. O grupo, composto por armas, veículos, máquinas e equipamentos e instrumentos de uso médico, entre outros, teve queda de 4% na exportação do primeiro trimestre ante igual período de 2025. Para o economista, o que chama mais a atenção é o desempenho das importações. No grupo, houve crescimento de 3,6%, mas puxado por automóveis, que subiram 23,6%.

                          Grupo de média-baixa tecnologia manteve superávit, mas com saldo menor do que igual período de 2025

                          “É o efeito China, com carros elétricos, o que mostra um grande desafio para o setor automobilístico brasileiro tanto interno como externamente”, diz Cagnin. A competitividade da indústria chinesa, observa, vai além do setor automobilístico. “O ganho de participação em manufaturados da China na América Latina é crescente, em boa medida deslocando a indústria brasileira não só porque produz os mesmos itens mas porque tem um dinamismo tecnológico que permite ocupar market share com produtos novos. Temos visto o movimento dos veículos de um ponto de vista mais de curto prazo, mas ele reflete uma transformação estrutural do mercado, uma pressão concorrencial com produtos inovadores muito fortes.”

                          No conjunto, a média-alta tecnologia fechou o primeiro trimestre com déficit comercial de US$ 20,2 bilhões. O saldo negativo é tradicional no grupo, mas neste ano o déficit se aprofundou em 7,8% ante igual período de 2025.

                          O levantamento do Iedi dá destaque positivo ao desempenho dos bens da indústria de média tecnologia, cujas exportações cresceram 10,6%, impulsionadas pelo ramo da metalurgia, com alta de 15,3%. As importações do grupo também cresceram, mas a taxa bem menor, de 2,9%. O grupo fechou o primeiro trimestre com déficit de US$ 680 milhões, bem menor do que o saldo negativo de US$ 1,2 bilhão de igual período de 2025. O saldo negativo no início deste ano, porém, destaca o estudo, está sob influência da contabilização de plataformas de petróleo, que desde o ano passado distorcem certos trimestres. Desconsiderado o ramo de construção naval em que aparecem, aponta o levantamento, o saldo da indústria de média tecnologia foi superavitário em US$ 1,8 bilhão de janeiro a março. Além de metalurgia e construção de embarcações, integram a média tecnologia, entre outros, fabricação de borracha e plásticos e de produtos de minerais não metálicos.

                          Já a média-baixa tecnologia, diz Cagnin, teve destaque negativo. O grupo, tradicionalmente superavitário, costuma amortecer o déficit das faixas de maior intensidade tecnológica. Para o economista, há um déficit tecnológico de inovação em alguns ramos, que se refletem em déficits comerciais estruturais. “Principalmente em ramos maior intensidade tecnológica, salvo efetivamente as exceções, a exemplo da aeronáutica.”

                          Quem usualmente segura um pouco esse déficit, destaca, é a média-baixa tecnologia, composta, entre outros, pelos ramos de vestuário, calçados, madeira, móveis, produtos de metal, derivados de petróleo e alimentos e bebidas. “Mas esse grupo vem tendo um desempenho muito morno, bem estável”, avalia.

                          Pelo levantamento, as exportações da média-baixa tecnologia ficaram praticamente estáveis, com alta de 0,2% de janeiro a março de 2026 enquanto as importações cresceram 4,2%. A estabilidade das exportações, aponta o estudo, chama atenção. O grupo tradicionalmente apresenta balança fortemente superavitária devido aos ramos ligados ao processamento de commodities. Dentre os quatro grupos de intensidade tecnológica, foi o único com superávit comercial, de US$ 12,6 bilhões. O saldo, porém, foi 3,1% menor, sempre ante o primeiro trimestre de 2025.

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