IEDI na Imprensa - Nem toda indústria vai voltar ao Brasil
Valor Econômico
Falta foco à NIB, que tenta abraçar tudo ao mesmo tempo
Wladimir Janousek
Política industrial não é palavrão. Um país do tamanho do Brasil precisa ter estratégia para tecnologia, produtividade e emprego. A Nova Indústria Brasil (NIB) recolocou esse tema na mesa e teve méritos concretos. Entre 2023 e 2025, o Plano Mais Produção direcionou R$ 588,4 bilhões a 406 mil projetos. O Brasil Mais Produtivo atendeu 67,5 mil empresas, e a depreciação acelerada estimulou R$ 4,69 bilhões em investimento privado.
Mas o ponto decisivo é outro: crédito, incentivo e anúncio não são sinônimos de competitividade. Pelo IBGE, a indústria total fechou 2025 com alta de 0,6%. Parece um bom número, até se olhar o detalhe: a indústria de transformação caiu 0,2%. No levantamento do IEDI com base na Unido, a manufatura mundial cresceu 3,9% em 2025; a brasileira, só 0,1%. No último trimestre, enquanto o mundo avançou 3,7%, o Brasil recuou 1,8%.
Há um dado extra que ajuda a entender o atraso. No mundo, foram justamente os segmentos de média-alta e alta tecnologia que puxaram o crescimento industrial em 2025. Ou seja: a disputa global está ficando mais sofisticada, e não mais simples.
Isso não prova que a NIB fracassou. Prova algo mais simples e mais duro: a política industrial ainda não mostrou, em escala, resultado estrutural compatível com o discurso oficial. E o próprio monitoramento do governo recomenda prudência. No relatório de 2023-2024, 63 das 92 ações acompanhadas não haviam sido devidamente esclarecidas ou informadas pelos pontos focais.
O problema é que a Nova Indústria Brasil (NIB), tal como estruturada, enfrenta limitações que não decorrem de sua intenção, mas de seu desenho e execução.
A NIB opera como política de estímulo, não como política de transformação, grande parte das ações listadas como ampliação do crédito, incentivos fiscais e tributários e depreciação acelerada, são instrumentos horizontais, que aliviam custos, mas não alteram a estrutura de competitividade.
Dessa forma não são promovidas alterações, empresas pouco produtivas continuam pouco produtivas; setores defasados continuam defasados e cadeias globais continuam dominadas por países que investem mais em tecnologia e produção em escala.
O resultado é previsível: crescimento marginal da indústria em geral, com estagnação da indústria de transformação. Sem metas claras de produtividade, inovação e competitividade externa, a política industrial vira apenas injeção de recursos, não mudança estrutural.
Outro ponto fundamental é a falta de foco: a NIB tenta abraçar tudo ao mesmo tempo. O Brasil historicamente sofre com políticas industriais que elegem muitos setores, que distribuem muitos recursos, que monitoram de menos e que corrigem tarde demais. As políticas propostas são amplas demais para serem geridas com rigor e os resultados eram esperados em menor prazo do que a realidade exige.
Países que tiveram sucesso na renovação de sua política industrial, como Coreia do Sul, Taiwan, Alemanha e China, em setores específicos, fizeram o oposto: escolheram poucas cadeias; exigiram contrapartidas duras; monitoraram obsessivamente e penalizaram quem não entregou. Sem foco, a NIB se dilui. E quando tudo é prioritário, nada é prioritário.
O Brasil tenta reconstruir cadeias onde não tem escala, tecnologia ou tempo. O caso dos módulos fotovoltaicos é emblemático. O país decidiu priorizar essa cadeia, mas já sabia que a China dominava 80% a 95% de cada etapa da produção global, com custos de escala, integração e domínio tecnológicos imbatíveis em qualquer cenário global.
Tentar construir essa cadeia apenas com elevação de tarifas, incentivos fiscais para fabricantes nacionais e crédito é como tentar competir com a Boeing produzindo aviões em uma garagem.
A NIB, no modelo atual, não distingue setores onde o Brasil pode competir daqueles onde o país não tem condições de reconstruir a cadeia completa.
Esse talvez seja o principal problema da fabricação dos módulos fotovoltaicos, o país escolheu essa como uma de suas cadeias prioritárias, mas não contemplou instrumentos de demanda local específicos para os produtos locais e o mais agravante, não desenvolveu uma cadeia produtiva de insumos e componentes para fomentar o crescimento esperado e a competitividade dos fabricantes.
Desde 2015, quando se iniciaram os primeiros investimentos em linhas de produção de módulos solares no país, o setor já dependia integralmente do fornecimento de componentes do exterior e, ainda hoje, a dependência dos insumos importados é integral, sem fabricação local de nenhuma das matérias primas utilizadas no processo final de montagem. O conteúdo local é mínimo e se resume às atividades de mão de obra, impossibilitando que o produto nacional possa ser exportado com Certificado de Origem Made in Brazil, até mesmo dentro do Mercosul.
Por essa razão, a quase totalidade dos módulos solares em uso no Brasil tem origem importada. A participação dos módulos nacionais caiu de 5% para 1% em 2024. O déficit comercial do setor supera US$ 3,5 bilhões por ano desde 2022. Nessa situação, aumentar a proteção sem exigir contrapartidas claras de produtividade, investimento e conteúdo tecnológico pode produzir um efeito conhecido: o brasileiro paga mais caro e continua dependente.
A competitividade não depende de produzir tudo, mas de atender as partes corretas da cadeia, o Brasil insiste em tentar “relocalizar” etapas de baixa margem e alta escala, justamente as mais difíceis de competir, repetindo uma lógica dos anos 1970, quando se acreditava que a autossuficiência industrial era sinônimo e garantia de desenvolvimento.
A questão não é ser contra a política industrial. É ser contra política industrial sem prova de resultado e a favor de uma política de Estado consistente. Nem toda cadeia estratégica será competitiva no Brasil por força de elevação de tarifa ou crédito subsidiado. Em algumas, o país pode ganhar escala. Em outras, talvez o caminho mais racional seja dominar engenharia, integração, inovação, software e serviços, sem bloquear o acesso às tecnologias inovadoras, com desempenho e produtividade superiores e com menor custo.
Reindustrializar não é proteger tudo. É escolher melhor, medir melhor e corrigir mais rápido.
Wladimir Janousek é membro da diretoria do Instituto Nacional de Energia Limpa (Inel).
