IEDI na Imprensa - Balança tem saldo recorde para junho após queda de preços
Valor Econômico
Governo e especialistas esperam novo recorde no superávit da balança comercial em 2023
Estevão Taiar, Jéssica Sant'Ana e Marta Watanabe
Marcada por queda de preços, a balança comercial de junho registrou superávit de US$ 10,59 bilhões, valor recorde para o mês. O saldo positivo resultou de queda das importações em ritmo maior que o das exportações. No primeiro semestre, uma leve alta dos embarques combinada com recuo do valor importado, num dinamismo também influenciado por queda de preços, resultou em superávit de US$ 45,5 bilhões, também histórico para o período na série iniciada em 1989. Tanto governo quanto especialistas pelo Valor projetam novo saldo positivo recorde para a balança de 2023.
Segundo dados divulgados ontem pela Secretaria de Comércio Exterior (Secex/Mdic), o saldo positivo de junho resultou de US$ 30,1 bilhões em exportações e de US$ 19,5 bilhões em importações, Houve queda nas duas pontas, mas mais acentuada em importações, que recuaram 18,2% contra 8,1% das exportações contra igual mês de 2022, considerando a média por dia útil.
No acumulado do primeiro semestre as importações chegaram a US$ 120,6 bilhões e caíram 7,1% contra igual período do ano passado. Já os embarques subiram 1,3% e somaram US$ 166,2 bilhões, valor também recorde para um primeiro semestre. “O volume tem apresentado os maiores valores da série, ao passo que preços vêm caindo”, disse o subsecretário de Inteligência e Estatísticas de Comércio Exterior, Herlon Brandão.
Os dados da Secex mostram que as exportações cresceram 8,7% em volume no acumulado deste ano contra iguais meses de 2022, com alta puxada por soja, petróleo bruto, minério de ferro, açúcar, combustíveis e carnes de aves. Parte desses produtos, porém, como soja, petróleo bruto, minério de ferro e combustíveis, teve queda de preços de janeiro a junho. No total das exportações os preços caíram 6,8% no primeiro semestre. Nas importações houve queda de volume, em 3,1%, e também de preços, em 5,6%, no acumulado do ano até junho, na comparação com igual período do ano passado.
José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), destaca o comportamento a aceleração da queda de preços em junho. Pelos dados da Secex o volume embarcado em junho subiu 6,7% enquanto os preços de exportação caíram 15,2%. Nas importações o volume caiu 3,3% e os preços, 17,7%, sempre contra igual mês de 2022.
Para Castro, o recuo de preços veio mais forte que o esperado, principalmente nas importações. Ele diz que a projeção de superávit estimado inicialmente pela AEB, de US$ 71 bilhões, deve ser revista e deve levar a saldo positivo perto do que o governo espera. A Secex revisou ontem sua projeção de superávit comercial em 2023 de US$ 84,1 bilhões para US$ 84,7 bilhões. Na estimativa de Castro, a queda das importações deve ser mais acentuada que o anteriormente esperado, sob influência de recuo maior de preços. Para ele, o valor exportado deve terminar este ano com queda de 2% a 3% enquanto o valor das importações deve cair cerca de 12% contra 2022.
Queda de preços nas importações em junho veio acima do esperado”
Mirella Hirakawa, economista da AZ Quest, avalia que a tendência para os próximos meses é de a exportação manter queda de preços relevantes, mas com quantum ainda relativamente elevado, mesmo com o fim do período sazonal de embarques da soja, que acontece no decorrer do segundo semestre. A perspectiva para os próximos meses, diz ela, é de saldos comerciais melhores, mas mais próximos do ano passado.
A AZ Quest estima superávit comercial próximo de US$ 75 bilhões para 2023. Na consultoria Tendências a projeção é de saldo positivo de US$ 73,5 bilhões em 2023. No ano passado o superávit, recorde, foi de US$ 61,5 bilhões.
Rafael Cagnin, economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), destaca que após ter recuperado níveis de exportação em 2021 e boa parte de 2022, a exportação da indústria de transformação mostrou desempenho mais oscilante no segundo trimestre de 2023. Em junho, segundo dados da Secex, a exportação do setor recuou 10% ante igual mês de 2022.
O quadro, diz Cagnin, resulta do enfraquecimento de desempenho dos produtos de indústria de transformação que são mais contaminados por ciclos de commodities. “Eles funcionaram como colchão no contexto de recomposição de base, mas foram perdendo seu efeito amortecedor”, diz ele, como reflexo da queda de preços num ambiente global de desaceleração da economia e aperto monetário em vários mercados. Para ele, a agenda prioritária para dar maior competitividade à exportação da indústria de transformação passa pelo encaminhamento do acordo Mercosul-União Europeia e também pela aprovação da reforma tributária sobre consumo.