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                          Carta IEDI

                          Edição 1383
                          Publicado em: 30/10/2026

                          Resiliência global sob pressão: entre guerras e IA

                          Sumário

                          Esta Carta IEDI apresenta o cenário atualizado do Fundo Monetário Internacional (FMI) para o desempenho global de 2026-2027, divulgado no World Economic Outlook neste mês de out/26. De acordo com o FMI, duas forças estão condicionando as transformações da economia mundial: tensões geopolíticas e avanços tecnológicos. O impacto de curto prazo de ambas já começa a aparecer, mas o de longo prazo ainda é em grande parte desconhecido, segundo o Fundo. 

                          A guerra no Oriente Médio, ao lado de outros conflitos e tensões comerciais, age como um choque negativo de oferta, elevando o preço da energia e desencadeando pressões inflacionárias. Em contrapartida, o investimento em inteligência artificial (IA) e em hardware e infraestrutura relacionados constitui um choque positivo de demanda, que se reflete no comércio internacional e no efeito-riqueza gerado pela valorização das ações das empresas líderes.

                          Esses dois choques também afetam a política fiscal, decorrente do apoio a famílias e empresas para atenuar o impacto do choque energético e do aumento do gasto com defesa, bem como as condições financeiras globais, que se deterioraram no início do ano, mas reagiram posteriormente com o boom das ações de IA. 

                          Segundo a análise do Fundo, essas condições acomodatícias têm sustentado a atividade econômica mundial, sobretudo nos países que se beneficiam do ciclo tecnológico.

                          Neste contexto, o cenário básico do FMI projeta uma desaceleração do PIB global de +3,5% em 2025 para +3,1% em 2026, a menor taxa de crescimento desde 2019. Esta projeção atualizada é +0,1 p.p. acima do estimado no cenário de jul/26. Para 2027, a expectativa é de uma aceleração para +3,4%.

                          Entre as hipóteses do cenário para o próximo ano, é importante notar que o Fundo conta com reabertura do Estreito de Ormuz em mar/27 e, em linhas gerais, retorno das condições vigentes no período pré-guerra até out/27. Eventual frustração desta hipótese pode, então, comprometer o ganho de velocidade previsto.

                          De todo modo, a relativa resiliência do atual cenário para o agregado do PIB mundial encobre divergência crescente entre aqueles expostos ao choque negativo de oferta decorrente da guerra no Oriente Médio e um grupo mais reduzido de países favorecidos pelo choque de demanda associado aos investimentos em IA e exportadores de energia. 

                          Como consequência, o dinamismo global ficou mais concentrado. No cenário atual, 32 economias respondem por 95% do crescimento global ante 54 economias em abr/26. 

                          A projeção é de uma suave aceleração do crescimento nas economias avançadas (EA), de +2,0% em 2025 para +2,1% em 2026 (+0,4 p.p. ante cenário de jul/26), seguida de desaceleração para +1,8% em 2027. 

                          Nos Estados Unidos, o ritmo de +2,3% de 2025 deve se manter em 2026-2027, enquanto a área do euro deve crescer metade disso: +1,1% em 2026 (a despeito da revisão em +0,2 p.p.) e +1,2% em 2027. No Reino Unido, o desempenho ficará em +1,2% no triênio 2025-2027 e no Japão desacelerará significativamente (de +1,2% em 2025 para +0,7% em 2026). 

                          Para os países emergentes e em desenvolvimento, o FMI prevê uma perda de tração importante. Neste grupo, a alta do PIB sairá de +4,5% em 2025 para +3,7% em 2026. Em 2027, a recomposição do ritmo de crescimento não será completa: +4,4%. Cabe observar que nesta atualização de cenário o Fundo cortou as projeções em -0,1 p.p. tanto para 2026 como para 2027. 

                          A Ásia emergente e em desenvolvimento continuará a ser a região líder em termos de crescimento, mas seu PIB crescerá menos nos próximos anos: de +5,6% em 2025 para +5,1% em 2026 e então para +4,9% em 2027. Isso mesmo o Fundo tendo corrigido em +0,1 p.p. suas projeções.

                          A China é a principal responsável por esta evolução, perdendo 0,5 ponto percentual de crescimento em cada ano, mas também a Índia, que depois de registrar +7,8% em 2025 deve crescer +7% no biênio 2026-2027.

                          Já a América Latina e o Caribe crescerão menos da metade dos asiáticos e ainda tiveram seu desempenho reduzido na presente atualização de cenário. Em 2026, o PIB da região registrará +2,3%, isto é, -0,2 p.p. em comparação com 2025, e em 2027 voltará ao patamar de 2025.

                          O Brasil, a seu turno, passará por perda de ritmo sistemática na visão do Fundo: de +2,3% em 2025 para +2,2% em 2026 e então para +1,9% em 2027. O FMI reduziu as projeções do país tanto para o presente ano (-0,2 p.p.) como para o ano que vem (-0,3 p.p.).

                          Convém lembrar que as expectativas dos agentes internos reunidas pelo Boletim Focus do Banco Central, sugerem um crescimento do PIB abaixo do estimado pelo FMI, mas uma tendência igualmente declinante. A pesquisa de 23/10/26 indicava crescimento mediano de +1,8% em 2026 (isto é, -0,2 p.p. frente à pesquisa de final de jul/26) e +1,3% em 2027 (-0,3 p.p. ante jul/26).

                          No balanço de riscos atual, há um viés negativo: uma guerra prolongada e tensões geopolíticas persistentes podem reacender a inflação, pressionar as contas fiscais e externas e atingir mais fortemente os importadores de energia e os países de baixa renda. Ademais, o impulso proveniente dos investimentos em IA pode cessar subitamente se as expectativas quanto a lucros e ganhos de produtividade forem revistas. 

                          Já do lado positivo o Fundo aponta: condições financeiras favoráveis, ajuste robusto do setor privado e investimento em IA poderiam sustentar a atividade e gerar efeitos positivos sobre a produtividade. 

                          O desafio da política econômica contemporânea, segundo o FMI, é enfrentar os riscos imediatos de inflação, de sustentabilidade da dívida pública e de fragilidade financeira e, simultaneamente, criar a infraestrutura, as competências e o ambiente competitivo para que a transformação tecnológica gere crescimento mais amplo e equilibrado, com ganhos mais bem distribuídos entre países e dentro dos países.

                          Introdução

                          Esta Carta IEDI apresenta o cenário atual do Fundo Monetário Internacional (FMI) para o desempenho da economia global em 2026 e 2027, divulgado no World Economic Outlook (WEO) de outubro. A primeira seção apresenta os principais dados deste cenário e, a título de comparação, as projeções da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) e da ONU Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) divulgadas, respectivamente, em setembro e outubro. Na seção seguinte, o cenário do FMI é detalhado por grupos de países. A terceira seção apresenta o balanço de riscos e a quarta resume as recomendações de política do FMI.

                          Cenário para a economia global

                          De acordo com o FMI, a economia global está sendo moldada por duas forças transformadoras, a geopolítica e a tecnologia. O impacto de curto prazo de ambas já começa a aparecer, mas o de longo prazo ainda é, em grande parte, desconhecido.

                          A guerra no Oriente Médio constitui a manifestação mais aguda das tensões geopolíticas atuais, mas a ela se sobrepõem hostilidades em outras regiões e tensões no comércio internacional que também continuam a pesar sobre a atividade econômica. 

                          A guerra representa um choque de oferta que tem se manifestado por meio de preços de energia mais altos e mais voláteis, bem como de pressões inflacionárias. Até o fechamento do cenário atual, o setor privado se ajustou bem, redirecionando o comércio para destinos alternativos e recorrendo a fontes de energia que não sejam o petróleo e, na agricultura, reduzindo a produção de grãos intensivos em fertilizantes. 

                          No entanto, como o conflito se revelou prolongado, as margens de ajuste que amorteceram o impacto inicial estão se estreitando e a possibilidade de custos econômicos maiores está aumentando. As consequências de mais longo prazo, como a mudança no equilíbrio de poder e a perda de estabilidade e confiança, são muito incertas.

                          Em contrapartida, o investimento em inteligência artificial (IA) e em hardware e infraestrutura relacionados representa um choque positivo de demanda, que se manifesta nos fluxos de comércio e nos preços elevados das ações das empresas líderes na cadeia global de valor da IA resultando em um efeito-riqueza positivo. Se esses avanços tecnológicos se converterão num choque de oferta positivo no médio e no longo prazo, com maior crescimento da produtividade, ainda é incerto.

                          Outras forças, como a política fiscal e as condições financeiras globais, que também condicionam o desempenho da economia global, têm sido afetadas por esses dois choques. O apoio fiscal tem sido utilizado para proteger famílias e empresas contra a alta no custo da energia, enquanto o gasto com defesa aumenta devido às tensões geopolíticas. As condições financeiras globais se deterioraram no início do ano, refletindo preocupações com a inflação causada pela guerra e com a pressão sobre os gastos públicos, mas depois se aliviaram, principalmente em função do boom no mercado acionário, ancorado nas ações das empresas líderes do setor de IA. 

                          Outros fatores que também podem ter contribuído para essa mudança positiva são: a capacidade limitada dos investidores de precificar riscos geopolíticos, expectativas de que a política econômica atuará para mitigar os efeitos adversos, elevados lucros corporativos e a maior resiliência das economias de mercado emergentes. As condições financeiras acomodatícias contribuíram para sustentar a atividade econômica, particularmente nos países que se beneficiam do atual ciclo tecnológico, com efeitos positivos sobre o investimento, o comércio internacional, o efeito-riqueza e os fluxos de capitais para as economias emergentes e em desenvolvimento (EMDEs).

                          Neste contexto, o cenário básico do FMI projeta uma desaceleração global de 3,5% em 2025 para 3,1% em 2026, a menor taxa de crescimento desde 2019, com uma aceleração para 3,4% em 2027. A modesta revisão positiva para esse ano frente ao cenário de julho (3,0%) reflete um desempenho da economia global melhor do que o esperado no primeiro semestre, mas com trajetórias divergentes entre os países. 

                          Considerando as taxas anualizadas, nos Estados Unidos, o PIB real cresceu 2,2% no segundo trimestre, após 2,5% no primeiro, impulsionado pelo investimento empresarial, pelo consumo privado e pelas exportações. Na área do euro, após o PIB estagnado no primeiro trimestre, seguiu-se uma expansão de 2,6% no segundo, impulsionada sobretudo pela forte recuperação da Irlanda e pela manutenção do ritmo da Espanha. Nos demais países, o crescimento permaneceu estável. Na Ásia, os impulsos associados aos investimentos em IA permaneceram fortes em alguns países e as exportações foram robustas. 

                          Em algumas economias, a resiliência da atividade econômica no primeiro semestre de 2026 refletiu uma combinação de ajustes flexíveis na oferta de petróleo, redução dos estoques, menor intensidade energética do que nas décadas anteriores e a capacidade das famílias e das empresas de se adaptarem aos preços mais altos da energia. Contudo, as pressões sobre a inflação, as taxas de juros dos títulos da dívida soberana nos países desenvolvidos e as contas públicas aumentaram.

                           

                           

                          Essa resiliência, em termos agregados, encobre duas características interligadas da dinâmica atual da economia global. Em primeiro lugar, uma grande divergência entre países, de acordo com sua exposição ao choque negativo de oferta decorrente da guerra no Oriente Médio e ao choque positivo de demanda associado aos investimentos em IA, concentrados em poucos países. 

                          Em segundo lugar, maior concentração do crescimento global: no cenário atual, 32 economias respondem por 95% do crescimento global ante 54 economias em abril. Esse menor grupo de economias inclui aquelas com pouca exposição ao choque energético e/ou forte participação na cadeia de IA, bem como exportadores de energia fora da zona de conflito, que se beneficiam de melhores termos de troca. 

                          Em contrapartida, os países importadores de energia e não integrados à cadeia global de valor da IA encontram-se na pior situação, pois se deparam com maiores gastos com importação, pressões de depreciação cambial e impacto inflacionário mais intenso do choque energético, o que resulta em maiores dilemas de política. Muitos países de baixa renda e vulneráveis estão nesse grupo, o que ameaça ampliar a distância entre países ricos e pobres.

                           

                          O cenário básico do FMI baseia-se em hipóteses sobre a guerra no Oriente Médio e o ciclo tecnológico impulsionado pela IA, que se refletem nas projeções para as políticas monetária, fiscal e comercial, o comércio global e os preços das commodities: 

                          Guerra e Estreito de Ormuz: o FMI supõe que o Estreito de Ormuz seja reaberto em março de 2027 e que, em linhas gerais, as condições retornem àquelas de pré-guerra até outubro de 2027. Isso implica uma recuperação gradual da produção e do transporte. Maior uso de estoques, rotas alternativas e oferta adicional de produtores fora da zona de conflito evitariam um colapso geral na oferta de petróleo. Mesmo assim, o Fundo supõe que haverá escassez em algumas EMEDs que não têm estoques e enfrentam forte concorrência de países mais ricos por cargas disponíveis. A incerteza política e geopolítica deve permanecer elevada até 2027.

                          Tecnologia: o ciclo tecnológico de IA deve perder impulso. O FMI supõe que o crescimento da produtividade será, em geral, estável e, nos países que tiveram ganhos recentemente, deve convergir gradualmente para a tendência de longo prazo. Não se supõe nenhum impulso adicional à produtividade decorrente da adoção de IA no horizonte da projeção.

                          Política monetária: a projeção é de uma orientação mais contracionista do que se supunha em abril, dadas as pressões inflacionárias combinadas com uma desaceleração moderada da atividade. As taxas de juros na área do euro e nos Estados Unidos devem subir em termos reais, enquanto no Japão devem caminhar gradualmente para um nível neutro.

                          Política fiscal: nas economias avançadas (EAs), a orientação deve, em geral, ser neutra em 2026 e, depois, tornar-se mais contracionista. Nas EMEDs, o aperto deve ser gradual. A dívida pública seguirá em trajetória ascendente: de 108% do PIB em 2025 para 115% em 2031 nas EAs, e de 74% para 84% nas EMEDs.

                           

                          Política comercial. Supõe-se que as políticas atuais, inclusive as apresentadas como temporárias, sejam mantidas. A tarifa efetiva dos EUA e a imposta pelo resto do mundo sobre as importações americanas são ligeiramente maiores do que em abril. Neste contexto, o volume do comércio global deve desacelerar de 5% em 2025 para 4,6% em 2026, ancorado sobretudo na cadeia de valor da IA.

                          Preços das commodities: o Fundo projeta um aumento de 41,3% no preço do petróleo (equivalente a um preço médio de US$ 96 por barril). Os preços do gás natural e dos fertilizantes devem subir, respectivamente, 48% e 10% em 2026. Com energia e fertilizantes mais caros e transporte e seguros mais onerosos, os preços dos alimentos devem subir 5% e os preços das commodities não-energéticas (agrícolas e metálicas) 17,3%.

                           

                            

                          Desempenho por grupo de países

                          No cenário básico do FMI, a projeção é de uma pequena aceleração do crescimento nas EAs, de 2,0% em 2025 para 2,1% em 2026, seguida de desaceleração para 1,8% em 2027. Para esse grupo, houve revisão positiva em relação ao cenário de julho (1,7%), mas há uma grande divergência: os exportadores líquidos de energia são parcialmente protegidos por termos de troca favoráveis, enquanto os importadores líquidos sofrem com os altos preços da energia, a menos que sejam impulsionados pelo boom de IA.

                          Nos Estados Unidos, a projeção é de manutenção do ritmo de crescimento de 2025 (2,3%) em 2026 e 2027. A atividade será sustentada pelo consumo privado, pelo investimento empresarial em tecnologia, pela produtividade, pela política fiscal e pelas condições financeiras favoráveis. O impacto do choque de oferta causado pela guerra será limitado, pois o país é exportador líquido de energia. 

                          Na área do euro, o ritmo de expansão desacelerará ligeiramente, de 1,1% em 2025 para 1,2% em 2026, sob o peso da energia mais cara e da confiança fraca dos consumidores, e retornará a 1,2% em 2027. A aceleração prevista para a Alemanha (de 0,2% em 2025 para 1,3% em 2026), maior economia da região, não será suficiente para compensar a desaceleração na França (de 0,9% para 0,4% no mesmo período, o menor percentual entre as principais EAs), na Espanha (2,6% para 2,5%) e em outras economias da região.

                          No Reino Unido, o crescimento também oscilará em torno de 1,2% no triênio 2025-2027, com uma ligeira aceleração para 1,3% em 2026, retornando ao patamar de 2025 em 2027 (1,2%). Além do aumento do custo da energia, a alta das taxas de juros de longo prazo está afetando negativamente o consumo e investimento.

                          A economia japonesa desacelerará significativamente, de 1,2% em 2025 para 0,7% em 2026, estabilizando-se nesse nível em 2027, com medidas fiscais amortecendo parte do impacto negativo do choque energético. A desaceleração prevista para a economia canadense é ainda maior, de 1,9% em 2025 para 1,1% em 2026 e 2027, com o apoio fiscal e termos de troca positivos compensando, em parte, a menor dinâmica e a incerteza comercial.

                          Vale também mencionar o desempenho previsto para o subgrupo “Outras economias avançadas”: uma aceleração de 3,1% em 2025 para 4,2% em 2026, puxada, sobretudo, pelo crescimento da Coreia do Sul (3,3% em 2026 e 2,8% em 2027), impulsionado pela forte demanda externa por semicondutores, insumo essencial na cadeia global de valor da IA, que supera o efeito negativo da guerra.

                           

                          Para as EMEDs, o FMI prevê uma desaceleração de 4,5% em 2025 para 3,7% em 2026, seguida de uma recuperação para 4,4% em 2027. Assim como nas EAs, o quadro é heterogêneo e reflete diferenças quanto ao grau de dependência de commodities e de fluxos de capital, à exposição geográfica ao conflito no Oriente Médio, à importância das receitas com remessas de imigrantes e com turismo, e à posição na cadeia global de valor da IA. 

                          A Ásia emergente e em desenvolvimento continuará a ser a região líder em termos de crescimento, mas desacelerará de 5,6% em 2025 para 5,1% em 2026 e 4,9% em 2027. Para a China, o FMI projeta uma expansão de 4,5% em 2026, contra 5% em 2025, decorrente de fatores conjunturais (choque energético) e estruturais (como persistência de problemas no setor imobiliário), com políticas contracíclicas evitando uma perda maior de ritmo. 

                          A Índia seguirá com a maior taxa de crescimento entre as maiores EMEDs, ancorada na demanda interna e no setor de serviços do lado da oferta, mas também desacelerará de 7,8% em 2025 para 7,0% em 2026. Além disso, outros países do Sudeste Asiático, como Malásia e Taiwan, que integram a cadeia global de valor de IA, beneficiam-se de investimentos em centros de dados e semicondutores.

                          A África Subsaariana será a segunda região desse grupo com o maior crescimento econômico em 2026, que se manterá no patamar de 2025 (4,5%). Com isso, a diferença de dinamismo em relação à Ásia emergente e em desenvolvimento diminuirá de 1,1 ponto percentual (p.p.) para 0,6 p.p. Contudo, a estabilidade no agregado encobre uma grande divergência entre os países. Os importadores de petróleo com escassos recursos naturais são os mais afetados pelo choque energético. 

                          Em contrapartida, a economia nigeriana acelerará de 4% em 2025 para 4,2% em 2026, beneficiada pela maior estabilidade macroeconômica e por termos de troca favoráveis, embora os preços mais altos de bens essenciais tendam a agravar a pobreza e a insegurança alimentar. A África do Sul desacelerará suavemente de 1,1% para 1% no mesmo período. 

                          A América Latina e o Caribe seguirá na terceira posição em termos de dinamismo econômico, com desaceleração de 2,5% em 2025 para 2,3% em 2026, retornando ao ritmo de 2,5% em 2027. Segundo o FMI, o impacto do choque de energia em cada país da região depende do equilíbrio entre os ganhos dos exportadores de commodities e as perdas dos importadores de energia, bem como da credibilidade dos regimes de metas de inflação, com pouco impacto compensatório do ciclo tecnológico de IA na maioria dos países. 

                          A economia brasileira desacelerará de 2,3% em 2025 para 2,2% em 2026 e 1,9% em 2027, refletindo condições monetárias ainda restritivas para levar a inflação à meta, a retirada do apoio fiscal e a incerteza global. Já a economia mexicana traçará um caminho oposto: aceleração de 0,5% em 2025 para 1,5% em 2026 e 1,8% em 2027, impulsionada pelas exportações, inclusive na cadeia global de valor de IA.

                          A Europa emergente e em desenvolvimento também perderá ritmo entre 2025 e 2026 — de 2% em 2025 para 1,7% —, recuperando-se para 2,1% em 2027. Além do impacto negativo do choque energético em várias economias, outros fatores adversos continuam afetando a região, como a guerra na Ucrânia, condições de financiamento mais apertadas e a reorientação do comércio e do investimento. 

                          Embora os preços mais elevados das commodities energéticas favoreçam a Rússia, as exportações de petróleo têm sido afetadas negativamente por danos à infraestrutura. Com isso, a economia russa desacelerará ligeiramente de 1% em 2025 para 0,9% no biênio 2026-27. Nas economias intensivas em energia e nas dependentes da importação de combustíveis fósseis, o impacto negativo do choque energético será parcialmente compensado pelo aumento do gasto com defesa.

                          O Oriente Médio e a Ásia Central, epicentro da guerra, registrará o pior desempenho entre as regiões emergentes e em desenvolvimento. O FMI reviu sua projeção para 2026, de uma expansão de 0,7% em julho para uma contração de 0,3%, em linha com a prolongação do conflito e do fechamento do Estreito de Ormuz. Para 2027, prevê-se um crescimento de 6,3% ancorado na hipótese de reabertura desse estreito em março. 

                          A Arábia Saudita, maior economia da região, deve contrair 3,3% em 2026 e crescer 7,9% em 2027, enquanto as economias do Bahrein, Iraque, Kuwait e Catar – as mais afetadas pelos distúrbios na produção e no transporte - devem registrar recessões de dois dígitos em 2026, seguidas de expansões da mesma ordem de magnitude em 2027. Os importadores de commodities do Oriente Médio e do Norte da África tendem a resistir relativamente bem, enquanto o Cáucaso e a Ásia Central mantêm ventos favoráveis associados ao choque de termos de troca, às remessas de imigrantes e às reformas econômicas em curso. 

                           

                          Balanço de riscos

                          Como no cenário de abril, os riscos de que o cenário básico atual não se verifique estão inclinados para baixo. Do lado negativo, uma guerra prolongada e tensões geopolíticas persistentes podem reacender a inflação, pressionar as contas fiscais e externas e atingir mais fortemente os importadores de energia e os países de baixa renda. Por outro lado, o impulso proveniente dos investimentos em IA pode cessar subitamente se as expectativas positivas quanto a lucros e ganhos de produtividade forem revistas. 

                          O lado positivo também não deve ser descartado: condições financeiras favoráveis, ajuste robusto do setor privado e investimento em IA poderiam sustentar a atividade e gerar efeitos positivos sobre a produtividade. Tanto os riscos de baixa como de alta são detalhados abaixo

                          Riscos negativos

                          1. Conflitos persistentes, ciberataques e eventos climáticos extremos

                          Um impasse prolongado ou uma escalada dos conflitos no Oriente Médio ou na Ucrânia pode manter os preços das commodities mais altos e voláteis por mais tempo, agravando a inflação e elevando os prêmios de risco. Os preços à vista e futuros das commodities energéticas sugerem que os mercados continuam tratando as interrupções de oferta como temporárias, o que pode mudar se as tensões persistirem. Os estoques de gás estão abaixo do normal em partes da Europa. Os conflitos também aumentam o risco de ataques cibernéticos contra a infraestrutura crítica e os serviços financeiros. O El Niño em curso pode agravar o clima extremo, pressionando os preços das commodities agrícolas. Os importadores de energia, sobretudo os com menor espaço fiscal e patamar mais baixo de reservas cambiais, seriam os mais atingidos, mediante deterioração dos déficits em conta corrente, pressões de depreciação cambial, maior inflação e aumento  da pobreza, da insegurança alimentar e do risco de instabilidade social.

                          2. Reavaliação das expectativas sobre a IA 

                          Se os lucros e os ganhos de produtividade associados à IA forem menores do que o esperado, o investimento no setor, seja em infraestrutura, seja em tecnologia, pode cair bruscamente. As bolsas de valores, especialmente aquelas com alta concentração de empresas de IA (como as dos Estados Unidos e da Coreia do Sul), são particularmente vulneráveis a uma correção. Os efeitos se transmitiriam por meio de menor demanda global por bens e serviços de tecnologia, de menores fluxos de capitais para as economias da cadeia de valor de IA e de perdas nos portfolios dos investidores globais. Há também riscos associados ao elevado endividamento e de alavancagem no setor.

                          3. Estresse financeiro e vulnerabilidades fiscais

                          Uma reprecificação ampla de ativos financeiros testaria a resiliência das empresas e afetaria negativamente o consumo das famílias por meio de um efeito-riqueza negativo. A dívida pública elevada, as grandes necessidades de refinanciamento e os juros longos em alta aumentam a exposição dos governos das EAs e EMDEs. As EMEDs seriam afetadas mediante maiores spreads sobre os títulos soberanos, pressões de depreciação cambial e condições financeiras globais mais apertadas. Nos países de baixa renda, a queda da ajuda oficial ao desenvolvimento agravaria a situação. O vínculo entre títulos soberanos e bancos também representa um risco: as carteiras de títulos públicos dos bancos cresceram cerca de 25% nas EMEDs e 45% nos países de baixa renda, o que se associa a menos crédito ao setor privado, sobretudo nos países com alto nível de endividamento.

                          4. Novas tensões comerciais

                          Tensões comerciais podem se reacender, principalmente se se tornarem conectadas a conflitos ou se o redirecionamento do comércio se intensificar. Perturbações prolongadas nos mercados de energia e nas cadeias de abastecimento estratégicas, ou desequilíbrios comerciais, poderiam levar mais países a adotar medidas protecionistas, em um esforço para proteger o abastecimento interno, com efeitos negativos sobre a atividade econômica global. Mais tarifas e barreiras não tarifárias em resposta a mudanças nos fluxos comerciais ou ao aumento dos desequilíbrios externos podem conter o crescimento global, enquanto restrições a insumos energéticos e minerais críticos, ampliariam gargalos e pressões inflacionárias. Esses efeitos podem se sobrepor, sobretudo se essas medidas resultarem em retaliações.

                          Riscos positivos

                          1. Ciclo tecnológico mais persistente e ganhos de produtividade da IA mais rápidos

                          Uma expansão mais ampla do setor de IA poderia elevar o PIB mundial em 0,6% até 2029, com efeitos mais significativos nos Estados Unidos e na Ásia. Uma difusão mais rápida da IA poderia elevar o crescimento global em até 0,3 p.p. no curto prazo e entre 0,1 e 0,8 p.p. no médio prazo, com maiores ganhos nas economias capazes de facilitar a adoção da IA por meio de investimentos em infraestrutura energética, conectividade digital e qualificação de mão-de-obra, bem como disponibilidade de insumos intermediários críticos.

                          2. Reconfiguração do sistema de comércio global

                          Novos acordos regionais e bilaterais, como os da União Europeia com a Índia e o Mercosul, e do Reino Unido com a Índia, poderiam reduzir tarifas e barreiras não-tarifárias, dar previsibilidade e reforçar a resiliência das cadeias globais de valor, com ganhos maiores se cobrirem serviços, investimento direto estrangeiro e tributação internacional.

                          3. Cadeias de energia mais resilientes e transição energética acelerada

                          As tensões geopolíticas no Oriente Médio podem acelerar os esforços para diversificar as rotas globais de abastecimento de energia e os investimentos em energia renovável, armazenamento e eficiência energética. Os benefícios seriam desiguais: exportadores de carvão de alto custo perderiam mercado, enquanto países com reservas de minerais críticos e potencial de geração de energia limpa se beneficiariam.

                          Recomendações de política

                          Os formuladores de política se deparam com as mesmas forças transformadoras. Para a maioria dos países, a guerra é um choque adverso de oferta, enquanto, para alguns, é um choque positivo de termos de troca. 

                          O ciclo de IA sustenta investimentos e exportações nas poucas economias que integram a cadeia tecnológica, mas aumenta as pressões de demanda e os riscos de concentração e de correção nos mercados financeiros. As economias que não participam dessa cadeia e, assim, dos seus efeitos positivos, são vulneráveis, no curto prazo, aos desdobramentos internacionais de uma correção nos mercados financeiros e, no médio e longo prazo, às consequências adversas para o crescimento econômico e o desenvolvimento. 

                          Assim, a política econômica precisa enfrentar os riscos imediatos de inflação, sustentabilidade da dívida pública e fragilidade financeira e, simultaneamente, criar a infraestrutura, as habilidades e o ambiente competitivo para que a transformação tecnológica gere crescimento mais amplo e equilibrado, com ganhos mais bem distribuídos entre e dentro dos países. O quadro abaixo detalha as recomendações de política do FMI para atingir esses dois objetivos.

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