Carta IEDI
Produtividade, transformação digital e transição ecológica: o triplo motor para o crescimento do Brasil
A Carta IEDI de hoje aborda três documentos recentemente divulgados: um estudo de pesquisadores da London School of Economics (CETEx/LSE) em parceria com o Instituto Clima e Sociedade (jun/26), o relatório Visão Brasil 2050 da Roland Berger (jul/26) e o documento “Tecnologia e IA como alavancas de impacto e produtividade para o setor de indústrias avançadas e manufatura no Brasil”, da McKinsey (ago/26).
Estes três estudos, partindo de metodologias e enfoques distintos, convergem para o mesmo diagnóstico: o Brasil cresce muito abaixo de seu potencial há décadas por subinvestimento crônico, baixa produtividade, entraves regulatórios e institucionais (o chamado “custo Brasil”).
Para além disso, todos identificam oportunidades importantes se abrindo para que o Brasil supere este quadro e uma análise conjunta deles sugere ainda que tal superação depende de uma atuação simultânea, articulada e coordenada entre Estado e setor privado, priorizando o investimento e atualizando as competências industriais do país.
O IEDI vem enfatizando em suas Cartas e em debates internos e com a sociedade muitos dos pontos que serão aqui abordados. A construção de visões compartilhadas por diversas instituições e frações da sociedade, vale observar, é importante para que avancemos do diagnósticos para a ação.
O relatório da consultoria Roland Berger contrapõe a continuidade do modelo de crescimento das últimas décadas a um cenário aspiracional que posicionaria o país como a 5ª maior economia do mundo, com PIB de US$ 6,0 trilhões e PIB per capita de US$ 28 mil. A virada estrutural, dado que a força de trabalho deixará de crescer na década de 2030, exigirá o aumento da produtividade – projetado em 4,0% ao ano no cenário aspiracional da consultoria.
De acordo com o relatório, há cinco alavancas essenciais para viabilizar esse salto: aprofundamento de capital (isto é, investimento), qualidade regulatória, efetividade governamental, redução da informalidade e educação. Em conjunto, essas alavancas somariam 2,2 dos 4,0 pontos percentuais de crescimento anual da produtividade necessários.
Além disso, a Roland Berger aponta quatro megatendências globais altamente favoráveis ao país: o aumento da demanda global por alimentos, a transição energética global, a busca por minerais críticos e a ascensão do consumo em mercados emergentes, consolidando o Brasil como um ator chave na segurança alimentar e na transição global. São tendências largamente identificadas por diferentes organismos internacionais, como discutido nas Cartas IEDI n. 1036 e 1346, por exemplo.
Destas megatendências, duas principais são abordadas em profundidade pelos dois outros documentos analisados nesta Carta IEDI, defendendo que se apresentam como grandes oportunidades de transformação da estrutura produtiva brasileira, notadamente no caso de nossa indústria.
Com foco no nível microeconômico da empresa industrial, o relatório da McKinsey identifica a adoção acelerada de tecnologia e inteligência artificial como alavancas de impacto mais imediato para reverter o declínio recente da produtividade industrial, que encolheu 7% desde 2014 (enquanto a agrícola cresceu 57% no mesmo período).
De acordo com o relatório, as indústrias avançadas brasileiras, aquelas com elevada intensidade em pesquisa e desenvolvimento (P&D), capacidades de engenharia, soluções viabilizadas por software e inovação digital, atingem 64% de maturidade digital (ante benchmark global de 72%). Essas empresas demonstram alta maturidade em estratégia e capacidades, mas tropeçam na execução: o "purgatório dos pilotos", em que a maioria das empresas não consegue escalar projetos-piloto promissores de automação, Internet Industrial das Coisas (IIoT) e inteligência artificial agêntica para toda a organização.
A implementação disciplinada dessas tecnologias poderia gerar de US$ 18 bilhões a US$ 23 bilhões ao ano em valor econômico e elevar o ritmo de crescimento da produtividade setorial em 1,9 a 2,3 pontos percentuais. Para isso, é preciso um roteiro de transformação digital, integrando estratégia, talentos, modelo operacional e arquitetura de dados, defende a consultoria.
A seu turno, o estudo do LSE-CETEx/iCS propõe que o Brasil use suas vantagens na transição ecológica – energia renovável abundante e barata (custo da eólica onshore entre os mais baixos do mundo), matriz elétrica 90% limpa, capital natural e neutralidade geopolítica – como instrumentos ativos para atrair investimento privado e estrangeiro em larga escala, sem pôr em risco a credibilidade fiscal.
A estratégia de crescimento liderado por investimento proposta pelos autores baseia-se no conceito de "powershoring" (relocalizar a indústria intensiva em energia para onde a energia limpa é barata). Segundo o estudo, captar mesmo uma fração do fluxo global de investimento em transição ecológica (US$ 4 a 5,6 trilhões/ano) poderia elevar o crescimento do PIB brasileiro em 1 a 1,5 ponto percentual ao ano. Os autores alertam, porém, para o risco de uma “maldição do recurso verde”, ou seja, o risco de o país se tornar exportador de commodities verdes sem desenvolver capacidade industrial doméstica.
Para viabilizar esse esforço, propõe-se uma arquitetura financeira em três camadas — orçamento verde, Fundo Clima e o programa Eco Invest Brasil — complementada pela criação de um fundo soberano lastreado em receitas do pré-sal para fortalecer o balanço fiscal e financiar a transição ecológica.
Cabe observar ainda, como fez o IEDI na Carta n. 1331 “Alavancas para a infraestrutura e indústria”, que embora o custo de geração de energia limpa seja competitivo no Brasil, distorções nas tarifas tornam elevado preço da energia para a indústria. Resolver estais distorções é fundamental para efetivar este fator potencial de competitividade.
Os três documentos, tomados em conjunto, sugerem que não há um único gargalo nem uma solução única para o baixo crescimento brasileiro, mas sim uma possível agenda simultânea e complementar:
• o Estado precisa desenhar uma arquitetura fiscal e financeira capaz de atrair capital privado sem comprometer a credibilidade fiscal;
• o país, como um todo, precisa aproveitar as oportunidades das megatendências globais e corrigir décadas de baixa qualidade regulatória e institucional; e
• as empresas precisam elevar sua produtividade e a adoção de tecnologias digitais e IA é um destacado meio para isso.
Por caminhos distintos, chegam à mesma conclusão: o Brasil tem diante de si uma janela rara para reverter décadas de baixo crescimento do PIB e produtividade rastejante, ao combinar vantagens em energia limpa e recursos naturais com uma agenda de reformas regulatórias e com a adoção de tecnologia e IA nas empresas. O custo da inação e da hesitação tende a ser maior do que os riscos decorrentes de uma atuação ousada.
Introdução
A Carta IEDI de hoje sintetiza as análises do texto de discussão “Brazil's investment-led growth in the ecological transition”, elaborado por pesquisadores do Centre for Economic Transition Expertise (CETEx) da London School of Economics em parceria com o Instituto Clima e Sociedade (iCS) (junho de 2026), e dos relatórios “Visão Brasil 2050: tornando-se a quinta maior economia do mundo até 2050”, da Roland Berger (julho de 2026), e “Tecnologia e IA como alavancas de impacto e produtividade para o setor de indústrias avançadas e manufatura no Brasil”, da McKinsey & Company (agosto de 2026).
Esses três documentos produzidos por instituições de naturezas muito distintas — uma consultoria de gestão empresarial, um centro de pesquisa acadêmica ligado à London School of Economics e uma consultoria de estratégia corporativa —, convergem para uma mesma constatação incômoda: o país cresce muito abaixo de seu potencial há décadas, e essa lacuna não decorre de escassez de oportunidades, mas de uma combinação persistente de subinvestimento, baixa produtividade, entraves regulatórios e institucionais e capacidade de execução insuficiente.
Embora cada um dos documentos adote uma perspectiva analítica própria, duas constatações justificam a leitura conjunta. A primeira é que os três compartilham, ainda que com diferentes ênfases, um diagnóstico estrutural quase idêntico sobre as causas do baixo crescimento brasileiro:
• subinvestimento crônico em capital fixo,
• baixíssima adoção de tecnologia e automação,
• um ambiente regulatório e institucional que eleva o custo de se investir, produzir e exportar no país — o que a literatura econômica brasileira convencionou chamar de "custo Brasil" — e
• uma força de trabalho cuja qualificação não acompanha as exigências de uma economia mais sofisticada.
A segunda razão para a leitura conjunta é que os três documentos sugerem uma agenda de transformação em três níveis: o Estado, a nação e a firma, atuando em planos complementares e quase sequenciais da mesma cadeia de causalidade.
O estudo dos pesquisadores da London School of Economics-CETEx/iCS enfoca o plano macroeconômico e financeiro e discutem como o Estado brasileiro, operando sob restrição fiscal severa, pode desenhar uma arquitetura de financiamento capaz de atrair investimento privado e estrangeiro em grande volume para os setores em que o país tem vantagens estruturais ligadas à transição ecológica, sem comprometer a credibilidade fiscal.
O relatório da Roland Berger, por sua vez, oferece um quadro estratégico de mais longo prazo, a partir de um exercício de cenários que quantifica o que está em jogo para o país como um todo, mostrando o hiato entre um Brasil que mantém sua trajetória histórica e um Brasil que consegue equacionar suas alavancas de produtividade e aproveitar os ventos favoráveis das megatendências globais até 2050.
A McKinsey, que se concentra no vetor microeconômico da transformação digital e na difusão da inteligência artificial como o motor para elevar a eficiência por trabalhador diante do envelhecimento populacional, foca a análise no nível da firma e do setor, sugerindo como as empresas brasileiras de setores industriais avançados, tais como automotivo, aeroespacial, eletrônicos, semicondutores, maquinário, podem elevar sua produtividade por meio da adoção de tecnologia e inteligência artificial, e explicando por que a maior parte delas ainda não consegue transformar projetos-piloto promissores em expansão em escala.
Brasil: enfrentando desafio e aproveitando as oportunidades do século
O relatório “Visão Brasil 2050”, da Roland Berger, adota uma perspectiva de longo alcance temporal, apresentando-se como um convite a repensar o que o Brasil pode se tornar.
O documento abre com uma constatação de que, desde 1976, o desempenho econômico do país tem ficado persistentemente aquém de seu potencial, apesar de transformações sociais e demográficas notáveis, tais como:
• a queda na taxa de analfabetismo, que passou de 30% para apenas 5%,
• a ampliação do número de matrículas no ensino superior, que aumentou dez vezes, e
• a penetração bancária, que de algo restrito a um em cada cinco brasileiros atingiu uma cobertura praticamente universal, com o país situando-se hoje entre as sociedades mais financeiramente conectadas do mundo.
Ainda assim, para um país que, no século XX, já esteve entre as três economias de crescimento mais acelerado do planeta, o Brasil apresentou crescimento médio anual inferior a 1% nos últimos dez anos.
O núcleo analítico do relatório é a contraposição entre dois cenários para 2050.
(1) O cenário-base representa essencialmente a continuidade da trajetória recente, com o PIB per capita crescendo a um ritmo médio entre 1% e 2% ao ano, refletindo a permanência de um regime de políticas públicas que cria obstáculos ao investimento e ao crescimento da produtividade. Neste caso, o PIB real brasileiro alcançaria cerca de US$ 3,3 trilhões em 2050, e o PIB per capita giraria em torno de US$ 15 mil, valor comparável ao atual do México, do Chile ou da Argentina. É, em suma, um Brasil que permanece sendo uma economia de renda média, ainda em busca do salto de desenvolvimento que lhe escapa há décadas.
(2) O cenário aspiracional pressupõe que o país consiga colocar sua “casa em ordem” e aproveitar os ventos favoráveis das megatendências globais. Registraria, assim, um crescimento de 4,0% ao ano (praticamente o dobro do cenário-base), levaria o PIB real a US$ 6,0 trilhões e o PIB per capita a aproximadamente US$ 28 mil, nível comparável ao da Grécia, da Polônia ou da Coreia do Sul atuais. Sob esse cenário, o Brasil se tornaria a quinta maior economia do mundo, competindo diretamente com a Alemanha pela quarta posição e ficando atrás apenas de Estados Unidos, China e Índia — ante a 11ª posição que ocupa atualmente.
Um dos elementos da análise da Roland Berger é a leitura sobre a restrição demográfica que o Brasil enfrentará nas próximas décadas. O relatório observa que diversas megatendências globais criarão oportunidades favoráveis poderosas para a economia brasileira, mas identifica uma megatendência que representará, ao contrário, um desafio: a redução do crescimento populacional e o envelhecimento da sociedade, que devem levar a uma contração gradual da força de trabalho a partir do início da década de 2030, quando a população em idade ativa deve atingir seu pico.
Isso significa que, ao contrário do padrão histórico brasileiro, em que o crescimento do PIB decorreu majoritariamente da expansão do volume de trabalho, e não de ganhos de produtividade, o cenário aspiracional exigirá que praticamente toda a diferença entre os dois cenários seja obtida por meio de aumento da produtividade do trabalho, projetada em 4,0% ao ano no cenário aspiracional, ante apenas 1,8% no cenário-base.
Nas palavras do relatório, o Brasil não cresceu enquanto sua força de trabalho estava em expansão; agora que ela não crescerá mais, o país precisará aumentar sua produtividade. Este tema é abordado pelo estudo da McKinsey – também analisado nesta Carta IEDI –, mas de uma perspectiva microeconômica, exemplificando na prática como tais ganhos de produtividade podem ser gerados com a difusão de novas tecnologias nas empresas industrais.
Alavancas para aumento da produtividade. Para viabilizar um salto de produtividade, a Roland Berger identifica e quantifica cinco alavancas, cuja soma permitiria elevar o crescimento anual da produtividade do 1,8 ponto percentual do cenário-base para os 4,0 pontos percentuais do cenário aspiracional.
A primeira alavanca, o aprofundamento de capital, responde por 0,4 ponto percentual adicional e exige que a taxa agregada de investimento do país suba de cerca de 17% do PIB hoje para aproximadamente 23%, patamar que o Brasil já alcançou historicamente e que está próximo da mediana global, o que dobraria o estoque de capital por trabalhador de US$ 41 mil para US$ 99 mil.
O relatório é enfático em destacar que a mobilização de investimento do setor privado será essencial, já que este já responde por 80% a 90% do investimento total, o que exige:
• reduzir o custo de capital,
• estabelecer uma curva de juros de longo prazo em moeda local e taxa fixa,
• aumentar a resiliência a choques e
• restaurar a capacidade de investimento do setor público, que caiu a níveis historicamente baixos na década de 2020.
A segunda alavanca, qualidade regulatória, contribui com 0,5 ponto percentual e parte da constatação de que o Brasil ocupa a 117ª posição entre 193 países no ranking global de qualidade regulatória — posição incompatível com seu estágio de desenvolvimento.
O relatório ilustra os efeitos negativos dessa regulação inadequada com o exemplo do comércio exterior: quase 30% das categorias de produtos possuem tarifas de importação superiores a 15%, situando o Brasil muito acima da União Europeia, da Coreia do Sul e do Chile, e apenas 18% das categorias de produtos são isentas de tarifas, contra cerca de 80% no Canadá e 99% no Chile.
Em contraste, o relatório oferece um exemplo doméstico convincente de como uma regulação bem desenhada pode transformar rapidamente um setor: a Nova Lei do Saneamento, de 2020.
Ao estabelecer metas claras, condições competitivas de mercado e modelos de negócio baseados em desempenho, o novo marco regulatório do saneamento desencadeou um aumento de dez a quinze vezes no investimento privado anual em saneamento entre o período 2015-2020 (~US$ 0,5 bilhão/ano) e 2025 (mais de US$ 5 bilhões). Até 2033, são projetados investimentos anuais entre US$ 6 bilhões e US$ 8 bilhões, o equivalente a um salto de 15 a 20 vezes frente à base de 2015-2020.
O sistema de pagamentos instantâneos Pix, lançado em 2020, também é citado como segunda ilustração da capacidade regulatória brasileira de inovação transformadora. Ao exigir a participação dos maiores bancos e possibilitar a entrada de fintechs por meio do open banking, o Pix incluiu dezenas de milhões de brasileiros no sistema financeiro formal e reduziu drasticamente o custo de transação para o pequeno comércio, cobrando apenas 0,33% por transação, contra cerca de 1,1% dos cartões de débito e 2,3% dos cartões de crédito.
A terceira alavanca, efetividade governamental, também contribui com 0,5 ponto percentual. O Brasil ocupa posição próxima à 120ª colocação global em efetividade governamental, ao lado de países com níveis de renda e desenvolvimento significativamente inferiores — e, entre os cerca de cinquenta países com PIB per capita superior a US$ 20 mil, nenhum apresenta pontuação mais baixa do que a brasileira nesse indicador. Os custos desse baixo desempenho institucional são concretos: o país ocupa a 65ª posição global em eficiência de desembaraço aduaneiro, e cerca de 35% dos projetos de infraestrutura estão paralisados de forma temporária ou permanente.
Ainda assim, o relatório da Roland Berger sustenta que essas não são características inevitáveis da economia brasileira, mas escolhas reversíveis.
Destaca os exemplos positivos da plataforma gov.br, que atende quase 170 milhões de usuários, oferecendo acesso a mais de quatro mil serviços públicos digitais, e a redução do tempo médio de análise de patentes de oito para três anos entre 2016 e 2024, aproximando o Brasil dos padrões da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
A quarta alavanca, redução da informalidade, contribui com 0,4 ponto percentual, apoiada na constatação de que trabalhadores informais operam, em média, com apenas 25% do nível de produtividade dos trabalhadores formais. O Brasil já avançou de forma significativa nessa frente. A taxa de emprego informal caiu de aproximadamente 60% em 1981 para 38% em 2025, um resultado expressivo se comparado à relativa estagnação da informalidade na Argentina e no México no mesmo período.
Essa redução foi impulsionada por fatores como o programa do Microempreendedor Individual (MEI), lançado em 2009, e a nota fiscal eletrônica. Ainda assim, embora o país permaneça atrás de pares mais desenvolvidos, como o Chile (27%) e a Coreia do Sul (20%), o relatório considera viável reduzir a informalidade brasileira em mais dez pontos percentuais, o que aumentaria a produtividade agregada do trabalho em cerca de 10,5% ao longo de 25 anos.
A quinta e última alavanca citada pelo documento é a educação, que também contribui com 0,4 ponto percentual e é descrita como um desafio menos de quantidade do que de qualidade: enquanto o progresso educacional brasileiro nos últimos cinquenta anos foi genuinamente expressivo em termos de acesso, as pontuações do país no PISA, indicador internacional de qualidade educacional, permaneceram praticamente estagnadas desde o início dos anos 2000. Alcançar o cenário aspiracional exigiria melhorias superiores a 100 pontos no PISA, feito alcançado apenas por Peru e Turquia nas últimas décadas — um objetivo desafiador.
Todavia, o relatório considera factível a partir de evidências domésticas: o Ceará, um dos estados mais pobres do Brasil, alcançou a segunda maior pontuação no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica em 2023, superando estados com PIB per capita de duas a três vezes maior, incluindo São Paulo e o Rio de Janeiro; e Alagoas, que partiu da última posição nesse mesmo índice, alcançou a mediana nacional em apenas uma década.
Na avaliação da Roland Berger, esses exemplos transmitem uma mensagem poderosa: a excelência educacional é função de práticas de gestão e comprometimento institucional, não de riqueza.
Além dessas cinco alavancas de produtividade, o relatório dedica atenção específica a dois gargalos que, embora não sejam tratados como restrições estruturais intransponíveis, precisam de investimento coordenado para não comprometer os demais vetores de crescimento: disponibilidade de água e oferta de energia.
Na frente hídrica, o Brasil detém cerca de 13% das reservas globais de água doce, uma vantagem estrutural cada vez mais rara em um mundo de estresse hídrico crescente, capaz de sustentar a expansão de setores intensivos em água como agricultura, mineração e manufatura.
A universalização do saneamento, viabilizada pelo marco regulatório de 2020, deve elevar a cobertura de água de 84% para 99% e a de esgoto de 62% para 90% até 2033, com impactos sociais e econômicos quantificados pelo relatório: acesso à água potável para 32 milhões de brasileiros adicionais, coleta e tratamento de esgoto para 60 milhões adicionais, mais de 1 milhão de novos empregos em tempo integral, redução anual de US$ 0,4 bilhão em gastos com saúde e aumento anual de US$ 1,2 bilhão nas receitas de turismo.
Na frente energética, o relatório estima que o potencial técnico de geração renovável do Brasil é de quatro a cinco vezes superior à capacidade atual, somando entre 10,6 e 14,2 exajoules (EJ) por ano quando combinadas as fontes hidrelétrica, eólica onshore e offshore e solar fotovoltaica centralizada e distribuída.
No cenário aspiracional, a demanda por energia deve crescer cerca de 5% ao ano até 2050, o que exigiria quadruplicar a capacidade atual de geração — ambição significativa, mas viável, segundo o relatório, dado o potencial ainda inexplorado do país; a questão crítica não é a disponibilidade do recurso, mas se as condições regulatórias e de investimento necessárias para mobilizar esse capital serão efetivamente implementadas.
Megatendências globais e as oportunidades para o Brasil. O relatório da Roland Berger dedica sua última seção temática às megatendências globais que, segundo a consultoria, criam ventos favoráveis extraordinários para a economia brasileira, e que se somam às oportunidades identificadas pelo estudo dos pesquisadores do LSE-CETEx/iCS também analisado neste relatório.
A primeira é o aumento da demanda global por alimentos, que deve crescer quase 56% entre hoje e 2050, exigindo uma expansão significativa de terras aráveis em nível global. O Brasil poderia responder por aproximadamente 40% desse aumento de terras necessário, em grande parte por meio da conversão de pastagens degradadas — e não do desmatamento de vegetação nativa —, elevando suas exportações de alimentos para consumo humano e animal dos atuais US$ 144 bilhões para cerca de US$ 500 bilhões até 2050.
O relatório procura desmistificar a percepção de que essa força agrícola do Brasil decorre simplesmente de terra abundante e mão de obra barata, atribuindo o protagonismo do país a décadas de inovação científica de qualidade — com destaque para o papel da Embrapa, criada em 1973, que teria contribuído com cerca de 40% do crescimento da produtividade agrícola brasileira desde 1970 — e a um ecossistema de adoção precoce de tecnologias como agricultura de precisão guiada por satélite e bioinsumos.
A segunda megatendência é a transição energética global, na qual as energias renováveis devem responder pela maior parte da oferta global de energia até 2050. O relatório destaca dois vetores de crescimento específicos para o Brasil:
• data centers, cuja capacidade instalada de 0,8 gigawatt já coloca o país entre os dez maiores do mundo, com potencial de alcançar 4 gigawatts até o início da década de 2030 mediante investimentos da ordem de US$ 10 bilhões a US$ 15 bilhões anuais; e
• biocombustíveis, mercado no qual o Brasil já figura entre os dois maiores produtores globais e no qual poderia atender a até 30% da demanda mundial, elevando suas receitas do setor dos atuais US$ 32 bilhões para cerca de US$ 194 bilhões até 2050, impulsionado, entre outros fatores, pelo etanol de milho, praticamente inexistente há uma década e hoje em rápida expansão no Centro-Oeste.
A terceira megatendência é o crescimento da demanda global por minerais críticos, impulsionado pela urbanização, pela eletrificação do transporte e pela expansão da infraestrutura digital. O Brasil detém a segunda maior reserva mundial de minerais críticos, atrás apenas da China, com participação excepcionalmente elevada em nióbio (cerca de 95% das reservas globais), grafite e terras raras, mas atualmente produz apenas uma fração modesta desse potencial, lacuna que reflete o subinvestimento em mapeamento geológico, processos de licenciamento complexos e a capacidade limitada de refino doméstico.
Caso o país mobilize suas reservas e sua eletricidade limpa de baixo custo, suas exportações minerais totais poderiam crescer de 4 a 6 vezes ao longo dos próximos 25 anos, saltando dos atuais US$ 55 bilhões para aproximadamente US$ 350 bilhões até 2050. E, caso avance também no processamento intermediário e na manufatura downstream para tecnologias de energia limpa, os spillovers adicionais de produtividade poderiam adicionar entre 0,5 e 1,0 ponto percentual ao crescimento anual da produtividade.
A quarta e última megatendência é a mudança do poder econômico em direção aos mercados emergentes, combinada à expansão da classe média global e ao envelhecimento populacional nas economias avançadas, que devem transformar os padrões globais de consumo. No cenário aspiracional, o consumo discricionário per capita brasileiro está projetado para quadruplicar até 2050, com a participação desse tipo de consumo subindo de 30% para quase 50% do gasto total das famílias, com previsão de crescimento particularmente forte em serviços ao consumidor, como lazer, cultura, restaurantes, hotelaria e bem-estar.
O relatório observa que o Brasil já está excepcionalmente bem posicionado para se beneficiar dessa tendência, com uma base de consumidores digitalmente sofisticada e um ecossistema de inovação que já produziu unicórnios de reconhecimento global, como Nubank, iFood e Wellhub, funcionando, segundo o documento, como prova de conceito para a escalabilidade global de negócios nascidos no mercado brasileiro.
O relatório da Roland Berger encerra com uma seção dedicada a explicitar “o que está em jogo” para a população brasileira, deslocando o foco dos indicadores macroeconômicos agregados para medidas mais tangíveis de bem-estar humano.
No cenário aspiracional, a mortalidade infantil cairia de 12 para apenas 6 óbitos por mil nascidos vivos, nível comparável ao dos Estados Unidos hoje, salvando aproximadamente 15 mil vidas por ano, a expectativa de vida subiria de 76 para 81 anos, colocando o Brasil em patamar semelhante ao de Portugal, Grécia e Alemanha, e o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), atualmente abaixo do México, subiria de 0,79 para 0,90, tornando o Brasil o líder incontestável da América Latina nesse indicador e posicionando-o próximo da Espanha.
A segurança pessoal também seria transformada. A proporção de domicílios que sofrem roubo a cada ano cairia de 4% para apenas 0,8%, reduzindo a probabilidade de uma família ser afetada por roubo, ao longo de um período de 15 anos, de aproximadamente 50% para apenas 10%.
A mensagem final do relatório é de convocação. De acordo com a Roland Berger, a escolha entre o cenário-base e o cenário aspiracional não é uma questão técnica de política econômica, mas uma questão de ambição nacional e vontade coletiva.
Um cenário ousado, mas não fora de alcance, que reflete trajetórias já percorridas com sucesso por países como Japão, Coreia do Sul, Chile e Alemanha em períodos de 25 a 30 anos, impulsionadas não pela sorte ou pela geografia, mas por compromisso político sustentado e visão nacional compartilhada.
Transição ecológica e energética: oportunidade para um modelo investment-led para o Brasil
O texto de discussão LSE-CETEX/iCS, que tem entre seus autores Luiz Awazu Pereira da Silva e Fernanda Gimenes (LSE-CETEx), Jorge Arbache e Rodrigo Lima (iCS) e Manoel de Castro Pires (FGV), propõe uma estratégia de desenvolvimento para o Brasil ancorada na mobilização de investimento privado e estrangeiro em larga escala para setores ligados à transição ecológica.
O documento parte da premissa de que a economia global está passando por uma reorganização estrutural, e não cíclica, de suas vantagens comparativas, impulsionada simultaneamente pela mudança climática, pela fragmentação geopolítica e pela mudança tecnológica acelerada.
Nesse novo cenário, dotações que antes eram vistas como ativos passivos, como energia limpa, capital natural, capacidade agrícola, minerais críticos e uma posição de relativa neutralidade geopolítica, tornam-se, na leitura dos autores, instrumentos ativos que podem ser mobilizados para atrair investimento, promover transformação estrutural e gerar crescimento inclusivo.
O argumento central do relatório é que o ajuste fiscal, embora necessário, não é suficiente para gerar por si só a confiança dos investidores, reduzir o custo de capital ou desencadear investimento produtivo em escala. Da mesma forma, um crescimento liderado exclusivamente pelo consumo dificilmente entregaria os ganhos de produtividade e a transformação estrutural de que o país precisa.
A proposta é, portanto, um caminho de crescimento liderado por investimento, que coloca a geração de emprego urbano formal e de maior qualidade no centro da estratégia, ancorada em vantagens de custo reais e na integração a cadeias globais de valor — de modo que o progresso social se torne, nas palavras dos próprios autores, um subproduto da transformação estrutural, e não apenas o resultado de políticas redistributivas isoladas.
Essa formulação é importante porque desloca o debate brasileiro tradicional, polarizado entre austeridade fiscal e expansão do gasto público, para um terceiro eixo: o uso estratégico e catalisador de um espaço fiscal limitado para atrair investimento privado em grande escala.
Além da necessária coordenação de políticas macro e microeconômicas, os autores enfatizam que a estratégia de crescimento proposta se apoia em três princípios:
1º) a alocação de recursos públicos deve priorizar as áreas com os maiores retornos econômicos e sociais esperados;
2º) a abertura estratégica e a integração global são vitais, tanto para a transferência de tecnologia como para a inserção com as cadeias globais de valor;
3º) a política industrial é um instrumento seletivo e catalisador para apoiar o investimento em setores com vantagens comparativas emergentes.
Pressupostos. A análise dos pesquisadores do CETEx/iCS repousa sobre cinco pressupostos centrais.
• Primeiro, que a fragmentação geopolítica não é um choque temporário, mas um traço persistente da economia global, o que eleva o valor estratégico de países que combinam escala, dotação de recursos e relativa autonomia geopolítica.
• Segundo, que a mudança tecnológica e a dinâmica de preços relativos devem continuar favorecendo sistemas de produção de baixo carbono, tornando a descarbonização um fenômeno estrutural, e não cíclico.
• Terceiro, que o posicionamento geopolítico do Brasil — caracterizado por autonomia relativa e ausência de envolvimento em grandes conflitos — pode constituir um ativo estratégico em um mundo cada vez mais fragmentado.
• Quarto, que a consolidação fiscal é necessária, mas dificilmente suficiente, por si só, para gerar confiança dos investidores ou reduzir o custo de capital.
• E quinto, que a estratégia de desenvolvimento deve adotar uma lógica de “engenharia reversa”. Ou seja, partir da demanda global emergente e trabalhar de trás para frente na identificação dos investimentos e setores em que podem emergir novas vantagens comparativas dinâmicas, em vez de simplesmente reagir às condições macroeconômicas já dadas.
As oportunidades da transição verde. Um dos conceitos centrais do estudo é o de "powershoring" — a relocalização ou expansão da produção intensiva em energia para regiões com energia renovável abundante, limpa e competitiva em preço, reduzindo simultaneamente o custo e a intensidade de carbono da atividade industrial.
A lógica subjacente é a de que, à medida que a eletricidade limpa, a água, a terra, a intensidade de carbono e o risco regulatório ganham peso nas funções de produção, os preços relativos que orientam o investimento estão sendo reconfigurados. Em vez de transportar energia até a indústria, como ocorria na era dos combustíveis fósseis, densos energeticamente, armazenáveis e comercializáveis, torna-se cada vez mais eficiente transportar a indústria até a energia, já que a eletricidade renovável é cara de transportar uma vez consideradas as perdas de transmissão e os custos de armazenamento.
O Brasil, segundo os autores, está excepcionalmente bem posicionado para se beneficiar dessa lógica. Cerca de 90% da geração elétrica do país já vem de fontes renováveis, o custo nivelado da energia eólica onshore brasileira está entre os mais baixos do mundo — cerca de US$ 33,6 por MWh, contra US$ 140,2 no Japão e US$ 113,3 na Coreia do Sul —, e replicar essa matriz elétrica já descarbonizada levaria entre 18 e 30 anos e exigiria investimentos da ordem de US$ 8 trilhões a US$ 10 trilhões nas economias avançadas.
Os autores do estudo são cuidadosos, no entanto, ao advertir que essa dotação favorável não garante, por si só, desenvolvimento — e introduzem o conceito de “maldição do recurso verde”, uma atualização, para o contexto da transição ecológica, da clássica maldição dos recursos naturais.
Países podem se tornar grandes fornecedores de commodities de baixo carbono, minerais críticos não processados, eletricidade renovável ou hidrogênio verde sem, contudo, desenvolver as capacidades domésticas, os encadeamentos produtivos e a densidade tecnológica que sustentam o desenvolvimento de longo prazo.
Em tal cenário, o rótulo muda, passando de exportador de commodities tradicionais para exportador de commodities verdes, mas a armadilha estrutural de especialização rasa permanece a mesma.
O exemplo mais ilustrativo trazido pelo estudo é o dos minerais críticos: o Brasil detém reservas expressivas de nióbio, grafite, manganês, terras raras e lítio, mas sua participação nas exportações minerais globais oscilou entre apenas 2% e 3,7% nas últimas duas décadas, evidenciando um hiato entre a extração e a industrialização que os autores consideram decisivo em termos de desenvolvimento. Se parte dessa produção for processada domesticamente, o valor bruto da produção brasileira de minerais críticos selecionados poderia saltar de aproximadamente US$ 5,4 bilhões em 2024 para até US$ 15,6 bilhões em 2030.
Em termos quantitativos, o estudo situa a oportunidade brasileira dentro de um fluxo global de investimento em transição de baixo carbono que já superou US$ 4 trilhões em 2024 e que pode alcançar US$ 5,6 trilhões anuais sob trajetórias de neutralidade de carbono entre 2025 e 2030. Desse total, algo entre US$ 600 bilhões e US$ 800 bilhões por ano tende a se concentrar em setores intensivos em energia e expostos ao comércio internacional — aço, produtos químicos, fertilizantes, combustíveis e materiais industriais —, exatamente os setores em que o Brasil apresenta vantagens comparativas mais claras. Segundo os autores, mesmo uma captura de parte pequena desse fluxo anual poderia elevar o crescimento anual do PIB brasileiro entre 1 e 1,5 ponto percentual.
Ao longo de uma década, isso implicaria um pool acumulado de realocação de investimento entre US$ 6 trilhões e US$ 8 trilhões. Simulações específicas para o Nordeste brasileiro, região com ventos particularmente favoráveis, acesso portuário e custos de terra comparativamente baixos, indicam que, mesmo em um cenário conservador de captura de 0,25% a 1% do investimento global sensível a vantagens locacionais energéticas, os fluxos acumulados poderiam alcançar entre US$ 15 bilhões e US$ 60 bilhões ao longo de uma década, gerando entre 40 mil e 170 mil empregos diretos qualificados até 2035.
Vale ressaltar que os próprios autores relativizam o peso do argumento do emprego direto. Citando um estudo sobre 91 municípios brasileiros com parques eólicos e solares de grande escala, o documento mostra que a geração de empregos permanentes é modesta. A fase de construção de usinas solares gera de 1 a 1,5 emprego por MW instalado, concentrado em trabalhadores de baixa e média qualificação, e os projetos eólicos praticamente não geram empregos permanentes após o início da operação.
Em compensação, o impacto sobre a economia local é substancial: o PIB municipal cresce em média 23% após a instalação de um projeto solar e 12% após um projeto eólico, e os projetos eólicos geram aumento persistente da arrecadação fiscal municipal, enquanto os ganhos de receita dos projetos solares se concentram no período de construção.
A lição que os autores extraem é que o valor da transição ecológica para o desenvolvimento regional não deve ser medido apenas pela geração direta de empregos, mas também pelos efeitos sobre produção, arrecadação e infraestrutura local — um contraponto importante à crítica recorrente de que os setores verdes são intensivos em capital e pouco intensivos em mão de obra.
Entre os setores identificados como os mais promissores para absorção dos fluxos de investimento na transição de baixo carbono estão:
i) o aço verde, cuja produção brasileira apresenta custo entre US$ 550 e US$ 750 por tonelada, contra US$ 700 a US$ 900 na Europa, uma diferença suficiente para influenciar decisões de relocalização industrial, sobretudo diante de mecanismos de ajuste de fronteira de carbono;
ii) os combustíveis sustentáveis de aviação, apoiados na maturidade da indústria brasileira de etanol e biocombustíveis;
iii) o hidrogênio verde e seus derivados, cuja competitividade se apoia diretamente no custo baixo da energia renovável nordestina; e
iv) o processamento de minerais críticos, que funciona como plataforma transversal capaz de reforçar a competitividade dos demais setores.
Os pesquisadores do LSE-CETEx/iCS enfatizam, contudo, que a competitividade em custo não é suficiente sem viabilidade financeira: projetos que carecem de acesso previsível a mercados consumidores e de contratos de offtake de longo prazo permanecem difíceis de financiar, independentemente de seu perfil tecnológico e ambiental.
Esse problema é agravado pelo que os autores chamam de “protecionismo verde”, isto é, barreiras tarifárias, regras de conteúdo local e critérios restritivos de sustentabilidade que, paradoxalmente, retardam a difusão de produção mais barata e menos intensiva em carbono.
A dimensão agrícola do estudo merece destaque à parte. A agricultura brasileira é tratada não apenas como setor produtivo, mas como plataforma fundacional para a segurança alimentar, a transição energética e a gestão do capital natural. As exportações de alimentos alcançaram US$ 169 bilhões em 2025, atendendo mais de 200 países, e a agricultura respondeu por cerca de 60% de toda a energia renovável fornecida no Brasil em 2023. Sem essa contribuição, a participação de renováveis na matriz energética nacional cairia de 49,1% para cerca de 20%.
O mercado de etanol de milho ilustra o dinamismo dessa plataforma: a produção saltou de 0,52 bilhão de litros em 2017-2018 para 8,19 bilhões de litros em 2024-2025. Essa força produtiva convive, porém, com vulnerabilidades domésticas relevantes: mais de 54,7 milhões de brasileiros viviam com algum grau de insegurança alimentar em 2024, e simulações climáticas sugerem que, sem medidas de adaptação, a produção agrícola brasileira poderia cair até 2% e as importações de alimentos subir de 3,9% para 5,9% do PIB até 2050.
Os autores também abordam com cuidado a questão do desmatamento, tratando-o não como constrangimento externo à estratégia de desenvolvimento, mas como uma precondição para ela. Cadeias de suprimento desacopladas do desmatamento, rastreáveis e certificadas, são cada vez mais o preço de entrada em mercados premium e em fluxos de financiamento sustentável, de modo que gerenciar o desmatamento nas cadeias produtivas é tratado como parte da própria estratégia econômica, não como custo adicional a ela.
O estudo também detalha os instrumentos concretos por meio dos quais a conservação ambiental pode se converter em fluxo financeiro.
• O Brasil já recebeu US$ 1,2 bilhão em pagamentos por resultados de REDD+ (redução de emissões por desmatamento e degradação florestal) da Noruega e da Alemanha, e iniciativas privadas como a Agrotools buscam mobilizar US$ 15 bilhões em cinco anos por meio de contratos de arrendamento de vegetação nativa preservada, a US$ 100 por hectare ao ano.
• O recém-aprovado Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE) também coloca o carbono florestal no centro do mercado doméstico de carbono, e o BNDES já aprovou R$ 384,3 milhões para um projeto de bioenergia com captura e armazenamento de carbono em Mato Grosso, além de R$ 1,5 bilhão, em parceria com a Petrobras, para restaurar até 50 mil hectares na Amazônia sob a iniciativa Pro-Floresta+.
Para os autores, esses mecanismos ainda estão em estágio inicial e enfrentam desafios de implementação, mas ilustram uma mudança estrutural mais ampla. A natureza deixa de ser apenas fonte de commodities e passa a ser tratada também como uma classe de ativo capaz de atrair investimento e gerar renda recorrente.
Arquitetura macroeconômica e financeira. A parte mais tecnicamente elaborada do estudo trata da arquitetura macroeconômica e financeira necessária para viabilizar essa estratégia sob as restrições fiscais reais do Brasil: déficit nominal de aproximadamente 8% do PIB nos últimos anos, taxas de juros reais entre as mais elevadas do mundo, e dívida bruta projetada para superar 80% do PIB.
Diante desse quadro, os autores propõem que o Estado não seja concebido como o principal financiador da transição, mas como coordenador, mitigador de risco e catalisador capaz de mobilizar volumes de capital privado muito superiores ao seu próprio desembolso.
O documento descreve uma arquitetura de financiamento de transição em três camadas, já parcialmente em operação no Brasil:
• Uma camada de orçamento federal verde, que fornece a base de gasto público e direcionamento de política, mas que permaneceu relativamente estável entre 0,2% e 0,3% do PIB na última década;
• Uma camada parafiscal centrada no Fundo Clima, cujos desembolsos anuais permaneceram abaixo de R$ 1 bilhão até 2024, quando uma recapitalização via títulos soberanos sustentáveis elevou os recursos disponíveis para cerca de R$ 10,4 bilhões, subindo a mais de R$ 14 bilhões em 2025; e
• Uma camada de mobilização, exemplificada pelo programa Eco Invest Brasil, desenhado especificamente para atrair capital privado e estrangeiro por meio da redução de riscos-chave do investimento, sobretudo o risco cambial. Cumulativamente, o Eco Invest Brasil já mobilizou cerca de R$ 120,8 bilhões em investimento total ao longo de três leilões entre 2024 e 2026, com índices de alavancagem entre 1,8 e 6,5 vezes. Ou seja, cada real de investimento público catalisador gerou entre R$ 1,80 e R$ 6,50 em investimento privado.
Ancorados nessa arquitetura, os autores propõem uma sequência de consolidação fiscal gradual, baseada em reformas estruturais e não em cortes generalizados de despesa: revisão permanente de gastos, com ganhos de eficiência estimados em cerca de R$ 25 bilhões apenas em medidas administrativas; um arcabouço de despesas de médio prazo; e uma âncora fiscal baseada em dívida.
As estimativas de ganho fiscal são deliberadamente modestas no curto prazo — cerca de 0,4% do PIB entre 2026 e 2027 — mas crescentes, alcançando entre 1% e 1,5% do PIB no médio prazo e mais de 2% do PIB no longo prazo.
Um ponto particularmente sensível destacado no documento refere-se à indexação de parte relevante do gasto social ao salário mínimo, mecanismo frequentemente apontado pelos analistas do mercado financeiro e de consultorias econômicas como fonte central de insustentabilidade fiscal de médio e longo prazo.
Os autores sugerem uma discussão pública transparente sobre alternativas de indexação (à inflação, ao PIB per capita ou a fórmulas mistas) do salário mínimo, sem propor redução de direitos sociais, mas buscando um mecanismo mais compatível com a sustentabilidade da dívida e com o envelhecimento populacional.
Os autores também propõem a criação de um fundo soberano de riqueza brasileiro, alimentado por parte das crescentes receitas de petróleo e gás, que já superam 4 milhões de barris por dia de produção, majoritariamente da camada pré-sal, inspirado na experiência norueguesa, cujo fundo soberano transformou receitas voláteis de petróleo em ativos financeiros superiores a US$ 1,8 trilhão em 2025.
A proposta não trata o fundo apenas como mecanismo de poupança anticíclica, mas como instrumento de fortalecimento do balanço patrimonial público, capaz de reduzir o prêmio de risco soberano e financiar, com parte de seus retornos, adaptação climática, conservação da biodiversidade e investimentos estratégicos ligados à transição ecológica.
O estudo apresenta, por fim, uma trajetória macroeconômica ilustrativa, expressamente qualificada como cenário estilizado, em que:
• o investimento total sobe gradualmente de cerca de 17,5% a 18,5% do PIB no biênio 2026-27 para 21,5% a 23% do PIB entre 2030 e 2035;
• o crescimento real do PIB acelera de cerca de 2% para 3% a 3,5% ao ano;
• a taxa de juros real de longo prazo recua de 6%-8% para 3%-4%; e
• o investimento estrangeiro direto sobe de 2,5%-3% para 3%-3,5% do PIB.
Simulações mais detalhadas da trajetória da dívida sugerem que, na ausência de reformas, a relação dívida/PIB poderia superar 120% até 2036 (ver gráfico abaixo), ao passo que a combinação de ajuste fiscal gradual com a expansão dos instrumentos de financiamento de transição poderia reduzir essa relação para algo entre 87,8% e 92,3% do PIB, a depender da intensidade da expansão dos instrumentos catalisadores.
Os autores concluem o estudo com uma proposta explícita de sequenciamento em três horizontes temporais (curto prazo, médio prazo e longo prazo), aplicada não só à política fiscal e monetária, mas também a seis outras frentes: arquitetura de financiamento e investimento; política industrial, comércio e inserção externa; infraestrutura e sistemas de energia; reformas regulatórias e institucionais; capital humano e inovação; e desenvolvimento social e regional.
1. No curto prazo (2026-27), a ênfase recai sobre estabilidade macroeconômica, previsibilidade regulatória, expansão da infraestrutura habilitadora e projetos-âncora em setores com vantagem estrutural já comprovada.
2. No médio prazo (2028-33), o foco se desloca para o aprofundamento de ecossistemas industriais, a integração a cadeias globais de valor de baixo carbono e a recuperação do grau de investimento.
3. No longo prazo (a partir de 2034), a meta é consolidar vantagens competitivas dinâmicas e posicionar o Brasil como uma “economia de soluções” para segurança alimentar, transição energética e resiliência de cadeias de suprimento.
Essa lógica de sequenciamento reforça o argumento central do documento: a transformação proposta não depende de um único instrumento ou reforma isolada, mas de uma coordenação deliberada entre políticas que, historicamente, no Brasil, costumam ser tratadas de forma fragmentada.
Os autores não escondem os riscos dessa trajetória, reconhecendo explicitamente que o investimento privado pode responder de forma mais lenta, desigual ou modesta do que o previsto, e sugerindo mecanismos de contingência, como o reforço temporário do esforço público e parafiscal caso a mobilização privada patine, mas concluem que o custo da inação seria substancialmente maior do que o risco de tentar.
Sem ajuste fiscal crível ancorado em uma transformação ecológica liderada por investimento, o Brasil correria o risco de permanecer preso a um ciclo de dívida elevada, juros altos, baixo crescimento e inflação recorrente de custos, ao mesmo tempo em que perderia uma janela histórica, e possivelmente estreita, para se posicionar na reorganização das cadeias globais de valor em torno da descarbonização.
Difusão digital e IA como alavancas de produtividade
Diferentemente dos dois estudos anteriores, o relatório da McKinsey trata da transformação no interior da firma industrial, tendo como ponto de partida um retrato preocupante da produtividade industrial brasileira.
O argumento de fundo é que o modelo de crescimento brasileiro apoiado na expansão demográfica e na incorporação de mão de obra está se esgotando. Com uma parcela relevante da população vivendo abaixo da linha de pobreza e pressões demográficas em curso, o país corre o risco de “envelhecer antes de enriquecer” caso não acelere os ganhos de produtividade.
Nas últimas duas décadas, a produtividade brasileira cresceu a apenas um terço do ritmo médio mundial, ampliando a lacuna de competitividade do país frente a economias desenvolvidas e a outros emergentes. No índice de produtividade implícito da McKinsey (2000 = 100), o Brasil atingiu média de 113 entre 2000 e 2024, contra 130 do mundo, 116 da OCDE e 110 dos pares latino-americanos.
É nesse cenário que a McKinsey elege a tecnologia e a inteligência artificial (IA) como a alavanca de produtividade mais acionável no curto e médio prazos para o setor privado. Embora não seja a única alavanca disponível, é a que reúne maior potencial de impacto com menor tempo de maturação, ao lado de fatores estruturais de mais longo prazo, como investimento em capital fixo, integração às cadeias globais e qualificação da força de trabalho.
O relatório contrasta a trajetória da agricultura brasileira, cuja produtividade cresceu 57% desde 2014, impulsionada por mecanização, ganhos de escala e uso mais eficiente de insumos, com a da indústria de transformação, cuja produtividade caiu cerca de 7% no mesmo período.
Na avaliação da McKinsey, essa divergência não é cíclica, mas estrutural, e resulta de quatro fatores que se retroalimentam:
• O primeiro é o subinvestimento de capital: o investimento brasileiro em capital fixo gira em torno de 18% do PIB, ante 23% a 25% observados em economias asiáticas comparáveis entre 1997 e 2022.
• O segundo é a baixa adoção de tecnologia e automação, com densidade de automação industrial de apenas 20 a 30 robôs por 10 mil trabalhadores, muito aquém dos cerca de 430 da Alemanha e dos 470 da China; investimento de capital por trabalhador em automação de cerca de US$ 85 mil, contra mais de US$ 400 mil em economias líderes; e Eficácia Geral do Equipamento (OEE) média de 55% a 70%, frente a 75%–85% entre os líderes globais (ver gráfico a seguir).
• O terceiro fator são as lacunas de capital humano: menos de 50% dos brasileiros dominam habilidades digitais complexas, o que limita a adoção e a escala de novas tecnologias.
• O quarto é um ambiente de negócios desafiador, com custos operacionais cerca de 36% superiores aos dos Estados Unidos, fruto de uma combinação de burocracia, carga tributária elevada e integração comercial ainda limitada às cadeias globais de suprimento e alto custo de capital.
O relatório ressalta que as economias de rápido crescimento, tais como Coreia do Sul e Polônia, não cresceram pela simples expansão da indústria de baixa intensidade tecnológica, mas por alocações deliberadas de capital em indústrias avançadas e em P&D, criando efeitos multiplicadores na economia. É esse “manual” que a McKinsey recomenda ao Brasil replicar.
A McKinsey identifica, entre as alavancas disponíveis para reverter essa trajetória, a adoção de tecnologia e inteligência artificial como aquela com maior potencial de implementação em curto e médio prazos e maior magnitude de impacto.
O foco do estudo são as empresas dos setores industriais avançados, definidas como aquelas com alta intensidade de P&D, capacidades de engenharia, soluções viabilizadas por software e inovação digital. Os setores industriais avançados, que incluem automotivo, aeroespacial e defesa, semicondutores, eletrônicos e maquinário, respondem por cerca de 45% do valor adicionado bruto da indústria de transformação brasileira (equivalente a US$ 125–135 bilhões).
Segundo as estimativas da consultoria, os investimentos direcionados em tecnologia e IA têm potencial de elevar o crescimento da produtividade em 1,9 a 2,3 pontos percentuais, liberando entre US$ 18 bilhões e US$ 23 bilhões em valor econômico adicional por ano para esse segmento, historicamente um investidor menor em tecnologia (1,5% a 3% do valor adicionado) do que setores como bancos e telecomunicações (2% a 4%).
Estado atual da adoção tecnológica na indústria avançada. A McKinsey conduziu uma pesquisa quantitativa e qualitativa junto a mais de trinta empresas líderes dos setores automotivo, de equipamentos de construção e aeroespacial, que respondem em conjunto por cerca de 40% do PIB das indústrias avançadas no país.
De acordo com o relatório, o retrato que emerge dessa pesquisa é o de um setor que reconhece, em nível discursivo e estratégico, a centralidade da tecnologia para o futuro do negócio, mas que ainda enfrenta dificuldades relevantes para transformar essa ambição em execução efetiva.
As empresas dos setores de indústrias avançadas brasileiras alcançam uma pontuação de 64% em um índice de maturidade digital construído pela McKinsey, contra um benchmark global de 72%. Essa diferença sinaliza espaço considerável para avanço, mas também revela que o atraso não é abissal.
Ao decompor essa pontuação em três dimensões — estratégia, capacidades e execução —, o relatório encontra um padrão revelador. As empresas apresentam maturidade relativamente elevada em estratégia (60% já em estágio avançado) e em capacidades (51% em estágio avançado), porém tropeçam justamente na execução, onde 67% permanecem em estágio intermediário, apenas 20% atingem o estágio avançado e 13% ainda estão no estágio inicial.
Em outras palavras, o problema das empresas brasileiras não é de ambição nem de entendimento conceitual, mas de capacidade de transformar planos em resultados mensuráveis e escaláveis.
No plano estratégico, o apoio da alta liderança à agenda digital é forte — 73% dos executivos descrevem sua liderança como ativa e alinhada com essa pauta —, e os níveis de investimento em tecnologia, próximos de 1% da receita, estão alinhados à média global do setor. Essa paridade, porém, esconde uma distância relevante em relação aos players líderes globais, que investem cerca do dobro em tecnologia (3,0% da receita, ante 1,5% dos players médios) e em P&D (7,5%, ante 4,5%), sinal, segundo a McKinsey, de que "estar na média" não é suficiente para reduzir a lacuna de competitividade.
O problema reside também na disciplina financeira. Apenas 10% das empresas conseguem mensurar o retorno sobre o investimento (ROI) de suas iniciativas digitais, o que faz com que o capital se disperse por diversas frentes em vez de se concentrar nas áreas de maior geração de valor.
A maioria das empresas ainda mede seu sucesso por métricas operacionais genéricas, tais como redução de custos, aumento do tempo de operação de equipamentos, e não por indicadores financeiros de retorno, o que explica por que áreas de altíssimo potencial, como desenvolvimento de produtos (20% a 25% do pool de valor) e gestão estratégica de aquisições (10% a 15%), permanecem relativamente subfinanciadas frente ao seu potencial de geração de valor.
No plano das capacidades, o relatório é enfático ao afirmar que os maiores obstáculos à transformação digital não são tecnológicos, mas humanos. A escassez de talentos — cientistas e engenheiros de dados, especialistas em IA, profissionais com conhecimento de robótica — e a resistência cultural à mudança lideram a lista de barreiras apontadas pelos executivos entrevistados, à frente de fatores como legado tecnológico obsoleto, complexidade de integração entre tecnologia da informação e tecnologia operacional e restrições de capital.
Ainda assim, segundo a McKinsey, o quadro não é de estagnação: 80% das empresas já contam com programas formais e estruturados de capacitação em tecnologia e IA, embora 20% delas permaneçam em estágio inicial no desenvolvimento dessas capacidades. Esse hiato entre esforço de formação e maturidade efetiva sugere que o problema está tanto na velocidade quanto na qualidade desses programas.
É, contudo, na dimensão da execução que o relatório encontra o fenômeno mais revelador de toda a pesquisa, ao qual dedica atenção especial: o chamado “purgatório dos pilotos”. Trata-se da situação em que empresas conseguem, com relativa facilidade, implementar projetos-piloto de tecnologia (testes localizados, de escopo limitado, em uma linha de produção ou em um processo específico), mas encontram dificuldade sistemática para expandir essas iniciativas para toda a organização.
Segundo a pesquisa, 32% das empresas ainda se encontram na fase inicial de pilotos simples; 24% conseguiram avançar para a fase de expansão; e apenas 7% alcançaram uma transformação completa em nível de rede ou ecossistema (ver gráfico a seguir). Mais da metade das organizações leva entre 6 e 12 meses apenas para implementar um piloto bem-sucedido, processo que deveria, em tese, ser rápido e barato precisamente por seu escopo limitado.
Esse gargalo de escalabilidade, e não a falta de tecnologia disponível ou de casos de uso comprovados, é, na visão da McKinsey, o principal fator que separa as empresas brasileiras das líderes globais.
As tecnologias estruturantes para as indústrias avançadas. O relatório da McKinsey mapeia cinco tecnologias que considera estruturantes para a transformação das indústrias avançadas, cada uma com impactos quantificados a partir de casos reais observados pela consultoria ao redor do mundo:
• O aprendizado de máquinas, motor das capacidades preditivas, viabiliza aplicações como manutenção preditiva e otimização da cadeia de suprimentos, com impactos de até 20% de redução de estoque.
• A IA Agêntica, sistema de inteligência artificial capaz de tomar decisões e executar tarefas complexas de forma autônoma para atingir um objetivo específico, automatiza fluxos de trabalho complexos e apoia a tomada de decisão, e pode multiplicar a produtividade da mão de obra indireta (que desempenha funções como controle de qualidade, manutenção de maquinário, almoxarifado, supervisão e administração) entre duas e quatro vezes.
• A simulação avançada e os gêmeos digitais, que criam réplicas virtuais de produtos e linhas de produção para planejamento de cenários hipotéticos, aceleram os ciclos de desenvolvimento e lançamento de produtos entre duas e três vezes.
• A robótica autônoma e industrial, aplicada a manuseio de materiais, montagem e operações repetitivas, eleva a produtividade da mão de obra direta entre três e seis vezes.
• E a Internet Industrial das Coisas (IIoT), combinada a edge computing, permite monitoramento de ativos em tempo real e reduz o tempo de inatividade de equipamentos em 20% a 30%.
Essas tecnologias, aplicadas de forma integrada e não isolada, geram os maiores resultados quando abrangem processos de ponta a ponta ao longo da cadeia de valor, e não apenas melhorias pontuais em etapas isoladas.
É essa a lógica por trás da concentração do potencial de valor identificado pela McKinsey na indústria de transformação e na cadeia de suprimentos, que responde por 35% a 40% do pool total de valor, seguida de desenvolvimento de produtos (20% a 25%), vendas (15% a 20%) e gestão estratégica de aquisições (10% a 15%).
O relatório ilustra esse potencial com uma série de exemplos concretos de empresas globais, representativas do tipo de transformação que o setor industrial brasileiro poderia buscar replicar. Uma montadora automotiva global reestruturou sua engenharia em torno de inteligência artificial aplicada a aerodinâmica, sistemas de energia e transmissão elétrica, alcançando um aumento de 5% a 15% na produtividade de P&D, economias anualizadas entre € 85 milhões e € 255 milhões, e mais de € 1 bilhão em receitas adicionais.
Uma fabricante global de eletrônicos voltada ao mercado de data centers implementou uma transformação digital baseada em gêmeos digitais e agentes de IA que reduziu em 40% os gastos com protótipos e engenharia e acelerou em 35% o tempo de ciclo de engenharia.
No campo de gestão estratégica de aquisições, uma fabricante global de hardware ancorou sua transformação em mais de 65 agentes de inteligência artificial distribuídos por seis domínios da cadeia de suprimentos, identificando mais de US$ 1 bilhão em impacto potencial, com cerca de 40% de ganhos de eficiência via automação e um ciclo de planejamento dez vezes mais rápido.
É, no entanto, em produção e cadeia de suprimentos, o macroprocesso ao qual o relatório atribui o maior pool de valor (35% a 40%), que está o exemplo mais expressivo em termos de resultado financeiro.
Uma montadora automotiva com atuação na América do Norte, ao aplicar o arcabouço Rewired desenvolvido pela McKinsey para sincronizar previsão de demanda, manufatura e suprimento, integrou dados entre áreas, implementou previsão de demanda baseada em IA e gêmeos digitais e estruturou uma plataforma unificada de planejamento. O resultado foi um aumento de 30% nos lucros recorrentes projetados, US$ 800 milhões em lucros adicionais, redução do tempo de planejamento da produção de cerca de 30 dias para 15 minutos em determinados cenários, cerca de 80% de fluxos de trabalho autônomos e 85% de precisão na previsão de demanda no nível de especificação do veículo.
Outras duas fabricantes globais ilustram o mesmo potencial: uma delas elevou em cerca de 35% a produtividade da mão de obra direta e reduziu em quase 95% o tempo de reporte de indicadores a gerentes de planta ao escalar aplicações digitais e de IA em múltiplas unidades; a outra transformou sua cadeia de suprimentos em um sistema de planejamento autônomo, com ganhos de eficiência de 30%, ciclo de planejamento dez vezes mais rápido e redução de 50% nos custos de estoques obsoletos.
Pilares e roteiro estratégico da transformação. Para a superação do “purgatório dos pilotos”, o relatório sugere às empresas avançadas brasileiras um roteiro estratégico de transformação.
Antes de detalhar os pilares (quadro abaixo), o relatório condensa a experiência internacional em dez lições transversais, entre elas, “começar com o valor, não com a tecnologia”, “escalar, não pilotar, é o verdadeiro desafio” e “pensar de ponta a ponta, não em silos”, que funcionam como um teste de prontidão para as lideranças antes de iniciar a jornada estratégica de transformação.
• O primeiro, roteiro de valor, trata do alinhamento da liderança sênior em torno de uma visão unificada de onde o valor será capturado, reimaginando cada domínio prioritário do negócio e construindo casos de negócio estruturados por etapas, com indicadores claros de desempenho em nível de domínio.
• O segundo pilar, talento, aborda a necessidade de internalizar competências técnicas. A McKinsey sugere como referência que ao menos 70% do time de engenharia seja internalizado, com 70% desse contingente em alto nível de competência, em vez de depender permanentemente de terceiros.
• O terceiro, modelo operacional, propõe romper compartimentos entre negócio e tecnologia por meio de equipes multifuncionais conduzidas por lideranças duplas.
• O quarto pilar, tecnologia, trata da evolução da área de TI de uma função de suporte para um parceiro estratégico de alto impacto, com plataformas modulares e reutilizáveis.
• O quinto, dados, exige tratar a informação como uma classe de ativos estratégica, gerida com o mesmo rigor dedicado ao capital financeiro.
• O sexto e último pilar, adoção e escala, garante que o valor capturado seja sustentado ao longo do tempo, por meio de responsabilização de ponta a ponta e gestão rigorosa de desempenho.
O relatório conclui com um chamado à ação dirigido às lideranças industriais brasileiras, no qual sublinha que, ao contrário de transformações tecnológicas anteriores, em que líderes podiam delegar boa parte da execução, a atual exige envolvimento direto da liderança máxima, que passa a atuar como arquiteta da própria reorganização da empresa.
A mensagem final é de urgência: a janela de oportunidade existe, as tecnologias estão maduras e os casos de uso comprovados, mas a lacuna de produtividade que separa o Brasil de seus concorrentes globais tende a se ampliar, e não a se estreitar, para quem não se mover.








