Carta IEDI
Divergência nas indústrias extrativa e de transformação em 2026
Os últimos dados do IBGE mostram a indústria retomando uma trajetória de desaceleração em 2026, interrompida momentaneamente, ao que tudo indica, em abr/26. O resultado mais recente, já descontados os efeitos sazonais, foi de -0,2% em mai/26 frente ao mês anterior, o primeiro sinal negativo do ano nesta comparação.
Saímos de um breve período de altas mais intensas nos primeiros meses de 2026, ajudados em boa medida pelo declínio registrado em nov-dez/25, e entramos novamente em um quadro de semiestagnação, com variações muito próximas de zero. Três dos quatro macrossetores industriais perderam produção na passagem de abr/26 para mai/26, especialmente bens de consumo semi e não duráveis (-1,3%, com ajuste).
O que traz algum alento é que uma parcela minoritária de ramos ficou no vermelho (32%) e entre os piores casos estão ramos que vinham crescendo com robustez nos meses anteriores, notadamente a indústria extrativa (-2,6% em mai/26 ante abr/26 com ajuste) e a produção de derivados de petróleo e biocombustíveis (-6,1%). Ou seja, nestes casos pode ser apenas uma acomodação conjuntural.
Numa perspectiva mais ampla, o desempenho industrial, quando tomado em seu agregado, até sugere alguma resiliência, dado o patamar de taxa de juros vigente no país. No acumulado de jan-mai/26, isto é, quase que o semestre todo, o setor registra alta de +1,4% frente ao mesmo período do ano anterior – pouca coisa abaixo do período jan-mai/25 (+1,8%) e superior ao acumulado jan-dez/25 (+0,8%).
Sua composição é que mudou bastante e isso evidencia claramente o peso da conjuntura de juros elevados.
Em uma primeira perspectiva, cabe observar que o desempenho da indústria em 2026, pelo menos até agora, está fundamentalmente baseado no ramo extrativo, que como se sabe é uma atividade bastante exportadora. No acumulado jan-mai/26, chega a uma alta de +7,9%, mais do que o dobro do ritmo em igual período do ano passado (+3,2%).
Por outro lado, a indústria de transformação, mais sensível aos juros, está virtualmente parada: +0,2% ante jan-mai/25. Esta é uma realidade bem diferente da primeira metade do ano passado, quando na mesma comparação interanual, o resultado era de +1,6%. Tal perda de tração vem rebaixando a posição do Brasil no ranking mundial da indústria de transformação, como discutido na Carta IEDI n. 1369.
Na perspectiva dos macrossetores, por sua vez, a maior reviravolta veio de bens de capital, cuja produção crescia +1,4% em jan-mai/25 (quando já dava sinais de enfraquecimento, vale lembrar) e agora em jan-mai/26 caiu -6,2%. A grande maioria dos seus segmentos estão no vermelho, com destaque para bens de capital para a agricultura (-16,9%), mas também para a indústria (-4,5%).
Se os produtores rurais estão sobreendividados, como a imprensa vem noticiando, a situação na indústria é longe de salutar. Sondagem da CNI mostra que no final de 2025, 43% das empresas entrevistadas estavam no limite ou acima do limite desejável de endividamento. Em pesquisa mais recente, divulgada em jun/26, a CNI avalia que 45% das empresas esperavam aumento do endividamento na virada do semestre, entre 45% e 52% viam aumento do custo de financiamento de contas a pagar, a receber e de estoques e 64% esperavam queda de margem líquida.
Entre os demais macrossetores, bens de consumo duráveis estão em baixo dinamismo, registrando apenas +0,6% em jan-mai/26, restringidos sobretudo por eletrodomésticos (-9,0%) e por móveis (-2,9%). É outra parcela da indústria que também apresentou notável involução, já que em jan-mai/25 crescia +9,7%.
Aqueles macrossetores que possuem atividades relacionadas com o ramo extrativo, por sua vez, se saíram melhor. Importante mencionar que os conflitos no Oriente Médio e a interrupção do corredor logístico do estreito de Ormuz também tiveram efeito.
Nos bens intermediários, cujo resultado em jan-mai/26 foi de +2,1% (ante +0,9% no 2º sem/25), a produção de derivados de petróleo foi quem respondeu pelo impulso, ao avançar de -3,9% no 2º sem/25 para +2,9% em jan-mai/26, sempre na comparação interanual.
No macrossetor de bens de consumo semi e não duráveis, que cresceu +1,5% em jan-mai/26 ante -1,3% na segunda metade do ano passado, destacou-se a produção de álcool e gasolina, de +4,5% até mai/26 (ante -12,8% em jul-dez/25). Farmacêutica (+11,5%) e bebidas (+1,0%) também foram importantes na melhora de desempenho deste grupo.
Resultados da Indústria
Em mai/26, a produção industrial brasileira registrou recuo de -0,2% frente ao índice de abr/26 na série com ajuste sazonal, interrompendo, dessa forma, quatro meses consecutivos de taxas positivas, período em que acumulou ganho de +4,3%.
Na série sem ajuste sazonal, no confronto com mai/25, o total da indústria assinalou expansão de +0,2%, terceira taxa positiva consecutiva, após variação positiva de abril (+2,7%) e março (+4,4%). Com isso, no indicador acumulado para os primeiros cinco meses de 2026, o setor industrial apontou crescimento de +1,4%. A taxa anualizada, indicador acumulado nos últimos doze meses, cresceu +0,4% no mês de mai/26, permanecendo em terreno positivo.
A variação negativa de -0,2% da atividade industrial na passagem de abr/26 para mai/26 na série com ajuste sazonal foi impulsionada pelos resultados negativos em três dos quatro macrossetores. O macrossetor de bens de consumo semi e não duráveis (-1,3%) assinalou o recuo mais elevado em mai/26, seguidos pelos setores produtores de bens intermediários (-0,4%) e de bens de capital (-0,2%). Por outro lado, o segmento de bens de consumo duráveis (+3,6%) assinalou o único resultado positivo e eliminou o recuo de -3,1% registrado no mês anterior.
Na comparação mês/mesmo mês do ano anterior, o acréscimo de +0,2% da indústria total em mai/26 foi puxado por dois dos quatro macrossetores: bens de consumo duráveis (+1,5%) e bens intermediários (+1,4%). Por outro lado, os setores produtores de bens de consumo semi e não duráveis (-1,1%) e de bens de capital (-6,7%) apresentaram as taxas negativas neste mês.
O setor de bens de consumo duráveis, que cresceu +1,5% em mai/26 frente a igual mês do ano anterior, voltou a registrar expansão na produção, após recuar -3,1% em abr/26. O macrossetor foi impulsionado pela maior fabricação de automóveis (+13,9%), seguido pelo setor de motocicletas (+7,0%) e de eletrodomésticos da “linha branca” (+5,2%) e da “linha marrom” (+1,1%). Por outro lado, os principais impactos negativos foram assinalados pelos grupamentos de outros eletrodomésticos (-17,7%) e de móveis (-4,2%).
Os bens intermediários tiveram avanço de +1,4%, marcando a quinta taxa positiva consecutiva neste tipo de comparação. O resultado deste mês foi explicado pelos avanços nos produtos associados às atividades de coque, produtos derivados do petróleo e biocombustíveis (+8,5%), indústrias extrativas (+3,1%), veículos automotores, reboques e carrocerias (+5,1%), metalurgia (+1,8%), produtos de borracha e de material plástico (+1,5%) e produtos químicos (+0,6%), enquanto as pressões negativas foram registradas por produtos alimentícios (-5,7%), celulose, papel e produtos de papel (-3,8%), produtos de metal (-2,7%), produtos têxteis (-5,1%), máquinas e equipamentos (-2,7%) e produtos de minerais não metálicos (-0,7%).
Ainda no confronto com igual mês do ano anterior, o macrossetor de bens de consumo semi e não duráveis recuou -1,1% em mai/26 e interrompeu dois meses consecutivos de taxas positivas. O desempenho negativo neste mês foi explicado pelos recuos assinalados nos grupamentos de alimentos e bebidas elaborados para consumo doméstico (-2,4%), de semiduráveis (-5,6%), de alimentos e bebidas básicos para consumo doméstico (-37,8%). Por outro lado, os grupamentos de carburantes (+1,2%) e de não duráveis (+4,1%) apontaram as taxas positivas em mai/26.
O setor produtor de bens de capital mostrou redução de -6,7% na comparação de mai/26 e mai/25, intensificando a queda de -4,9% registrada em abril. O segmento foi influenciado pelos recuos observados nos grupamentos de bens de capital agrícolas (-23,1%), de uso misto (-19,9%), para fins industriais (-4,0%) e para energia elétrica (-1,5%). Por outro lado, os subsetores de bens de capital para equipamentos de transporte (+1,7%) e para construção (+11,3%) assinalaram os impactos positivos.
No índice acumulado para jan-mai/26, frente a igual período do ano anterior, o setor industrial assinalou avanço de +1,4%, com resultados positivos em três das quatro grandes categorias econômicas: bens intermediários (+2,1%), bens de consumo semi e não duráveis (+1,5%) e bens de consumo duráveis (+0,6%). Por outro lado, o setor produtor de bens de capital (-6,2%) assinalou a única taxa negativa no indicador acumulado do ano, pressionado pela menor fabricação de bens de capital de uso misto (-15,7%), agrícolas (-16,9%) e para fins industriais (-4,5%).
Por dentro da Indústria de Transformação
A produção do total da indústria brasileira assinalou decréscimo de -0,2% em mai/26 frente a abr/26 na série livre dos efeitos sazonais. Neste mês, a indústria de transformação cresceu +0,1% nesta comparação, enquanto a produção da indústria extrativa recuou -2,6%.
Na comparação com mai/25, o resultado de +0,2% da indústria geral foi puxada pela indústria extrativa (+3,1%), sendo que a indústria de transformação recuou -0,3%.
No resultado frente a abr/26, com ajuste sazonal, observa-se queda em 8 dos 25 ramos industriais pesquisados. Entre as atividades, as influências negativas mais importantes foram assinaladas por coque, produtos derivados do petróleo e biocombustíveis (-6,1%), produtos alimentícios (-1,3%), produtos têxteis (-4,0%), impressão e reprodução de gravações (-8,1%) e equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos (-2,0%).
Por outro lado, entre as atividades que mostraram avanço na produção, produtos farmoquímicos e farmacêuticos (+13,1%), veículos automotores, reboques e carrocerias (+4,1%) e produtos químicos (+3,1%) exerceram as principais influências na média da indústria de transformação. Vale destacar também os impactos positivos registrados pelos setores de metalurgia (+2,3%), confecção de artigos do vestuário e acessórios (+4,7%), outros equipamentos de transporte (+4,7%), máquinas, aparelhos e materiais elétricos (+2,6%) e máquinas e equipamentos (+1,2%).
Na comparação com o mesmo mês de 2025, o setor industrial assinalou variação de +0,2% em mai/26, com resultados positivos em 8 dos 25 ramos, 27 dos 80 grupos e 39,0% dos 789 produtos pesquisados. Vale citar que maio de 2026 (20 dias) teve um dia útil a menos que igual mês do ano anterior (21).
Entre as atividades, as principais influências positivas no total da indústria foram registradas por coque, produtos derivados do petróleo e biocombustíveis (5,7%), veículos automotores, reboques e carrocerias (7,3%) e produtos farmoquímicos e farmacêuticos (13,2%).
Por outro lado, ainda na comparação com mai/25, entre as atividades que apontaram recuo na produção, produtos alimentícios (-3,7%) e máquinas e equipamentos (-9,5%) exerceram as maiores influências na formação da média da indústria de transformação, seguidos por equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos (-8,7%), produtos de metal (-4,0%), celulose, papel e produtos de papel (-2,7%), artefatos de couro, artigos para viagem e calçados (-7,1%), produtos têxteis (-5,6%), confecção de artigos do vestuário e acessórios (-4,3%) e bebidas (-2,6%).
No índice acumulado para jan-mai/26, frente a igual período do ano anterior, o setor industrial assinalou variação positiva de +1,4%, com resultados positivos em 8 dos 25 ramos, 28 dos 80 grupos e 42,1% dos 789 produtos pesquisados. Entre as atividades, as principais influências positivas foram registradas por coque, produtos derivados do petróleo e biocombustíveis (+5,1%), produtos farmoquímicos e farmacêuticos (+11,5%), de veículos automotores, reboques e carrocerias (+3,2%) e de produtos alimentícios (+1,3%).
Por outro lado, ainda na comparação com janeiro-maio de 2025, das atividades que apontaram redução na produção, a de máquinas e equipamentos (-8,8%) exerceu o maior impacto na formação da média da indústria, seguido por produtos químicos (-2,2%), produtos de metal (-4,1%), celulose, papel e produtos de papel (-3,0%), confecção de artigos do vestuário e acessórios (-5,8%), artefatos de couro, artigos para viagem e calçados (-6,5%) e equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos (-3,3%).
Utilização de Capacidade
A utilização da capacidade instalada da indústria de transformação, de acordo com a série da FGV com ajustes sazonais, teve recuo de -0,4 p.p. na passagem de abr/26 para mai/26, registrando patamar de 82,8%. Em jun/26, a capacidade instalada apresentou pequeno acréscimo de +0,2 p.p., ficando em 83,0%.
De acordo com os dados da CNI, a utilização da capacidade instalada cresceu +0,4 p.p. entre abr/26 e mai/26 (77,5%), considerando os dados livres de efeitos sazonais. Na comparação entre mai/25 e mai/26, essa variável registrou decréscimo de –0,6 pontos percentuais.
Estoques
De acordo com os dados da Sondagem Industrial da CNI, o indicador da evolução dos estoques de produtos da indústria total ficou em 49,5 pontos em mai/26, ficando praticamente estável frente a abr/26 (49,4 pontos). No caso do segmento da indústria de transformação, o indicador da CNI foi de 49,4 pontos em abr/26 para 49,6 pontos em mai/26. A indústria extrativa, por sua vez, recuou –2,1 p.p, (46,3 pontos) no mesmo período.
Para a indústria geral, o indicador de satisfação dos estoques foi de 48,9 pontos em abr/26 para 49,4 pontos em mai/26, sinalizando que os estoques estão menores que o desejado. Cabe lembrar que o nível de equilíbrio é de 50,0 pontos, visto que acima desse valor há excesso de estoques e abaixo dele, estoques menores do que o desejado. No caso do setor extrativo e no caso da indústria de transformação, o indicador de satisfação registrou 50,5 pontos e 49,5 pontos, respectivamente.
Em mai/26, apenas 44% dos ramos industriais apresentaram estoques maiores do que o planejado (acima de 50 pontos), acima do resultado do mês anterior (16,0%). Entre os ramos acima de 50 pontos em mai/26 ficaram: manutenção e reparação (60,0 pontos), móveis (53,1 pontos), calçados e borracha (ambos com 52,9 pontos), têxteis (52,2 pontos) e informática, eletrônicos e ópticos (51,9 pontos).
Por outro lado, ficaram abaixo e mais distantes do equilíbrio os seguintes ramos: impressão e reprodução (38,5 pontos), bebidas (42,4 pontos) e limpeza e perfumaria (44,0 pontos).
Confiança e Expectativas
O Índice de Confiança do Empresário da Indústria de Transformação da CNI registrou 47,1 pontos em jun/26, recuando -1,1 p.p. frente a mai/26. Na passagem de mai/26 para jun/26, o componente referente às expectativas em relação ao futuro foi de 50,8 para 49,6 pontos, passando para a zona de pessimismo. O componente que capta a percepção dos empresários quanto a evolução presente dos negócios caiu -0,8 p.p., mantendo-se na região pessimista (42,2 pontos).
O Índice de Confiança da Indústria de Transformação (ICI) da FGV, por sua vez, avançou +3,0 p.p. na passagem de mai/26 para jun/26, registrando 100,1 pontos, passando para a região de otimismo, ou seja, acima de 100 pontos.
O resultado de jun/26 foi influenciado pela alta tanto do seu componente referente às expectativas futuras, que passou de 95,6 pontos para 98,3 pontos em jun/26, quanto do índice da situação atual, que foi de 98,7 pontos para 102,1 pontos.
Outro indicador utilizado para avaliar a perspectiva do dinamismo da indústria é o Purchasing Managers’ Index – PMI Manufacturing, calculado pela consultoria Markit Financial Information Services, que teve movimento contrário. Em mai/26, ficou em 49,1 pontos, recuando para 50,8 pontos em jun/26, indicando melhora do quadro de negócios do setor.
















