Carta IEDI
Convergências sobre o Futuro do Brasil
A Agenda IEDI Brasil 2040, recentemente divulgada e sintetizada na Carta n. 1379, identificou um conjunto de ações para superar obstáculos que fazem o país investir pouco e ter produtividade estagnada há mais de três décadas. A indústria, mais intensiva em capital, depende muito de um ambiente favorável ao investimento produtivo, sem o qual perde competitividade e deixa de agregar valor como poderia.
Seja qual for o resultado das urnas em 2026, o atual momento é decisivo para mudar este quadro e potencializar as contribuições que a indústria pode dar para o desenvolvimento do país. Isso porque digitalização e inteligência artificial, transição energética e mudanças nas cadeias globais abrem oportunidades e o Brasil conta com vantagens para aproveitá-las: matriz energética limpa, recursos naturais estratégicos, agroindústria de classe mundial e uma indústria complexa e diversificada.
A agenda proposta pelo Instituto, vale reforçar, tem como objetivo final o progresso do país e de nossa população, sendo a indústria um meio incontornável a ser mobilizado. Isso passa pelo destravamento do investimento, com a redução do custo de capital e ampliação da infraestrutura, pelo resgate da capacidade de planejamento do Estado, pelo fortalecimento do ambiente jurídico-regulatório e do capital humano, entre outras alavancas que a compõem.
A Carta de hoje coloca a agenda do IEDI em perspectiva comparada com outros documentos recentemente divulgados sobre caminhos promissores para o futuro do Brasil. O exercício, sem a pretensão de ser exaustivo, priorizou manifestações de escopo amplo, evitando recortes setor-específicos, ainda que fossem pertinentes. O objetivo foi identificar convergências, pois é em torno delas que aumentam as chances de ações efetivas.
Analisamos, além do Brasil 2040, outros 14 documentos publicados por diversas entidades da sociedade civil: CNI, CDPP, CEBDS, Comunitas, Estrada para o Futuro (coordenado pelo ex-presidente Michel Temer), Roland Berger, LSE-CETEx/iCS, McKinsey, ABDIB, ABIMAQ, MBC, Abrasca, ANPEI e Anbima.
Todos compartilham a mesma tese: o crescimento econômico do Brasil não pode mais depender de estímulos ao consumo e da expansão do gasto público, e deve passar a ser liderado pelo investimento produtivo. Há amplo consenso em cinco pontos:
● o país investe pouco e tem baixa produtividade;
● o custo do capital é o principal obstáculo ao investimento de longo prazo;
● é necessário um ajuste fiscal, que deve vir da despesa, e não de novos tributos;
● a mão de obra do país necessita de maior qualificação;
● as agências reguladoras precisam de autonomia técnica.
Os documentos também convergem quanto às novas fronteiras produtivas (indústrias intensivas em energia; processamento de minerais críticos e biocombustíveis; hidrogênio verde/sustentável; biocombustíveis e SAF) e têm preferência por concessões e parcerias público-privadas (PPPs) na infraestrutura. A adesão à OCDE aparece em vários deles como âncora institucional.
Quando o grau de convergência entre os documentos se enfraquece, isso se dá muito em função de escopos mais restritos em alguns deles. Ou seja, a ausência de convergência abre margem para complementaridade.
Convergência e complementariedade são importantes, pois transformar o país exige visão política, foco, persistência e coordenação entre os setores público e privado, o que tem esbarrado, atualmente, em antagonismos ideológicos e no imediatismo do debate público.
Os documentos aqui analisados dão claro indicativo do anseio da sociedade civil organizada pela superação da polarização na esfera política e de seus esforços para que o Brasil volte a priorizar o que importa: o desenvolvimento socioeconômico do país.
As convergências entre os 15 documentos (Brasil 2040 e os 14 analisados) mostram que existe uma base comum para um projeto nacional estruturante, cujo objetivo final é aumentar a renda da população, melhorar sua qualidade de vida e respeitar o meio ambiente.
Introdução
A Carta IEDI de hoje resgata a mensagem principal do documento Brasil 2040, que foi elaborado pelo IEDI, com apoio técnico da Bain & Company e do CEAPG/EAESP-FGV, e identifica pontos de convergência com outros documentos propositivos recentemente divulgados por instituições de diferentes naturezas.
Sem a pretensão e ser um exercício exaustivo, priorizamos manifestações de escopo amplo, evitando recortes muito setoriais, ainda que fossem pertinentes. O objetivo de identificar convergências se justifica, pois é em torno delas que aumentam as chances de ações efetivas.
Assim, além do Brasil 2040, foram analisados outros 14 documentos publicados por diversas entidades da sociedade civil: CNI, CDPP, CEBDS, Comunitas, Estrada para o Futuro (coordenado por Michel Temer), Roland Berger, LSE-CETEx/iCS, McKinsey, ABDIB, ABIMAQ, MBC, Abrasca, ANPEI e Anbima.
A análise comparativa revelou um expressivo consenso em torno da necessidade de um crescimento econômico liderado pelo investimento privado.
Há ampla concordância quanto à responsabilidade fiscal, ao papel determinante da autonomia das agências reguladoras, ao enfrentamento do “Custo Brasil”, à necessidade de melhorar a qualificação dos trabalhadores e ao aproveitamento de novas fronteiras produtivas, como os biocombustíveis, os minerais críticos e as atividades em torno da descarbonização.
Essa convergência demonstra que, a despeito dos desafios de implementação e dos dissensos políticos, existe uma base sólida de propostas compartilhadas para orientar o país rumo a um futuro mais competitivo, inclusivo e sustentável.
Agenda IEDI Brasil 2040: alavancas para o desenvolvimento do país
Nos últimos trinta anos, a sociedade brasileira conseguiu se organizar em torno de dois grandes projetos políticos que trouxeram conquistas substanciais para o país. Nos anos 1990, vencemos o quadro crônico de inflação e nos abrimos mais para a economia mundial, tanto do ponto de vista financeiro como comercial. Nos anos 2000, logramos reduzir a pobreza e superar vulnerabilidades externas, por meio da exportação de bens primários e do grande acúmulo de reservas internacionais.
Em ambos os modelos, esperava-se que o Brasil pudesse retomar uma trajetória sustentada de crescimento econômico baseado em taxas de investimento mais robustas. No primeiro, o fim da desorganização da vida econômica provocada pela inflação e o acesso a capital e equipamentos modernos do exterior ensejariam um ciclo longo de investimentos produtivos. No segundo, a dinamização do mercado interno por meio das políticas redistributivas contribuiria para o aumento da demanda que justificasse novos projetos de investimentos. Não foi isso o que ocorreu.
O patamar médio de 22% do PIB que a taxa de investimento do Brasil atingiu nas décadas de 1970 e 1980 nunca mais se repetiu e, quando se aproximou disso, não durou muito tempo. Nos últimos cinco anos, a média nacional foi de 17%, segundo o IBGE. Este é um desempenho que nos coloca muito atrás do restante do mundo.
De uma lista de 140 países com dados disponíveis no Banco Mundial, aparecemos em 119º lugar no ranking das maiores taxas médias de investimento no período 1995-2024. Os países asiáticos, cuja performance tem chamado tanta atenção, têm uma taxa de investimento duas vezes maior do que a nossa.
Sem investimento, não construiremos um país melhor para os brasileiros. Por isso, o IEDI defende que o investimento deixe de ser considerado um efeito colateral ou indireto de projetos políticos e se torne a prioridade de uma nova estratégia de desenvolvimento para o país. Com isso, não queremos dizer que a estabilidade de preços ou a distribuição de renda e redução da pobreza não sejam importantes, mas insistimos que é chegada a hora de criarmos as condições necessárias para alavancar o investimento.
E por que investir? Porque é a forma de construirmos a competitividade necessária para enfrentar a concorrência internacional, gerando empregos e renda em nosso país. Porque é peça-chave para o aumento da produtividade, que dará condições materiais para a melhora da qualidade de vida da população. E porque é por meio do investimento que criaremos as competências tecnológicas e produtivas necessárias para enfrentar os efeitos do envelhecimento populacional e da transição climática, bem como para aproveitar as oportunidades que estas transformações nos abrem.
A indústria é o setor que mais precisa de um ambiente propício ao investimento, dado o envelhecimento de seu parque produtivo e as pressões concorrenciais que sofre nos mercados doméstico e internacional. Este quadro tem aprofundado a chamada “desindustrialização” do Brasil, que é prematura e prejudicial, uma vez que atinge todos os ramos industriais, inclusive os mais intensivos em tecnologia, como o IEDI tem mostrado em muitos de seus estudos, a exemplo da Carta n. 940.
Sem indústria, a expansão dos serviços modernos fica restringida e a agropecuária, por mais que avance, não é capaz sozinha de criar os encadeamentos produtivos necessários para alavancar o desenvolvimento socioeconômico do país.
No documento Brasil 2040, o IEDI reconhece a necessidade da mudança do padrão de crescimento econômico do país – até então muito calcado no consumo interno e na proteção da produção nacional –, o que envolverá medidas mais rapidamente acionáveis e também reformas institucionais, cuja maturação levará algum tempo. Ao visar a um horizonte de mais longo prazo, buscamos compartilhar orientações em que o Instituto acredita e em torno das quais o país poderia criar alguma convergência para voltar a ter uma visão estratégica.
Destravar o investimento é uma tarefa multifatorial, dada a complexidade das decisões envolvidas. Vai de fatores objetivos como o preço de uma máquina ou equipamento até aspectos subjetivos, como a confiança dos empresários. Vale destacar que o acesso a capital em condições adequadas de custo e prazo é um parâmetro fundamental. O Brasil, entretanto, acomodou-se, ao longo das últimas décadas, a aceitar fora do lugar uma das variáveis mais decisivas: a taxa de juros.
Tal anomalia gerou expedientes igualmente distorcivos na busca por compensações, ainda que parciais, por meio de subsídios, taxas favorecidas e outros tipos de incentivos para alguns setores. O IEDI entende que não devemos mais adiar o enfrentamento dessa barreira ao desenvolvimento.
Trata-se não apenas de reduzir a taxa de juros básica, a Selic, definida pelo Banco Central, que em geral aparece como uma das mais elevadas do mundo, mas também de reduzir o conjunto das taxas de juros de mercado, que são acrescidas de margens, impostos e spreads. São estas que importam para o setor produtivo e que hoje inviabilizam muitos projetos e comprometem a saúde financeira de empresas e famílias.
Reduzir juros é retirar um grande obstáculo para o crescimento liderado pelo investimento. Nesse cenário, a infraestrutura, cujos projetos já se multiplicaram nos últimos anos, é forte candidata para puxar a nova fase de inversões.
O atraso que se acumula na área é enorme. Ao longo da próxima década, deveríamos investir quase o dobro do que estamos investindo hoje para fazer frente às necessidades do país, segundo a ABDIB. O IEDI reconhece na melhoria da infraestrutura um indutor da produção nacional, notadamente da indústria, e promotor da nossa produtividade. É crescimento hoje e melhora das condições de oferta amanhã.
O progresso nessas duas frentes, que, vale observar, respondem por cerca de um terço do “Custo Brasil”, segundo o Movimento Brasil Competitivo (MBC), exigirá maior eficácia do Estado brasileiro. Em primeiro lugar, porque a redução dos juros básicos – e, consequentemente, a melhora das condições de financiamento da economia – demanda um efetivo equacionamento dos desequilíbrios fiscais, com a contenção de despesas e maior controle sobre emendas parlamentares e também sobre a qualidade do gasto público. Reequilibrar as contas públicas é fundamental para reduzir os juros elevados do país.
Mais do que um ajuste fiscal conjuntural, contudo, o que precisamos é resgatar o papel de planejamento de médio e longo prazo do orçamento público, inclusive para assegurar espaço para as inversões do Estado. O Plano Plurianual não se mostra mais capaz de estruturar compromissos intertemporais e o planejamento estratégico é premido por vinculações, indexações e rigidez orçamentária.
Em segundo lugar, porque o ambiente regulatório importa muito para quem investe, em especial na infraestrutura. Exemplo disso foi o novo marco do saneamento, que, entre 2020 e 2025, elevou em quase 150% os investimentos na área. Portanto, é urgente reforçar as agências reguladoras, sobretudo em seu caráter técnico, mas também tecnológico, para que seus processos sejam mais céleres.
Atualmente, o investimento produtivo no Brasil é desnecessariamente encarecido pela lentidão do processo de autorizações, muitas vezes envolto em disputas judiciais intermináveis entre órgãos da União e entre estes e seus congêneres estaduais e municipais. Na origem disso, estão morosidade e incoerências derivadas da complexidade regulatória de órgãos como IBAMA, IPHAN, FUNAI, TCU e o conjunto de agências reguladoras, como ANEEL, ANATEL, ANP, ANVISA, ANTT, ANAC etc.
Outros aspectos da reforma do Estado brasileiro são importantes, como a reforma administrativa, o monitoramento e avaliação de políticas públicas e a continuidade do aperfeiçoamento de nosso sistema tributário, e mereceram uma análise dedicada na agenda Brasil 2040 do IEDI.
À medida que caminharmos nesta direção, permitiremos que a indústria brasileira volte a desempenhar plenamente sua função de vetor do desenvolvimento. Os atributos do setor, a despeito de todas as adversidades, ainda são notáveis. Responde por quase 70% dos investimentos privados em P&D, tem produtividade 20% acima do agregado nacional e salários 10% maiores do que a média. A cada R$ 1,00 em bens industriais produzidos, induz um aumento de R$ 2,20 da produção total da economia brasileira. Mas poderia ser muito mais.
A retomada da indústria brasileira tem pressa porque estamos em um momento histórico decisivo. A inteligência artificial e a digitalização estão redefinindo processos produtivos em velocidade sem precedentes. A transição energética e movimentações geopolíticas recentes estão reorganizando cadeias globais de valor de forma estrutural. As grandes economias não esperam: EUA, Europa e China já reposicionaram suas estratégias industriais em torno dessas transformações.
O Brasil conta com diferenciais competitivos relevantes que, se bem aproveitados, podem nos levar a uma performance superior: uma matriz energética limpa, riqueza em recursos naturais estratégicos, competência agroindustrial de classe mundial e uma indústria que, quando comparada à de outros países, apresenta destacado nível de complexidade e diversificação. O que precisamos é efetivar estes potenciais em cadeias nas quais tenhamos condições de competir globalmente.
Para isso, também são necessárias ações de aceleração do investimento industrial em ao menos três frentes: (1) modernização do parque produtivo em direção à digitalização, automação inteligente e eficiência energética, com o objetivo de rompermos com o quadro de estagnação da produtividade industrial, respeitando uma trajetória descarbonizante; (2) ampliação da pesquisa, desenvolvimento e inovação, para que possamos expandir negócios com maior captura de valor; (3) constituição ou adensamento de cadeias produtivas estratégicas em torno de vantagens que já detemos e com perspectiva de expansão, notadamente no mercado mundial.
Um exemplo nítido da sinergia dos temas aqui abordados se dá na área de energia, em que subsídios injustificados encarecem a conta de luz, corroendo a vantagem do baixo custo de geração de energia limpa do país. Ao mesmo tempo, a falta de infraestrutura priva a indústria brasileira do acesso ao gás natural, encarecendo um insumo básico para diversos setores e para a redução de emissões de CO2 de atividades hard-to-abate, comprometendo a competitividade industrial. Uma peculiar habilidade de transformar vantagem em custo.
É importante destacar que faz parte do fortalecimento da indústria brasileira sua maior e melhor integração internacional. As profundas mudanças da governança do comércio mundial a que temos assistido recentemente demandam mais agilidade da nossa política externa e maior diversificação de nossas relações comerciais quanto a destinos e produtos exportados.
A maior integração da indústria demanda também a redução das barreiras à importação de insumos, produtos intermediários e bens de capital, de modo a se ter acesso a máquinas, equipamentos e componentes de última geração com preço internacional. A escolha de onde investir é essencial para evitarmos o acúmulo histórico de erros de políticas que mudam de nome de tempos em tempos, mas que, na essência, privilegiam os mesmos setores, sem resultados para o desenvolvimento.
Não é prudente mantermos uma pauta de exportação concentrada em poucos produtos primários direcionados a poucos países. A indústria, que precisa exportar mais, é um veículo para esta diversificação. Seu desafio é integrar-se às cadeias de valor, importando para reexportar, o que só ocorrerá com ganho de competitividade, avanços na infraestrutura de transporte e logística e reduções de barreiras às importações.
Os acordos internacionais, que envolvem não apenas reduções de tarifas, mas também a definição de padrões, normas, certificações e critérios ambientais, continuam sendo um caminho a trilhar, agora com um peso crescente das negociações bilaterais.
Estreitar vínculos com o mercado exterior é estratégico não apenas porque é salutar a exposição à concorrência e porque podemos acessar tecnologia e insumos modernos, mas também porque a demanda internacional impulsiona as escalas de produção, contribuindo para ganhos de produtividade. Uma integração maior e mais equilibrada entre exportação e importação é o que o IEDI sempre defendeu para nossa indústria.
A ampliação e renovação do capital físico em operação no país estará incompleta se não investirmos em capital humano, não apenas como fator de produção, mas também porque uma indústria mais moderna e inovadora demanda pessoas capacitadas para operar maquinário mais complexo, desenvolver tecnologia e gerar conhecimento aplicado. O espaço para aprimoramento de políticas públicas na área é bastante conhecido e, em alguns casos, como o da educação, há urgência, pois os efeitos positivos podem levar uma geração para se manifestar plenamente.
Em paralelo, é necessário que o capital humano possa ser adequadamente mobilizado pelas empresas em novos processos produtivos, decorrentes da difusão de inovações e da atualização tecnológica do setor empresarial. Isso implica relações de trabalho mais flexíveis, adequadas às funções emergentes e coerentes com as preferências da população na organização de sua vida profissional.
Prever expressamente o trabalho multifunção e simplificar as normas aplicáveis a contratos de curto e médio prazo são medidas que favoreceriam a mobilização de recursos humanos necessários às novas formas de produzir, reduzindo a insegurança jurídica e ampliando o espaço de formalização com flexibilidade, sem prejudicar o trabalhador.
A equação que resgata a posição central do investimento não poderia deixar de considerar aspectos da mais dura realidade do país. Atualmente, concorrência desleal, informalidade e “contrabando legalizado” por meio de estratégias de elisão fiscal na importação de bens desincentivam o investimento no país, agravando um quadro muito adverso em função das elevadas taxas de juros e dos atrasos impostos pela ineficiência regulatória já mencionados.
É preciso assegurar a existência do que podemos qualificar de “estabilizadores” do ambiente concorrencial, o que envolve a contenção da informalidade e o firme combate à escalada do crime organizado, cujos efeitos econômicos nem sempre são enfatizados pelo debate público (como visto na Carta IEDI n. 1326), bem como a promoção da segurança jurídica. Sem previsibilidade contratual e estabilidade das regras que se façam cumprir por todos, o capital privado de longo prazo não flui adequadamente para a esfera produtiva, independentemente da atratividade dos ativos.
Custo de capital competitivo, investimento eficiente em capital humano e um ambiente jurídico-regulatório seguro constituem o tripé fundamental para retomarmos o crescimento da produtividade, estacionada há mais de 30 anos. É só com o aumento da produtividade que os anseios da população por um nível maior de renda e jornadas menores de trabalho serão sustentáveis ao longo do tempo.
A proposta que o IEDI defende no Brasil 2040 não será de fácil implementação. Embora já existam iniciativas em alguns temas tratados, inclusive materializadas em projetos de lei em discussão, será necessária a construção de uma maior convergência política, foco, persistência e muita coordenação público-privada.
O desperdício de energia a que temos assistido, com nossa classe política rotineiramente dragada para debates centrados em medidas pontuais, com efeito paliativo, visão de curto prazo e muitas vezes desconectadas dos interesses da maioria da sociedade brasileira, precisa ter fim. Essa situação interdita o avanço das pautas estruturantes e é agravada pelo quadro de polarização política, em que o boicote ao adversário vale mais do que a busca de acordos para que o país avance.
Neste momento em que o mundo passa por transformações profundas e em que o futuro muitas vezes parece incerto, a coesão nacional em torno de um projeto estruturante é imprescindível. O documento Brasil 2040 é uma contribuição do IEDI ao diálogo necessário à realização desta tarefa.
O objetivo final, vale reforçar, é o enriquecimento da nossa população, a melhoria da sua qualidade de vida e o respeito ao meio ambiente. É o que atingiremos com a renovação de nosso sistema industrial e a aceleração da produtividade ao criarmos um ambiente propício ao investimento.
Visões compartilhadas para o futuro do Brasil
O IEDI efetuou um levantamento de documentos elaborados por instituições de diferentes naturezas, incluindo entidades patronais, organizações civis sem fins lucrativos, bem como consultorias, centros e instituições de pesquisa, que, motivadas pelo atual ciclo eleitoral, explicitaram suas visões e propostas para o desenvolvimento do Brasil. Para cada um dos 14 documentos analisados, o Instituto procurou identificar a tese central e a existência de convergências em relação a um conjunto de temas importantes para o país.
Construindo o Brasil 2050. O documento elaborado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), assim como o IEDI, parte do diagnóstico de que o modelo de crescimento baseado em estímulo ao consumo e endividamento público se esgotou.
Defende que o desenvolvimento sustentado do Brasil até 2050 depende da conversão da política industrial em uma política de Estado — perene, contínua e com governança consolidada, a exemplo do papel do Plano Safra no agronegócio.
A tese central é que a estabilização fiscal é condição necessária, mas não suficiente. O crescimento sustentado só ocorrerá se acompanhado de aumento contínuo da produtividade sistêmica, com governança estável, segurança jurídica e valorização do papel da indústria como motor econômico e social do país.
A estratégia de crescimento proposta está organizada em quatro eixos:
● política industrial e desenvolvimento produtivo (institucionalização de política de Estado, inovação tecnológica, aproveitamento de vantagens comparativas na transição energética);
● consolidação e âncora macroeconômica (foco no lado da despesa, plano plurianual de consolidação fiscal, revisão de rigidez orçamentária);
● agenda microeconômica de redução do “Custo Brasil” (implementação eficiente da reforma tributária, adesão à OCDE como âncora institucional, fortalecimento de agências reguladoras); e
● produtividade/capital humano (educação básica e técnica, planejamento de infraestrutura).
Estrada para o Futuro. O documento organizado e coordenado pelo ex-presidente Michel Temer, com a colaboração de 17 especialistas e ex-ministros, é uma coletânea de ensaios sobre um conjunto amplo de temas: energia, agro, segurança pública, educação, trabalho, política econômica, política externa, defesa, saúde e tecnologia. Seu objetivo central é apresentar um plano de metas transparente e despolarizado que sirva de guia para candidaturas e governos, superando a radicalização política e promovendo estabilidade institucional e econômica.
A proposta-âncora é a criação de um “Pacto Republicano” nos primeiros dez dias de governo, reunindo os três Poderes, a oposição e a sociedade civil, como pré-condição política para atrair investimentos internos e externos e viabilizar reformas.
Por ser uma coletânea plural, o documento não tem uma tese econômica única e sistêmica como os demais (não fixa metas quantitativas nem hierarquiza alavancas), mas os capítulos convergem na defesa de disciplina fiscal permanente (restabelecimento do teto de gastos), fortalecimento da autonomia técnica das agências reguladoras e segurança jurídica como pré-condições de investimento, ao lado de propostas setoriais específicas em energia, agro, trabalho, tecnologia e política externa.
Caminhos do Desenvolvimento. O documento publicado pelo Centro de Debate de Políticas Públicas (CDPP), sob a coordenação de Marcos Mendes, Fernando Veloso e Vinícius Botelho, parte da tese de que o Brasil enfrenta três problemas interligados que se retroalimentam: desequilíbrio fiscal crônico, baixa eficácia das políticas sociais e baixa produtividade.
A causa subjacente desses problemas seria institucional: a captura da coisa pública por interesses privados organizados (lobbies setoriais, categorias do funcionalismo, estados/municípios, Judiciário via judicialização), configurando uma “sociedade de baixa coesão social”.
Na interpretação dos autores, o ciclo vicioso descrito tem três nós: o desequilíbrio fiscal gera inflação e juros altos, corroendo o poder de compra e forçando cortes em investimentos produtivos; a ineficácia das políticas sociais transfere renda para famílias de classe média/alta em detrimento dos mais vulneráveis, desincentivando o trabalho formal; e a baixa produtividade é travada por subsídios, benefícios tributários a setores com poder de lobby, burocracia e insegurança jurídica.
Somente o crescimento impulsionado por ganhos de produtividade e controle do desequilíbrio fiscal, e não por incentivos artificiais ao consumo, garante uma inclusão sustentada. Um ajuste fiscal estimado em 4 p.p. do PIB (podendo chegar a 6,8 p.p. até 2036), do qual cerca de 70% do esforço viria do lado da despesa, é condição necessária para estabilizar, alavancar a produtividade e incluir.
Visão Brasil 2050. O documento elaborado pela consultoria Roland Berger apresenta uma agenda estratégica para impulsionar o crescimento sustentável, o investimento e a produtividade da economia brasileira a longo prazo. O estudo projeta que o Brasil pode se tornar a 5ª maior economia do mundo até 2050, caso o país “coloque a casa em ordem” e aproveite megatendências globais.
A tese central contrapõe dois cenários: um caso-base (continuidade das últimas décadas, crescimento de cerca de 1,5% a.a., PIB per capita de US$ 15 mil — nível de México/Chile/Argentina hoje) e um caso aspiracional (crescimento de 4,0% a.a., PIB per capita de US$ 28 mil — nível de Grécia/Portugal hoje), que colocaria o Brasil na 5ª posição global, disputando diretamente a 4ª com a Alemanha.
Segundo o estudo, com o envelhecimento populacional, a força de trabalho brasileira deve encolher a partir de 2030. Nesse cenário, todo o ganho adicional de produtividade (2,2 p.p.) precisaria vir de cinco alavancas:
● aprofundamento de capital (isto é, investimento);
● qualidade regulatória;
● efetividade governamental;
● redução da informalidade;
● educação.
O relatório enfatiza que nenhuma das barreiras associadas a essas cinco alavancas é estrutural ou intransponível — todas têm precedentes de sucesso dentro do próprio Brasil (Pix, Lei do Saneamento, gov.br, MEI, Ideb do Ceará) —, sustentando a tese de que o cenário aspiracional de 4% ao ano é “ambicioso, mas alcançável”.
À superação dessas barreiras se soma o aproveitamento de três megatendências globais nas quais o Brasil já parte de vantagem comparativa real: demanda global por alimentos, transição energética e minerais críticos. O elo entre as três megatendências é que o real ganho de valor está em avançar na cadeia produtiva (processamento, refino, manufatura) e não apenas exportar commodities brutas.
Brazil’s investment-led growth in the ecological transition. O documento elaborado por pesquisadores vinculados ao Centre for Economic Transition Expertise (CETEx) da London School of Economics (LSE), ao Instituto Clima e Sociedade (iCS) e à Fundação Getulio Vargas (FGV) propõe uma mudança no paradigma de desenvolvimento do Brasil. Os autores argumentam que os modelos passados (industrialização protecionista, exploração intensiva de recursos e políticas fiscais expansionistas) se esgotaram e não geraram ganhos sustentáveis de produtividade ou estabilidade.
A tese central é que o ajuste fiscal é necessário, mas não suficiente — um crescimento liderado pelo consumo não gera produtividade nem transformação estrutural —, e que o Brasil deve romper a lógica sequencial tradicional (estabilizar para depois crescer), adotando a coordenação simultânea de políticas macro e microeconômicas.
De acordo com o estudo, o Brasil possui dotações estruturais (energia limpa, capital natural, capacidade agrícola, minerais críticos, neutralidade geopolítica relativa) que deixaram de ser vantagens passivas e podem se tornar “ativos-instrumento” para atrair investimento privado e investimento direto estrangeiro (IDE) em larga escala. O objetivo central é industrializar as vantagens comparativas do país.
Nesse sentido, os autores defendem uma estratégia impulsionada pelo investimento produtivo, priorizando quatro setores de entrada (aço verde, SAF/biocombustíveis, hidrogênio verde, processamento de minerais críticos), com o Nordeste como território-piloto para “Corredores Verdes”.
A estratégia proposta combina consolidação fiscal gradual com instrumentos catalisadores (fundos verdes, garantias públicas, blended finance, hedge cambial) para atrair capital privado para os setores com vantagem comparativa dinâmica, em um processo denominado powershoring — a relocalização de etapas fabris intensivas em energia para países onde a eletricidade limpa é estruturalmente mais barata.
Tecnologia e IA como alavancas de impacto e produtividade para o setor de indústrias avançadas. O documento publicado pela consultoria McKinsey é um estudo setorial focado na adoção de tecnologia e inteligência artificial (IA) nas “Indústrias Avançadas” (setores automotivo, semicondutores, eletrônicos, aeroespacial e defesa).
A tese central é que o Brasil enfrenta um ponto de inflexão decisivo em seu crescimento econômico, e que a adoção sistêmica de novas tecnologias — com destaque para IA, automação avançada e análise preditiva — constitui a principal engrenagem para superar o histórico gargalo de produtividade industrial brasileira, que caiu cerca de 7% desde 2014 (enquanto a da agricultura subiu 57%), e destravar o investimento produtivo na indústria e na economia nacional. De acordo com a McKinsey, a tecnologia e a IA teriam potencial de elevar a produtividade em 1,9 a 2,3 p.p. e gerar US$ 18 bilhões a 23 bilhões por ano em valor para as indústrias avançadas.
O estudo, baseado em pesquisa junto a mais de 30 grandes empresas, mostra maturidade digital de 64% (vs. 72% global), com estratégia e capacidades relativamente maduras, mas execução travada no “purgatório dos pilotos” (apenas 24% das iniciativas de modernização tecnológica e de aplicação de IA ganham escala). Por seu recorte temático, o documento não aborda os temas fiscais e institucionais que estruturam os demais relatórios (ajuste fiscal, reforma tributária, segurança jurídica ampla, formalização/combate à ilegalidade), tratando-os no máximo como menções laterais ao diagnosticar o “Custo Brasil”.
Pacto Brasil de Futuro. O documento elaborado pela Comunitas, entidade do terceiro setor e think tank na área de gestão pública e parcerias público-privadas, reúne propostas dirigidas a candidatos e governos nos três níveis federativos (presidente, governadores e prefeitos), organizadas em cinco eixos estratégicos: Política Econômica, Equilíbrio Fiscal, Eficiência do Estado, Política Social e Segurança Pública.
A visão de futuro defendida no documento é que as pessoas tenham oportunidades e condições para protagonizar uma vida saudável e próspera de sua escolha, com uma meta-síntese de crescimento acumulado da renda domiciliar per capita de 6,8% até 2030 e a garantia de que ninguém tenha renda inferior a meio salário-mínimo.
A lógica argumentativa central é que produtividade e qualidade institucional são a verdadeira força motriz do crescimento, e que desigualdade e baixo crescimento compartilham a mesma origem: a captura institucional por grupos de interesse que distorce tributação, regulação e crédito.
Por isso, a Comunitas propõe romper esse ciclo com estabilidade macroeconômica, segurança jurídica e eficiência do Estado tratadas como pré-condições para o investimento, a produtividade e a política social. Na visão da Comunitas, o papel do Estado deve limitar-se à criação de ambiente institucional propício, e não à escolha de setores vencedores.
Carta aos Presidenciáveis. Divulgada pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), é um documento setorial-ambiental, organizado em três eixos: Proteger e Restaurar a Natureza; Transformação Produtiva e Inovação Verde; Financiar a Transformação. Como tal, não aborda temas fiscais/institucionais que estruturam outros documentos mais amplos.
O segundo eixo (Transformação Produtiva e Inovação Verde) parte do compromisso brasileiro de neutralidade de carbono até 2050 e defende que essa transição ocorra “de forma ordenada, garantindo segurança, confiabilidade e acesso à energia” — ou seja, não como imposição regulatória, mas como estratégia de competitividade industrial.
A tese central é que floresta em pé, matriz elétrica limpa e bioeconomia são “a maior infraestrutura econômica” do país, e que o crescimento deve vir da conversão dessa riqueza natural em valor via investimento privado de longo prazo, sustentado por regras de Estado (não de governo).
O fio condutor do Eixo 2 é que a energia renovável estável viabiliza a reindustrialização via eletrificação e biocombustíveis, que se conecta a cadeias de bioeconomia de maior valor agregado, sustentadas por P&D e capacitação, sempre com o mesmo objetivo declarado: converter vantagem comparativa natural em vantagem competitiva industrial duradoura, monitorada pela intensidade de carbono da economia.
Agenda de Propostas para a Infraestrutura. O documento foi publicado pela Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (ABDIB), entidade que reúne empresas dos setores de energia, transporte/logística, saneamento, resíduos, óleo e gás e infraestrutura social e digital.
A tese central é que o Brasil precisa romper com décadas de estagnação e baixo crescimento redefinindo sua estratégia de desenvolvimento em torno de três pilares estruturantes — investimento em infraestrutura, educação e reindustrialização —, o que só é viável com um ajuste fiscal que recomponha o espaço para investimentos públicos, hoje asfixiados por despesas correntes obrigatórias, indexações, benefícios previdenciários/assistenciais crescentes e emendas parlamentares sem critério.
O diagnóstico de fundo é que o país tem uma janela de oportunidade rara: está descolado dos grandes conflitos bélicos, possui matriz elétrica limpa, grande hiato de infraestrutura a preencher, portfólio de projetos estruturados e papel de liderança possível na transição energética global. Mas que essa janela só será aproveitada se forem destravados simultaneamente:
● o espaço fiscal para investimento público complementar ao privado;
● a segurança jurídica e regulatória para o investidor de longo prazo;
● o custo de capital, hoje excessivo pela taxa de juros; e
● uma política industrial coordenada com a política macroeconômica (câmbio, juros, tributação).
Estabilidade e competitividade. O documento elaborado pela Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (ABIMAQ) argumenta que o Brasil enfrenta há décadas dificuldades para sustentar ciclos prolongados de crescimento devido à combinação de desequilíbrios macroeconômicos persistentes (fiscais, monetários e externos) com fragilidades estruturais no ambiente de negócios, o chamado “Custo Brasil”.
A tese central é que a retomada do crescimento sustentado depende de uma estratégia nacional permanente de desenvolvimento — uma Política de Estado que transcenda o ciclo de governo 2027-2030 — capaz de elevar a taxa de investimento e a produtividade por meio de quatro eixos integrados:
● estabilidade macroeconômica e redução do custo do capital;
● competitividade sistêmica;
● educação e capital humano; e
● aumento do investimento aliado à modernização e inovação.
O documento da ABIMAQ é particularmente detalhado no diagnóstico da defasagem do parque produtivo nacional (idade média das máquinas industriais de 14 anos, 38% no fim do ciclo de vida) e na proposta de alterar o mandato do Banco Central (Lei Complementar 179/2021) para equilibrar estabilidade de preços e pleno emprego como objetivos igualmente fundamentais, nos moldes do Federal Reserve dos Estados Unidos e do Banco Central da Austrália.
Agenda de Inovação. A agenda elaborada pela Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (ANPEI) é estruturada em torno da política de Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I). A mensagem central do documento é que a inovação deve se tornar política de Estado, com continuidade acima de ciclos eleitorais, superando quatro gaps transversais:
● fragmentação entre instrumentos e etapas da trajetória de inovação;
● fraca execução, rastreabilidade e avaliação;
● desigualdade de acesso (pequenas e médias empresas - PMEs, startups, regiões menos densas); e
● baixa capacidade institucional, com descontinuidade de políticas.
O documento analisa a Lei do Bem, a Nova Indústria Brasil (NIB) e o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), bem como discute os temas de Inteligência Artificial, Capital Humano, Transição Ecológica e Propriedade Intelectual.
Apoiado em um benchmarking internacional, o estudo mostra que a intensidade de P&D/PIB brasileira está praticamente estagnada — de 1,05% (2000) para apenas 1,23% (2024) —, com o gap concentrado no financiamento empresarial (0,58% do PIB, ante 4,02% da Coreia do Sul), não no financiamento público.
A tese é que os instrumentos existentes, como a Lei do Bem, a NIB, o FNDCT, funcionam, mas sofrem de fragmentação, descontinuidade e barreiras de acesso, que precisam ser corrigidas para elevar a escala do investimento privado em P&D.
Agenda para o Desenvolvimento do Mercado de Capitais Brasileiro. O documento preparado pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) apresenta um diagnóstico sobre o papel do mercado de capitais brasileiro na promoção do crescimento de longo prazo e um roteiro de recomendações para o poder público, os reguladores e os agentes privados.
A tese central é que o mercado de capitais brasileiro viveu um “ciclo virtuoso” nos últimos oito anos, elevando o estoque de financiamento via mercado de capitais de 54% do PIB (2018) para 68,5% do PIB — R$ 8 trilhões em 2025 —, consolidando-se como fonte essencial do financiamento produtivo e de infraestrutura no país. A sustentação dessa trajetória, porém, exige superar desafios como o custo de capital elevado, entraves operacionais e a necessidade de atrair e diversificar novos perfis de investidores (estrangeiros e entidades de previdência).
O documento é estruturado como um conjunto de posicionamentos temáticos: PMEs, infraestrutura, agronegócio, imobiliário, previdência, capital estrangeiro, novas fronteiras — ESG/carbono, ativos digitais, novas tecnologias —, educação financeira, arcabouço tributário e desenho institucional dos reguladores.
Defende que, para sustentar a trajetória positiva acima descrita, é preciso reduzir o “Custo Brasil”, modernizar a originação de crédito, fortalecer a governança das empresas financiadas, dar continuidade à reforma tributária e assegurar reguladores autônomos combinados com autorregulação.
Compromissos para um Brasil Competitivo. O documento do Movimento Brasil Competitivo (MBC), que reúne empresas de diversos setores, aponta entraves estruturais que limitam a capacidade do país de investir, inovar e crescer: regulação, infraestrutura, mão de obra, tributação, energia, acesso ao capital, digitalização e segurança pública. Esses entraves compõem o “Custo Brasil”, estimado em R$ 1,7 trilhão ao ano (19,5% do PIB). Eles se refletem em investimento de 16,8% do PIB, produtividade estagnada desde 2010 e na 65ª posição entre 70 países no ranking de competitividade do International Institute for Management Development (IMD). A esse quadro se somam o desequilíbrio fiscal estrutural e juros reais próximos de 10%.
A tese central é que esses gargalos são sistêmicos e interdependentes, e por isso não se resolvem com reformas isoladas. A saída seria uma agenda de Estado multissetorial, com metas quantificadas e coordenada a partir do centro de governo. Essa agenda tem três metas para 2030: elevar o investimento a 20% do PIB, reduzir o “Custo Brasil” em 25% e colocar o país entre os 30 mais competitivos do ranking do IMD.
As recomendações do MBC organizam-se em sete compromissos:
● finanças públicas sustentáveis, com superávit primário de 1,5% do PIB até 2030, contenção das despesas obrigatórias e desindexação em relação ao salário-mínimo, além de uma reforma tributária que preserve a carga no consumo e torne a tributação da renda mais progressiva;
● governança regulatória alinhada aos padrões da OCDE;
● qualificação da mão de obra, com expansão da educação profissional e modernização trabalhista;
● diversificação da matriz logística por meio de concessões e do Programa de Parceria de Investimento (PPI);
● energia mais barata, com redução de encargos elétricos e de 40% no preço do gás;
● combate à ilegalidade e ao crime organizado; e
● transformação digital, com foco em inteligência artificial e digitalização do Estado.
As empresas como eixo estratégico do crescimento brasileiro. O documento da Associação Brasileira das Companhias Abertas (Abrasca) parte de um contraste: as 270 maiores companhias abertas responderam por 17,9% do PIB em 2024, mas o mercado de capitais segue aquém de seu potencial. O valor de mercado das empresas equivale a cerca de 30% do PIB, e o país passou quase cinco anos sem uma abertura de capital. O dinamismo recente ficou restrito ao mercado de dívida, com recorde de R$ 963 bilhões em ofertas em 2025, apoiado em grande parte por títulos isentos de Imposto de Renda.
A tese central é que o mercado de capitais deve ser tratado como política de Estado, por ser canal essencial para transformar poupança em investimento produtivo. Para a Abrasca, o principal obstáculo é fiscal: a incerteza sobre a dívida pública mantém os juros reais entre os dois mais altos do mundo, encarece o capital das empresas e inviabiliza projetos. Por isso, crescimento empresarial e sustentabilidade fiscal são partes de uma mesma estratégia.
A Abrasca propõe cinco compromissos aos candidatos:
● tratar o mercado de capitais como política de Estado, ampliando o acesso das empresas ao financiamento e à bolsa;
● simplificação tributária neutra, sem aumento de carga e com cautela em mudanças na tributação de dividendos, juros sobre capital próprio (JCP) e instrumentos de dívida isentos;
● segurança jurídica e concorrência leal, com combate ao crime organizado e aos devedores contumazes;
● ajuste fiscal pelo lado do gasto, como condição para reduzir de forma duradoura os juros e o custo de capital; e
● uma Comissão de Valores Mobiliários (CVM) forte, com regulação proporcional, e o desenvolvimento do mercado de dívida corporativa.
Convergência programática por tema selecionado
Depreende-se da análise acima que todos os documentos propositivos analisados convergem em torno do diagnóstico de que o crescimento sustentado do Brasil não pode mais ser alavancado por estímulos ao consumo e expansão de gastos públicos diretos.
Há, entre eles, um consenso sistêmico de que a estabilidade fiscal, o ambiente regulatório seguro e a redução do custo do capital são as condições indispensáveis para desencadear um novo ciclo de investimento produtivo, liderado pela modernização industrial, transição energética e ganho contínuo de produtividade do capital humano e da infraestrutura nacional.
Os principais pontos de convergência são:
● O diagnóstico de que o Brasil investe pouco (cerca de 17% do PIB) e cresce com baixa produtividade há décadas é compartilhado, com variações de dados e períodos, por praticamente todos os documentos consultados.
● A defesa de ajuste fiscal concentrado no lado da despesa (não em novos tributos), com desindexação dos benefícios em relação ao salário-mínimo ou alteração de seu indexador e redução de vinculações orçamentárias.
● Custo de capital elevado (juros reais e spread bancário) é apontado, sem exceção entre os documentos que tratam do tema, como o principal obstáculo ao investimento privado de longo prazo.
● A autonomia técnica das agências reguladoras, blindada contra captura política, é defendida por praticamente todos os documentos que tratam de eficiência do Estado.
● Os mesmos três setores de “novas fronteiras produtivas” — indústrias energointensivas, processamento de minerais críticos e biocombustíveis/hidrogênio verde/SAF — aparecem repetidamente como vetores de diversificação produtiva.
● A adesão do Brasil à OCDE é citada explicitamente em alguns documentos, sobretudo de representantes da indústria, como âncora institucional transversal para atrair investimento e modernizar marcos regulatórios.
● Praticamente todos os documentos convergem em torno de concessões e PPPs como modelo preferencial de financiamento de infraestrutura, com os agentes privados respondendo hoje por aproximadamente 80% dos investimentos nesse setor.
A seguir, apresenta-se uma análise mais detalhada da convergência das propostas em torno de alguns temas importantes: ajuste fiscal; reforma administrativa e eficiência do Estado; reforma tributária; redução do custo do capital; expansão do crédito; segurança jurídica, formalização e combate à ilegalidade; crescimento sustentável centrado em investimento; produtividade; inovação; novas fronteiras produtivas; modernização da infraestrutura; custo de energia e transição energética; integração internacional/comércio exterior; e capital humano.
Grosso modo, é possível classificar os documentos analisados em dois grandes blocos:
● Bloco de Consenso Sistêmico (CNI, ABDIB, ABIMAQ, CDPP, Comunitas, Roland Berger, LSE-CETEx/iCS, MBC). Há uma convergência quase unânime de que o desenvolvimento econômico do país depende da substituição do modelo centrado no consumo pelo modelo liderado pelo investimento, sustentado pelo controle rigoroso dos gastos públicos obrigatórios e ganhos de produtividade.
● Bloco com Convergência Parcial (“Estrada para o Futuro”, Abrasca, Anbima, ANPEI, CEBDS, McKinsey). Os documentos convergem nos temas que tratam, mas não abordam ou abordam apenas parcialmente temas como: reforma tributária, custo do capital, ajuste fiscal, reforma administrativa, produtividade, a reforma do Estado, entre outros.
Ajuste Fiscal. Convergência muito alta entre os documentos que tratam do tema. IEDI, CNI, CDPP, Comunitas, ABDIB e ABIMAQ compartilham a visão de que é necessário um ajuste concentrado no lado da despesa (e não ampliação da receita), revisão dos pisos constitucionais e recalibragem do arcabouço fiscal, controle das emendas parlamentares. Também a Abrasca defende trajetória sustentável da dívida, controle estrutural das despesas e ajuste “prioritariamente” pela eficiência e racionalização do gasto, mas sem detalhar instrumentos.
O CDPP vai além em radicalidade de instrumentos (desindexação de benefícios previdenciários e assistenciais em relação ao salário mínimo, privatização da Petrobras e dos Correios, teto de 5% para emendas, reforma previdenciária mais profunda para militares e policiais), mas na mesma direção. A Comunitas propõe também desvincular receitas de despesas obrigatórias, desindexar despesas do salário-mínimo e a elevação da alíquota de contribuição previdenciária do microempreendedor individual (dos atuais 5% para 11%).
O MBC aproxima-se das propostas mais incisivas do CDPP e da Comunitas ao defender a desindexação das despesas em relação ao salário-mínimo (inclusive benefícios previdenciários), a contenção das despesas obrigatórias, o fim dos supersalários (custo estimado em R$ 20 bilhões em 2024-2025) e uma nova regra de gasto ancorada na dívida. Diferentemente do IEDI e da ABDIB, porém, não trata do controle das emendas parlamentares nem da revisão dos pisos constitucionais.
Não há, entre os documentos que abordam o tema, nenhuma proposta que defenda expansão fiscal ou aumento de carga tributária como estratégia, ou seja, a convergência é praticamente unânime quanto à direção do ajuste.
Reforma Administrativa e Eficiência do Estado. Convergência alta. O núcleo comum — autonomia técnica das agências reguladoras, teto salarial sem exceções, avaliação de desempenho de políticas e servidores, digitalização e gestão por resultados — aparece em praticamente todos os documentos que tratam do tema, ainda que com diferentes ênfases (IEDI, CNI, “Estrada para o Futuro”, CDPP, Comunitas, ABDIB, ABIMAQ e MBC). Os documentos da Roland Berger e da Comunitas destacam a digitalização completa de serviços públicos (ex.: gov.br) e a avaliação contínua de impacto de políticas públicas. A Comunitas oferece o desenho mais sistemático para a reforma e eficiência do Estado, propondo ações em oito dimensões e metas numéricas para indicadores-chave de desempenho (KPI). O MBC, que também propõe a digitalização completa dos serviços públicos (gov.br como identidade digital única), se distingue dos demais pela ênfase na governança: uma estrutura no centro de governo para coordenar a agenda regulatória e a transformação digital.
Os documentos da Abrasca e da Anbima não tratam do tema da reforma administrativa no sentido amplo, mas defendem: reguladores autônomos com autorregulação no caso da Anbima; e autonomia técnica a um único regulador, a CVM, no caso da Abrasca, com orçamento compatível, quadros especializados e modernização tecnológica, combinados com proporcionalidade regulatória.
Reforma Tributária. Convergência alta quanto à necessidade de concluir a transição para a CBS/IBS com contenção da alíquota de referência (IEDI, CNI, Anbima, Comunitas, ABDIB, ABIMAQ, MBC) e de reduzir a tributação sobre a renda corporativa rumo ao padrão OCDE (CNI, CDPP). O MBC diverge, porém, da linha CNI/CDPP na tributação da renda: em vez de reduzir a tributação corporativa, propõe uma reforma abrangente, que alcance “todas as faixas e fontes de rendimento”, amplie a base e eleve a progressividade de um sistema que considera “um dos mais regressivos do mundo”. Já a Abrasca pede neutralidade, nenhum aumento de carga, avaliação prévia de impacto antes de alterar a tributação de dividendos, JCP e instrumentos de dívida, e preservação das isenções de CRI, CRA, LCI, LCA e Fiagro.
Um ponto de tensão real aparece entre IEDI/CNI, que defendem convergência ampla de alíquotas e redução de regimes diferenciados, e ABIMAQ/ANPEI, que alertam para riscos específicos da transição (cumulatividade residual do Imposto Seletivo, ameaça da Lei Complementar 224/2025 à Lei do Bem) — uma postura mais defensiva/setorial do que propositiva em relação ao desenho tributário amplo.
Redução do Custo do Capital. Convergência alta no diagnóstico (juros reais elevados apontados como principal entrave ao investimento) e na tese de que credibilidade fiscal é pré-condição para queda estrutural dos juros — posição compartilhada por IEDI, CNI, Roland Berger, Anbima, Comunitas, ABDIB, ABIMAQ, MBC e Abrasca. O MBC acrescenta um canal microeconômico: insegurança jurídica, ilegalidade e incerteza regulatória elevam as taxas de desconto dos projetos, e processos de autorização mais objetivos reduziriam o custo de capital em investimentos de longo prazo, como terminais e armazenagem – argumento próximo ao da ABDIB.
A ABIMAQ diverge em um ponto específico: propõe alterar o mandato do Banco Central (LC 179/2021) para equiparar estabilidade de preços e pleno emprego, uma mudança institucional ausente nos demais documentos. O LSE-CETEx/iCS converge na meta (redução de juros reais de 6%-8% para 3%-4% ao ano), mas com ênfase distinta: prioriza instrumentos catalisadores de mitigação de risco (blended finance, hedge cambial via Eco Invest) mais do que a via fiscal-monetária.
Ou seja, há clara convergência de objetivo, mas com nuances quanto ao mecanismo priorizado.
Expansão do Crédito. Convergência muito alta: Open Finance, Pix como garantia, portabilidade de crédito e fortalecimento de fundos garantidores aparecem, com poucas variações, em IEDI, CNI, CDPP, Comunitas, ABDIB e ABIMAQ.
Os documentos da ANPEI e da ABIMAQ acrescentam instrumentos específicos para inovação (TR permanente no funding do BNDES, Fundo Garantidor FINEP) que complementam, sem contradizer, a agenda geral. Os documentos “Estrada para o Futuro” e o do CDPP reforçam a importância do estímulo a fontes privadas e novos instrumentos de crédito para o agronegócio e PMEs.
De forma complementar, a Abrasca aborda a questão pela ótica do mercado de capitais: ampliar as fontes de financiamento para reduzir a dependência de “poucos canais de crédito”, aprofundar o mercado de dívida corporativa e manter os instrumentos incentivados – posição convergente com a da Anbima.
Segurança Jurídica, Formalização e Combate à Ilegalidade. Convergência de princípio, com divergência relevante de escopo de aplicação. Como o Brasil 2040, os documentos da CNI e da Comunitas, bem como o “Estrada para o Futuro”, tratam o tema de forma ampla (Judiciário, agências reguladoras, combate ao contrabando/crime organizado, informalidade trabalhista), com forte sobreposição de diagnóstico e instrumentos (rastreabilidade, integração de bases de dados, Lei Antifacção). A Abrasca converge quanto ao respeito a contratos, às mudanças regulatórias com avaliação de impacto e transição, à coordenação entre reguladores, e enfatiza o crime organizado e os devedores contumazes como fontes de concorrência desleal, mas sem detalhar instrumentos nem tratar da informalidade trabalhista.
Já CEBDS e LSE-CETEx/iCS aplicam a mesma lógica de previsibilidade regulatória a um domínio muito mais estreito — legalidade fundiária e ambiental (Cadastro Ambiental Rural - CAR, combate ao desmatamento ilegal) —, sem tratar da informalidade trabalhista ou crime organizado em sentido amplo, enquanto o documento da Anbima enfatiza questões pertinentes ao mercado financeiro (fraude, custódia de ativos digitais).
Não há contradição entre essas aplicações, apenas diferentes amplitudes no seu tratamento. No Brasil 2040, o IEDI aborda três dimensões — institucional, trabalhista e criminal —, enfoque que não é replicado pela grande maioria dos demais documentos isoladamente. O MBC é o que mais se aproxima da abordagem tridimensional do IEDI.
Na dimensão institucional, o MBC propõe simplificação regulatória, Análise de Impacto Regulatório (AIR) efetiva, prazos vinculantes com aprovação tácita e convergência ao indicador Product Market Regulation (PMR) da OCDE. Na trabalhista, defende reduzir o número de novos processos de 2,12 milhões para 1,48 milhão, rever a ampliação da gratuidade de justiça e reduzir a informalidade de 37,3% para 35%. Na criminal, recomenda a integração entre Receita Federal, COAF e Judiciário, rastreamento de produtos, unidade de inteligência financeira e cooperação internacional contra mercados ilícitos.
Crescimento Sustentável Centrado em Investimento. É o tema de maior convergência entre os documentos analisados — de fato, a tese central do IEDI (transição de um modelo baseado em consumo para um modelo baseado em investimento produtivo) é, em maior ou menor grau, a “tese guarda-chuva” na maioria dos demais estudos, cada um com alguma calibragem temática: CNI e ABIMAQ na questão da política industrial de Estado; Roland Berger e LSE-CETEx/iCS enfatizando megatendências/vantagens comparativas dinâmicas; McKinsey destacando a importância de tecnologia/IA como alavanca específica da produtividade; CEBDS enfatizando a disponibilidade de “capital natural”; a ANPEI, os investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação, enquanto a Anbima e a Abrasca enfatizam o mercado de capitais como canal para os investimentos em infraestrutura e em inovação.
Já o MBC fixa meta explícita de taxa de investimento de 20% do PIB até 2030 e de investimento em infraestrutura de transportes de 1,7% do PIB, com ênfase na redução do “Custo Brasil” e na competitividade sistêmica; a dimensão ambiental aparece na descarbonização da logística e na substituição do diesel por gás e biometano.
Produtividade. Convergência quanto ao objetivo (elevar a produtividade estagnada há três décadas), mas com diferentes abordagens. O IEDI, a CNI, o CDPP, a ABDIB, o MBC e a Abrasca, em uma análise mais ampla, enfatizam o ambiente institucional e o custo de capital como o gargalo primário; a consultoria McKinsey destaca os investimentos na adoção tecnológica (IA/automação) como a alavanca de implementação mais rápida; a consultoria Roland Berger e a Comunitas apontam a qualidade educacional; e o CEBDS chama atenção para a agricultura regenerativa. Essas ênfases são complementares, não excludentes, e o próprio IEDI reconhece a natureza multicausal do tema, por isso o destaque ou a hierarquização de fatores tende a variar bastante, segundo o tipo de análise.
Inovação. Convergência alta: IEDI, CNI, ANPEI, ABDIB e ABIMAQ convergem detalhadamente na defesa da modernização da Lei do Bem, do fortalecimento do FNDCT/NIB e da desoneração de PD&I — a ANPEI é o documento que mais aprofunda tecnicamente exatamente os instrumentos que os demais documentos tratam em nível mais geral. A McKinsey converge no objetivo (adoção tecnológica), mas não trata dos instrumentos fiscais de fomento à P&D, pois adota um recorte mais restrito, de execução empresarial, não de política pública. O MBC aborda a inovação pelo ângulo da economia digital – marco regulatório de IA baseado em risco, sandboxes regulatórios, retenção de talentos em áreas ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM) e equity para startups e laboratórios de IA –, o que o aproxima da McKinsey e do capítulo de IA da ANPEI.
Novas Fronteiras Produtivas. Neste tema há uma notável coincidência nas cadeias identificadas: indústrias energointensivas, processamento de minerais críticos (não apenas extração) e biocombustíveis/SAF/hidrogênio verde, que aparecem com a mesma lógica de “subir na cadeia de valor” nos documentos do IEDI, CNI, Roland Berger, LSE-CETEx/iCS, CEBDS, ANPEI e ABDIB.
Os documentos da LSE-CETEx/iCS e da Roland Berger trazem um detalhamento quantitativo (dimensionamento de investimento, empregos, vantagens de custo) da mesma tese exposta de forma mais qualitativa nos demais documentos.
O documento do MBC propõe uma fronteira distinta, mas complementar: o Brasil como polo de data centers e de economia de dados (Regime Especial para Data Centers – Redata, cabos submarinos, tratamento diferenciado no setor elétrico). Por serem intensivos em eletricidade, os data centers seguem a mesma lógica de powershoring defendida pelo LSE/CETEx/iCS, de converter a matriz limpa em vantagem industrial. O documento menciona ainda biometano e “corredores azuis” de gás e as hidrovias da Amazônia.
Modernização da Infraestrutura. Convergência alta quanto aos instrumentos (concessões, PPPs, diversificação modal, redução da dependência rodoviária) propostos por IEDI, CNI, CDPP, Roland Berger, Comunitas, ABDIB, ABIMAQ, MBC e pelo documento “Estrada para o Futuro”.
A Roland Berger, a ABDIB e o MBC destacam a necessidade de melhorar a qualidade da modelagem e “prontidão” dos projetos (análise custo-benefício rigorosa). Os documentos do LSE-CETEx/iCS e do CEBDS enfatizam a infraestrutura de transmissão elétrica e corredores verdes, um recorte energético-ambiental que é um subconjunto da agenda mais ampla da infraestrutura.
A Abrasca aborda o tema da infraestrutura como destino do financiamento via mercado de capitais (transmissão, geração, rodovias, ferrovias, portos e saneamento), em linha com o documento da Anbima.
Custo de Energia e Transição Energética. Forte convergência quanto à necessidade de eliminar subsídios cruzados que encarecem a conta de luz do setor industrial, mitigar o curtailment e expandir armazenamento (IEDI, CNI, Temer, CDPP, ABDIB, ABIMAQ, MBC). Quanto ao gás natural, o IEDI, a CNI, a “Estrada para o Futuro”, a ABDIB, a ABIMAQ e o MBC consideram a expansão da oferta de gás como parte legítima da estratégia energética de transição. CNI e “Estrada para o Futuro” defendem a redução da taxa de reinjeção do gás natural, estímulo ao mercado livre e ampliação de gasodutos.
Já os documentos do CEBDS e da Comunitas praticamente não tratam o gás como fonte estratégica, concentrando a agenda em renováveis, armazenamento e eletrificação, uma diferença real de ênfase sobre o papel dos combustíveis fósseis de transição, embora nenhum dos dois documentos rejeite explicitamente o gás. Em contraste, o MBC defende uma transição “tecnicamente orientada”, com fontes firmes (hidrelétrica, nuclear, biometano e térmicas a gás) e sem ampliação de subsídios setoriais.
Integração Internacional / Comércio Exterior. Existe uma concordância generalizada entre os documentos de que o Brasil precisa superar seu isolamento comercial, ampliar a rede de acordos (com destaque para o acordo Mercosul-União Europeia), aderir aos padrões regulatórios da OCDE, digitalizar a aduana (Portal Único) e recompor mecanismos eficientes de financiamento à exportação (BNDES Exim).
Distinções ocorrem na intensidade e no ritmo da abertura tarifária: enquanto entidades industriais (IEDI, CNI, ABIMAQ) enfatizam a necessidade de que a abertura seja negociada e acompanhada por defesas comerciais contra subsídios externos desleais, centros de reflexão como o CDPP e a Comunitas, bem como a consultoria Roland Berger, defendem uma desgravação tarifária mais célere e unilateral para forçar ganhos de competitividade. O CDPP propõe, por exemplo, uma reforma tarifária com desgravação unilateral em quatro anos para reduzir a tarifa média de importação para 5,9%.
Capital Humano. Esse é o segundo tema de maior convergência entre os documentos. A convergência muito alta quanto ao diagnóstico (baixo desempenho no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes - PISA, baixa participação em STEM, dissociação entre ensino técnico e demanda produtiva) e às soluções pedagógicas (valorização docente, ensino técnico dual, gestão escolar por resultados) entre praticamente todos os documentos. Em particular, ANPEI, McKinsey, CNI, ABIMAQ e MBC se alinham às proposições do IEDI quanto à expansão dos cursos em áreas STEM e de programas permanentes de requalificação profissional (upskilling/reskilling) para responder à automação e à IA.
No conjunto dos documentos analisados, há, no entanto, uma diferença de ênfase em relação à flexibilização da legislação trabalhista: IEDI, CNI, “Estrada para o Futuro”, ABIMAQ e MBC defendem explicitamente o fortalecimento do “negociado sobre o legislado” e a regulação de novas formas de trabalho como parte da agenda de capital humano. Os documentos do CDPP e da Comunitas tratam o tema mais pelo ângulo institucional/pedagógico, sem colocar a flexibilização trabalhista no mesmo grau de centralidade.
Uma visão panorâmica do grau de convergência dos 15 documentos em relação a cada um dos 14 temas importantes para o Brasil é apresentada no Quadro-síntese abaixo. Naqueles documentos que agrupam temas (ex.: custo do capital e crédito; crescimento, produtividade e inovação), a classificação foi feita separadamente para cada tema a partir do conteúdo específico do documento analisado.
A convergência foi considerada alta quando o documento aborda o tema com propostas próprias alinhadas ao núcleo convergente; parcial, quando o recorte mais estreito ou setorial, cobre só parte do núcleo ou converge no objetivo por mecanismo distinto; e fraca, quando a menção ao tema é lateral ou apenas diagnóstica, sem proposta. Classificou-se como “ausente” o tema não abordado no documento.
Cabe ressaltar que os documentos setoriais (CEBDS, ANPEI, McKinsey, Anbima, Abrasca) tendem a apresentar convergência fraca com temas fora de seu recorte em razão do escopo, e não por divergência substantiva.
Em resumo, a convergência entre os 15 documentos é muito alta tanto no diagnóstico (baixo investimento, baixa produtividade, custo de capital elevado, insegurança jurídica e ineficiência do Estado como travas centrais ao crescimento) quanto nas grandes linhas de solução (ajuste fiscal pelo lado da despesa, redução do custo de capital, novas fronteiras produtivas em energia limpa/minerais críticos/bioeconomia, e fortalecimento do capital humano técnico).
Acesse o quadro síntese do grau de convergência das propostas dos candidatos aqui.

