Carta IEDI
A redistribuição regional da indústria no Brasil
Muito se discute a chamada “desindustrialização” do Brasil, isto é, a perda de participação industrial na estrutura produtiva do país, desde meados dos anos 1980. O IEDI mesmo já abordou o tema por diversos ângulos, mostrando por exemplo, sermos um caso excepcional no mundo, pelo caráter prematuro deste processo e por sua intensidade, como na Carta n. 940 “Um ponto fora da curva”. Ou então, por ter atingido ramos de maior intensidade tecnológica, como na Carta n. 920 “O perfil setorial do retrocesso da indústria brasileira”.
Na Carta IEDI de hoje, chamamos atenção para outro aspecto que tem motivado menos debate, mas nem por isso deixa de ser importante: a redistribuição da indústria no território nacional. O estudo foi preparado pelo economista Paulo Morceiro para o IEDI.
Verificamos que nos últimos 40 anos há estados que se industrializaram e outros que se mostraram mais capazes de reter capacidade industrial, inclusive em atividades mais intensivas em tecnologia. Hoje, há estados com um grau de industrialização muito próximo da média brasileira dos anos 1980.
Além de uma desconcentração estadual, também constatamos um processo de interiorização da indústria. As capitais perderam suas atividades industriais, que migraram não para as regiões metropolitanas, mas sobretudo para o interior. Isso ocorre no agregado do Brasil, mas sobretudo no estado de São Paulo.
Utilizamos dados tanto de valor adicionado, isto é, de PIB da indústria, como de emprego industrial, comparando o ano 1985 com o dado mais recente disponível (2023 ou 2024), a partir das bases das Contas Nacionais do IBGE e da RAIS do Ministério do Trabalho.
Quais regiões evoluíram na contramão do país, evitando um quadro de forte desindustrialização? Quais parques conseguiram ampliar sua participação na indústria nacional? Duas regiões se destacam, uma por se industrializar outra por mitigar o declínio da indústria no seu PIB.
Partindo de um atraso muito grande em relação ao grau de industrialização do Brasil, a região Centro-Oeste foi a única a se industrializar desde 1985. Praticamente todos os seus estados, sobretudo Goiás e Mato Grosso do Sul, registraram aumento de participação da indústria de transformação no seu PIB e no seu emprego.
O grau de industrialização destes estados convergiu para a média nacional no período de análise. Em 1985, enquanto a indústria de transformação representava 26,8% do PIB do Brasil, chegava a apenas 11,2% do PIB de Goiás e 6,8% do PIB de Mato Grosso do Sul. Em 2023, o aumento da participação em Goiás para 14,3% e em Mato Grosso do Sul para 14,8% os aproximou da média nacional de 15,2% (em valores correntes).
No emprego, que é outra métrica para avaliar o grau de industrialização de um país ou região, verificamos o mesmo movimento e em 2024, a indústria de transformação chegou a responder por 14,8% do total de vagas com carteira assinada em Goiás e por 14,4% no Mato Grosso do Sul ante uma média nacional de 14,8%.
Mato Grosso também fez parte desta tendência, mas com uma performance bem mais modesta, com seu grau de industrialização passando de 8,0% para 8,5% do PIB e o emprego industrial de 10,5% para 11,2% do total com carteira no mesmo período.
A segunda região de destaque foi o Sul do país. Neste caso, por seu grau de industrialização ter regredido menos. Enquanto o agregado nacional perdeu pouco mais de 40% de seu grau de industrialização medido seja pelo PIB seja pelo emprego, o pior caso no Sul não chegou a 1/3 de perda.
Sendo assim, atualmente, os estados do Sul do país apresentam o maior grau de industrialização do país, se excluirmos o Amazonas (32,6% do PIB), que está condicionado pela Zona Franca de Manaus. A indústria de transformação de Santa Catarina representa 22,8% do PIB estadual, seguida por Rio Grande do Sul e Paraná com 20,6% do PIB.
Quanto ao grau de industrialização medido pela participação do emprego industrial, os estados do Sul (27,5% em SC, 21,5% no RS e 21,1% no PR) têm as maiores participações relativas e estão mais perto da média nacional de 1985 (26,2%) do que da atual (14,8%).
Essas duas regiões foram ainda aquelas que mais ganharam participação do PIB e emprego formal total da indústria no Brasil.
O parque industrial da região Sul ganhou +6,2 pontos percentuais (p.p.) no valor adicionado da indústria de transformação do país, passando de uma participação de 17% em 1985 para 23,2% em 2024. No emprego industrial, ganhou +6,9 p.p., passando de 19,6% para 26,6%.
No Centro-Oeste, ao aumento de participação foi de +5,3 p.p. quanto ao valor adicionado (de 1,7% em 1985 para 6,9% em 2024) e de +5 p.p. no caso do emprego industrial (de 1,4% para 6,4%).
Fora destas regiões, cabe destacar ainda Minas Gerais, cuja participação do valor adicionado da indústria brasileira aumentou de 7,5% para 10,8% no período e do emprego industrial, de 8,3% para 11,3%, atenuando a queda do grau de industrialização do estado, de modo que atualmente sua indústria apresenta a maior proporção no PIB (19,2%) e a segunda maior no emprego (15,2%) da região Sudeste.
Antes de passarmos para os dados daqueles parques que mais perderam participação e que lideraram a queda do grau de industrialização do Brasil, cabe uma análise do perfil da indústria das regiões que se destacaram positivamente. Para isso, usamos os dados de emprego que são os que nos permitem agregar por intensidade tecnológica.
Na região Sul, os dados sugerem o fortalecimento ou ao menos retenção de atividades industriais de maior intensidade tecnológica. A participação da região no emprego industrial de alta e média-alta tecnologia do país dobrou entre 1985 e 2024, passando de 12,6% para 24%. Nos ramos menos tecnológicos houve relativa manutenção da participação (de 22,5% para 27,7%).
Já no Centro-Oeste, o aumento de participação nos empregos industriais de maior intensidade tecnológica, que foi de 0,6% em 1985 para 5,3% em 2024, mas foi concentrado em Goiás (de 0,2% para 3,3%), muito provavelmente com grande ajuda do polo farmacêutico de Anápolis. Mais importante foi o avanço em indústrias de baixa e média-baixa tecnologia, ligadas ao processamento de matérias-primas agrícolas e ao crescimento urbano.
Por fim, a desconcentração industrial que permitiu a industrialização do Centro-Oeste e a manutenção do Sul como região intensiva em indústria foi acompanhada de perda de participação do eixo Rio-São Paulo, que também liderou a queda do grau de industrialização do país.
São Paulo, que concentrava 47,8% do emprego industrial formal e 51,6% do PIB da indústria de transformação em 1985, foi quem mais cedeu espaço no mapa da indústria nacional. Seu peso no setor caiu para 32% do emprego e 37% do PIB recentemente. Dentro de sua própria estrutura produtiva, o retrocesso também foi dos mais intensos.
A indústria paulista representava 38,3% do PIB de São Paulo em 1985 e apenas 18,3% em 2023. Aferido pelo emprego, o grau de industrialização do estado recuou de 37,2% para 17,1% no período.
Que a indústria tenha migrado para outras localidades para além de São Paulo não é algo ruim; dado que o setor é destacado vetor de desenvolvimento, é bem-vindo que outras regiões tenham seus parques industriais ampliados. Cabe observar que isso se nem sempre se deu pelas razões certas, exemplo disso é a guerra fiscal entre os estados nas últimas décadas.
Ademais, o recuo do grau de industrialização do estado diante do aumento de sua renda per capita também não surpreende, desde que seu parque industrial se modernize e que elos mais intensivos em tecnologia das cadeias industriais se desenvolvam. Não foi exatamente isso que aconteceu, como sabemos.
Por exemplo, a participação de São Paulo no emprego industrial de alta e média alta tecnologia total do país encolheu -22,2 p.p. entre 1982 e 2024 , puxado sobretudo pelos ramos de material elétrico, eletrônicos e de comunicação; veículos e equipamentos de transporte; e máquinas e equipamentos. Já nos ramos de baixa e média-baixa tecnologia, a participação paulista recuou menos (-13,6 p.p.).
De todo modo, o que destacamos nesta Carta IEDI é que em paralelo ao declínio industrial de São Paulo há um processo de interiorização das atividades industriais remanescentes. A participação do interior paulista nos empregos da indústria de transformação do estado aumentou de 29,2% em 1985 para 52,9% em 2024. Isso atingiu tanto os ramos de baixa e média-baixa tecnologia (de 34,2% para 55,3%) como os de alta e média-alta tecnologia (de 21,5% para 49,5%).
Podemos, então, concluir que o deslocamento da indústria para o interior de São Paulo ajudou o estado a se manter como o polo industrial mais importante do país apesar de todas as vicissitudes. Sozinho, São Paulo ainda concentra 32% do emprego industrial formal e 37,1% do PIB da indústria de transformação. Seu grau de industrialização (18,3% medido pelo PIB e 17,1% medido pelo emprego) também segue superior à média nacional (15,2% e 14,8%, respectivamente).
A interiorização industrial de São Paulo também contribuiu para um mesmo comportamento no total Brasil, cujo interior representava 1/3 dos empregos industriais em 1985 e 54,4% em 2024, sendo de 57,6% no grupo de baixa e média baixa tecnologia e 47,3% no grupo de alta e média-alta tecnologia.
Vários fatores explicam esta tendência, notadamente, o fortalecimento de cadeias agroindustriais, como alimentos, biocombustíveis e papel e celulose, e daquelas associadas à extração de recursos minerais, que em ambos os casos tendem a se localizar próximas das fontes de matérias-primas. Há ainda a melhoria da infraestrutura logística no interior, presença de universidades e centros de pesquisa, incentivos fiscais e menores custos operacionais, mitigando, ainda que parcialmente, um ambiente de negócios cada vez mais hostil ao setor produtivo (juros altos, carga tributária elevada e burocracia complexa).
Grau de industrialização e distribuição espacial da indústria de transformação entre os estados do Brasil nos últimos 40 anos
O grau de industrialização do Brasil – mensurado pela participação da indústria de transformação no PIB ou no total de emprego da economia brasileira – vem se reduzindo desde meados da década de 1980. O pico industrial ocorreu em 1986, quando a manufatura alcançou 27,3% do PIB brasileiro. Em 2025, esse percentual recuou para 13,7% do PIB, conforme dados das Contas Nacionais divulgados em março deste ano pelo IBGE.
Nota-se redução similar do grau de industrialização mensurado pelo emprego formal, como apresentado na tabela a seguir. Nos últimos quarenta anos, entre 1985 e 2024, a participação da indústria de transformação no total de emprego formal do país recuou de 26,2% para 14,8% – uma queda de 11,3 pontos percentuais (p.p.).
Embora o grau de industrialização pelo PIB ou pelo emprego também tenha se reduzido na maioria dos estados brasileiros, sua intensidade é distinta entre as unidades da federação, conforme exibido na figura abaixo. Além disso, alguns estados, sobretudo os da região Centro-Oeste, seguiram tendência oposta, ou seja, de industrialização nas últimas quatro décadas.
Goiás (GO), Mato Grosso (MT) e Mato Grosso do Sul (MS) foram os únicos estados do país em que a indústria de transformação aumentou simultaneamente seu peso no PIB e no emprego estadual. Entre 1985 e 2024, a participação da indústria de transformação no emprego formal aumentou 4,4 p.p. no MS, 3,9 p.p. em GO e 0,8 p.p. em MT. Nesses mesmos estados, a fatia do PIB aumentou em 8,0 p.p. no MS, 3,0 p.p. em GO e 0,5 p.p. no MT entre 1985 e 2023. Vale mencionar que o período coberto na tabela a seguir é o mais longo disponível nas estatísticas oficiais tanto para a participação no PIB quanto para a participação no emprego.
Observe que a parcela da manufatura no PIB e no emprego se reduziu em todos os estados das macrorregiões Sudeste, Sul e Nordeste. Na região Norte, onde o grau de industrialização é menor – exceto Amazonas, que ainda detém grau de industrialização relativamente alto, devido à Zona Franca de Manaus – houve avanços pontuais em poucos estados no grau de industrialização, ora mensurado pelo PIB, ora mensurado pelo emprego, mas não nos dois indicadores ao mesmo tempo.
Vários fatores contribuem para o encolhimento relativo da parcela industrial na economia nacional e nas regiões do país, tais como um persistente quadro de taxa de juros elevada, câmbio sobrevalorizado por longos períodos, exposição à concorrência externa sem planejamento, elevada carga tributária incidente sobre bens industriais, ambiente de negócios burocrático e baixos investimentos em infraestrutura.
No entanto, note que a magnitude da redução (ou ganho) do grau de industrialização em pontos percentuais exibido na tabela é diferente entre as regiões. Se a maioria dos fatores associados à redução da parcela industrial é semelhante entre as regiões (como taxa de juros, câmbio e abertura comercial), fatores específicos às regiões – como empreendedorismo, instituições locais, capacitações regionais e dotação de recursos naturais – podem impactar o grau de industrialização e a distribuição da indústria pelo território, contribuindo para explicar as diferentes magnitudes na variação do grau de industrialização. Avaliar a evolução industrial do ponto de vista regional é essencial, pois a indústria se distribui de forma assimétrica pelo território e concentrada em poucas regiões.
O Brasil ainda apresenta profundas heterogeneidades regionais em termos de educação, inovação, provisão de infraestrutura e em diversos indicadores socioeconômicos. Como o processo de industrialização, que avançou substancialmente até meados dos anos 1980, foi concentrado nas regiões Sul e Sudeste e há evidências de industrialização da região Centro-Oeste no período mais recente, é vital entender como evoluiu a distribuição regional da indústria nas últimas décadas.
Nesta Carta IEDI, observaremos como se modificou a distribuição da indústria de transformação entre as regiões brasileiras nas últimas quatro décadas. O “endereço da indústria” está mudando, isto é, se houve deslocamento espacial significativo da indústria entre as unidades da federação e para o interior do país? O processo de interiorização – deslocamento da indústria a partir das capitais e regiões metropolitanas para as cidades do interior – será avaliado ao final desta Carta.
Certamente, o impacto no grau de industrialização é mais atenuado (ou até positivo) nos estados que aumentaram sua participação na indústria nacional, isto é, que ganharam market share industrial no mercado brasileiro. Em contrapartida, espera-se um impacto negativo mais pronunciado no grau de industrialização se o estado perder muito market share da indústria nacional para outras regiões do país. As últimas duas colunas da tabela a seguir mostram quais estados e macrorregiões do país ganharam ou perderam market share industrial nas últimas quatro décadas, no PIB e no emprego formal.
Nas últimas quatro décadas, o estado de São Paulo (SP) perdeu expressiva participação de mercado (market share) da indústria de transformação nacional, tanto em termos de emprego quanto de Valor Adicionado Bruto (VAB, também conhecido como PIB a preços básicos). O estado de Rio de Janeiro também sofreu perda de market share industrial relevante no mesmo período.
O estado de SP perdeu 15,89 p.p. de participação relativa no emprego industrial nacional e 14,48 p.p. no VAB da indústria de transformação nacional. O estado do RJ perdeu 5,11 p.p. de market share do emprego industrial nacional e 2,42 p.p. de market share do VAB da indústria de transformação nacional nas quatro décadas avaliadas (40 anos para o emprego e 39 anos para o VAB).
Por outro lado, os estados de Santa Catarina (SC), Paraná (PR), Minas Gerais (MG), e os três estados da região Centro-Oeste ganharam ao menos 1 p.p. de market share tanto no PIB quanto no emprego nas últimas quatro décadas.
No Centro-Oeste, Goiás se destaca ao aumentar seu market share industrial em 2,53 p.p. em termos de emprego e 2,23 p.p. em termos de VAB. Mato Grosso aumentou, respectivamente, em 1,31 p.p. e 1,25 p.p., e Mato Grosso do Sul em 1,06 p.p. e 1,42 p.p. nos mesmos indicadores. Esse ganho de market share industrial contribuiu para aumentar o grau de industrialização do Centro-Oeste exibido na tabela anterior.
Para efeito de comparação, em 2024, cada 1% de market share de emprego da indústria de transformação do Brasil correspondia a 85,8 mil empregos industriais. Esses mesmos 85,8 mil empregos industriais representaram apenas 0,5% dos empregos da economia total do estado de São Paulo, mas 4,4% da economia goiana, 7,1% da economia mato-grossense e 10,3% da economia sul-mato-grossense. Portanto, o deslocamento espacial da indústria em direção ao Centro-Oeste contribuiu decisivamente para industrializar tal região.
Os estados que mais ganharam market share industrial nas últimas quatro décadas foram Paraná, com +4,62 p.p. no emprego e +3,38 p.p. no VAB; Santa Catarina, com +3,68 p.p. no emprego e +2,81 p.p. no VAB; e Minas Gerais, com incremento de +3,30 p.p. no emprego e +3,08 p.p. no VAB. Por se tratarem de estados com maior porte econômico comparativamente aos estados da região Centro-Oeste, tais ganhos de market share industrial não foram suficientes para aumentar o grau de industrialização, mas contribuíram para diminuir a magnitude da redução deste indicador.
A região Sul, em particular, foi a que mais ganhou market share industrial e é também a que possui os estados com maiores graus de industrialização no ano mais recente; isto é, a parcela da indústria de transformação no total das economias estaduais supera 20% do emprego formal em 2024 e do PIB em 2023 – um grau de industrialização acima da média mundial, que se situa na casa dos 15-16% do PIB.
Em contrapartida, os estados que sofreram grande perda de market share industrial – São Paulo e Rio de Janeiro – também tiveram grande redução da parcela da manufatura no PIB e no emprego. No Estado de São Paulo, a manufatura se reduziu de 38,3% para 18,3% do PIB entre 1985 e 2023, e de 37,2% para 17,1% do emprego formal total, variações em pontos percentuais muito expressivas. No Estado do Rio de Janeiro, a parcela da manufatura no emprego total e no PIB no ano mais recente foi menos da metade daquela observada em 1985. Dessa maneira, em algum grau, o movimento de desconcentração espacial da indústria e a variação no grau de industrialização estadual estão conectados.
Nas próximas seções, vamos detalhar o movimento de desconcentração espacial da indústria brasileira por intensidade tecnológica, perfil setorial e recorte regional detalhado (regiões metropolitanas, capitais e interior). Para isso, utilizamos dados de empregos formais do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), os quais permitem fazer diversas agregações setoriais e regionais para o propósito abordado nesta Carta. Cabe mencionar que as estatísticas de PIB das Contas Regionais não possuem o detalhamento setorial ou regional necessário; por isso, seguiremos a análise apenas com os dados de emprego.
Desconcentração espacial do emprego industrial do Brasil por intensidade tecnológica
Vimos na seção anterior que alguns estados, especialmente os das regiões Centro-Oeste e Sul, ganharam participação de mercado na indústria brasileira. Trata-se do desenvolvimento de indústrias mais simples, de menor complexidade tecnológica, ou de setores mais intensivos em tecnologia? Esta seção investiga o perfil de intensidade tecnológica que move a industrialização do Centro-Oeste e dos demais estados que ganharam relevância no mapa industrial do país.
Assim, a primeira tabela a seguir exibe distribuição do emprego industrial de baixa e média-baixa tecnologia entre as unidades da federação, por década, entre 1985 e 2024. Já a tabela seguinte mostra a distribuição espacial do emprego industrial de alta e média-alta tecnologia no mesmo período.
Os estados da região Centro-Oeste ganharam 5,53 p.p. de market share principalmente nas indústrias de baixa e média-baixa intensidade tecnológica entre 1985 e 2024 – com exceção de Goiás, que também ganhou 3,03 p.p. de participação relativa no emprego nacional de alta e média-alta tecnologia.
A industrialização do Centro-Oeste é movida, principalmente, por setores de menor intensidade tecnológica ligados ao processo de matérias-primas agrícolas e minerais. Destacam-se, os segmentos de alimentos e bebidas, papel e celulose, madeira e móveis, minerais não metálicos (materiais de construção), metalurgia e produtos de metal, além de têxtil e vestuário.
São indústrias tradicionais, com tecnologias difundidas, vinculadas aos estágios iniciais da industrialização e ao crescimento urbano. Goiás, contudo, conseguiu avançar para setores mais tecnológicos, com destaque para o polo farmacêutico de Anápolis.
Já a região Sul aumentou consideravelmente seu market share no emprego de alta e média-alta tecnologia em 11,34 p.p. entre 1985 e 2024, com destaque para Santa Catarina (+4,95 p.p.) e Paraná (+4,66 p.p.). O Rio Grande do Sul ganhou 1,73 p.p. No Sudeste, Minas Gerais foi o estado com o maior ganho de market share nesse grupo tecnológico, com aumento de 5,31 p.p. À exceção do Rio Grande do Sul, todos esses estados também ampliaram suas fatias de mercado nas indústrias de baixa e média-baixa tecnologia, porém em menor magnitude.
Dados detalhados da RAIS/MTE analisados por Morceiro e Tessarin no estudo “Desconcentração Robin Hood: pulverização da base industrial brasileira nas últimas quatro décadas”, mostram que, entre as indústrias de maior intensidade tecnológica, Santa Catarina ganhou relevância substantiva no setor de máquinas e equipamentos (especialmente equipamentos elétricos), enquanto Minas Gerais avançou em produtos de informática e eletrônicos; todos os estados mencionados cresceram no setor automobilístico e de equipamentos de transporte. Os ganhos foram menos expressivos em química e máquinas e equipamentos, embora fundamentais para a diversificação local.
Indústrias de maior intensidade tecnológica geralmente oferecem melhores remunerações, investem mais em P&D e colaboram com universidades e centros de pesquisa. Portanto, possuem um perfil qualitativo superior para o desenvolvimento regional. No entanto, tais indústrias são mais difíceis de internalizar – devido às elevadas barreiras à entrada e capacitações (produtivas e tecnológicas) prévias requeridas – do que as de baixa e média-baixa tecnologia, que tendem a ser mais distribuídas pelo território.
Nenhum estado das regiões Norte e Nordeste ganhou ao menos 1 p.p. do emprego industrial nacional de alta e média-alta tecnologia, exceto o Amazonas (AM). Este estado elevou em 1,15 p.p. sua participação nacional neste grupo, sobretudo nos segmentos de informática & eletrônicos e equipamentos de transportes (motocicletas) vinculados à Zona Franca de Manaus (ZFM). A região Nordeste teve incremento modesto – dado o seu porte – de 3,41 p.p. no market share de baixa e média-baixa tecnologia, impulsionado principalmente pelo desempenho de Ceará (CE) e Bahia (BA) no setor calçadista.
Nota-se um movimento de desconcentração espacial significativo: São Paulo e Rio de Janeiro perdendo participação nacional tanto nem indústrias de menor como de maior intensidade tecnológica. Rio Grande do Sul e Pernambuco também perderam mercado nas indústrias de baixa e média-baixa tecnologia, porém bem menos acentuada que o eixo Rio-São Paulo.
Apesar da redução da heterogeneidade regional, a indústria de maior intensidade tecnológica continua concentrada no Sul e Sudeste. Em 2024, essas duas regiões detinham 82,4% dos empregos brasileiros de alta e média-alta tecnologia, 9,54 p.p. a menos que em 1985. Embora São Paulo e Rio de Janeiro tenham perdidos, conjuntamente, 27,23 p.p. de participação nacional nesse grupo tecnológico, cerca de dois terços dessa perda foram retidos pelos demais estados do Sul e Sudeste; enquanto um terço (9,54 p.p.) foi apropriado pelas demais regiões do país.
Outra forma de observar os avanços industriais é pela razão entre o número de empregos industriais e a população da região. Esse indicador é como um “termômetro” da intensidade industrial regional.
A tabela a seguir exibe esse indicador para a indústria de transformação e por grupos de intensidade tecnológica. Em 2024, o Brasil detinha 40,3 empregos industriais para cada 1.000 habitantes, o mesmo patamar de 1985, sinalizando que a geração de empregos acompanhou o crescimento demográfico. Essa estabilidade também é vista nos grupos tecnológicos: aproximadamente 28 empregos de baixa e média-baixa tecnologia e 12 de alta e média-alta tecnologia por mil habitantes.
Contudo, alguns estados tiveram melhor desempenho. Os maiores avanços ocorreram no Centro-Oeste e Sul, refletindo os ganhos de market share já comentados nos parágrafos anteriores. No Centro-Oeste, o número de empregos industriais por mil habitantes saltou de 10,9 para 34,9 entre 1985 e 2024, o maior incremento entre as macrorregiões.
Com isso, a região reduziu drasticamente sua distância em relação à média nacional: em 1985, tinha 27% da intensidade industrial brasileira; em 2024, atingiu 87%. Essa mesma relação aumentou de 34% para 95% em baixa e média-baixa tecnologia, e de 9% para 66% em alta e média-alta tecnologia. Tais percentuais representam um aumento expressivo da intensidade industrial da região Centro-Oeste.
Excluindo Distrito Federal, os três estados do Centro-Oeste já possuem tantos trabalhadores por mil habitantes quanto o Brasil na indústria de transformação, e superam a média nacional no grupo de baixa e média-baixa tecnologia.
A região Sul ganhou 23,4 empregos por mil habitantes na indústria de transformação no período. Tornou-se a região de maior intensidade industrial do país, ultrapassando o Sudeste. Em 2024, o Sul apresentava intensidade industrial 82% superior à média brasileira (89% maior em baixa tecnologia e 64% em alta tecnologia). Inclusive em alta e média-alta tecnologia, o Sul passou a empregar mais pessoas por mil habitantes que o Sudeste.
Por estado, os maiores avanços na intensidade industrial (+ empregos/mil hab.) entre 1985 e 2024 foram: Paraná (incremento líquido de +37 empregos), Mato Grosso do Sul (+30,2), Santa Catarina (+27,3), Goiás (+ 27,1) e Mato Grosso (+26,0). Em alta e média-alta tecnologia, os destaques foram Santa Catarina (+14,8), Paraná (+11,4), Goiás (+10,7), Rio Grande do Sul (+7,5) e Minas Gerais (+7,2). Os avanços foram modestos nas regiões Norte e Nordeste. No Sudeste, enquanto São Paulo e Rio de Janeiro retrocederam, Minas Gerais e Espírito Santo registraram bons progressos.
Em síntese, a redistribuição regional da indústria não foi neutra do ponto de vista tecnológico. Enquanto os estados da região Centro-Oeste foram os maiores beneficiados no grupo de baixa e média-baixa tecnologia, os estados da região Sul e Minas Gerais se destacaram no grupo de alta e média-alta tecnologia. A história indica que é difícil realizar “saltos longos”, isto é, avançar rapidamente para industriais mais tecnológicas sem desenvolver capacidades produtivas e tecnológicas previamente. Isso parece espelhar a redistribuição regional da indústria brasileira.
O Centro-Oeste, que possuía poucas capacidades tecno-produtivas, avança ancorado no processamento de matérias-primas e indústrias ligadas ao crescimento urbano. Já o Sul e Minas Gerais avançam para segmentos tecnológicos após acumularem experiência em indústrias tradicionais. Certamente, a “guerra fiscal” e a proximidade com São Paulo também influenciaram esse deslocamento, especialmente nos setores de maior intensidade tecnológica.
O Estado de São Paulo: ainda na liderança, mas com perda de terreno
O processo de industrialização do Brasil foi liderado pelo Estado de São Paulo ao longo do século XX. No auge desse processo, em meados da década de 1980, a economia paulista detinha quase metade dos empregos da indústria de transformação brasileira. Como mencionado anteriormente, a indústria paulista encolheu relativamente e perdeu participação de mercado para outras unidades da federação. Nesta seção, avaliaremos em maior detalhe se essa perda de market share concentrou-se em alguns setores manufatureiros ou se ela se disseminou setorialmente.
À medida que uma região avança e a sua renda per capita se eleva (e consequentemente, seu salário por trabalhador), é natural a diminuição do market share industrial em algumas indústrias intensivas em trabalho – como calçados, têxtil e vestuário – que possuem o custo da mão de obra como principal requisito de competitividade.
Nesse sentido, era esperado que o Estado de São Paulo perdesse participação relativa para outras regiões com menor custo da mão de obra a partir das décadas de 1970 e 1980, momento em que o Estado de São Paulo alcançou um patamar de renda média. A partir de então, torna-se mais difícil competir em indústrias intensivas em custo diante dos salários mais baixos praticados por concorrentes em outras regiões do Brasil ou da Ásia.
Alguém também poderia esperar que o Estado de São Paulo aprofundasse sua especialização em setores intensivos em ciência e tecnologia. Afinal, o estado estruturou um parque industrial diversificado, consolidou uma infraestrutura universitária avançada e desenvolveu o mais sofisticado sistema regional de inovação do Sul Global já em meados dos anos 1980.
Os dados a seguir trazem a participação do Estado de São Paulo entre 1985 e 2024 para doze setores manufatureiros, organizados por nível de intensidade tecnológica. Nota-se que, em 1985, o Estado de São Paulo detinha market share elevado em todos os doze setores, com a menor parcela de mercado representando 26,8% no caso de madeira e móveis e a maior alcançando impressionantes 76,7% da indústria nacional de veículos e equipamentos de transporte. Ademais, em 1985, de cada 100 empregos de baixa e média-baixa tecnologia no país, o Estado de São Paulo detinha 41 deles; no grupo de alta e média-alta tecnologia, eram 64 de cada 100 empregos.
A tabela acima deixa claro que o peso da indústria paulista encolheu de modo generalizado em todos os doze setores manufatureiros, com perdas mais expressivas nos setores de alta e média-alta tecnologia. Note que alguns setores de maior intensidade tecnológica da economia paulista tiveram reduções de market share industrial mais expressivas do que os setores intensivos em trabalho.
No entanto, o Estado de São Paulo continua detendo a indústria mais sofisticada e diversificada do Brasil, mantendo elevado market share em vários setores industriais – com destaque para aqueles de maior intensidade tecnológica como veículos e equipamentos de transportes (automóveis e aviões), máquinas e equipamentos, e química e petroquímica.
Processo de interiorização da indústria brasileira e paulista ao longo de 40 anos
Historicamente, as capitais e regiões metropolitanas lideraram a industrialização brasileira. Ao concentrar grandes plantas produtivas próximas aos maiores mercados consumidores e portos, tais regiões reduziram substantivamente os custos de transporte.
No entanto, esse padrão de desenvolvimento industrial se modificou profundamente nas últimas quatro décadas, com o interior assumindo o protagonismo e avançando consideravelmente, inclusive em indústrias tecnologicamente sofisticadas. Neste estudo, o termo “interior” refere-se ao estado excluindo a capital e as regiões metropolitanas. O anexo 1 exibe as 38 regiões metropolitanas definidas pelo IBGE consideradas nesta análise.
Assim, paralelamente à desconcentração industrial entre os estados brasileiros analisada nas seções anteriores, ocorre um significativo processo de interiorização, no qual o interior ganha market share industrial às custas das capitais e regiões metropolitanas. A primeira figura a seguir ilustra o processo para o Brasil, enquanto a segunda figura detalha o caso do Estado de São Paulo entre 1985 e 2024 – a série história mais longa e recente disponível.
Em 1985, cerca de dois terços dos empregos da indústria de transformação do Brasil localizavam-se nas capitais e regiões metropolitanas, enquanto um terço situava-se no interior. No grupo de alta e média-alta tecnologia, 79 de cada 100 empregos concentravam-se nas capitais e regiões metropolitanas naquele ano. Desde então, essas regiões vêm perdendo, paulatinamente, participação relativa para o interior, tanto no agregado da indústria de transformação quanto nos dois grupos de intensidade tecnológica.
Em 2024, o interior do Brasil já respondia por 54,4% dos empregos da indústria de transformação do país, alcançando 57,6% no grupo de baixa e média baixa tecnologia e 47,3% no grupo de alta e média-alta tecnologia. Tais dados mostram um profundo deslocamento da indústria brasileira para cidades de médio e pequeno porte.
O processo de interiorização paulista foi ainda mais intenso. Embora os dados difiram ligeiramente em magnitude, o sentido do deslocamento é parecido: a indústria move-se para o interior do estado.
Entre 1985 e 2024, a parcela do interior paulista no emprego industrial do estado saltou de 29,2% para 52,9% na indústria de transformação; de 34,2% para 55,3% em baixa e média-baixa tecnologia; e de 21,5% para 49,5% em alta e média-alta tecnologia. Cabe enfatizar que não são apenas indústrias mais simples que crescem no interior; o processo de interiorização também avançou consideravelmente no grupo de alta e média-alta tecnologia.
Cabe observar ainda que o interior, tanto do Brasil quanto de São Paulo, ganhou market share industrial mais em detrimento das capitais do que das regiões metropolitanas. A fatia de mercado das regiões metropolitanas permanece relativamente estável, enquanto a parcela das capitais encolheu profundamente. O encolhimento da parcela industrial da capital paulista foi mais acentuado que o do conjunto das capitais brasileiras, sendo ainda mais intenso no grupo de maior intensidade tecnológica. Em 2024, as capitais detinham apenas 15% dos empregos da indústria de transformação – 40 anos antes, elas detinham um terço do total e quase 40% dos empregos de alta e média-alta tecnologia.
O movimento de interiorização ajuda a explicar por que o interior se desindustrializou menos que as capitais e regiões metropolitanas. O “esvaziamento” industrial nos grandes centros está conectado com o seu profundo processo de desindustrialização, especialmente na economia paulista. Apesar da desindustrialização mais branda, o interior preserva um grau de industrialização significativo: no último ano disponível, a indústria de transformação ainda respondia por um em cada quatro empregos existentes no interior paulista.
Assim, as evidências empíricas exibidas ao longo deste estudo mostram que a desconcentração espacial da indústria, sobretudo para o interior, tem contribuído para abrandar a desindustrialização ou até industrializar algumas áreas.
O crescimento industrial no interior fixa os trabalhadores próximos de suas famílias, melhorando a qualidade de vida e contendo o “inchaço” das metrópoles. Do ponto de vista regional, uma nova indústria altera o patamar de desenvolvimento local ao gerar empregos de qualidade, elevar a arrecadação tributária e induzir melhorias na infraestrutura e na oferta de cursos técnicos e superiores. Para as empresas, a interiorização reduz custos operacionais, fator crucial diante de um ambiente de negócios hostil ao setor produtivo (juros altos, carga tributária elevada e burocracia complexa).
Embora as capitais tenham perdido substancial market share industrial, elas permanecem como centros administrativos e políticos dos estados, hospedam sedes e escritórios corporativos. Ao possuir estruturas diversificadas e serviços sofisticados, as capitais apresentam boa capacidade de reconversão produtiva, amenizando os efeitos da migração industrial para o interior.
Dentre os fatores que estimularam o crescimento industrial no interior, podem ser citados:
Saturação urbana nas capitais. A elevada densidade populacional e saturação urbana gera “deseconomias de aglomeração”. Essas deseconomias referem-se aos fatores negativos para as empresas e trabalhadores decorrente dos frequentes congestionamentos e encarecimento do custo de transporte; preços elevados de terrenos, galpões, aluguéis e alimentação fora de casa; piora na produtividade do trabalhador em decorrência do maior tempo envolvido com deslocamentos, poluição sonora, e situações de estresse; pressão sindical organizada; e aumento das exigências para cumprir normas ambientais. Esses fatores tornam os custos industriais mais elevados nas capitais em comparação ao interior, diminuindo as vantagens de localização industrial nas capitais.
Desenvolvimento de infraestrutura no interior. Nas últimas cinco décadas houve um avanço expressivo da infraestrutura no interior de vários estados, sobretudo do estado de São Paulo. Ainda na década de 1970 foram entregues as rodovias Transamazônica, Cuiabá-MT - Santarém-PA e Vitória-Salvador. Nas décadas mais recentes houve ampliação e modernização de várias outras rodovias estaduais e federais, com destaque para os “corredores logísticos” (especialmente em SP). Os casos mais emblemáticos da área energética incluem as hidrelétricas de Jupiá (1970), Ilha Solteira (1973), Itaipu (1984), Tucuruí (1984), Jirau (2013) e Belo Monte (2016). Também houve considerável ampliação e modernização de vários aeroportos no interior do país, além da instalação e ampliação da rede de telecomunicações (internet).
Criação de universidades e centros de pesquisa no interior. A significativa expansão de universidades estaduais e federais – por exemplo, Unicamp (1965); UFSCar (1968); Unesp (1976); UFABC (2005); UNIFAL (2005); UFVJM (2005); UFTM (2005); UFERSA (2005); UFGD (2005); UFRB (2005) e UNIPAMPA (2006) – e a criação de parques tecnológicos e incubadoras de empresas (como o Parque Tecnológico de São José dos Campos e a Incubadora de Empresas de Base Tecnológica da ParqTec de São Carlos) fomentaram a oferta de mão de obra qualificada e inovação fora das capitais.
Ações do Estado que criaram economias de aglomeração no interior. Ainda nos governos militares houve criação (ou ampliação) das refinarias de Paulínia, Henrique Lage (São José dos Campos), e de Presidente Bernardes; ampliação da siderúrgica COSIPA (Cubatão); expansão do CTA e criação da Embraer em São José dos Campos; criação da Embrapa; programa Pró-Álcool; Programa Grande Carajás; Polo Petroquímico de Camaçari (BA); polo petroquímico de Triunfo (RS); criação de agências de desenvolvimento regional (SUDAM, SUDENE, SUDECO); e muitas outras ações, programas e projetos no interior capitaneados pelo Estado ou empresas com origem estatal.
Guerra fiscal. Muitas localidades e governos estaduais passaram a conceder diversos incentivos e subsídios tributários, doações de terrenos e adequação da infraestrutura local para atrair plantas industriais. Um exemplo emblemático foi a instalação da Fiat em Betim (MG) em 1976. Os incentivos fiscais tornaram-se mais expressivos a partir dos anos 1980 com a crise fiscal do Estado e queda dos investimentos públicos. Além da Fiat em Betim, muitas plantas automobilísticas receberam significativos benefícios fiscais para se instalarem em diversas localidades interioranas de vários estados. Devido à elevada complexidade e burocracia tributária existente no Brasil, as empresas de diversos setores planejam em quais estados e localidades é melhor instalar plantas industriais ou sedes e etapas de comercialização.
Busca por recursos naturais. Outro fator significativo é a expansão da fronteira agrícola rumo ao Centro-Oeste, Norte, Nordeste e interior dos estados, que estimulou a instalação de indústrias de processamento de matérias-primas próximas às áreas produtoras em cidades como Sinop e Lucas do Rio Verde. Vale mencionar que a Embrapa e o Programa Pró-Álcool tiveram papel relevante no processo de interiorização. Em alguns casos, as indústrias de processamento de minérios também tendem a se localizar próximas às áreas produtoras, reduzindo custos de transporte de matérias-primas.
Ampliação do mercado consumidor no interior. A população brasileira cresceu cerca de 80% nos últimos 40 anos, aumentando o porte das cidades interioranas. Esse crescimento populacional somado ao avanço da urbanização, expansão do emprego e dos benefícios das transferências governamentais (Bolsa Família, Previdência e BPC) elevaram a massa salarial e o poder de compra regional, atraindo unidades produtivas voltadas ao consumo local.
Mudanças tecnológicas. As transformações tecnológicas e o barateamento dos custos de transportes tornaram viável que plantas menores, mais flexíveis e customizadas operassem de modo eficiente em cidades e regiões de pequeno e médio porte.
Em síntese, esse conjunto de fatores tem contribuído decisivamente para o deslocamento do eixo industrial brasileiro das capitais em direção ao interior do país.
Indústrias que mais se deslocaram para o interior do Brasil e do Estado de São Paulo
A partir das tabelas abaixo, é possível analisar quais setores industriais mais se expandiram no interior do Brasil e do Estado de São Paulo, respectivamente. Embora em ritmos diferenciados, o processo de interiorização avança em todos os setores manufatureiros.
Observa-se que a parcela do emprego no interior do Brasil aumentou no mínimo 10 p.p. em quase todos os setores entre 1985 e 2024, com exceção de alimentos e bebidas, que já se encontrava majoritariamente localizado no interior. As cinco indústrias que mais se deslocaram para o interior, em ordem de relevância, são: química e petroquímica; calçados; veículos e equipamentos de transporte; material elétrico, produtos eletrônicos e de comunicação; e metalurgia e produtos de metal. Em 2024, a participação do emprego no interior superava 40% em onze dos doze setores analisados, evidenciando que o interior do país já possui uma estrutura produtiva altamente representativa e diversificada.
A tabela abaixo demonstra que a indústria no interior paulista é ainda mais robusta e diversificada, inclusive nos setores de maior intensidade tecnológica. Nota-se um deslocamento industrial significativo para o interior paulista (superior a 20 p.p. entre 1985 e 2024) em dois terços dos doze setores manufatureiros. Em 2024, a indústria instalada no interior paulista já superava a das demais regiões do Estado (capital e regiões metropolitanas) na maioria dos setores manufatureiros.
Em resumo, nas últimas quatro décadas testemunharam um movimento de interiorização industrial consistente e disseminado por todos os setores manufatureiros. Se nas primeiras duas décadas desse período o deslocamento foi mais intenso nas indústrias de menor intensidade tecnológica, o processo intensificou-se e tornou-se mais expressivo justamente nos setores de maior intensidade tecnológica nas duas décadas mais recentes.












