Carta IEDI
Vetor de desenvolvimento: trajetórias industriais no Brasil e no mundo
O enfrentamento dos desafios globais contemporâneos, notadamente os climáticos, reforça o papel central da indústria para o desenvolvimento. As grandes inovações que se fazem necessárias só se tornarão uma realidade à disposição de todos por meio de bens concebidos e produzidos pela indústria.
O IEDI vem demonstrando isso em muitos de seus estudos, dentre os quais podemos citar as Cartas n. 759 “Indústria, mudança estrutural e desenvolvimento”, n. 989 “Indústria e Políticas de Desenvolvimento”, n. 1096 “Indústria: alavanca do crescimento” e n. 1344 “Inovação e Atualização da Política Industrial no Mundo” ou então no documento “Indústria e Estratégia de Desenvolvimento Socioeconômico do Brasil”.
No dia de hoje, em que comemoramos o Dia da Indústria, retomamos o tema na presente Carta IEDI a partir do artigo “Does manufacturing still matter? The revival of industrial policy and manufacturing´s contribution to development in high and middle-income countries”, publicado recentemente na revista Industrial and Corporate Change da Universidade de Oxford, e de autoria de Diegues, Yang, Roselino, Ferreira e Garcia.
O objetivo do trabalho foi analisar evidências recentes sobre a contribuição da indústria para o desenvolvimento dos países, a despeito da grande diversificação das economias em direção a atividades de serviços. Em outros termos, a transição para uma economia “pós-industrial” seria um caminho natural?
Para responder essa pergunta os autores se concentraram não na participação do PIB da indústria no PIB total dos países, mas no crescimento da produtividade do trabalho e dos salários na indústria, ou seja, da capacidade da criação de riqueza e de sua distribuição para o conjunto da população.
Em outros termos, a indústria contribuiria para o desenvolvimento por meio da produtividade e de seus impactos na construção de competitividade da produção nacional, enquanto nos salários, a contribuição viria do fato de que maiores salário dinamizam o mercado consumidor de um país.
O período de análise vai de 2000 a 2019 para uma amostra de 40 países, que respondem por quase a totalidade do valor adicionado e do emprego industrial global. Dentre estes, metade é de alta renda e metade de renda média, a exemplo do Brasil.
Assim como outros estudos internacionais recentes, os autores mostram que a desindustrialização, isto é, a queda da participação da manufatura na estrutura econômica, à medida que a renda avança, não se verifica do mesmo modo em todos os casos. As trajetórias são bastante heterogêneas. Países de renda elevada, sobretudo aqueles com forte inserção em setores de maior valor agregado, continuam sustentando bases industriais robustas.
Os setores industriais mais intensivos em tecnologia são os principais motores nos países de alta renda. Os ganhos de produtividade (+31,6%) e de salários (+27,3%) industriais concentraram-se nos segmentos de alta tecnologia (65,6% e 63%, respectivamente). Já nos países de renda média, cuja produtividade avançou +80,6% e os salários, +97,4% em 2000-2019, a maior contribuição veio dos segmentos de média e baixa tecnologia (58,2% e 55,3%, respectivamente), reflexo de uma estrutura produtiva menos sofisticada.
Outra diferença entre os grupos de países é que nos de alta renda produtividade e salários cresceram a ritmos próximos. A expansão da produtividade agregada chegou a ser um pouco superior graças principalmente à indústria de alta tecnologia, onde os salários, embora tenha aumentado fortemente (+17,2%), cresceram bem aquém da produtividade (+20,8%).
Nos países de renda média, por outro lado, os salários avançaram mais do que a produtividade e isso principalmente devido à indústria de baixa intensidade tecnológica e também à alta tecnologia. No primeiro caso, os níveis salariais partem de uma base baixa, favorecendo taxas mais robustas de crescimento. No segundo caso, possivelmente, em função da escassez relativa de mão de obra especializada.
Setores de média tecnologia tiveram produtividade crescendo à frente dos salários (+30,7% ante +24,5%). Esse fato talvez se explique porque no grupo de média tecnologia se concentram atividades intensivas em escala e capital, como petróleo e processamento de metais.
Outra distinção que vale ser notada é a origem dos ganhos de produtividade do trabalho registrados. Há um componente intrassetorial, decorrente de melhorias organizacionais e de modernização do próprio setor, e componentes de mudança estrutural. Estes, por sua vez, podem ser “estáticos”, quando o fator trabalho se desloca de atividades com níveis inferiores de produtividade para atividades com maior nível de produtividade, ou então “dinâmicos”, quando o deslocamento ocorre em direção a atividades com níveis e ritmo de crescimento superiores da produtividade.
Enquanto nos países de alta renda, praticamente todo o ganho de produtividade tem origem em melhorias intrassetoriais (94%), nos países de renda média ainda se verificou espaço para contribuição da mudança estrutural, respondendo por 13% dos ganhos, ainda que o componente intrassetorial também se mostrasse mais importante.
Isso decorre justamente do estágio de desenvolvimento, em que países de renda média ainda precisam modernizar atividades tradicionais, de menor intensidade tecnológica, ao mesmo tempo em que constroem competências em setores mais intensivos em tecnologia.
Evidentemente, os dados estilizados acima variam de país para país, mas ainda assim permanecem como uma boa fotografia, segundo os autores. Por exemplo, nos países de alta renda, em 60% dos casos os ganhos de produtividade e os aumentos de salário foram mais expressivos na indústria de alta tecnologia. Nos países de renda média, os casos são mais contrastantes. Vejamos dois deles.
A China foi o caso mais bem-sucedido em termos de ganhos de produtividade no período, alcançando crescimento de +357%. Ademais, isso foi obtido por meio de progressos significativos em todos os grupos de intensidade tecnológica, sendo que a indústria de média e alta tecnologia respondeu por 72,23% dos ganhos totais. Quanto aos salários, a China registrou alta de +477%.
Já ao Brasil, cabe destaque negativo. É verdade que não somos os únicos, pois, em geral, a produtividade nos países latino-americanos tem se saído muito mal, como discutido na Carta IEDI n. 1341, de dez/25, mas estamos na pior posição dos países analisados no estudo em tela.
Entre 2000 e 2019, a produtividade industrial do Brasil caiu -15,6%. Todos os grupos por intensidade tecnológica apresentaram queda, mas foi a baixa tecnologia que mais contribuiu para isso (49% do recuo), seguida pela alta (37%) e média intensidade tecnológica (13%).
Como muitos analistas já enfatizaram, o principal componente responsável pelo retrocesso do desempenho da produtividade da indústria brasileira foi o componente intrassetorial, em grande medida bloqueado por um ambiente econômico adverso ao investimento produtivo de décadas, gerando importante desatualização tecnológica do parque.
Não obstante o mau desempenho da produtividade, os salários do setor aumentaram +26,2% no período. A alta foi bem menor do que no agregado dos países de renda média (+97,4%), mas ainda assim ilustra uma clara desconexão entre as duas variáveis no caso brasileiro.
Sinal de que a dinâmica positiva, muitas vezes mencionada teoricamente, em que aumentos de salários e, consequentemente do consumo, estariam vinculados à ampliação dos mercados e ao aumento do investimento, acarretando ganhos de produtividade, não tem funcionado adequadamente no Brasil, inclusive, devido a longos episódios de altas taxas de juros.
Além destes resultados, o artigo de Diegues e coautores também realizou simulações para verificar se o crescimento da produtividade e dos salários dos setores industriais seguia o formato de uma tradicional curva em “U invertido” em relação à renda per capita (menor o crescimento dessas variáveis quanto maior a renda per capita).
Primeiro, o exercício mostrou que não há evidência de uma curva em “U invertido” entre renda per capita e contribuição da manufatura ao desenvolvimento (produtividade e salários) de modo generalizado.
Uma segunda conclusão do artigo é que, nos países de renda média, a contribuição da manufatura cresce com a renda sobretudo nos setores de média e alta tecnologia, enquanto os setores de baixa tecnologia perdem importância relativa.
Isso é importante porque indica que para a indústria preservar seu papel de vetor do desenvolvimento dos países é preciso que, em seu agregado, assuma uma trajetória em direção a atividades mais sofisticadas. Ou seja, setor mais intensivos em tecnologia precisam ganhar participação no sistema industrial.
Terceiro, nos países de renda alta também não aparece um padrão de declínio generalizado: o que se observa é mais uma desaceleração inicial e posterior estabilização, não uma reversão clara do papel da manufatura.
A contribuição da indústria para o desenvolvimento
Conforme apresentado em diversas Cartas IEDI recentes, a retomada do debate sobre política industrial tem destacado a centralidade da indústria para o desenvolvimento. Esse fenômeno contrasta com a ideia de uma economia pós-industrial e tem embasado programas de desenvolvimento e políticas públicas tanto em países de alta renda quanto emergentes.
As justificativas para a centralidade da indústria ao desenvolvimento são inúmeras e razoavelmente bem conhecidas no debate econômico. Para autores que destacam o papel da inovação na dinâmica econômica, o desenvolvimento decorre da “destruição criadora” viabilizada pela inovação, por meio da qual a produção se desloca em direção a atividades de alta tecnologia.
Essa interpretação destaca a inovação como motor da concorrência capitalista, que impulsiona a produtividade, especialmente na manufatura que possui um setor dedicado a revolucionar as formas de produzir, o de bens de capital. Ou seja, é a inovação que cria vantagens competitivas para firmas e países. Com base nessa tradição, a literatura do desenvolvimento oferece respaldo empírico à centralidade da manufatura para o crescimento.
O artigo “Does manufacturing still matter? The revival of industrial policy and manufacturing´s contribution to development in high and middle-income countries”, de Diegues e coautores, resgata estudos que mostram que a manufatura impulsiona o crescimento por meio de economias de escala, progresso técnico, encadeamentos intersetoriais e potencial exportador. Essa dinâmica, por sua vez, contribui para viabilizar a inserção nas cadeias globais de valor em segmentos de maior valor agregado e maior potencial de crescimento das exportações.
A partir de pesquisas internacionais, os autores mostram ainda que uma trajetória virtuosa de desenvolvimento envolve transformação estrutural, na qual o fator trabalho se desloca de setores de baixa produtividade para setores com maior sofisticação tecnológica e maiores salários.
Inicialmente, esse processo envolve a industrialização de economias agrárias, seguida por um deslocamento em direção aos serviços à medida que os níveis de renda se elevam, levando a uma “desindustrialização natural”. A partir desse caminho “natural” do desenvolvimento, estudos internacionais das décadas de 1990 e início dos anos 2000 analisaram a trajetória de industrialização em inúmeros países.
Como resultado, sugeriram que a participação da indústria no PIB se comportaria como uma espécie de curva em “U invertido”. Tendência semelhante seria observada no emprego manufatureiro, indicando que, mesmo em uma trajetória virtuosa, a importância relativa da manufatura declina após o alcance de um determinado limiar de renda.
Entretanto, o artigo em tela observa que estudos internacionais recentes têm destacado limitações dessas interpretações tradicionais. Segundo análises atuais, a regra de uma “desindustrialização natural” em formato da “curva em U invertido” não se aplica de maneira universal.
Ou seja, ao contrário do que se esperava nos anos 1990, não é possível afirmar que a indústria teria uma trajetória natural de perda de relevância em todos os países ou setores. Ao contrário, as evidências recentes sugerem que países de alta renda e exportadores de produtos de alto valor agregado seguem apresentando estruturas manufatureiras relevantes.
Nessa direção, os pesquisadores Andreoni e Tregenna, no estudo “Beyond the inverted U: the changing nature and structural heterogeneity of premature de-industrialisation”, de 2019, encontraram que, enquanto os setores de baixa tecnologia podem seguir a curva em “U invertido”, os setores de alta tecnologia tendem a manter ou ampliar sua participação no PIB e no emprego à medida que a renda aumenta.
Nos setores de alta tecnologia, a curva em “U invertido” é frequentemente substituída por uma curva exponencial, especialmente em indústrias de maior complexidade tecnológica.
Em síntese, quanto maior a renda dos países, maior a participação da indústria de alta intensidade tecnológica no PIB.
Com base nessas conclusões recentes da literatura internacional, o artigo de Diegues e coautores busca reavaliar empiricamente o papel da manufatura no desenvolvimento em países de renda alta e países de renda média. O estudo vai além das medidas tradicionais de participação da manufatura no PIB e no emprego e analisa como a indústria contribui de fato para o crescimento da produtividade e dos salários ao longo da trajetória de crescimento da renda dos países.
Indústria como vetor do crescimento da produtividade e dos salários
O estudo analisou a contribuição da indústria para o crescimento da produtividade e do salário em 40 países entre 2000 e 2019. Destes, 20 são classificados como de alta renda e 20 como de média renda. Conjuntamente, esses países representam 97% do valor adicionado e do emprego industriais mundiais.
Com base em metodologia consagrada na literatura internacional, o artigo buscou analisar o crescimento da produtividade e dos salários a partir de 3 componentes:
i) Componente intrasetorial
ii) Mudança estrutural estática
iii) Mudança estrutural dinâmica.
O componente intrasetorial mensura diretamente quanto a produtividade e o salário médio aumentaram em determinado setor industrial. Assim, calcula-se a produtividade ou o salário no final do período em análise (por exemplo em 2019) e divide-se pelos valores no início do período (por exemplo, 2000). A partir dessa divisão mensura-se a variação da produtividade e dos salários.
A mudança estrutural estática procura verificar se foi possível observar no interior da indústriauma migração de trabalhadores de setores com níveis mais baixos de produtividade e salário para setores com níveis mais elevados. Assim, se esta mudança estrutural apresenta resultado positivo, pode-se dizer que houve uma mudança virtuosa na economia. Ou seja, observou-se um aumento da participação relativa na indústria de ocupações que apresentam maiores níveis de produtividade e de salário.
Por fim, a mudança estrutural dinâmica é, de certa forma, uma combinação dos dois componentes anteriores. Ela mensura ao mesmo tempo o crescimento da produtividade e dos salários dentro de um determinado setor (como faz o componente intrasetorial) e se houve uma realocação de trabalhadores em direção a setores com maiores níveis de produtividade e salários.
Segundo o estudo, em uma trajetória de desenvolvimento virtuosa é esperado que os três componentes sejam positivos.
A fim de tornar a análise mais completa, o artigo procurou analisar o comportamento dos setores industriais segundo intensidade tecnológica, de acordo com a tabela abaixo.
Produtividade e salários industriais em países de alta renda
Para os países de alta renda (PAR), a produtividade industrial média cresceu 31,6% entre 2000 e 2019. Contudo, ao se analisar a dimensão setorial da expansão da produtividade, o segmento de alta tecnologia respondeu por aproximadamente dois terços (65,6%) dos ganhos totais. Ou seja, o dinamismo econômico dos países de renda alta esteve concentrado nos setores mais sofisticados e tecnologicamente complexos.
Nestes países o componente intrasetorial respondeu por quase todo o aumento (93,8%) da produtividade no período analisado. Por outro lado, o aumento da produtividade decorrente de mudanças estruturais (estáticas e dinâmicas), isto é, do redirecionamento de empregos industriais para setores com maior nível de produtividade, não foi significativo (6,2%) e se concentrou igualmente na parcela mais intensiva em tecnologia.
Dado que as estruturas produtivas desses países já eram consolidadas e concentradas nos setores de maior intensidade tecnológica, a expansão da produtividade total resultou fundamentalmente do crescimento da produtividade no interior dos diferentes segmentos industriais, por meio da incorporação de inovações, ganhos de escala ou outras variáveis internas a cada setor.
Quando se combinam as dimensões setorial e estrutural da análise, observa-se que cerca de metade da expansão da produtividade (48,74%) dos países de renda alta nas duas primeiras décadas do século XXI concentrou-se nos ganhos intrasetoriais dos segmentos de alta tecnologia (tabela acima). Assim, a expansão da produtividade desses países no período analisado reforçou as vantagens estruturais que já existiam.
Entretanto, ao se analisar a produtividade dos PAR desagregada por países, observa-se significativa heterogeneidade entre eles. Enquanto a Polônia (108,77%) mais do que dobrou sua produtividade entre 2000 e 2019, outros países, como Canadá (-3,39%), Suíça (-5,64%) e Austrália (-12,01%), registraram redução. Vale notar que o aumento de produtividade dos Estados Unidos foi de 31,41%, praticamente o mesmo da média do conjunto dos PAR.
Outra característica importante da produtividade desagregada diz respeito à sua distribuição setorial. Na maioria dos países de renda alta, o crescimento da produtividade concentrou-se nos segmentos de alta tecnologia. Em termos absolutos, destacam-se os países asiáticos Cingapura e Taiwan, com crescimento da produtividade nos segmentos mais sofisticados superior a 50% no período analisado.
Em termos relativos, isto é, quando se examina o aumento da produtividade no segmento de alta tecnologia em relação ao aumento da produtividade total, destacaram-se os países da Europa Ocidental — Espanha, Itália, Países Baixos, Alemanha e Áustria — juntamente com o Japão. Por outro lado, Austrália, Suíça, Estados Unidos e Canadá registraram redução da contribuição dos segmentos de alta tecnologia para o aumento agregado da produtividade industrial.
Na maior parte dos países de renda alta analisados (doze de vinte), os ganhos de produtividade ocorreram nos segmentos de alta tecnologia por meio de melhorias intrasetoriais, reforçando as vantagens tecnológicas das estruturas produtivas. Por fim, nos Estados Unidos, Canadá e Austrália houve ganhos intrasetoriais de produtividade, mas nos segmentos de média intensidade tecnológica, refletindo uma regressão de suas estruturas produtivas.
Com relação aos salários, entre 2000 e 2019, estes apresentaram o crescimento de 27,2%. Pode-se ver que 63,2% da expansão dos salários nos PAR ocorreu nos segmentos de alta tecnologia, refletindo praticamente a mesma proporção observada na produtividade. Quase todos os ganhos salariais (94,12%) resultaram de melhorias e avanços intrasetoriais, reforçando, assim, as vantagens estruturais desses países.
Contudo, quando a análise é desagregada por país, observa-se elevado grau de heterogeneidade no crescimento dos salários. Enquanto Polônia (97,62%) e República Tcheca (80,78%) apresentaram aumentos salariais muito acima da média, outros países, como Japão (5,66%) e Canadá (5,48%), registraram taxas muito baixas de expansão salarial. A Suíça, por sua vez, foi o único país a apresentar queda de salários (-11,57%) no período analisado.
Outra característica importante diz respeito à análise setorial, uma vez que, em quase todos os países de renda alta, o aumento dos salários concentrou-se nos setores de alta tecnologia. As maiores participações foram observadas em Taiwan (167,59%), Países Baixos (109,57%) e Espanha (108,60%), cujos setores de alta tecnologia, isoladamente, responderam por mais do que todo o aumento dos salários, compensando assim as quedas salariais nos demais segmentos.
Nos Estados Unidos e na Austrália, o crescimento dos salários distribuiu-se de forma relativamente equilibrada entre os três segmentos, enquanto na Suécia e, sobretudo, no Canadá, esse crescimento concentrou-se nos segmentos de média tecnologia (43,02% e 113,85%, respectivamente).
Por fim, a Polônia é o único país de renda alta cujo segmento de baixa tecnologia foi o principal responsável pelo crescimento dos salários (41,09%), mostrando que esse país possui uma estrutura produtiva menos desenvolvida em comparação com os demais países de renda alta.
Produtividade e salários industriais em países de renda média
Como se pode ver na tabela a seguir, os ganhos de produtividade industrial nos países de renda média (PRM) durante o período foram muito mais intensos do que aqueles observados nos países de renda alta, com um aumento total de 80,6%. Diferenças significativas também são observadas em termos de desagregação setorial, com os setores de média e baixa tecnologia explicando conjuntamente mais da metade dos ganhos de produtividade (58,2%).
Esses dados revelam dinâmicas distintas entre os dois grupos de economias, que certamente decorrem da maior importância relativa dos setores menos sofisticados nas estruturas produtivas dos países de renda média.
O desempenho mais bem-sucedido em termos de ganhos de produtividade no período foi o da China, que alcançou um aumento total superior a 357%. Vale notar que esse desempenho foi obtido por meio de progressos significativos de produtividade nos três grupos de setores, sendo que o conjunto de setores de média e alta tecnologia respondeu por 72,23% desse resultado.
Assim como nos países de renda alta, a maior parte do crescimento da produtividade é explicada pelo componente intrasetorial, mas, neste grupo, observa-se também um ganho mais significativo de produtividade decorrente da mudança estrutural (estática e dinâmica), que responde por 12,95% do aumento da produtividade.
Além da liderança da China nos ganhos de produtividade no período, cabe mencionar outros casos em que as variações superaram 100%: Omã (329,99%), Federação Russa (243,12%), Indonésia (191,15%) e Egito (137,09%).
Por outro lado, os destaques negativos, com os piores desempenhos, referem-se a Brasil e México, ambos com variação total de produtividade no período de -15,61% e -15,19%, respectivamente. A atividade industrial brasileira regrediu em termos de produtividade nos três grupos de setores, enquanto, no caso mexicano, a regressão da produtividade concentrou-se no grupo de atividades de baixa tecnologia.
Os casos brasileiro e mexicano são os mais severos entre as 20 economias analisadas no grupo dos países de renda média, mas outros dois países latino-americanos também apresentaram desempenho negativo: Colômbia, com -4,85%, e Peru, com -10,74%. Além desses quatro países latino-americanos, Irã (-0,71%) e Paquistão (-13,06%) também registraram variação total negativa da produtividade no período.
Entretanto, houve um aumento significativo dos salários nos países que compõem o grupo de renda média, alcançando uma variação de 97,4% no período. Esse crescimento ocorreu em taxas superiores às dos ganhos de produtividade (80,6%) e é amplamente explicado pelos ganhos obtidos pelo componente intrasetorial.
A desagregação setorial mostra que os aumentos salariais se concentram nas ocupações ligadas a atividades de menor complexidade tecnológica (55,4%), embora também haja ganhos significativos nos demais setores.
Mais uma vez, chama a atenção a significativa heterogeneidade no comportamento dessa variável. Novamente, o desempenho da China se destaca como o mais positivo, com crescimento de 477,23%. Os demais países que apresentaram desempenho superior à média geral do grupo foram: Romênia (454,94%), Federação Russa (228,02%), Omã (182,76%), Vietnã (161,40%) e Indonésia (100,88%).
Mais uma vez, os casos das economias latino-americanas se destacam como os de pior desempenho e, entre os quatro casos em que os salários apresentaram variação negativa, três pertencem a essa região: Peru (-18,23%), Colômbia (-11,43%) e México (-6,05%). A outra economia que também registrou variação negativa foi o Marrocos, com -5,06%.
As variações salariais industriais nesse grupo de países mostram uma correlação estreita entre o desempenho dessa variável e o da produtividade, indicando que ambas se comportam de maneira coerente como indicadores do processo de desenvolvimento econômico. Deve-se considerar, contudo, que a variação dos salários também apresenta outros determinantes, além daqueles diretamente relacionados ao processo de mudança estrutural, como o desempenho macroeconômico e os níveis de desemprego, fatores demográficos, bem como aspectos institucionais e políticos.
Produtividade e salários na indústria brasileira
Ao se analisar a decomposição estrutural da variação da produtividade da indústria brasileira entre 2000 e 2019, a primeira constatação que merece destaque é a de que o Brasil é o país que apresenta o pior desempenho entre todos os 20 países de renda média, como mostra a figura abaixo.
Enquanto a média de crescimento da produtividade destes países foi de 80,6% no período, a indústria brasileira apresentou uma queda de -15,6% (queda essa que se fez presente indistintamente em todos os segmentos tecnológicos).
Vale destacar que o componente intrasetorial foi responsável pela totalidade da queda da produtividade da indústria brasileira. Ao contrário dos demais componentes da decomposição estrutural que são afetados pela dinâmica de realocação setorial das atividades produtivas, o desempenho do componente intrasetorial é afetado pela dinâmica interna da firma ou do setor.
Ou seja, a variação da produtividade é condicionada por variáveis como estoque de capital, capacitações dinâmicas, estoque de conhecimento acumulado, grau de sofisticação tecnológica produtiva, entre outras.
Apesar de a indústria brasileira apresentar o pior desempenho entre os países de renda média no que diz respeito ao crescimento da produtividade entre 2000 e 2019, observa-se que este movimento não esteve associado a uma redução da remuneração média. Não obstante, o crescimento dos salários industriais locais foi substancialmente menor do que o valor médio entre os PRM (26,2% versus 97,4%, respectivamente).
Outro aspecto relevante, ao se examinar o comportamento dos salários médios industriais no Brasil, é que seu crescimento foi relativamente disseminado entre os diferentes segmentos de intensidade tecnológica. Assim, mesmo os segmentos que apresentaram forte queda de produtividade, como os de alta e de baixa intensidade tecnológica, registraram crescimento do salário médio.
A principal hipótese para explicar esse movimento, contudo, parece estar mais relacionada à dinâmica do mercado de trabalho brasileiro do que às transformações da indústria. Isso porque o componente que mais contribuiu para o crescimento dos salários também foi o intrasetorial.
Dessa forma, o aumento do salário médio não decorreu de uma reestruturação setorial com deslocamento de trabalhadores em direção a setores de maior sofisticação tecnológica e, portanto, de maiores níveis salariais. Ou seja, tal movimento não foi causado por uma trajetória virtuosa de contribuição da indústria ao desenvolvimento.
Ao que tudo indica, esse movimento esteve mais associado à persistência, ao longo de boa parte do período analisado, de uma política deliberada de valorização real do salário-mínimo, instituída no primeiro governo Lula. Isso porque, a partir de 2006 entrou em vigor uma regra segundo a qual o salário-mínimo passou a ser reajustado anualmente pela inflação observada no ano anterior, acrescida do crescimento do PIB verificado dois anos antes. Como resultado, entre 2003 e 2019, o crescimento real do salário-mínimo alcançou 97%.
Crescimento da renda e relevância da indústria para o desenvolvimento
Além dos resultados descritivos, o estudo em tela também realizou inúmeras simulações econométricas que buscaram avaliar se seria possível identificar uma redução da contribuição da indústria ao desenvolvimento a partir de um certo patamar – elevado – de renda per capita.
Ou seja, os autores procuraram avaliar se a curva em “U invertido” seria válida quando se analisa a relação entre crescimento da renda per capita e a capacidade dos setores industriais continuarem a aumentar sua produtividade e o salário dos trabalhadores.
Esses modelos têm o seguinte propósito: avaliar qual é o comportamento esperado do crescimento da produtividade e dos salários industriais conforme o PIB per capita dos países aumenta. São dois grupos de modelos. Um deles analisa tal relação para a produtividade e o outro grupo para o crescimento dos salários.
Caso as curvas estimadas pelos modelos fossem em formato de “U invertido”, as conclusões seriam que a contribuição da indústria ao desenvolvimento subiria até determinado patamar e depois se reduziria conforme os países aumentassem seu PIB per capita.
Se fossem verificadas curvas com esse formato, o artigo traria evidências de que a contribuição da indústria ao desenvolvimento se reduziria a partir do momento em que os países apresentassem elevados níveis de renda per capita. É exatamente este formato de curva que as interpretações tradicionais dos anos 1990 e início dos anos 2000 sugeria ao minimizar a importância da indústria para o desenvolvimento.
Entretanto, os resultados do artigo vão na direção oposta dessas interpretações e reforçam a continuidade da centralidade da indústria para o crescimento da produtividade e dos salários no período entre 2000 e 2019. Tais conclusões são válidas tanto para países de alta quanto de média renda, conforme se pode observar nos gráficos abaixo.
O primeiro deles mostra a relação entre o crescimento dos salários industriais (no eixo vertical) e da renda per capita (eixo horizontal) nos países de renda média. O eixo vertical mostra o crescimento dos salários em termos percentuais. O valor de 1 neste eixo, por exemplo, significa que a produtividade cresceu 100%. Já o eixo horizontal mostra o logaritmo natural da renda per capita. A título ilustrativo, o valor de ln = 10 refere-se à renda per capita de US$ 22 mil.
Os gráficos mostram resultados muito semelhantes ao comportamento da produtividade industrial também para os países de renda média, conforme apresentado na primeira seção desta publicação.
Novamente não se observa uma curva em “U invertido” e sim uma tendência de continuidade de crescimento da contribuição da indústria, via crescimento dos salários. Essa tendência é válida para os três gráficos, que representam da esquerda para a direita os setores de alta intensidade tecnológica, média e baixa intensidade.
Para os países de alta renda também não se observa uma curva em “U invertido”. Ou seja, a indústria não perde capacidade de contribuir para o desenvolvimento a partir de determinado patamar de renda per capita. O que se observa é que após um declínio inicial da contribuição da indústria, esta contribuição se estabiliza. Tal conclusão é válida tanto para sua capacidade de aumentar produtividade quanto de pagar maiores salários. A figura abaixo ilustra esse comportamento para a produtividade.
Esses resultados estão em linha com os artigos mais recentes da literatura internacional – como o artigo de 2021 de Dosi, Riccio e Virgillito, intitulado “Varieties of deindustrialization and patterns of diversification: why microchips are not potato chips”, publicado na revista Structural Change and Economic Dynamics.
Nos países de renda média, a evidência empírica revela um padrão amplamente consistente, segundo o qual o aumento da renda per capita está associado a uma maior contribuição da indústria ao desenvolvimento. Essa conclusão vale tanto para o crescimento da produtividade quanto o dos salários.
A exceção mais importante a esse padrão aparece quando se examina o efeito de mudança estrutural nos setores de baixa tecnologia. Nesses setores o aumento da renda per capita produz um efeito negativo de realocação de trabalhadores para essas atividades, reduzindo, assim, sua contribuição ao desenvolvimento agregado.
Vale ressaltar, entretanto, que tal movimento de redução da importância relativa de setores de baixa intensidade tecnológica é um movimento esperado em um processo virtuoso de transformação estrutural. É uma constatação convergente com outros estudos sobre o tema, a exemplo da Carta IEDI n. 920 “O perfil setorial do retrocesso da indústria brasileira”, de abril de 2019.
Para os países de renda alta, os resultados mostram que, ao contrário do que se pode inferir das interpretações de desindustrialização normal ou positiva, não se observa uma curva em “U invertido” no comportamento da produtividade. No caso da variável salários, há uma tendência quase generalizada de declínio de sua contribuição ao desenvolvimento à medida que a renda per capita aumenta, exceto nos setores de alta tecnologia.
Os resultados empíricos sobre esses padrões de contribuição da manufatura ao desenvolvimento ressaltam a importância de políticas industriais ajustadas à diversidade de dinâmicas entre setores e países.
À medida que se intensificam as transições digital e verde, redefinem-se a estrutura das atividades manufatureiras e suas dinâmicas de inovação. Como resultado, novas tecnologias como inteligência artificial, robótica e manufatura aditiva vêm remodelando a produção e os serviços. Os autores do estudo sustentam a necessidade de permanentes transformações das políticas industriais e de inovação para enfrentar os desafios dessa transição.
Essas tecnologias não apenas abrem novas possibilidades de crescimento econômico, mas também colocam desafios que exigem políticas industriais direcionadas. Em particular, as novas tecnologias requerem políticas que promovam aprendizagem interativa e construção de novas capacidades produtivas de forma abrangente, estabelecendo um ecossistema econômico robusto, capaz de sustentar a inovação ao mesmo tempo em que responde a objetivos sociais e de sustentabilidade.
As políticas industriais e de inovação, portanto, devem criar incentivos para fortalecer a competitividade das indústrias domésticas de forma sustentável. Esses desafios são particularmente agudos nos países de renda média, onde o risco de ampliação da distância tecnológica em relação aos países de renda alta é mais intenso. Nesse contexto, as políticas precisam estimular a integração de tecnologias digitais e o fortalecimento das capacidades locais.










