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                          Carta IEDI

                          Edição 1365
                          Publicado em: 12/06/2026

                          Política Industrial e de Inovação nos Estados Unidos de Obama a Trump II: continuidade ou ruptura?

                          Sumário

                          A Carta IEDI de hoje examina a trajetória da política industrial e de inovação dos Estados Unidos desde o governo Obama até o segundo mandato de Donald Trump e complementa Cartas anteriores sobre a evolução recente de outras potências industriais, como as de n. 1358 “15º Plano Quinquenal da China: aposta redobrada na indústria e tecnologia” e n. 1352 “Ambição industrial europeia: um novo capítulo com o Industrial Accelerator Act 2026”.

                          No caso dos Estados Unidos, a despeito das alternâncias partidárias e das retóricas divergentes, o período 2009-2026 assistiu a uma transformação estrutural na política econômica norte-americana: a passagem de um regime de liberalismo econômico com intervenções marginais para um regime de capitalismo industrial mais ativo.

                          Essa transformação não foi linear nem resultou de uma escolha ideológica única. Foi construída camada a camada por administrações de distintas colorações político-partidárias, cada uma adicionando novos instrumentos ao repertório sem desfazer inteiramente o que a anterior havia construído. 

                          A análise se organiza em três eixos: a evolução da Estratégia Nacional de Manufatura Avançada; os instrumentos mobilizados — institutos de pesquisa, subsídios, tarifas, controles de exportação e participação acionária estatal —; e a dimensão geopolítica, em particular a competição estratégica com a China.

                          A competição com a China emerge, ao longo de toda a análise, como o principal catalisador dessa transformação. É ela que confere urgência e legitimidade bipartidária a medidas que, em outro contexto, poderiam ser contestadas como intervencionismo inaceitável: controles de exportação sem precedentes sobre semicondutores e equipamentos de fabricação de chips; subsídios setoriais de centenas de bilhões de dólares; tarifas universais; e participações acionárias estatais em empresas estratégicas de minerais críticos, semicondutores e energia nuclear. É ela, finalmente, que transforma a política industrial e de inovação de uma questão essencialmente econômica em uma questão de segurança nacional.

                          A análise identifica um conjunto robusto de continuidades que transcendem as alternâncias políticas: 

                               •  Compromisso com a liderança tecnológica como imperativo de segurança nacional; 

                               •  Manutenção e expansão da rede Manufacturing USA como espinha dorsal da política de inovação industrial; 

                               •  Contenção do avanço tecnológico da China, sobretudo em semicondutores; 

                               •  Uso do poder de compra governamental como instrumento de política industrial e de inovação; 

                               •  Abandono do consenso do laissez-faire. 

                          O que divide democratas e republicanos são os instrumentos: subsídios diretos versus tarifas; regulação ambiental versus desregulamentação; equidade social como objetivo estratégico versus sua exclusão da agenda.

                          As rupturas mais significativas introduzidas pelo governo Trump II são: 

                               •  Desmantelamento da agenda climática incorporada por Biden à política industrial; 

                               •  Eliminação das condicionalidades sociais atreladas aos subsídios do CHIPS Act e do Inflation Reduction Act (IRA); 

                               •  Substituição de subsídios diretos por tarifas universais como mecanismo central de reindustrialização; 

                               •  Intenção declarada de reduzir o financiamento federal à ciência básica, com impacto considerável sobre a NSF e o NIH já em 2025; e 

                               •  Recurso inédito à participação acionária estatal direta em empresas privadas estratégicas. 

                          Essas rupturas são, ao menos por ora, em geral menos radicais do que a retórica do presidente Trump sugere, dado que os compromissos financeiros firmados com TSMC e Intel foram mantidos e a rede Manufacturing USA foi preservada.

                          Os desafios à continuidade dessa política são consideráveis. No plano doméstico: a tensão entre o custo fiscal dos subsídios e a pressão inflacionária das tarifas sobre consumidores e empresas; a dificuldade de formar e reter a força de trabalho qualificada para uma manufatura avançada de escala — agravada pela fuga de pesquisadores e pela queda nas matrículas de estudantes internacionais em 2025; e a fragmentação regulatória entre estados que dificulta estratégias industriais nacionais coerentes. 

                          No plano externo: as tensões com aliados causadas pelas tarifas universais; a erosão do multilateralismo comercial; e o risco de que a estratégia de contenção tecnológica da China, ao restringir o acesso de Pequim às tecnologias de fronteira, acabe por acelerar sua busca por autonomia tecnológica e, eventualmente, ampliar sua competitividade.

                          O resultado é uma política industrial híbrida e pragmática, que não se encaixa perfeitamente em nenhum dos modelos analíticos disponíveis — nem no liberalismo clássico, nem na social-democracia industrial europeia, nem no capitalismo de Estado asiático. É uma síntese original, moldada pelas especificidades do sistema político norte-americano e pelo imperativo geopolítico de manter a supremacia tecnológica diante da ascensão chinesa.

                          Introdução

                          A Carta IEDI de hoje examina a trajetória da política industrial e de inovação dos Estados Unidos desde o governo Obama até o segundo mandato de Donald Trump (2025–2026). Como será visto a seguir, a despeito das alternâncias políticas partidárias e das retóricas divergentes, assiste-se a uma transformação estrutural na política econômica norte-americana. 

                          O governo Obama marca a emergência de um Estado estrategista que utiliza, de forma crescente nas administrações seguintes, ativa e explicitamente o poder público para moldar mercados, cadeias de suprimentos e fronteiras tecnológicas em favor dos interesses nacionais.

                          O ponto de inflexão inicial foi a crise financeira de 2008, que expôs com dramaticidade a fragilidade da base industrial manufatureira norte-americana após décadas de desindustrialização e de deslocamento de cadeias produtivas para o exterior, sobretudo para a China. 

                          O governo Obama respondeu com um conjunto articulado de iniciativas voltadas à recuperação econômica e à modernização industrial, ancoradas na ideia de que a manufatura avançada é condição sine qua non para a manutenção da liderança tecnológica e do poder geopolítico norte-americano. 

                          A administração Trump I radicalizou o componente protecionista da agenda, introduzindo tarifas agressivas e reposicionando a política industrial sob o signo da segurança nacional. Ao mesmo tempo, no final do mandato, ante a pandemia de COVID-19, o governo utilizou a Lei de Produção de Defesa, promulgada em 1950, para fabricação de insumos médicos e para a criação da Operation Warp Speed, que injetou bilhões de dólares em P&D de vacinas, marcando os primeiros sinais de intervenção federal direta em décadas. 

                          Biden combinou, por sua vez, controle de exportação, subsídios industriais sem precedentes — viabilizados pelo CHIPS and Science Act e pelo Inflation Reduction Act — com metas de descarbonização e equidade social. 

                          O governo Trump II, finalmente, mantém o núcleo duro da reindustrialização, mas substitui boa parte dos subsídios diretos por tarifas universais, desregulamentação acelerada, participação acionária estatal em empresas estratégicas e uma nova arquitetura de atração de megainvestimentos.

                          A partir das informações coletadas na leitura de documentos oficiais da Casa Branca, dos ministérios e agências governamentais bem como de relatórios institucionais e estudos acadêmicos selecionados, listados no final desta Carta, a análise irá se concentrar em três eixos principais: (i) a Estratégia Nacional de Manufatura Avançada e sua evolução ao longo das sucessivas administrações; ii) os instrumentos utilizados para a promoção da reindustrialização e da inovação de ponta, tais como a criação de institutos e centros de pesquisa avançada, subsídios, tarifas, controles de exportação e participação acionária estatal; iii) a dimensão geopolítica da política industrial, em particular a competição estratégica com a China. À guisa de conclusão, é apresentada uma síntese das continuidades e rupturas das políticas. 

                          A Estratégia Nacional de Manufatura Avançada: continuidades e evoluções

                          Durante décadas, os Estados Unidos sustentaram publicamente o livre mercado, rejeitando a política industrial como instrumento de governo, enquanto cultivavam, de forma descentralizada e muitas vezes invisível ao público, uma densa rede de agências de fomento à inovação, o que analistas, como o professor da Universidade da Califórnia Fred Block (2008), denominaram de Estado Desenvolvimentista Oculto (hidden developmental state). 

                          Essa postura começou a se modificar após a crise financeira de 2008 e se transformou em ruptura declarada durante a pandemia de Covid-19, que expôs vulnerabilidades críticas nas cadeias globais de suprimentos, especialmente na dependência de semicondutores, medicamentos e minerais estratégicos produzidos na Ásia.

                          O governo Barack Obama (2009–2017) representa o momento em que as bases institucionais do atual modelo de política industrial norte-americana foram lançadas, ainda que sob a terminologia de inovação e competitividade, e não sob o termo politicamente sensível de política industrial. Sob o amparo do America COMPETES Reauthorization Act, de 2010, legislação que visava impulsionar a inovação e a competitividade norte-americanas por meio do financiamento federal de pesquisa e educação em ciência e tecnologia, o Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia (NSTC) lançou a National Strategic Plan for Advanced Manufacturing em fevereiro de 2012. 

                          O plano foi estruturado em cinco pilares: 

                               (i)  aceleração do investimento em pesquisa e desenvolvimento industrial, com ênfase na redução do chamado “Vale da Morte” da inovação — o hiato entre a descoberta laboratorial e a produção em escala comercial; 

                               (ii)  fortalecimento da força de trabalho, mediante harmonização curricular com as demandas da indústria moderna, certificações nacionais e parcerias entre universidades, community colleges e empresas; 

                               (iii)  apoio à transição da pesquisa para o mercado, com criação de parcerias público-privadas e centros de inovação; 

                               (iv)  otimização do investimento federal em P&D, coordenando por ministérios ou agências como Departamento de Defesa (DoD), Departamento de Energia (DOE), National Institute of Standards and Technology (NIST), vinculado ao Departamento do Comércio (DOC) e National Science Foundation (NSF) para evitar redundâncias e priorizar tecnologias transversais (novos materiais, nanotecnologia, fabricação aditiva, robótica avançada); e 

                               (v)  criação de ecossistemas regionais de inovação, que viriam a constituir a rede Manufacturing USA.

                          A peça central dessa estratégia foi a proposta de criação de uma Rede Nacional de Inovação Industrial (NNMI), uma rede de institutos de manufatura avançada explicitamente inspirada nas instituições Fraunhofer da Alemanha para servir como centros de excelência regional em áreas específicas de manufatura avançada (Ver Carta IEDI 820). A Lei de Revitalização da Manufatura e Inovação Americana (RAMI) de 2014 formalizou essa proposta. 

                          Como descreve o professor James Wood (2025), da Universidade de Cambridge, esses institutos representaram “uma mudança fundamental em direção a sistemas de coordenação não mercantis para apoiar a inovação”. Como será visto abaixo, a rede foi ampliada nos governos Trump I e Biden e, em 2022, já contava com 17 institutos especializados, abrangendo tecnologias que iam da manufatura aditiva à biofabricação, da robótica à fotônica integrada. 

                          Em termos de papel do Estado, o governo Obama atuou fundamentalmente como facilitador: criou a infraestrutura de suporte à inovação, financiou institutos em regime de cost-match com o setor privado e promoveu parcerias público-privadas sem intervir diretamente na propriedade das empresas. A ênfase era no crescimento econômico e na eficiência do ecossistema de inovação, e não na competição explícita com rivais geopolíticos.

                          Além de estabelecer a base legal para o programa de criação da rede de institutos de inovação em manufatura, atualmente denominado Manufacturing USA, o RAMI Act formalizou e reforçou a exigência de atualização periódica da estratégia nacional de manufatura avançada, estabelecendo a obrigatoriedade de atualização quadrienal da Estratégia Nacional de Manufatura Avançada, criando assim mecanismo de planejamento de longo prazo que transcende os ciclos eleitorais. 

                          Os três planos publicados até 2022 — 2012 (Obama), 2018 (Trump I) e 2022 (Biden) — compartilham uma matriz comum de objetivos: manter a liderança tecnológica americana, criar empregos de alta qualidade, fortalecer a segurança nacional por meio da base industrial e garantir a resiliência das cadeias de suprimentos. O que muda entre os planos é o peso relativo de cada prioridade e os instrumentos privilegiados.

                          Enquanto o governo Obama priorizou a criação da infraestrutura de inovação (como os institutos), o plano estratégico do Governo Trump I lançado em 2018 deu um peso muito maior à segurança nacional, à competitividade econômica frente a rivais globais (como a China), à proteção da propriedade intelectual e à desregulação para acelerar o investimento privado. O tom da estratégia tornou-se mais assertivo quanto à “liderança americana” como uma necessidade estratégica global. Já a estratégia de 2022 é a mais abrangente em termos de metas socioambientais, refletindo os compromissos da administração Biden com a descarbonização e a equidade. 

                          No governo Trump I, a Estratégia Nacional para Manufatura Avançada de 2018, segundo ciclo exigido pela lei, foi publicada com o título Strategy for American Leadership in Advanced Manufacturing e, em vez de desmantelar as iniciativas de Obama, o governo as manteve e expandiu, acrescentando foco em inteligência artificial e computação quântica. Seus três objetivos estratégicos centrais eram: 

                               (i)  desenvolver e transicionar novas tecnologias de manufatura, priorizando sistemas inteligentes (Indústria 4.0), materiais avançados, fabricação aditiva e semicondutores; 

                               (ii)  educar, treinar e conectar a força de trabalho, com expansão de programas de aprendizagem e recrutamento de veteranos militares; e 

                               (iii)  expandir as capacidades da cadeia de suprimentos doméstica, com foco na Base Industrial de Defesa e na redução de dependências externas em componentes críticos.

                          No plano de 2018, a liderança americana não era apresentada como um bem em si, mas como uma necessidade estratégica face a adversários que não competiam segundo as regras do livre mercado. O papel do Estado, ainda que sem abandono das parcerias público-privadas, deslocou-se do facilitador para o protetor.

                          No governo Biden, a Estratégia Nacional para Manufatura Avançada de outubro de 2022, terceiro ciclo do plano quadrienal, foi a mais ambiciosa das três versões, tanto em volume de recursos comprometidos quanto em amplitude de objetivos. Ela se beneficiou de um contexto político excepcional: a aprovação, em 2022, do CHIPS and Science Act e do Inflation Reduction Act (IRA) injetou centenas de bilhões de dólares em subsídios industriais diretos, transformando o que antes eram aspirações estratégicas em compromissos orçamentários concretos.

                          O plano de 2022 estruturou-se em três pilares: (i) desenvolvimento e implementação de tecnologias de ponta, com ênfase em manufatura limpa e descarbonização, incluindo a meta de emissões líquidas zero até 2050, liderança em microeletrônica e semicondutores, biofabricação e manufatura inteligente; (ii) fortalecimento da força de trabalho, com foco em educação técnica e com metas explícitas de equidade e inclusão de comunidades sub-representadas; e (iii) resiliência das cadeias de suprimentos, reduzindo dependências de “nações não aliadas”, apoiando as pequenas e médias empresas (PMEs) e expandindo a rede Manufacturing USA. O documento explicitamente buscava elevar a manufatura limpa a um patamar de prioridade maior do que em 2018, refletindo os novos compromissos com descarbonização.

                          Em relação às versões anteriores, o plano de 2022 inovou sobretudo em três dimensões: elevou a sustentabilidade climática ao centro da política industrial, ausente em 2012 e marginal em 2018; incorporou a justiça social como objetivo estratégico formal; e aprofundou a intervenção estatal direta, substituindo a abordagem orientada ao mercado por subsídios massivos. Se o de 2012 foi o plano da inovação, e 2018 o da competitividade, 2022 foi o plano da resiliência e da sustentabilidade (Quadro abaixo).

                           

                          O Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia (NSTC), que monitora anualmente o progresso das agências federais participantes da Estratégia Nacional para Manufatura Avançada, ressaltou no documento de 2022 que, embora houvesse progressos desde 2018, a pandemia expôs fragilidades críticas nas cadeias de suprimentos que a estratégia anterior não havia resolvido, e que a transição de inovações em P&D para fabricação comercial em larga escala dentro dos Estados Unidos permanecia um desafio central.

                          A Estratégia de 2022 estabelece prazos e indicadores de sucesso por meio de três mecanismos principais: 

                               •  O primeiro é o horizonte temporal de quatro anos, que exige que as agências federais envolvidas no NSTC alinhem seus orçamentos e programas para que os objetivos sejam iniciados ou alcançados entre 2022 e 2026. 

                               •  O segundo são metas de capacitação e infraestrutura: o documento menciona a necessidade de preencher cerca de quatro milhões de vagas na manufatura até 2030, alertando para o risco de que até 2,1 milhões dessas vagas fiquem ociosas por falta de qualificação. 

                               •  O terceiro mecanismo é o alinhamento com legislações paralelas — o CHIPS and Science Act e o Inflation Reduction Act (IRA) — cujos prazos implícitos conferem urgência às metas industriais.

                          Em um artigo publicado no American Affairs em agosto de 2023, David Adler e William B. Bonvillian, do MIT, sustentam que, embora sejam importantes, as iniciativas de política industrial do Governo Biden, como o CHIPS e o IRA, não foram suficientes para resolver a desconexão histórica dos Estados Unidos entre o seu sistema de inovação e o seu sistema de produção manufatureira avançada. 

                          Ainda que o país continue a ser um líder em pesquisa básica, argumentam os pesquisadores, perdeu a capacidade de traduzir essas descobertas em produção em escala no mercado doméstico, resultando em déficits comerciais crescentes e na perda de liderança em setores estratégicos, como o de energia limpa. Desse modo, “os Estados Unidos não estão nem perto de ser tão dominantes na manufatura avançada quanto foram na manufatura em massa durante a primeira metade do século XX”.

                          Para que os Estados Unidos tenham sucesso na produção de manufatura avançada em larga escala, esses autores consideram ser preciso redesenhar seu sistema de inovação, de modo que a inovação esteja mais intimamente ligada à produção. 

                          Nesse sentido, Adler e Bonvillian defendem que as agências federais de P&D que, historicamente, se dedicam à pesquisa básica, financiando níveis de prontidão tecnológica de 1 a 3, ou seja, do estágio inicial à prova do conceito, passem a atuar no financiamento dos institutos de manufatura avançada, que se concentram nos estágios pós-pesquisa. Só assim, os Estados Unidos teriam um sistema de inovação conectado para impulsionar a manufatura avançada.

                          Iniciado em janeiro de 2025, o segundo governo Trump herdou um ciclo estratégico ainda vigente, uma vez que o plano de 2022 cobre o período 2022-2026, e iniciou processo de revisão para o novo ciclo 2026-2030. 

                          Em junho de 2025, o OSTP publicou, em nome do Subcomitê de Manufatura Avançada do NSTC, uma solicitação de contribuições (RFI) de todas as partes interessadas sobre o desenvolvimento do novo Plano Estratégico Nacional para Manufatura Avançada. O prazo para respostas originalmente previsto para o final de setembro de 2025 foi adiado para 30 de março de 2026. 

                          Os contornos dessa atualização indicados na RFI apontam que novo plano deverá “acelerar P&D, desmantelar barreiras regulatórias, fortalecer cadeias domésticas, estimular investimento privado e avançar empresas americanas em mercados globais para garantir a liderança dos Estados Unidos em tecnologias avançadas”. A divulgação do novo Plano é esperada para o segundo semestre de 2026. 

                          Em seus comentários enviados ao OSTP em dezembro de 2025, a Information Technology and Innovation Foundation (ITIF), um centro de estudos e pesquisas sobre políticas públicas de tecnologia e inovação, avaliou que a estratégia atual tem as metas corretas, mas carece de estratégias setoriais específicas e de um financiamento mais agressivo em educação técnica e infraestrutura de dados para ser plenamente eficaz. A fundação recomendou a criação de planos decenais para indústrias de tecnologias disruptivas, como biotecnologia, aeroespacial, automotiva e robótica, nos moldes do que já existe para semicondutores.

                          Instrumentos de Política Industrial e de Inovação

                          A política industrial norte-americana mobilizou, ao longo das quatro administrações do período 2009-2026, um amplo arsenal de instrumentos, complementares em alguns momentos, substitutos em outros. Esta seção analisa os principais mecanismos: a rede de institutos de pesquisa avançada; os subsídios e incentivos fiscais; a atração de investimento estrangeiro direto; as tarifas de importação; os controles de exportação; e a participação acionária estatal em empresas privadas estratégicas.

                          O Programa Manufacturing USA. A criação de uma rede nacional de institutos de manufatura avançada constitui o instrumento de maior continuidade entre as quatro administrações. Concebida no governo Obama com o projeto-piloto em Youngstown, Ohio (America Makes, 2012), a rede — inicialmente denominada National Network for Manufacturing Innovation (NNMI) e rebatizada Manufacturing USA — consolidou-se como a espinha dorsal da política de inovação industrial norte-americana.

                          Sob Obama, foram criados os primeiros institutos de base — oito pelo DoD e dois pelo DOE —, estabelecendo o arcabouço institucional e o modelo de governança. Trump I manteve a rede e lançou seis novos institutos, com ênfase em cibersegurança industrial (CyManII) e biotecnologia (BioMADE). Biden elevou o patamar de investimento via CHIPS Act, com foco na integração da IA à manufatura e na autonomia da cadeia de suprimentos de semicondutores — o aporte federal previsto para o novo instituto de Gêmeos Digitais para Semicondutores alcançou US$ 285 milhões.

                          Coordenado pelos DOC, DoD e DOE, o programa cresceu de 14 para 17 institutos entre 2019 e 2024, com planos de expansão para 19 unidades em 2025. Os institutos são divididos em cinco áreas tecnológicas: digital e automação (America Makes, ARM Institute, CyManII, MxD); eletrônicos (AIM Photonics, NextFlex, PowerAmerica); energia e processos (CESMII, RAPID, EPIXC); biomanufatura (BioFabUSA, BioMADE, NIIMBL); e materiais (AFFOA, IACMI, LIFT, REMADE).

                          O modelo de financiamento padrão prevê um aporte federal inicial de US$ 70 a US$ 110 milhões por um período de cinco a sete anos, obrigatoriamente igualado ou superado por investimentos do setor privado e governos estaduais (cost-match). Os institutos são organizados em torno de áreas tecnológicas específicas e congregam universidades, empresas e laboratórios nacionais. A gestão é delegada a entidades sem fins lucrativos ou a consórcios industriais, com supervisão das agências financiadoras (DoD, DOE ou o NIST, vinculado ao DOC).

                          O sucesso do modelo é atestado pelo fato de que a maioria dos institutos criados no governo Obama já atingiu a fase de sustentabilidade financeira, operando majoritariamente com anuidades de membros da indústria e contratos de P&D privados — exatamente o objetivo original de reduzir a dependência de verbas federais. Contudo, desafios persistem: dificuldades de alinhamento estratégico com o ciclo quadrienal da Estratégia Nacional, atrasos administrativos nos processos de seleção de novos membros e financiamento de projetos, e a complexidade crescente de integrar sistemas digitais de pequenas fábricas às plataformas avançadas dos institutos.

                          O relatório anual do National Institute of Standards and Technology (NIST) publicado em 2025 apresenta resultados expressivos para o ano fiscal de 2023: mais de 920 projetos de pesquisa e desenvolvimento aplicado gerenciados, com 85% das metas técnicas atingidas; mais de 2.900 organizações membros, sendo 73% pequenas e médias empresas; mais de 150 mil pessoas treinadas, com 17 mil concluindo certificações ou aprendizados formais. No ano fiscal de 2023, os investimentos totalizaram aproximadamente US$ 540 milhões, com cada dólar federal alavancando 2,40 dólares de coinvestimento privado e/ou estadual.

                          Exemplos de impacto setorial incluem: o ARM Institute, cujos sistemas de inspeção 3D foram implementados em linhas de produção do conglomerado automotivo Stellantis; o PowerAmerica, que ajudou a John Deere a acelerar em cinco anos o P&D em eletrônicos de potência eficiente; e o NIIMBL, que desenvolveu técnicas não invasivas usando ressonância magnética para detectar antígenos em vacinas (quadro-resumo abaixo).

                           

                          Desafios estruturais do Programa Manufacturing USA ainda persistem e seu reconhecimento faz parte de um processo continuado de aprimoramento. Em relatório enviado para o Congresso em junho de 2025, o Government Accountability Office (GAO) identificou desafios críticos que comprometem a eficácia plena do programa. 

                          O primeiro é o desalinhamento estratégico entre os ciclos de planejamento do programa Manufacturing USA e da Estratégia Nacional de Manufatura Avançada. Enquanto o Manufacturing USA opera com planos estratégicos de três anos, a Estratégia Nacional é atualizada a cada quatro anos. Como esse descompasso compromete a coerência entre as prioridades nacionais e a execução dos institutos, o GAO recomendou ao Congresso que ajustasse os prazos de planejamento para garantir o alinhamento.

                          O segundo desafio é a existência de atrasos administrativos. Os institutos e membros relataram demoras incertas por parte do DoD e do DOE na revisão de pedidos de financiamento e de novas adesões de membros, gerando o que o relatório denomina, em analogia com o vale da morte da inovação, de “vale da morte administrativo”, no qual projetos inovadores perdem o tempo de mercado enquanto aguardam aprovações burocráticas (quadro a seguir). O GAO recomendou que o DoD e o DOE monitorem formalmente os tempos de revisão para identificar gargalos, e as agências concordaram com as recomendações.

                          O terceiro desafio é o controle da participação estrangeira: embora novas políticas estejam sendo desenvolvidas para restringir a participação de entidades de “países de preocupação” — tais como a China —, as diretrizes ainda variam entre as agências e não são uniformes. 

                          O quarto é a sustentabilidade financeira pós-federal. Após o término do financiamento federal inicial, geralmente de cinco a sete anos, os institutos enfrentam o desafio de manter suas operações majoritariamente com taxas de membros e projetos privados. Os dados mostram uma evolução positiva nessa dimensão, com os institutos diversificando suas receitas, mas a transição permanece um ponto de vulnerabilidade.

                           

                          Expansão, cortes e reconfiguração foram verificados sob Trump II. O DOC anunciou em 2024 a criação de dois novos institutos para 2025: o SMART USA Institute (Semiconductor Manufacturing and Advanced Research with Twins), focado em gêmeos digitais para a fabricação de semicondutores, com premiação de 285 milhões de dólares e sede na Carolina do Norte, financiado pelo CHIPS and Science Act; e um instituto focado em inteligência artificial para manufatura resiliente, com investimento de até 70 milhões de dólares ao longo de cinco anos. Com esses dois institutos, a rede chegaria a 19 unidades.

                          Contudo, em dezembro de 2025, o DOC notificou o SMART USA Institute que o contrato seria rescindido “por conveniência”, um mecanismo que permite ao governo encerrar contratos unilateralmente, e o financiamento federal de 285 milhões de dólares foi retirado, apesar de a organização ter atingido todas as metas de desempenho estabelecidas. Como reportado por Samuel Moore (2025) no IEEE Spectrum, o diretor executivo Todd Younkin declarou que a nova administração optou por não apoiar o desenvolvimento de força de trabalho e P&D nessa direção específica. Membros do Comitê de Ciência, Espaço e Tecnologia da Câmara expressaram preocupação de que o cancelamento de obrigações firmadas comprometesse a reputação do NIST como parceiro confiável para a indústria e para a academia.

                          Em paralelo, o DOE informou que não planeja renovar o financiamento do instituto REMADE — focado na economia circular e reciclagem de materiais industriais — após o término do financiamento atual em 2026. Em contrapartida, o NIST anunciou em dezembro de 2025 o lançamento de dois novos centros voltados para a inteligência artificial em parceria com a MITRE Corporation, com investimento inicial de 20 milhões de dólares: o AI Economic Security Center for U.S. Manufacturing Productivity e o AI Economic Security Center to Secure U.S. Critical Infrastructure from Cyberthreats. Esses centros respondem às recomendações do “Plano de Ação de IA da América”, publicado pela Casa Branca em julho de 2025.

                          No governo Trump II, os institutos são mantidos como núcleos essenciais para reduzir a dependência da China, mas sua articulação com o United States Investment Accelerator aponta para uma nova fase. Em vez de financiar exclusivamente pesquisa de fronteira, os institutos devem funcionar como braços técnicos de megaprojetos industriais privados acima de US$ 1 bilhão, validando tecnologias e acelerando a transição da bancada para a linha de produção.

                          Institutos de Pesquisa em IA e Ciência da Informação Quântica. Para além da rede do Manufacturing USA, dois conjuntos adicionais de institutos de pesquisa de fronteira foram criados a partir de legislação aprovada no primeiro governo Trump: National Quantum Initiative Act (2018) e o National AI Initiative Act (2020). Estas legislações estabeleceram um segundo eixo da política de inovação, voltado para as chamadas “Indústrias do Futuro”.

                          No campo da Inteligência Artificial (AI), a NSF criou três rodadas de AI Research Institutes entre 2020 e 2023. Um volume de recursos da ordem de US$ 500 milhões no total foi destinado ao financiamento de 25 institutos de pesquisa, em áreas como fundamentos de machine learning, IA aplicada à educação e à agricultura, segurança cibernética, tomada de decisão e sistemas de borda, IA confiável e aplicações em clima e infraestrutura.

                           

                          No campo das ciências quânticas, o DOE estabeleceu cinco grandes centros nacionais em 2020, cada um localizado em um Laboratório Nacional e com aporte federal de US$ 115 milhões por cinco anos: Q-NEXT (Argonne), Quantum Science Center (Oak Ridge), Quantum Systems Accelerator (Berkeley), SQMS Center (Fermilab) e C2QA (Brookhaven). A NSF complementou com os Quantum Leap Challenge Institutes (QLCI), institutos de menor escala (US$ 25 milhões cada) sediados em universidades de pesquisa. O governo Biden expandiu este ecossistema e o governo Trump II o manteve integralmente, dada sua importância para a competição estratégica com a China.

                          Subsídios, Incentivos Fiscais e a Grande Virada de Biden. Até o governo Biden, a política industrial norte-americana apoiava-se principalmente em subsídios indiretos — créditos fiscais, financiamento de institutos via cost-match, incentivos a P&D — e evitava subsídios diretos à produção em larga escala, vistos como incompatíveis com os princípios do livre mercado e potencialmente sujeitos a contestação na Organização Mundial do Comércio (OMC). O CHIPS and Science Act (agosto de 2022) e o Inflation Reduction Act (agosto de 2022) marcaram uma ruptura histórica nesse padrão.

                          Além de autorizar US$ 200 bilhões para pesquisa e educação em ciência e tecnologia, o CHIPS Act disponibilizou US$ 52,7 bilhões para o DOC financiar a fabricação de semicondutores em solo americano, pesquisa e desenvolvimento de mão de obra em um período de cinco anos. Deste montante, US$ 39 bilhões foi destinado para a construção de novas fábricas, dos quais US$ 32 bilhões em subvenção financeira direta e até US$ 6 bilhões em empréstimos, e US$ 13,7 bilhões para programas de pesquisa em semicondutores e treinamento de força de trabalho. 

                          O primeiro subsídio do CHIPS Act, no valor de US$ 35 milhões, foi concedido à BAE Systems, empresa do setor de defesa de origem britânica, em dezembro de 2023, para a produção de chips destinados aos caças F-15 e F-35. A escolha de um contratante militar como primeiro beneficiário, em vez de um fabricante convencional de chips, foi deliberada e revelou a ênfase em segurança nacional na fase inicial da implementação. 

                          Na sequência, em 2024, foram firmados os acordos com grandes empresas privadas: com Intel (até US$ 8,5 bilhões para expandir sua capacidade de fabricação no Arizona, Novo México, Oregon e Ohio), TSMC (até US$ 6,6 bilhões para construir uma terceira fábrica de ponta no Arizona), Samsung (até US$ 6,4 bilhões para um cluster de semicondutores no Texas) e Micron (até US$ 6,14 bilhões para a construção de fábricas de memória DRAM). 

                          Em artigo publicado no Michigan Journal of Economy em abril 2025, James Kluge afirma que, desde a implementação do CHIPS Act, mais de 80 projetos de semicondutores foram anunciados em 25 estados, totalizando um investimento estimado de US$ 450 bilhões do setor privado. Muitos governos estaduais e locais também ofereceram incentivos em um esforço para atrair empregos na indústria de semicondutores. Esses projetos planejavam adicionar mais de 30 mil empregos bem remunerados na fabricação de chips à economia dos Estados Unidos e cerca de 100 mil empregos na construção civil e na cadeia de suprimentos à jusante.

                          No que se refere aos investimentos privados efetivamente realizados, o pesquisador do Peterson Institute for International Economics, Martin Chorzempa (2025), estima, a partir dos dados do Census Bureau, que os desembolsos dos recursos federais no âmbito do CHIPS Act teriam catalisado aproximadamente US$ 158 bilhões em construção de fábricas de semicondutores até 2024, com uma média de aproximadamente US$ 5,7 bilhões de investimento por mês em 2023 e 2024, superando em muito a média da década anterior e as expectativas iniciais. 

                           

                          Com foco no apoio à indústria manufatureira doméstica para garantir a segurança econômica, criar empregos para a classe média e enfrentar as mudanças climáticas, o IRA disponibilizou, por sua vez, créditos fiscais da ordem de US$ 369 bilhões para energia limpa e manufatura de tecnologias verdes, incentivando a produção doméstica de baterias, veículos elétricos e equipamentos de energia solar e eólica. 

                          Cabe mencionar que governo Obama, por sua vez, fez uso extensivo das cláusulas Buy American como instrumento de subsídio implícito à indústria nacional. O American Recovery and Reinvestment Act (ARRA) de 2009 exigiu que todo o ferro, aço e produtos manufaturados usados em projetos de infraestrutura financiados pelo programa fossem produzidos nos Estados Unidos. Essa política foi aprofundada por Biden com o Build America, Buy America Act, inserido no Infrastructure Investment and Jobs Act de 2021, que elevou progressivamente a exigência de conteúdo nacional nos projetos de infraestrutura federais.

                          Também relevante no contexto dos incentivos fiscais é a Lei de Redução de Impostos e Empregos (Tax Cuts and Jobs Act) de 2017, aprovada no primeiro governo Trump. Embora não fosse uma lei de política industrial stricto sensu, ela reduziu a alíquota corporativa de 35% para 21% e criou incentivos para a repatriação de lucros mantidos no exterior, visando estimular o reinvestimento produtivo em solo americano. O governo Biden manteve a estrutura básica desta legislação, mas redirecionou incentivos para indústrias “verdes”.

                          No governo Trump II, a ênfase desloca-se dos subsídios diretos para as tarifas como mecanismo central de política industrial. A retórica crítica ao custo dos subsídios do CHIPS Act convive, contudo, com a manutenção de compromissos financeiros já firmados dada a dificuldade política e jurídica de revogá-los e o risco geopolítico associado. Porém, o governo renegociou os termos e introduziu uma novidade polêmica: a conversão de parte das subvenções em participação acionária do governo na empresa. 

                          Esse foi o caso da Intel, cujo novo acordo prevê financiamento público direto de US$ 5,7 bilhões e US$ 3,2 bilhões sob a forma de participação acionária em contrapartida a US$ 100 bilhões em investimentos domésticos. O governo também pretende obter participação acionária na TSMC e na Samsung em troca dos subsídios concedidos pelo CHIPS Act, mas as negociações ainda estão em curso. Já a Micron, que se comprometeu com a realização de investimentos da ordem de US$ 200 bilhões na fabricação de semicondutores e em P&D, irá receber subvenção financeira de US$ 6,4 bilhões, montante superior ao originalmente previsto, sem participação acionária confirmada. 

                          Atração de Investimento Estrangeiro Direto. O SelectUSA, criado pela Ordem Executiva nº 13577 de junho de 2011 do presidente Obama, foi a primeira iniciativa do governo federal norte-americano exclusivamente voltada para a promoção e facilitação do investimento direto estrangeiro (IED). Centralizado no DOC, o programa sobreviveu e foi fortalecido em todas as administrações subsequentes, tornando-se uma peça permanente do arsenal de política industrial.

                          No governo Trump II, o SelectUSA foi complementado por uma nova e mais ambiciosa arquitetura: o United States Investment Accelerator (USIA), criado pela Ordem Executiva nº 14255 de 31 de março de 2025. Enquanto o SelectUSA focava em promoção e marketing do ambiente de negócios norte-americano, o USIA opera na fase de execução: oferece um “balcão único” para projetos acima de US$ 1 bilhão, coordena aprovações regulatórias entre agências federais e estaduais, agiliza licenciamentos e assumiu a gestão do CHIPS Program Office, renegociando os acordos da administração anterior para obter termos mais favoráveis.

                          O Acelerador de Investimento foi estruturado como parte central da política “America First” para atrair capital nacional e estrangeiro, em particular fundos soberanos, gigantes de tecnologia, montadoras globais, comprometendo-os com a produção doméstica. O projeto Stargate (OpenAI/Oracle/SoftBank), anunciado em janeiro de 2025 com investimentos projetados de US$ 500 bilhões ao longo de quatro anos em infraestrutura de IA, é o exemplo mais emblemático dessa estratégia de atração de megainvestimentos.

                          Tarifas de Importação como Instrumento de Política Industrial. O uso de tarifas de importação como instrumento de política industrial marca um ponto de continuidade, com significativa escalada, entre os governos Trump I e Trump II. No primeiro mandato, a administração Trump lançou mão de tarifas elevadas sobre importações de aço (25%) e alumínio (10%), além de tarifas setoriais sobre produtos chineses, incluindo bens de tecnologia avançada, com base nas Seções 201, 232 e 301 do direito comercial norte-americano. O governo Biden manteve essas tarifas em sua grande maioria e as ampliou para categorias estratégicas como veículos elétricos, semicondutores, baterias e equipamentos solares de origem chinesa.

                          No segundo mandato de Trump, a estratégia tarifária foi radicalmente ampliada. Em abril de 2025, o governo anunciou tarifas universais de base (Universal Baseline Tariffs), afetando todas as importações independentemente de origem, com alíquotas diferenciadas por país. A lógica declarada é dupla: proteção do mercado interno como substituto dos subsídios diretos da era Biden, e pressão negociadora sobre parceiros comerciais para que aceitem condições favoráveis aos Estados Unidos em setores estratégicos, seja sob a forma de investimento direto ou aquisição de produtos norte-americanos. 

                          Embora o impacto inflacionário potencial dessa abordagem seja reconhecido como risco por diversos analistas econômicos, seus defensores argumentam que os benefícios em termos de reindustrialização superam os custos de curto prazo.

                          Porém, críticos da administração Trump, como o professor da University of Massachusetts e da New School University, Richard Wolff (2026), ressaltam que regime tarifário imposto no início de 2025 gerou uma incerteza profunda que paralisou investimentos corporativos, resultando na perda de mais de 70.000 empregos industriais no primeiro ano do segundo mandato de Trump. Além disso, as tarifas funcionaram como impostos diretos sobre empregadores que dependem de insumos importados. Isso resultou em preços mais altos para os consumidores e redução nas margens de lucro das empresas.

                          No dia 20 de fevereiro de 2026, a Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu bloquear as novas tarifas, por considerar que o presidente Trump excedeu sua autoridade ao usar a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA) de 1977 para impor tarifas, atribuição exclusiva do Poder Legislativo. No entanto, poucas horas após a decisão, Trump tentou contornar o bloqueio invocando a Seção 122 da Lei de Comércio de 1974 para anunciar novas tarifas de 10%.

                          Controles de Exportação de Tecnologias Avançadas. Os controles de exportação emergiram como um dos instrumentos mais poderosos e de mais rápida expansão da política industrial e de segurança nacional norte-americana. Historicamente voltados para tecnologias de uso militar dual, esses controles foram progressivamente ampliados para cobrir semicondutores avançados, equipamentos de fabricação de chips, softwares de inteligência artificial e supercomputadores.

                          O novo marco foi estabelecido no governo Biden pelo Bureau of Industry and Security (BIS) do DOC em outubro de 2022, com a introdução de regras de controle de exportação de alcance sem precedentes sobre semicondutores avançados e ferramentas de fabricação de chips para a China. Empresas como NVIDIA, Intel e TSMC passaram a necessitar de licença federal para exportar determinadas categorias de produtos para clientes chineses. Estas restrições foram progressivamente ampliadas nos anos seguintes, abrangendo também chips de IA e equipamentos de litografia de última geração produzidos por empresas fora dos Estados Unidos como a holandesa ASML.

                          No governo Trump II, como foi visto acima, o America's AI Action Plan, lançado em julho de 2025, consolidou os controles de exportação como peça central da diplomacia tecnológica, um dos três pilares da estratégia norte americana de IA. O documento prevê o reforço do controle de exportação de poder computacional e semicondutores para proteger as inovações nacionais e mitigar riscos de segurança nacional. A lógica subjacente é a de que a vantagem tecnológica dos Estados Unidos em IA depende não apenas de inovar mais rapidamente do que a China, mas de retardar o acesso de Pequim às tecnologias de fronteira necessárias para desenvolver sistemas comparáveis.

                          Participação Acionária em Empresas Privadas Estratégicas. Uma das características mais inéditas da política industrial do governo Trump II é o recurso à participação acionária estatal direta em empresas privadas estratégicas, instrumento praticamente ausente no repertório histórico da política econômica norte-americana em tempos de normalidade, mais próximo de práticas europeias ou asiáticas do que da tradição liberal norte-americana. 

                          Esse tipo de intervenção só tinha ocorrido durante a crise financeira global de 2008 para evitar o colapso sistêmico. Naquela ocasião, por meio do programa Troubled Asset Relief (TARP), além de realizar aporte de capital na seguradora AIG, o Tesouro norte-americano assumiu participação acionária majoritária temporária na empresa General Motors para viabilizar sua reestruturação. 

                          Os casos mais relevantes documentados no segundo Trump até meados de 2026 envolvem setores de semicondutores, siderurgia, energia nuclear, minerais críticos e terras raras (quadro abaixo). No caso da Intel, como já mencionado, o governo federal norte-americano converteu parte dos subsídios concedidos no âmbito do CHIPS Act em participação acionária de 9,9% no capital da empresa. 

                           

                          No caso da fusão U.S. Steel/Nippon Steel, o Comitê de Investimento Estrangeiro nos Estados Unidos (CFIUS) condicionou a aprovação da operação à exigência de uma Golden Share estatal, preservando o poder de veto governamental sobre decisões estratégicas. A empresa de energia nuclear, Westinghouse Electric, teve apoio regulatório vinculado a participação nos lucros e potencial equity futuro. 

                          Nos setores de minerais críticos e terras raras, o governo estabeleceu participações indiretas de cerca de 10% em empresas como Korea Zinc (JV EUA) e Trilogy Metals.

                          Trata-se, portanto, de uma forma de capitalismo de Estado seletivo e pragmático, distante da estatização, mas igualmente distante do liberalismo clássico. O instrumento é justificado em termos de segurança nacional e resiliência econômica, e sua base legal repousa principalmente sobre o Defense Production Act (Title III) e a Other Transaction Authority (OTA), além do poder discricionário do Comitê de Investimentos Estrangeiros nos Estados Unidos (CFIUS) na avaliação de investimentos estrangeiros.

                          Política de Ciência e Tecnologia no Trump II (2025). A política de ciência e tecnologia (C&T) do governo Trump II em 2025 combina, de forma aparentemente paradoxal, a mais ambiciosa agenda de liderança tecnológica já formulada por uma administração norte-americana com a proposta dos maiores cortes ao financiamento da pesquisa científica federal desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

                          O ponto de partida institucional foi a nomeação de Michael Kratsios — executivo da Thiel Capital, o fundo de investimentos do cofundador da Palantir Technologies, Peter Thiel, como Diretor do Gabinete de Política de Ciência e Tecnologia da Casa Branca (OSTP), cargo que ocupou no primeiro governo Trump. 

                          Para esse seu segundo mandato à frente do OSTP, Kratsios recebeu a orientação de redirecionar os investimentos federais em P&D para tecnologias estratégicas (inteligência artificial, computação quântica, energia nuclear e biotecnologia), suprimindo, simultaneamente, o financiamento federal para que a administração qualificou de “ciência ideológica” (agenda climática, diversidade e equidade nas instituições científicas) da era Biden. 

                          A implementação da redução dos gastos ficou a cargo do Departamento de Eficiência Governamental (DOGE), sob coordenação de Elon Musk, criado em janeiro de 2025 e extinto em maio do mesmo ano. Apesar da sua breve existência, o impacto das ações do DOGE sobre as agências científicas foi considerável. Ao final de 2025, dezenas de milhares de servidores haviam deixado a NASA, a Fundação Nacional de Ciência (NSF) e Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS), com recuo expressivo do efetivo do Institutos Nacionais de Saúde (NIH). A NSF, com orçamento anual de US$ 9,4 bilhões em 2024, suspendeu bolsas, demitiu e recontratou pessoal após ordens judiciais e terminou o ano financiando cerca de 2.600 projetos abaixo da média histórica de 11 mil projetos anuais na última década. 

                          De acordo com Evans Bush da NBC News, a proposta orçamentária para 2026 previa redução de recursos da ordem de 40% no NIH e de 57% na NSF. O Congresso rejeitou os cortes mais drásticos, mas demissões e rescisões de bolsas produziram efeitos de grande magnitude. 

                           

                          Em contrapartida, em 3 de julho de 2025, foi divulgado o documento estratégico Winning the AI Race: America’s AI Action Plan, elaborado por Kratsios em conjunto com o assessor para IA David Sacks e o Secretário de Estado Marco Rubio. Esse documento, divulgado pelo Escritório Executivo da Presidência dos Estados Unidos, define a corrida pela IA como um imperativo de segurança nacional, comparando-a à corrida espacial, e argumenta que a liderança norte americana nesta tecnologia desencadeará uma nova era de prosperidade econômica, avanços científicos e segurança militar.

                          O plano identifica um amplo conjunto de ações federais agrupadas em três pilares: 1) acelerar a inovação em IA; 2) construir infraestrutura computacional doméstica; e 3) liderar a diplomacia tecnológica internacional. O Quadro abaixo traz um resumo de algumas das principais ações recomendadas em cada um dos três pilares.

                           

                          O documento detalha diversas formas de financiamento e mecanismos econômicos para viabilizar as ações propostas, porém não traz informações sobre os montantes de recursos públicos a serem destinados aos investimentos em P&D e inovação. Para o setor de manufatura e tecnologias de próxima geração, o plano prevê o uso de programas como o Small Business Innovation Research (SBIR), o Small Business Technology Transfer (STTR), subsídios de pesquisa e programas de P&D do CHIPS Act.

                          No mesmo dia do lançamento do plano, o presidente Trump assinou três ordens executivas complementares sobre IA (Crossan et al. 2025), e a NSF anunciou novas fases do National AI Research Resource e financiamento adicional aos AI Research Institutes, sinalizando que, nas áreas de fronteira tecnológica identificadas como estratégicas, a lógica de investimento público se manteve intacta. 

                          O Plano de IA é, nesse sentido, o espelho invertido da diminuição dos financiamentos federais à ciência e à pesquisa básica. A administração Trump II parece pretender desinvestir em ciência de largo espectro e concentrar recursos nas tecnologias consideradas decisivas para a competição com a China. A lógica subjacente é a de que a supremacia norte-americana em IA não depende do financiamento disperso da pesquisa universitária clássica, a pesquisa básica, mas da combinação entre capacidade computacional estatal de fronteira, parcerias com grandes empresas privadas de tecnologia e controles rigorosos sobre o acesso da China a semicondutores e modelos avançados.

                          Essa visão está claramente explicitada no Memorando conjunto do Escritório de Administração e Orçamento (OMB) e do OSTP para o P&D (M-25-34/NSTM-2), divulgado em setembro de 2025, o qual serve como guia oficial para a formulação do orçamento de P&D pelas agências federais americanas para o ano de 2027. De acordo com Maureen Holohan (2025), do Federal Budget IQ, para os autores do documento “a pesquisa e o desenvolvimento financiados pelo governo federal devem se concentrar em investimentos direcionados e transformadores em áreas como inteligência artificial (IA), ciência quântica, energia nuclear, biotecnologia, tecnologias de segurança nacional e exploração espacial ambiciosa.”

                          Nesse memorando, a administração Trump define cinco áreas de prioridades orçamentárias para o financiamento federal dos investimentos em P&D e inovação:

                               •  Tecnologias Críticas e Emergentes: ênfase na liderança em inteligência artificial (IA), ciência quântica, microeletrônica e semicondutores, e manufatura avançada.

                               •  Domínio Energético: prioridade para tecnologias de energia acessíveis, incluindo fissão/fusão nuclear e energia geotérmica.

                               •  Segurança Nacional: foco em pesquisas ligadas a defesa avançada, como sistemas hipersônicos, e resiliência contra desastres naturais e ataques cibernéticos. 

                               •  Saúde e Biotecnologia: detecção de ameaças biológicas, biossegurança e investimentos em biomanufatura para proteger as cadeias de suprimentos.

                               •  Dominância Espacial: exploração humana do espaço, missões à Lua e a Marte, previsões meteorológicas espaciais e parcerias comerciais.

                          Além das áreas prioritárias, o memorando destaca também cinco princípios sobre “como” a ciência nos Estados Unidos deve ser conduzida: i) implementar a "Ciência de Padrão Ouro", que a ciência seja reproduzível, transparente, sem conflitos de interesse e sujeita a revisão por pares imparcial; ii) desenvolver a força de trabalho em C&T, expandir o acesso à educação STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática); iii) tornar a infraestrutura de pesquisa acessível, com compartilhamento de instalações fabris, bancos de dados e bancos de teste; iv) Fortalecer o Ecossistema de C&T, incentivar parcerias entre governo, academia, indústria e organizações sem fins lucrativos; v) Foco em pesquisas de alto valor, priorizando projetos alinhados às missões centrais das agências e que tragam resultados significativos para a população.

                          A contradição entre o ambicioso plano de liderança tecnológica e os cortes ao ecossistema científico encontra seu ponto mais crítico na questão do capital humano. Uma enquete da revista Nature com 1.600 pesquisadores, em março de 2025, revelou que 75% dos cientistas baseados nos Estados Unidos consideravam deixar o país, proporção que alcançava 80% entre pós-doutorandos. 

                          Dados objetivos confirmam a tendência: candidaturas de pesquisadores americanos a posições no exterior cresceram 32% entre janeiro e março de 2025 em relação ao ano anterior, e as matrículas de novos estudantes internacionais em universidades norte-americanas caíram 17% no outono de 2025, reflexo combinado da diminuição do financiamento destinado à ciência e à pesquisa básica e do endurecimento das políticas de visto. Segundo a Associação de Universidades Americanas (AAU, 2026), Canadá, Austrália, França, Alemanha China e Índia lançaram programas específicos de atração desse contingente de cientistas baseados nos Estados Unidos. 

                          O paradoxo central da política de C&T do governo Trump II pode, portanto, ser assim formulado: a administração aposta na supremacia tecnológica como imperativo de segurança nacional, mas fragiliza a infraestrutura humana e institucional que historicamente produziu essa supremacia. A aposta implícita é que a concentração de recursos nas tecnologias de fronteira, IA, quântica, biotecnologia, energia nuclear, via parcerias com grandes empresas privadas e laboratórios nacionais do DOE pode compensar a erosão do modelo universitário descentralizado que foi, por várias décadas, a espinha dorsal do sistema nacional de inovação norte-americano. Questão relevante ainda em aberto é se essa aposta é sustentável ou se representa um risco sistêmico de longo prazo para a liderança tecnológica norte-americana.

                          O documento de avaliação da Política de CT&I do 1º ano do governo Trump II, elaborado e publicado pela OSTP em janeiro de 2026, desconsidera essas questões. Com um tom de otimismo, afirmando que os Estados Unidos estão iniciando uma “Nova Era de Ouro da Inovação Americana” são apresentados os avanços conquistados nas áreas tecnológicas prioritárias, resumidos no quadro a seguir.

                           

                          O documento de avaliação da OSTP também identificam os principais desafios para o sucesso das iniciativas de política: competição global pela dominância tecnológica; proteção contínua das tecnologias americanas de usos maliciosos e segurança das infraestruturas críticas, como redes 6G e centros de dados; necessidade urgente de preparar e requalificar os trabalhadores americanos para que o boom tecnológico se traduza em empregos e oportunidades reais; fragmentação regulatória entre diferentes estados norte americanos na proteção das inovações. 

                          A Dimensão Geopolítica da Política Industrial dos Estados Unidos: a Competição Estratégica com a China

                          Nenhuma análise da política industrial norte-americana no período atual pode ignorar a competição estratégica com a China como seu principal motor. A dimensão geopolítica constitui o fio condutor que conecta as quatro administrações analisadas, apesar de suas diferenças retóricas e instrumentais. A ascensão econômica e tecnológica da China foi progressivamente ressignificada nas políticas americanas — de oportunidade de mercado (anos 1990 e 2000) para desafio sistêmico e, finalmente, para ameaça existencial à hegemonia norte-americana. Esta trajetória se acelerou dramaticamente a partir de 2017 e tornou-se o organizador central da política industrial americana a partir de 2020.

                          A autora Nurielle Rahav (2026), em artigo publicado no Bates College Journal of Political Studies, argumenta que a política industrial ressurgiu como uma ferramenta central na rivalidade estratégica entre as duas nações, intensificando o dilema de segurança entre elas: políticas de manufatura avançada apresentadas como medidas defensivas para alcançar a autossuficiência econômica são percebidas pelo Estado concorrente como ameaças diretas e ofensivas à segurança nacional.

                          A China, por meio do programa Made in China 2025 (Carta IEDI n. 827), lançado em 2015, articulou subsídios massivos, integração vertical de cadeias produtivas e agrupamentos industriais regionais para dominar dez setores estratégicos, incluindo semicondutores e veículos elétricos. Em minerais críticos, a dependência americana da China é crítica. O país asiático foi responsável em 2024 por cerca de 60% da mineração global de terras raras e 90% do seu refino e processamento. A China responde por cerca de 60% do fornecimento global de lítio de grau de bateria, 65% de níquel, 70% de cobalto e 90% de elementos de terras raras como o neodímio. No setor farmacêutico, aproximadamente 70% do paracetamol mundial tem origem em empresas chinesas, e mais de 80% dos principais princípios ativos antibióticos são produzidos no país.

                          Em artigo na Foreign Affairs, Damien Ma e Lizzi C. Lee (2025), especialistas em economia política chinesa, política industrial e competição entre Estados Unidos e China, destacam que a China superou os Estados Unidos não apenas pela tecnologia, mas pela capacidade de usar seu tamanho para gerar eficiência e produtividade em escala. 

                          Empresas chinesas como a BYD controlam toda a cadeia de valor de veículos elétricos, desde a matéria-prima até o produto final, o que permite iterações rápidas e redução drástica de custos — painéis solares são até 65% mais baratos na China do que nos Estados Unidos ou na Europa. A China lidera a produção de baterias, painéis solares e ímãs permanentes, enquanto os Estados Unidos possuem, em alguns casos, apenas um fabricante relevante, cuja eficiência não se compara à escala chinesa.

                          No governo Obama, a competição com a China era um subtexto presente, mas raramente explicitado como o motor central da política industrial. A justificativa predominante era doméstica: a recuperação econômica pós-crise, a criação de empregos qualificados e a manutenção da liderança tecnológica norte-americana em termos gerais. 

                          Contudo, como ressalta Hermes Moreira Jr. (2016) havia uma racionalidade geopolítica subjacente na Estratégia Nacional de Inovação lançada por Obama em 2009 como estratégia de recuperação e manutenção da liderança internacional. Ao investir em tecnologias de ruptura como energia limpa, biotecnologia e nanotecnologia, o governo Obama buscava garantir que os Estados Unidos definissem os padrões tecnológicos do século XXI, de modo a impedir a ascensão de potências rivais como a China.

                          A criação do SelectUSA (2011), por exemplo, foi motivada em parte pela constatação de que países como China, Alemanha e França estavam agressivamente disputando a localização de plantas industriais, enquanto o governo federal norte-americano carecia de mecanismo equivalente. A criação dos institutos de manufatura avançada respondia, igualmente, à observação de que os Estados Unidos eram excelentes em pesquisa básica, mas “perdiam a etapa de escala industrial” para outros países, eufemismo que apontava sobretudo para a China.

                          No primeiro governo Trump, a China foi nomeada explicitamente como adversário estratégico na Estratégia de Segurança Nacional de dezembro de 2017, que pela primeira vez elevou a “segurança econômica” ao status de “segurança nacional” sob a doutrina America First. A partir daí, a política industrial norte-americana passou a ser estruturada, em grande medida, como resposta ao desafio chinês.

                          No plano comercial, as tarifas sobre produtos chineses — implementadas a partir de 2018 sob a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, que autoriza retaliações contra práticas comerciais desleais —, atingiram centenas de bilhões de dólares em importações e abrangeram explicitamente bens de tecnologia avançada incluídos no já mencionado plano estratégico Made in China 2025: robótica, aeroespacial, semicondutores, veículos de nova energia e equipamentos de telecomunicações.

                          No plano tecnológico, a administração Trump I iniciou as restrições à Huawei, introduzindo em 2019 veto à compra de componentes de empresas americanas sem licença federal, e ao fornecimento de equipamentos e softwares a empresas da “Lista de Entidades” do DOC. A lógica era impedir que a China utilizasse tecnologia americana para avançar suas capacidades militares e de espionagem, marcando o início de uma política de “desacoplamento tecnológico” (technological decoupling) que se aprofundou nas administrações seguintes.

                          Também os já mencionados, National Quantum Initiative Act (2018) e o National AI Initiative Act (2020) foram justificados explicitamente como resposta à ambição chinesa de liderança em tecnologias de propósito geral. A corrida pela supremacia em IA e em computação quântica foi enquadrada como uma competição análoga à corrida espacial da Guerra Fria, com implicações militares, econômicas e de espionagem que tornam inadmissível qualquer posição de atraso.

                          O governo Biden manteve e sistematizou a postura competitiva em relação à China, mas procurou institucionalizá-la em um quadro multilateral e normativo mais amplo. A Ordem Executiva nº 14017 de fevereiro de 2021 determinou uma revisão abrangente das cadeias de suprimentos críticas, semicondutores, baterias de grande capacidade, minerais críticos e produtos farmacêuticos, identificando dependências de “nações não aliadas”, terminologia que, sem nomear a China, a tinha evidentemente como referência central.

                          Campo de Batalha dos Semicondutores. O CHIPS and Science Act foi justificado amplamente como resposta à dominância chinesa crescente no espaço das fundições de semicondutores, ao risco de dependência crítica em relação a Taiwan e à ambição explícita de Pequim de liderar a fabricação de chips de próxima geração. Como sustentam Doug Calidas e Chris Li (2025), do Belfer Center da Universidade de Harvard, foi a ascensão do nacionalismo econômico de Trump que criou o abalo político necessário para o realinhamento bipartidário que viabilizou o CHIPS Act sob Biden.

                          Com essa lei, pela primeira vez, os Estados Unido buscavam não apenas impedir que tecnologias específicas chegassem à China, mas retardar toda a trajetória de catch-up tecnológico chinês no setor de semicondutores. Em 2023, Biden também proibiu investimentos americanos na produção de computadores quânticos e sensores quânticos em “países de preocupação”.

                          O CHIPS and Science Act de 2022 é visto como o esforço mais significativo dos Estados Unidos desde a Segunda Guerra Mundial para revitalizar sua base industrial de semicondutores e reduzir a dependência de Taiwan, cujo principal fabricante, a TSMC, produz mais de 90% dos chips avançados do mundo e poderia ser afetada por um conflito com a China. A lei autorizou aproximadamente 280 bilhões de dólares em dez anos, dos quais 52,7 bilhões foram destinados especificamente para incentivos à fabricação e P&D de semicondutores.

                          A dimensão geopolítica da lei é explícita nas chamadas “guardas de proteção”: restrições que impedem as empresas beneficiárias de investir em semicondutores na China. Enquanto os Estados Unidos veem isso como uma medida defensiva para reduzir vulnerabilidades, a China interpreta como uma política de contenção agressiva. 

                          Na interpretação de Nurielle Rahav, a lei falha, porém, em abordar a lacuna de encapsulamento e montagem. Mesmo com a fabricação doméstica de chips, muitos produtos ainda precisarão ser enviados para a Ásia para a montagem final, impedindo a criação de uma cadeia de suprimentos totalmente autossuficiente.

                          O IRA, por sua vez, continha incentivos explicitamente vinculados à exclusão de “entidades estrangeiras de preocupação” — leia-se empresas chinesas — das cadeias de suprimentos de baterias e veículos elétricos elegíveis para créditos fiscais federais. Esta disposição gerou tensões significativas com aliados europeus e asiáticos, que a viram como forma de desvio de investimentos para o território norte-americano.

                          A contenção tecnológica da China por meio de controles de exportação constitui uma linha de continuidade entre as administrações Trump I, Biden e Trump II. O professor do MIT, Gary Gensler (2025), em sua análise das consequências econômicas do segundo governo Trump, alerta para os riscos dessa estratégia. 

                          Embora as restrições de exportação confiram uma vantagem temporária aos Estados Unidos, elas incentivam a China a se tornar tecnologicamente independente e, eventualmente, mais competitiva. A China já demonstra avanços impressionantes com empresas como DeepSeek e Baidu, além de possuir o maior acesso a dados pessoais do mundo — um ativo fundamental para o desenvolvimento da inteligência artificial.

                          Outro problema apontado é que ecossistema de IA tende a uma alta concentração em poucas plataformas — como Nvidia e os grandes provedores de nuvem — devido a economias de escala e efeitos de rede. Gensler adverte, por exemplo, que, sem uma fiscalização antitruste rigorosa, essa concentração pode gerar rendas econômicas que afetam a estabilidade financeira e reduzem a competitividade de longo prazo da própria indústria norte americana.

                          O segundo mandato do presidente Trump representa a mais intensa escalada da competição estratégica com a China em comparação com os governos precedentes. Como já assinalado, o America's AI Action Plan divulgado em julho de 2025 enquadra explicitamente a corrida pela IA como um imperativo de segurança nacional comparável à corrida espacial, e dedica um de seus três pilares ao combate à influência chinesa nos órgãos de governança internacional e ao reforço dos controles de exportação de poder computacional e semicondutores.

                          A estratégia de tarifas universais de 2025 tinha a China como alvo prioritário — com alíquotas extremamente elevadas sobre importações chinesas —, mas seu alcance global (afetando também aliados) revela uma lógica mais ampla de “transição forçada” de cadeias globais de valor para um modelo de maior autonomia norte-americana. 

                          Todavia, o anúncio mais recente da TSMC de investir mais 100 bilhões de dólares em três novas fábricas nos Estados Unidos, elevando o compromisso total para 165 bilhões, foi interpretado pelo pesquisador do PIIE Martin Chorzempa (2025) como fruto não apenas de ameaças tarifárias, mas do sucesso prévio da política de subsídios e da experiência positiva da empresa em produzir chips avançados em solo americano. Chorzempa alerta que revogar os incentivos prometidos “puxaria o tapete” dos investidores, destruindo a credibilidade dos Estados Unidos para futuros programas industriais.

                          O United States Investment Accelerator opera igualmente com um critério implícito de exclusão: os benefícios de 'fast-track' regulatório e tributário são condicionados ao uso de energia doméstica e à criação de empregos para cidadãos americanos, tornando-os inacessíveis a projetos controlados por entidades chinesas.

                          As participações acionárias estatais em empresas de minerais críticos e terras raras (MP Materials, Korea Zinc, Lithium Americas, Trilogy Metals) respondem diretamente à preocupação com o domínio chinês nesses setores. A China detém posições dominantes na produção e no processamento de terras raras e de diversos minerais críticos para a fabricação de baterias, eletrônicos e sistemas de defesa, criando vulnerabilidades que as administrações norte-americanas passaram a tratar como questões de segurança nacional.

                          O relatório do OSTP sobre o primeiro ano do governo Trump II, publicado em janeiro de 2026, identifica a competição global pela dominância tecnológica como o principal desafio estratégico enfrentado pelos Estados Unidos: “a nação que vencer moldará as indústrias e os padrões de segurança do século XXI”. Esta formulação sintetiza com precisão a lógica que conecta a política industrial doméstica à geopolítica global: o que está em jogo não é apenas a competitividade econômica, mas o poder de definir os padrões e as arquiteturas das tecnologias que moldarão as próximas décadas.

                          Alianças Econômicas e a Reorganização das Cadeias Globais. A política industrial norte-americana adquiriu uma dimensão extraterritorial expressiva sob o segundo governo Trump, utilizando tarifas como instrumento de coerção sobre aliados e parceiros para reorganizar cadeias globais de suprimentos em favor dos interesses estratégicos de Washington. 

                          O Fundo Industrial Estratégico Estados Unidos-Japão de 550 bilhões de dólares, anunciado em julho de 2025, é o exemplo mais abrangente: voltado a semicondutores, IA, computação quântica, minerais críticos, biofarmacêutica, construção naval e energia, o fundo opera com prazo até 19 de janeiro de 2029 e é financiado pelo Japão por meio do JBIC.

                          Outros acordos foram firmados com o Reino Unido (o primeiro a fechar pacto em maio de 2025, com tarifas de importação fixadas em 10%), Indonésia, Vietnã, Filipinas, Bangladesh, Equador, Argentina, Malásia e Tailândia, no âmbito do programa Agreement on Reciprocal Trade (ART). Os acordos geralmente combinam redução de tarifas com compromissos de compra de produtos americanos (aeronaves, gás natural liquefeito, produtos agrícolas) e remoção de restrições à exportação de minerais críticos.

                          A pesquisadora Edna da Silva (2026) aponta o resultado sistêmico dessa reconfiguração: uma erosão prática do multilateralismo e a fragmentação dos fluxos globais de capital, com a centralização dos investimentos em setores securitizados liderados pelos Estados Unidos. Ao subordinar o capital a critérios de alinhamento estratégico e territorial, o governo Trump II consolida um novo padrão de exercício do poder estatal que desafia os princípios de não discriminação e livre circulação de capitais da ordem internacional liberal.

                          Continuidades e Rupturas: Uma Síntese Comparativa

                          A análise das iniciativas dos sucessivos governos norte-americanos desde Obama revela um consenso bipartidário em torno de alguns pilares centrais da política industrial e de inovação, o que resulta em um conjunto robusto de continuidades que transcendem as alternâncias políticas (ver quadro-resumo abaixo). O que divide democratas e republicanos são os instrumentos: subsídios diretos versus tarifas; regulação ambiental versus desregulamentação; equidade social como objetivo estratégico versus exclusão das agendas climática e de diversidade.

                          A primeira é o compromisso com a liderança tecnológica como imperativo de segurança nacional, manifestado na sequência de Estratégias Nacionais de Manufatura Avançada e nos crescentes investimentos em P&D em áreas como IA, computação quântica e semicondutores. 

                          A segunda continuidade é a manutenção da rede Manufacturing USA como espinha dorsal da política de inovação industrial. Nenhuma administração a desmantelou, e todas a expandiram, ainda que com ênfases distintas.

                          A terceira continuidade é a orientação anti-China em matéria de política tecnológica e comercial, com a contenção da China nos setores de semicondutores e tecnologias militarmente relevantes. Como documentam os pesquisadores Soliman e Carchidi (2024), a estratégia de contenção tecnológica que começou com Trump I foi intensificada por Biden e continuada por Trump II, representando uma das mais robustas linhas de consistência entre as administrações. 

                          A quarta é o uso do poder de compra governamental — especialmente do DoD — como instrumento de política industrial, exigindo adoção de tecnologias avançadas por fornecedores e estimulando setores estratégicos. 

                          A quinta, talvez a mais estrutural, é o abandono do consenso do laissez-faire: como argumenta o professor da Universidade de Brown, Andrew Schrank (2026), não há retorno ao modelo antigo, e a política industrial tornou-se instrumento permanente de disputa política, independentemente da ideologia no poder.

                          As rupturas entre as administrações são igualmente significativas, embora menos radicais do que a retórica sugere. A mais evidente é a diferença nos instrumentos privilegiados: Biden apostou em subsídios diretos com condicionalidades sociais e ambientais, enquanto Trump II prioriza tarifas, desregulamentação e uma abordagem de compra de participações acionárias em empresas estratégicas sem as contrapartidas predistributivas. O congelamento de fundos remanescentes do IIJA e do IRA — especialmente os relacionados à energia limpa — marca uma ruptura substantiva com a agenda climática de Biden.

                          A segunda ruptura é a relação com as condicionalidades sociais. Biden condicionou os subsídios do CHIPS Act e do IRA a requisitos de mão de obra sindicalizada, creches e critérios de diversidade. O governo Trump II, como ressalta o professor Schrank, retirou do legado de Biden essas contrapartidas, mantendo a intervenção pública, mas removendo seus componentes redistributivos. 

                          A terceira ruptura é o tratamento da ciência e pesquisa básica: enquanto Biden expandiu o financiamento da NSF e de outras agências científicas, o segundo governo Trump promoveu redução e congelamento de recursos no financiamento federal à pesquisa básica já em 2025. Como mencionado, o orçamento proposto para o ciclo fiscal de 2026 previa cortes expressivos para o NIH e a NSF. 

                          Na avaliação dos professores Baker e Johnson (2025), respectivamente da Universidade de Washington e do MIT Sloan, essas reduções no financiamento público da ciência básica, bem como medidas de política tarifária e de imigração, poderão ter impacto mais profundo na liderança científica norte-americana do que qualquer política tecnológica específica.

                          Na visão dos pesquisadores do Institut du Développement Durable et des Relations Internationales (IDDRI), Macedo e seus coautores (2025), a segunda administração Trump representa tanto uma ruptura retórica quanto uma evolução tática na política industrial dos Estados Unidos. Embora os métodos tenham mudado (mais tarifas e menos regulação ambiental), o objetivo final de a política industrial ativa permanece: garantir que os Estados Unidos sejam o local preferencial para a produção de tecnologias críticas do futuro.

                          Um elemento frequentemente subestimado nas análises é o caráter bipartidário de grande parte da política industrial americana contemporânea. Como observa a professora Elisabeth Reynolds (2025), do MIT, existe atualmente um consenso entre republicanos e democratas sobre a necessidade de reconstruir as capacidades industriais dos Estados Unidos para proteger a segurança nacional e econômica, especialmente em semicondutores, minerais críticos, defesa e energia. 

                          O artigo de James Wood (2025) reforça esse ponto ao documentar que três administrações sucessivas — Obama, Trump I e Biden — construíram e ampliaram a mesma infraestrutura de coordenação institucional usando projetos similares, o que representa “uma trajetória bipartidária que desafia as narrativas que tratam a abordagem mais governamental da inovação nos Estados Unidos como um fenômeno recente”. A manutenção do CHIPS Act pelo segundo governo Trump, apesar das fortes críticas retóricas, e a ampliação dos créditos fiscais para semicondutores no Big Beautiful Bill confirmam essa dinâmica.

                          Os pesquisadores do Belfer Center da Universidade de Harvard, Calidas e Li, argumentam, com base nessa lógica bipartidária, que os benefícios políticos da política industrial, criação de empregos em setores estratégicos, apoio a comunidades afetadas por represálias comerciais, criariam incentivos eleitorais que transcenderiam as divisões ideológicas. Os autores sugerem que, nos últimos dois anos do mandato de Trump II, a política industrial será uma das poucas áreas de colaboração possível entre a administração e um eventual Congresso controlado por democratas.

                          O limite desse consenso reside precisamente nos pontos de ruptura: a agenda climática, que Biden incorporou à política industrial e que Trump II busca enfraquecer, o financiamento público da ciência, e o papel dos subsídios diretos versus tarifas. Este último ponto é especialmente relevante para os aliados dos Estados Unidos, que foram beneficiados pelos créditos fiscais do IRA em setores como baterias e energia limpa, e agora enfrentam a incerteza sobre a continuidade desses benefícios e o impacto das tarifas universais sobre suas exportações para o mercado norte-americano.

                           

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                          Nesta Carta IEDI, chamamos atenção para um aspecto que tem motivado menos debate do que a desindustrialização do Brasil que é a redistribuição da atividade industrial no território nacional.

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                          Carta IEDI n. 1360 - Reação das exportações industriais de alta tecnologia
                          Publicado em: 06/05/2026

                          No 1º trim/2026, o aumento do déficit da indústria de transformação foi amortecido pelo desempenho favorável das exportações de bens de alta intensidade tecnológica.

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                          Carta IEDI n. 1359 - Novo teste à resiliência da economia global
                          Publicado em: 30/04/2026

                          A guerra no Irã é mais um teste à resiliência da economia global, ainda que, segundo o FMI, seu impacto adverso tenda a ser parcialmente mitigado pela acomodação do ímpeto protecionista dos EUA, após decisão da Suprema Corte.

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                          Carta IEDI n. 1358 - 15º Plano Quinquenal da China: aposta redobrada na indústria e tecnologia
                          Publicado em: 24/04/2026

                          O 15º Plano Quinquenal da China coloca a modernização industrial, inovação e autossuficiência tecnológica como espinha dorsal de seu desenvolvimento com implicações para o Brasil e o mundo.

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                          Carta IEDI n. 1357 - A indústria brasileira na entrada de 2026
                          Publicado em: 17/04/2026

                          Embora tenha aumentado produção nos dois primeiros meses de 2026, a indústria do país se encontra em um quadro mais fraco do que de um ano atrás.

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                          Carta IEDI n. 1356 - A performance da indústria global em 2025 e o declínio do Brasil no ranking da produção
                          Publicado em: 14/04/2026

                          Com a desaceleração da indústria brasileira provocada pela alta dos juros e relativa resiliência do setor no mundo, recuamos consideravelmente no ranking global das indústrias mais dinâmicas em 2025.

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                          Carta IEDI n. 1355 - Sinal de inflexão do emprego industrial
                          Publicado em: 10/04/2026

                          Em 2025, a trajetória do emprego industrial se saiu melhor do que no restante do setor privado, ao menos até o último trimestre, quando deu sinal de inflexão.

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