Análise IEDI
Desaceleração do PIB com queda no consumo e na demanda externa
Os dados divulgados hoje pelo IBGE confirmam a desaceleração do PIB brasileiro, que registrou variação de +0,5% no 2º trim/26 ante alta de +1,1% no 1º trim/26, já descontados os efeitos sazonais. Dois componentes da demanda foram os principais responsáveis por isso: queda do consumo das famílias e forte desaceleração do investimento. A contribuição do setor externo foi negativa, mas menos intensa do que na entrada do ano.
• PIB total: +1,1% no 1º trim/26 e +0,5% no 2º trim/26, com ajuste sazonal;
• Consumo das famílias: +0,8% e -0,4%, respectivamente;
• Consumo do governo: +0,4% e +0,4%;
• Formação bruta de capital fixo: +3,4% e +1,2%;
• Exportações: -2,1% e -0,8%;
• Importações: +4,2% e +1,8%, respectivamente.
Ainda na série com ajuste sazonal, na comparação mais de curto prazo, o consumo das famílias registrou -0,4% na passagem do primeiro para o segundo trimestre do ano. Foi o pior resultado desde o final de 2024, quando a taxa básica de juros (Selic) começou a subir.
A despeito da baixa taxa de desempenho e do rendimento real em elevação (como discutido recentemente na Carta IEDI n. 1374, o peso do endividamento das famílias está em patamares recordes, colocando muitas delas em delicada situação financeira, funcionando, assim, como obstáculo às decisões de consumo.
Alguns dados resumem este quadro. Segundo o Banco Central, o endividamento das famílias encontra-se próximo de 50% da renda dos últimos doze meses desde set/25, mas a soma de pagamentos de juros e amortizações não para de subir, chegando a 28,9% no 2º trim/25, já com ajuste sazonal.
Com este fardo, a inadimplência do crédito bancário a pessoas físicas atingiu 7,4% em jun/26 (recursos livres) e avançou para 7,8% em jul/26, o nível mais elevado da série histórica com início em mar/11. Já a pesquisa da CNC mostrou que 29,9% das famílias tinham contas em atraso em jun/26 e 19% declararam comprometer mais da metade da renda com dívidas.
O encolhimento do consumo rebateu no lado na oferta, na estagnação (0% ante 1º trim/26, com ajuste) do comércio e de outras atividades de serviços, que reúnem muitos serviços pessoais. Isso contribuiu para o que os serviços como um todo ficassem igualmente muito perto da estabilidade (+0,2% na série com ajuste).
Mas também comprometeu o desempenho da indústria de transformação, inclusive porque muitos de seus bens têm mercados baseados em crédito e, logo, sujeitos aos níveis de juros. O setor, depois de não ter crescido na entrada do ano, caiu -0,4% no 2º trim/26, descontados os efeitos sazonais.
A indústria também sentiu a desaceleração do investimento. A formação bruta de capital fixo, que havia crescido +3,6% em jan-mar/26 ante o trimestre anterior, com ajuste sazonal, registrou +1,2% em abr-jun/26. Acima do que o mercado previa (+0,6%, segundo levantamento do Valor Econômico), mas ainda assim 1/3 da expansão anterior.
Além da queda da indústria de transformação, também ficaram no vermelho a construção (-0,4%) e eletricidade, gás, água, esgoto e ativ. de gestão de resíduos (-1,1%); neste último caso após estagnação em jan-mar/26. Estes três componentes arrastaram a indústria total de uma alta de +1,2% no 1º trim/26 para tão somente +0,1% no 2º trim/26.
O único componente da demanda interna a não registrar perda de dinamismo nesta comparação mais de curto prazo foi o gasto de governo, com +0,4%, mesmo resultado do trimestre anterior.
A demanda externa retirou crescimento do PIB do 2º trim/26, em grande medida devido às importações, que embora tenham desacelerado, ainda assim aumentaram +1,8% na passagem do 1º para o 2º trimestre. As exportações também não ajudaram ao recuarem -0,8%.
Ou seja, o bom desempenho de atividades tipicamente exportadoras do país não foi suficiente para ampliar os embarques do país e reverter a contribuição negativa do setor externo. Tais atividades foram a agropecuária, cuja alta foi de +2,8% – o melhor resultado entre os grandes setores na série com ajuste sazonal –, e a indústria extrativa, com +3,4%, responsável por evitar que a indústria total ficasse no vermelho.
No acumulado do ano, o PIB do país apresentou crescimento de +1,9%, muito próximo do resultado do 2º semestre de 2025 (+1,8%), mas bem abaixo da primeira metade do ano passado, quando havia crescido +2,7%.
Quanto à demanda interna, destaca-se a paralisação do investimento, que passou de +6,5% em jan-jun/25 para 0% em jan-jun/26. O dinamismo do consumo das famílias caiu pela metade, de +2,0% para +1,1%, compensado em alguma medida pela aceleração do consumo do governo, que passou de +1,4% para +2,9%, respectivamente.
Do lado da oferta, destacamos a reviravolta na indústria de transformação. O PIB do setor, mesmo em desaceleração, ainda registrava expansão de +1,1% no 1º semestre de 2025, o que deu lugar a uma nova retração na primeira metade do presente ano (-0,9%).
Cabe observar que a indústria de transformação já está no vermelho há 5 trimestres seguidos na comparação com o mesmo período do ano anterior. A rigor, uma sequência de sinais negativos mais longa do que esta só na crise de 2015-2016.





