Análise IEDI
A indústria brasileira entre obstáculos internos e externos
Em agosto de 2026, teve continuidade a sequência de resultados adversos da indústria brasileira. Nos últimos quatro meses, isto é, metade do período já coberto pelas estatísticas do IBGE, a produção do setor não conseguiu crescer. Descontados os efeitos sazonais, o declínio foi de -0,6% frente a jul/26, com grande difusão do sinal negativo.
Ficaram no vermelho 64% de seus ramos e todos os macrossetores industriais, em especial bens de consumo, sendo -1,7% nos semi e não duráveis e -1,0% nos duráveis. A produção de bens de capital caiu -0,6% e a de bens intermediários -0,2%, sempre na série com ajuste sazonal.
Em relação ao ano passado, o setor também não escapou do sinal negativo: -1,2% no total da indústria. Neste caso, pelo menos um macrossetor cresceu, bens de consumo duráveis (+2,8%), cuja inflexão ao longo do ano vem ocorrendo com taxas de crescimento mais modestas, mas ainda positivas. Bens intermediários, a seu turno, ficaram estáveis ao registrar somente +0,1% em ago/26 ante ago/25, uma situação não muito distante do mês anterior, quando variou +0,3% ante jul/25.
Os dois outros macrossetores perderam produção também no contraste interanual, como mostram as variações a seguir.
• Indústria geral: +1,7% em jun/26; -0,5% em jul/26 e -1,2% em ago/26;
• Bens de capital: -2,3%; -4,6% e -4,1%, respectivamente;
• Bens intermediários: +2,5%; +0,3% e +0,1%;
• Bens de consumo duráveis: +5,5%; +4,7% e +2,8%;
• Bens de consumo semi e não duráveis: +0,3%; -2,4% e -4,5%, respectivamente.
Bens de capital, como temos observado, são o pior caso, não só porque ficam entre as quedas mais agudas, mas também pela sequência de sinais negativos. Em seu agregado, a produção deste macrossetor praticamente não cresce desde o final do 1º trim/25, com raríssimas exceções.
Taxas de juros elevadas e a pressão que exercem sobre o balanço das empresas, como discutido na Carta IEDI n. 1375 “Grandes empresas em 2025: endividamento crescente e queda da rentabilidade”, associadas às incertezas inerentes a um ano eleitoral, criam obstáculos importantes para esta parcela da indústria.
No contraste de ago/26 com ago/25, a produção de bens de capital caiu -4,1%. Com isso, o bimestre jul-ago/26 dá indicativo de um trimestre tão ruim quanto o anterior: -4,4% ante -4,9% no 2º trim/26. Entre os segmentos mais atingidos estão os bens de capital para a agricultura, com -34,6% ante jul-ago/25, seguidos por aqueles de uso misto, com -12,5%. Em ambos os casos as quedas são de dois dígitos desde o 1º trimestre do ano.
Bens de capital para a própria indústria, a seu turno, a queda foi de -1,3% em jul-ago/26, mas cabe destacar a sua evolução recente e nos últimos anos. Desde o 3º trim/25 esta parcela dos bens de capital não consegue ampliar sua produção, revertendo o desempenho do período positivo do 2º trim/24 ao 2º trim/25. Antes disto, a queda havia persistido por 9 trimestres consecutivos.
Outro macrossetor com destaque desfavorável foi o de bens de consumo semi e não duráveis: -4,5% em ago/26 ante ago/25 e -3,5% no bimestre jul-ago/26. Sua trajetória tem sido oscilante, sob efeito de fatores diversos aos quais seus ramos estão expostos, como choques climáticos, protecionismo comercial e estreitamento do consumo das famílias, devido a endividamento e juros.
No último bimestre em tela, chama atenção o retrocesso do ramo de abate de carnes (exceto suínos e aves) de -13,3% ante jul-ago/25, sob influência do esgotamento da cota de importação de carne bovina do Brasil pela China, bem como do embargo europeu por razões sanitárias, que vem se arrastando desde maio e que passou a valer em setembro deste ano, sem mudança favorável para o caso de bovinos.
Outros ramos com perdas profundas em semi e não duráveis incluem têxteis (-10,6% em jul-ago/26), vestuário (-9,4%) e farmacêutica (-16,5%). A produção de combustíveis também caiu no último bimestre (-2,2%).






