Carta IEDI
Juros altos e restrições ao financiamento corporativo em 2025
Em 2025, as condições de financiamento do setor privado no Brasil se deterioraram na esteira da elevação da taxa básica de juros (Selic), que em meados do ano atingiu o pico de 15% a.a., permanecendo neste patamar até o presente momento.
Os empréstimos novos, isto é, as concessões de crédito realizadas pelo Sistema Financeiro Nacional, registraram desaceleração em relação a 2024, de +15,4% para +9,2% em termos reais, condicionada por aquela fração denominada operações “livres” pelo Banco Central, que reagem mais diretamente às mudanças na condução da política monetária.
Também pesaram: a piora das expectativas, associada ao aumento de tarifas comerciais pelo governo Trump; a inadimplência em elevação, sobretudo das famílias e de empresas de menor porte; e o endividamento das famílias em patamar historicamente alto. A atividade econômica mais fraca, como mostraram os últimos dados do PIB, arrefeceram igualmente a demanda por crédito.
Cabe notar que a restrição foi maior ao financiamento corporativo e isso não apenas no que diz respeito ao crédito bancário, pois as captações de recursos por meio da emissão de títulos chegaram a apresentar sinal negativo em 2025. O crédito direcionado foi quem amorteceu esta tendência, mas só parcialmente dado que representou somente 8% do financiamento novo total (incluindo emissões de títulos).
Enquanto o ritmo de expansão do total das concessões reais acumuladas no ano caiu -6,2 pontos percentuais, como indicado acima, de +15,4% para +9,2%, as concessões de crédito bancário às empresas refluiu -8,1 pontos percentuais. Estas operações tinham crescido +17,6% em 2024 e apenas +9,5% em 2025, mas terminaram o ano passado com um desempenho bem mais modesto: +5,5% no 4º trim/25 ante o 4º trim/24.
Na origem desta desaceleração está o crédito livre, cujas concessões representam 90% do crédito bancário total às empresas. Em 2025, o crédito livre corporativo cresceu +7,3% ante +18,1% em 2024, mas registrou impressionante desaceleração no segundo semestre, variando somente +1% no 4º trim/25 ante o mesmo período do ano anterior.
Muito disso se deveu ao encarecimento das linhas de crédito que compõem o segmento livre. Em termos médios, já descontada a inflação, a taxa de juros praticada nestas operações chegou a 20% a.a. em dez/25, o dobro do patamar da taxa básica e +3,8 pontos percentuais acima do nível em que se encontrava em dez/24. O custo subiu ainda mais para capital de giro e conta garantida, por exemplo.
Já os empréstimos novos de linhas oficiais, denominadas “crédito direcionado” nas estatísticas do Banco Central, cresceram +9,4% em 2025 ante +9,0% em 2024, com notável aceleração nas operações junto a empresas. O ritmo de expansão do crédito direcionado corporativo mais do que dobrou entre 2024 (+12,7%) e 2025 (+34,1%). Neste caso, as taxas médias de juros não se alteraram significativamente (7% a.a. em dez/24 e 7,6% a.a. em dez/25).
Cresceram acima do ritmo agregado do crédito direcionado às empresas (+34,1%), as linhas de crédito rural (+37%) e sobretudo aquelas classificadas como “outros” (+40%), que incluem financiamentos com recursos do Pronampe e do FGI Peac. O crédito do BNDES acelerou de +21% em 2024 para +32% em 2025.
Assim, o estoque de crédito às empresas avançou +8,8% em termos reais, devido ao avanço vigoroso das operações com recursos direcionados. O estoque destas operações aumentou próximo a +19% em termos reais, ao passo que o saldo com recursos livres teve crescimento bem mais contido, inferior a +3%.
Do ponto de vista setorial, cujos dados disponíveis pelo Banco Central são apenas para o estoque de crédito, a indústria foi o único grande setor a registrar aceleração em 2025, com crescimento real do saldo acima de 10%, e aumento da sua participação no crédito corporativo.
Ramos como papel e celulose, petróleo e seus derivados, construção, alimentos e infraestrutura lideraram a expansão dos estoques de crédito, em geral associados a projetos intensivos em capital, necessidades de capital de giro de longo prazo e investimentos em infraestrutura, inclusive vinculados ao novo PAC.
Além do crédito bancário analisado acima, é preciso mencionar a evolução das captações de recursos com títulos, pois cada vez mais as empresas recorrem ao mercado de capitais para se financiarem.
Vale lembrar que o estoque de títulos privados emitidos no mercado nacional diretamente pelas empresas ou securitizados (como os certificados de recebíveis) como proporção do crédito bancário corporativo saltou de 22,5% para 100,3% em 10 anos, entre 2015 e 2025, segundo o Banco Central.
O quadro de taxas de juros elevadas do ano passado, contudo, fez as emissões de novos títulos recuarem -0,75% frente a 2024. A queda veio das emissões de títulos de dívida direta após a exuberância de 2024, enquanto os instrumentos securitizados ainda apresentaram crescimento positivo, com destaque para os certificados de recebíveis (CR), cuja emissão mais do que triplicou.
Deste modo, somando as concessões de crédito bancário e as emissões de títulos, o financiamento novo às empresas em 2025 totalizou R$ 4,3 trilhões em termos reais, com crescimento de +7% frente ao ano anterior. Isso implicou importante desaceleração, já que em 2024 a expansão havia sido de +25%.
Por fim, em relação às famílias, cabe ressaltar que seu nível de endividamento continua em patamares dos mais elevados, segundo as estatísticas do Banco Central, tendo terminado o ano em 49,7% da sua renda disponível bruta. O serviço desta dívida, ademais, nunca esteve tão alta: 29,2% da renda no último trimestre de 2025, devido às altas taxas de juros. A inadimplência média encerrou 2025 em 5%, o nível mais elevado desde fev/13.
Apesar disso, os bancos seguiram ampliando suas carteiras de crédito às famílias. As concessões reais desaceleraram (de +13,8% em 2024 para +8,9% em 2025), mas menos do que no caso das empresas, e reagiram no último trimestre do ano (+11,5% ante 4º trim/24).
Foram as operações com recursos livres, onde as taxas de juros (média de 53,5% a.a. em dez/25) e a rentabilidade dos bancos são mais elevadas, que asseguraram o sinal positivo, ao registrarem alta de +10,7% em termos reais. O crédito direcionado às famílias, devido ao financiamento rural e habitacional, encolheu -3,3% no ano passado.
Assim, o estoque de crédito às famílias cresceu +12,2% em 2025, puxado por modalidades de crédito livre, como cheque especial (+16,7%), crédito pessoal não consignado (+18,6%), cartão de crédito rotativo (+35,7%) e parcelado (+21,9%), em que há incidência de juros.
O estoque total de crédito consignado, cujo acesso por trabalhadores CLT foi ampliado pela Lei 15.179 em meados de 2025, cresceu (+9,1%) abaixo do total para pessoa física, embora o estoque de operações junto aos tomadores CLT tenha praticamente dobrado entre dez/24 e dez/25. As concessões reais deste tipo de crédito, que representavam 0,6% do total do crédito livre novo às famílias em 2024, avançou para 1,4% em 2025.
Evolução das concessões de crédito bancário em 2025
A Carta IEDI de hoje analisa o desempenho do crédito em 2025. Embora o crédito do SFN tenha continuado a crescer em termos reais, ocorreu uma desaceleração relevante diante do forte aperto monetário, piora das expectativas e aumento da inadimplência.
Nesse ambiente, famílias e empresas passaram a pagar juros mais altos, alongaram prazos e recorreram mais ao crédito direcionado. No recorte do crédito por setor de atividade, a indústria foi o principal destaque, ampliando o acesso ao crédito em ritmo maior do que o conjunto dos setores.
De acordo com os dados divulgados pelo Banco Central do Brasil (BCB), as novas concessões de crédito do Sistema Financeiro Nacional (SFN) somaram R$ 7,8 trilhões em 2025, com média mensal de R$ 651,9 bilhões.
Em termos reais, com valores deflacionado pelo IPCA mensal, o volume total de novas operações de crédito bancário subiu 9,2% frente ao montante acumulado no ano de 2024.
Ainda que os valores das novas concessões tenham mantido taxas de crescimento real ainda expressivas na comparação interanual, houve nítida desaceleração no ritmo de expansão das novas operações de crédito, com decréscimo de -6,2 pontos percentuais (p.p.) ante 2024 na mesma base de comparação.
Esse arrefecimento reflete, pelo menos em parte, os impactos da elevação da taxa básica de juros (Taxa Selic) ao longo do período janeiro a junho de 2025, quando atingiu o patamar de 15% a.a., o mais alto registrado desde julho de 2006, que foi mantido inalterado no 2º semestre do ano.
A diminuição no ritmo de crescimento das novas concessões ocorreu, sobretudo, no terceiro trimestre de 2025 ante igual trimestre do ano anterior. Após registrar taxas reais de expansão acima de 11% nos dois primeiros trimestres do ano frente ao mesmo período do ano anterior, o volume total das novas concessões cresceu apenas 6,2% no 3º trimestre, voltando a ganhar ímpeto no último trimestre de 2025, puxado pelas operações de crédito com as famílias, registrando alta real de 8,7% ante a igual trimestre de 2024.
Em um contexto de juros muito altos, deterioração das expectativas associada à elevação das tarifas comerciais pelo governo Trump, redução do nível de atividade, patamar elevado do nível médio de inadimplência (4,1%) e do endividamento das famílias (comprometimento da renda em torno de 49%), ocorreu desaceleração tanto das novas concessões às pessoas físicas como das novas operações de crédito com pessoas jurídicas.
As operações com pessoas físicas, que responderam por 55,2% das novas contrações de crédito junto ao SFN, registram recuo das taxas de crescimento da ordem de -4,9 p.p. ante ao ano de 2024, menos acentuado do que o verificado nas novas operações com pessoas jurídicas (-8,1 p.p.) na mesma base de comparação.
Contudo, à despeito do maior arrefecimento, o aumento real na carteira de crédito às empresas foi superior ao registrado nas novas concessões às pessoas físicas: respectivamente 9,5% e 8,9% em termos reais.
A análise da evolução das concessões em termos trimestrais revela que após crescer a taxas superiores a 14% nos dois primeiros trimestres de 2025 ante ao ano anterior, o aumento real das novas concessões para pessoas jurídicas se reduziu a 5,1% no 3º trimestre, subindo para 5,5% no 4º trimestre do ano.
Na carteira de crédito às pessoas físicas, a diminuição de ritmo das novas operações se iniciou no 2º trimestre de 2025, com recuo das taxas de expansão para 8,7% (9,2% no 1º trimestre) e para 6,2% no 3º trimestre, com forte recuperação no 4º trimestre ante igual período de 2024: 11,5%.
No corte por origem dos recursos, no ano de 2025, as novas contratações de crédito com recursos livres, que representam 89,2% das novas concessões de crédito do SFN, registraram alta de 9,1% frente ao acumulado no ano de 2024.
Para esse resultado, contribuiu a expansão a dois dígitos das novas operações com pessoas físicas (10,7%), que, mesmo tendo perdido ritmo no 2º e no 3º trimestre de 2025, registrou forte recuperação no período outubro e dezembro (12,7%), e mais do que compensou a expressiva desaceleração no ritmo de expansão das novas concessões às empresas (-10,8p.p.) na base de comparação interanual.
No segmento de crédito direcionado, as novas concessões acumuladas no ano de 2025 registram alta de 9,4% em termos reais, refletindo a vigorosa expansão das operações com as empresas (34,1%), puxada pelas novas concessões do BNDES e pelos novos financiamentos do âmbito do Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe), cujo limite de crédito por empresa foi elevado a R$ 250 mil em 2025, e do Programa Emergencial de Acesso ao Crédito (FGI Peac).
Em contraste, as novas concessões com recursos direcionados às pessoas físicas registraram queda real de -3,3% na mesma base de comparação, em virtude da retração das novas concessões de crédito rural (-5,8%) e das novas operações de financiamento imobiliário (-0,7%), que responderam, respectivamente, por 45,9% e 45,7% do total de novas operações na carteira direcionado às pessoas físicas em 2025.
O aperto monetário de +2,75 p.p. na meta da taxa Selic ao longo do primeiro semestre de 2025 traduziu-se em piora disseminada das condições de crédito do SFN. As taxas médias de juros das novas concessões subiram 2,5 p.p. em termos reais na comparação com o ano anterior. O aumento do custo das novas contratações de crédito foi mais acentuado no crédito com recursos livre, com alta de 4,1 p.p. (alcançando 38,4% ao ano). Nessa carteira, a elevação taxas médias de juros foi ainda mais acentuada para as famílias (+4,3 p.p.), atingindo 50,6% ao ano.
Para as pessoas jurídicas, o incremento no custo do crédito em 2025 foi relativamente menor, com as taxas médias de juros reais das novas concessões subindo para 15,4% (+1,6 p.p.). A elevação das taxas médias de juros reais foi da ordem de +2,2 p.p. nas operações livremente pactuados e de +1,5 p.p. nas novas contratações com recursos direcionados.
No que se refere ao prazo médio das novas contratações, houve ampliação de 2,5 meses em 2025 ante ao ano anterior. Porém, enquanto nas operações com pessoas físicas ocorreu aumento de 5,2 meses nos prazos médios, puxado pela ampliação no prazo médio das novas concessões com recursos direcionado (+12 meses), nas novas contratações com pessoas jurídicas houve encurtamento de prazo (-3,2 meses), refletindo a redução em 2,7 meses nas operações com recursos livres e -5,6 meses nas novas operações direcionados.
Comportamento do crédito ao setor privado
Com o crescimento das novas concessões de crédito ao longo de 2025, o estoque total de crédito do SFN encerrou o ano no patamar de R$ 6,8 trilhões, equivalente a 55,9% do PIB, com variação real de 10,8% (-0,5 p.p.) ante o ano anterior. Nessa mesma base de comparação (dezembro contra dezembro), o estoque de crédito do sistema financeiro ao setor privado manteve o ritmo de expansão a dois dígitos, praticamente inalterado em 11,0%, atingindo R$ 6,6 trilhões, proporcional a 53,7% do PIB.
Para o aumento real do saldo total do crédito ao setor privado contribuiu o forte incremento do crédito destinado às pessoas físicas, que, mesmo com juros altos e inadimplência média elevada (5,0%, +1,5 p.p.) em um processo de retroalimentação, cresceu 12,2% em 2025 ante o ano anterior, com ligeiro arrefecimento no ritmo de expansão (-0,2 p.p.). Já a taxa de crescimento real no saldo da carteira de crédito às pessoas jurídicas ficou praticamente estável no patamar de 8,8% (-0,1 p.p.) na mesma base de comparação.
Na carteira de crédito às pessoas físicas, o estoque de crédito com recursos livres registrou acréscimo real de 13,8%, enquanto o estoque de crédito direcionado subiu em termos reais 10,2% na comparação interanual. A elevação do saldo das operações com recursos livres foi impulsionada pelo aumento das modalidades de crédito rotativo (17,2%), tais como cheque especial (16,7%) e cartão de crédito (17,8%), sobre as quais incidem as taxas de juros mais elevadas.
Já nas operações com pessoas físicas no segmento de crédito direcionado, o saldo dos financiamentos imobiliários, que representam 66,3% da carteira, registrou variação real de 12,5% em 2025 ante ao ano anterior, impulsionado pela extraordinária expansão dos financiamentos com taxas de mercado (47,5%). Também cabe destacar o aumento real de 15% do saldo das operações de crédito com recursos do BNDES.
Na carteira de crédito corporativo, a relativa estabilidade da taxa de crescimento real dos saldos em 2025 foi assegurada pelo forte aumento do estoque de operações com recursos direcionados, com avanço de 19% frente ao ano anterior, enquanto os saldos com recursos livres registraram acréscimo de apenas +2,9% na base de comparação interanual.
Em ambiente de juros elevados, o setor empresarial procurou ampliar a utilização de linhas direcionadas e com garantias, em especial as operações com apoio de programas públicos, como os já mencionados Pronampe e do FGI Peac, e com recursos do BNDES, com destaque para a modalidade de financiamento do investimento. Em conjunto, os estoques de crédito classificados como Outros e das operações do BNDES responderam, em 2025, por 82,9% da carteira de crédito direcionado às empresas, registrando taxa de crescimento real de 18,4% na comparação com 2024.
Já no segmento com recursos livres, as taxas de variação real mais expressivas foram observadas nas linhas de curto prazo voltadas à gestão operacional das empresas, como cheque especial (22,4%), capital de giro com prazo menor de 365 dias (14,9%), antecipação de cartão de crédito (11,6%), Vendor (22,4%), cartão de crédito (31,5%). Essas linhas, com taxas de juros pactuadas livremente, permitem financiar compra de matéria-prima, pagamento de salários e tributos, ajustando o fluxo de caixa.
O crédito bancário para a indústria
No recorte do crédito do SFN às empresas por atividade econômica, o setor industrial foi único que registrou aceleração no ritmo de crescimento em 2025, registrando variação real no saldo de 10,8%, com avanço de 2,4 p.p., em relação ao ano anterior. Em consequência dessa intensificação, esse setor elevou para 38,0% sua participação no saldo total de crédito corporativo por setor de atividade.
Na base de comparação interanual, os ramos industriais que registraram aumentos reais significativos dos saldos, bem acima da média do setor, foram as indústrias de papel e celulose (52,4%) e de petróleo, gás e álcool (22,7%). Também se destacam as variações reais da indústria de construção (14,8%), da indústria de alimentos (13%) e da indústria de obras de infraestrutura (11,2%).
Mesmo em cenário desafiador de juros altos, a forte ampliação dos estoques desses ramos industriais é explicada pela combinação da necessidade de financiamento de capital de giro de longo prazo e altos investimentos em infraestrutura, impulsionados por demandas de exportação e projetos estruturais no âmbito do novo PAC, com a estratégia de gestão de risco das instituições financeiras que privilegiam empresas com maior capacidade de geração de receita e/ou garantias sólidas.
Já o saldo do crédito do SFN destinado ao setor de agropecuária aumentou 6,7%, com recuo de -0,9% na base de comparação interanual. O arrefecimento no ritmo de expansão do estoque de crédito ao setor de serviços foi o mais acentuado, passando de uma taxa de crescimento real de 10,9% em 2024 para 6,1% em 2025, com decréscimo de -4,8p.p.
No setor de agropecuária, no qual parte das empresas se financia com crédito rural subsidiado e fontes específicas do Plano Safra, cujo ritmo de execução e desembolso variou mais ao longo da safra 2024/25. Após crescer 0,3% no 1º trimestre de 2025 ante a igual trimestre do ano anterior, o estoque de crédito rural registrou ligeira retração no 2º trimestre (-0,2%). Nos dois últimos trimestres do ano, quando teve início safra 2025/26, contudo, o saldo de crédito à agricultura e à pecuária voltou a registrar taxas reais positivas: 3,5% e 6,7%, respectivamente, na mesma base de comparação.
O setor de serviços depende, por sua vez, muito das modalidades de crédito livre de curto prazo, as mais penalizadas pela elevação dos juros. A desaceleração no ritmo de crescimento da carteira de crédito ao setor, que responde por 59,6% do total do crédito por atividade econômica, ocorreu em todos os trimestres de 2025 em comparação com igual trimestre de 2024, passando de 9,9% no 1º trimestre para 9,4% no 2º, para 7,6% no 3º trimestre, fechando o ano em 6,1%.
Em contraste, o saldo do crédito à indústria ganhou ímpeto, registrando taxas reais crescentes: 6,8% no 1º trimestre, 7,0% no 2º trimestre, 8,6% no 3º trimestre e 10,8% no 4º trimestre. Esse melhor desempenho do crédito à indústria em 2025 reflete, pelo menos em parte, a maior utilização de linhas de crédito direcionado, bem como os programas oficiais de fomento ao investimento, à modernização industrial e à inovação no âmbito do Plano Mais Produção, geridos pelo BNDES e pela Finep, que oferecem melhores condições em termos de custo e prazo.
Desse modo, em 2025, a elevação do estoque do crédito concedido à indústria foi superior à verificada tanto para o conjunto dos setores por atividade econômica como para o setor empresarial, invertendo a tendência observada nos anos anteriores.
A maior ampliação dos estoques de crédito ao setor industrial em 2025, em termos comparativos, resulta igualmente da maior capacidade das empresas industriais – em média de maior porte – de acessar o mercado de crédito bancário em substituição parcial ao mercado de capitais para atender suas necessidades persistentes de financiamento de capital de giro e capital fixo.
Ao passo que as empresas do setor agropecuário e, sobretudo, no setor de serviços foram mais afetados pela seletividade dos bancos diante de maior risco de inadimplência, dado que a garantia desses setores é mais dependente de renda futura ou de ativos mais difíceis de executar.
Enquanto a taxa média de inadimplência das empresas de pequeno e médio porte (MPME) subiu para 5,2% em 2025 (alta de +1,1 p.p. ante a 2024), a taxa média de inadimplência para as grandes empresas registrou incremento de apenas +0,1 p.p., passando de 0,3% em 2024 para 0,4% em 2025.
A importância do mercado de capital no financiamento corporativo
As estatísticas de crédito do BCB trazem igualmente informação sobre o estoque de crédito ampliado ao setor não financeiro, que inclui as emissões de títulos por pessoas jurídicas para a captação de recursos no mercado de capitais doméstico que são detidos por residentes.
Os títulos de dívida, também denominados títulos de renda fixa, abrangem tanto os títulos de dívida direta, como as debêntures e notas promissórias comerciais, emitidos pelas empresas, organizadas sob a forma de sociedades anônimas, como as emissões de títulos privados securitizados pelas companhias securitizadoras de crédito e os direitos creditórios na carteira dos fundos de investimento em direitos creditórios (FIDC).
As companhias securitizadoras adquirem, pagando à vista, dívidas ou direitos creditórios das empresas, como parcelas de cartões, duplicatas ou financiamentos, antecipando fluxo de caixa, utilizado como capital de giro de curto prazo, e os transformam em lastros de ativos negociáveis, tais como os certificados de recebíveis imobiliários (CRI), do agronegócio (CRA) e certificados de recebíveis (CR), criados pela Lei 14.430 de agosto de 2022, os quais podem ser lastreados em qualquer tipo de operação de crédito (vendas parceladas do varejo, duplicatas, crédito estudantil, etc.). Todos esses ativos são vendidos no mercado de capitais para os investidores, que recebem os pagamentos futuros provenientes das parcelas pagas pelos clientes finais.
Os dados do BCB sobre os estoques de crédito ampliado doméstico mostram que o mercado de capitais vem, nos últimos anos, ganhando importância crescente no financiamento do setor corporativo.
Em termos proporcionais, o saldo de títulos de dívida direta no mercado de capital doméstico atingiu, em 2025, o equivalente a 58,2% dos saldos dos empréstimos bancários às empresas (ante 17% em 2013). Se for considerado o volume total de títulos de dívida, que inclui os títulos securitizados, essa proporção ultrapassa 100% em 2025.
Considerando apenas os saldos de empréstimos e financiamento às grandes empresas, essas proporções são ainda mais elevadas, atingindo: 93% do estoque total de títulos de dívida direta e 160% do estoque total de títulos de dívida.
Contudo, em 2025, em virtude do aperto monetário e do aumento do custo de emissão, sobretudo das debêntures, o crescimento real do estoque de títulos de dívida perdeu ímpeto, registrando variação de 11% na base de comparação interanual, o que corresponde a uma queda de -19,1 p.p. frente ao resultado verificado em 2024.
Em contraste, os saldos dos empréstimos bancários do SFN subiram 8,9%, com aceleração de 1,9 p.p. na mesma base de comparação, em um movimento de substituição parcial do mercado de capital por crédito bancário.
[I1.1]A análise dos dados de concessão de crédito bancário do BCB em conjunto com os dados divulgado pela CVM sobre a emissão pública de títulos de dívida – no Boletim Econômico, Ano 13, volume 108, 4º Trimestre de 2025, 02/02/2026, pág. 21 – permite verificar o volume do crédito ampliado novo (isto é, do fluxo) que foi captado em 2025.
No acumulado do ano, a contratação de crédito novo neste conceito ampliado alcançou R$ 4,3 trilhões ao setor corporativo, com variação real de 7,5% frente ao acumulado no ano de 2024. Esse resultado foi impulsionado pela expansão das concessões do SFN às empresas (9,5%), que mais do que compensou a queda real no volume anual dos montantes captados com emissão de títulos de dívida (-0,8%) na base de comparação interanual.
A pequena retração no volume captado no mercado de capitais reflete, por sua vez, a diminuição das emissões de títulos de dívida direta (-3,0%), que haviam registrado uma extraordinária taxa de crescimento real (91,7%) em 2024, totalizando R$ 505,7 bilhões. Já a emissão acumulada de títulos securitizados, não obstante a desaceleração, registrou variação real positiva de 3,6% em 2025, passando de R$ 262,5 bilhões em 2024 para R$ 271,9 bilhões em 2025.
Os dados da CVM permitem observar igualmente a captação das empresas não financeiras no mercado de capitais por meio da emissão dos diferentes tipos de títulos de dívida: debêntures, notas promissórias, cujas estatísticas passaram a incluir, de forma crescente, as notas comerciais regulamentadas pela Lei 14.195/2021, as quais podem ser emitidas pelas sociedades anônimas, sociedades limitadas e por cooperativas, e também CRA, CRI, CR e FDICs.
As debêntures constituem, sem sombra de dúvida, o principal instrumento utilizado pelas empresas de maior porte para captar recursos de longo prazo com custos geralmente menores e prazos mais flexíveis do que os empréstimos bancários tradicionais. Essa estratégia diversifica as fontes de financiamento, permitindo financiar expansões, reestruturar dívidas e investir em infraestrutura. Ademais, os juros pagos aos debenturistas podem ser deduzidos como despesas financeiras na apuração do resultado das sociedades anônimas.
No ano de 2025, o setor corporativo captou R$ 438,6 bilhões mediante a emissão de debêntures, o que equivale a 57,5% do volume total obtido no mercado doméstico capitais. Desse total, R$ 178 bilhões (40,6%) foram captados com a emissão de debêntures incentivadas destinadas ao financiamento de projetos prioritários de infraestrutura (energia, saneamento, transporte) e que oferecem isenção de imposto de renda aos investidores pessoas físicas. Na comparação com o total acumulado em 2024, contudo, o montante captado pelas empresas via emissões de debêntures registrou queda real de 4,7% em 2025.
As expressivas emissões de debêntures em 2025 resultaram da combinação de forte demanda dos investidores por títulos de dívida isentos, devido à possibilidade de alterações nas regras de isenção para novas emissões a partir de 2026, com uma oferta elevada de empresas procurando refinanciar dívidas e captar recursos de longo prazo a custo mais baixo que os empréstimos bancários tradicionais.
Segundo os dados do Boletim de Mercado de Capitais da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (ANBIMA) – cujas estatísticas apresentam algumas diferenças metodológicas em relação às da CVM –, as principais destinações para os recursos obtidos pelas empresas via emissão de debêntures foram: investimento em infraestrutura (35%), pagamento de dívida (26,2%), gestão operacional (18%).
Dentre os títulos securitizados, que em seu conjunto respondem por 35,7% do volume de recursos privados captados no mercado de capitais em 2025, o instrumento que registrou a maior taxa crescimento real (287%) foi o CR, que subiu de R$ 12,6 bilhões em 2024 para R$ 48,6 bilhões em 2015, superando o montante dos CRAs.
As emissões de CRAs, títulos lastreados em direitos creditórios originados de transações entre produtores rurais, cooperativas ou terceiros e a cadeia do agronegócio, que incluem, principalmente, debêntures, notas comerciais, duplicatas, contratos de compra e venda de insumos e Cédula de Produto Rural (CPR), captaram R$ 44,4 bilhões no ano de 2025. Frente ao acumulado no ano de 2024, o volume de CRAs cresceu 6,3% em termos reais.
Em contraste, a maior retração real no volume captado por meio de títulos securitizados em 2025 foi registrada pelos CRIs (-22,2%), títulos lastreado por direitos creditórios do setor imobiliário, que incluem financiamentos, aluguéis, contratos de compra e venda de imóveis, e parcelas de loteamento.
A queda no volume de emissões dos CRIs foi impulsionada pelas mudanças regulatórias introduzidas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), que restringiram os lastros aceitos e o tipo de empresas emissoras (Resoluções 5118, 5121 e 212).
Ademais, os Fundos de Investimento Imobiliário, que são importantes compradores desses títulos, diminuíram drasticamente sua participação nas novas ofertas primárias devido as dificuldades de captação de novos investidores em um ambiente de alta da inadimplência de pequenas e médias incorporadoras.
Na comparação interanual, os FIDCs também registram redução do volume em 2025: -8,9%. Essa retração é explicada pelo ambiente de juros elevados, que aumentou o custo do crédito e a inadimplência, além de estimular a migração de investidores para títulos públicos mais seguros, como o Tesouro Selic, que oferece liquidez, rentabilidade e baixo risco, sem cobrar taxas de administração como alguns FIDCs.















