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                          IEDI na Imprensa - Crise argentina tira 0,5 ponto do PIB brasileiro neste ano

                          Publicado em: 13/09/2019

                          Valor Econômico

                          A forte crise argentina afetou as exportações e a indústria brasileira em 2018 e 2019

                          Ana Conceição

                          “Desde quando o Brasil precisou da Argentina para crescer?”, questionou o ministro da Economia, Paulo Guedes, durante um evento em São Paulo, em agosto. O efeito da forte recessão do país vizinho sobre o crescimento brasileiro é expressivo, como deixa claro um estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV). Em 2018, a crise argentina tirou 0,2 ponto percentual do PIB e, neste ano, deve ter impacto negativo de pelo menos 0,5 ponto. Para efeito de comparação, a economia brasileira cresce ao redor de 1% desde o fim da recessão, que durou do segundo trimestre de 2014 ao quarto trimestre de 2016.

                          No estudo, as economistas Luana Miranda e Mayara Santiago calculam o reflexo da forte queda das exportações para o vizinho sobre o valor adicionado da indústria de transformação e dos segmentos de transportes e comércio, que são em parte influenciados pela atividade manufatureira. Produtos industriais respondem por cerca de 90% das vendas do Brasil para a Argentina. O trabalho será apresentado na tarde da próxima segunda-feira, em seminário de análise conjuntural promovido pelo Ibre/FGV, no Rio.

                          Em quantidade, segundo levantamento inédito feito pelas economistas, as vendas totais do Brasil para a Argentina caem desde o segundo trimestre do ano passado, com os piores momentos entre o quarto trimestre de 2018 (-44%) e o primeiro deste ano (-45%). Ainda assim, a Argentina é o quarto maior mercado para os produtos brasileiros, depois de China, União Europeia (UE) e EUA. Os automóveis são parte importante dessa pauta de exportação, mas não só. O mercado argentino é relevante também para os bens intermediários. O levantamento mostra que, do total exportado para a Argentina, 57,4% se encaixam nessa categoria, que compreende os insumos para compor a cadeia produtiva da indústria local. “Dentro dos intermediários, chama atenção que 16% das peças para equipamentos de transporte vendidos pelo Brasil vão para o vizinho”, ressalta Luana. E, apesar da queda, 58% dos automóveis exportados pelo Brasil de janeiro a agosto deste ano foram para lá.

                          Num exercício contrafactual, sem os efeitos da crise do vizinho o valor adicionado da indústria de transformação brasileira teria crescido 2,2% em 2018, ante o resultado oficial de 1,3%. Para 2019, a projeção é de que o PIB da indústria cresceria 2,1%, ante o 0,2% estimado pelo Ibre. Para calcular o impacto no terceiro e quarto trimestres deste ano, as economistas projetaram a quantidade a ser exportada para a Argentina com base no cenário elaborado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) para a demanda interna do país. O cálculo supõe uma desaceleração gradual da queda das exportações brasileiras para o país até chegar a uma queda de 8% em dezembro.

                          Num mesmo exercício contrafactual feito pelas economistas, livre do efeito Argentina, o valor adicionado do comércio teria crescido 2,7% em 2018, ante os 2,3% apurados pelo IBGE. O dos transportes teria se expandido 2,5%, ante 2,2%, e os impostos teriam aumentado 1,8%, ante 1,4%. Nas projeções para 2019, o valor adicionado do comércio cresceria 2,9%, ante a previsão de 1,9%. Os transportes aumentariam 1,8%, ante previsão de 1%, e os impostos subiriam 2,3%, ante 1,3%.

                          A conclusão é que a crise econômica argentina tirou 0,2 ponto do PIB de 2018, que cresceu 1,1%. Para 2019, o Ibre-FGV estima PIB de 1,1%, projeção acima da mediana do mercado, de 0,87%. Assim, o resultado, sem a crise do vizinho, poderia chegar a 1,6%.

                          Segundo Luana, o impacto neste ano pode ser ainda mais negativo, em um cenário de agravam

                          ento da crise política argentina, diante da proximidade das eleições presidenciais, em outubro. “Quando o FMI divulgou as estimativas de demanda, o quadro eleitoral na Argentina ainda não indicava vitória da oposição, algo que deteriorou as perspectivas macroeconômicas locais”.

                          Segundo o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), o revés exportador da indústria brasileira tem sido um componente da recente etapa recessiva pela qual o setor tem passado. Na ocasião da divulgação do dado da produção industrial de julho, que caiu 0,3% ante junho, relatório da entidade chamou atenção para a queda de 4,4% no volume das exportações brasileiras de manufatura no ano, um desempenho que no mesmo período em 2018 tinha sido de alta de 2,9%. Rafael Cagnin, economista do IEDI, afirma que parte disso decorre do aprofundamento da crise na Argentina, que para ele não tem expectativa de melhora. Toda a produção da cadeia automobilística tem sido afetada por esse evento, diz ele.

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