IEDI na Imprensa - Antes de tarifaço, indústria do país desaba em ranking mundial
Valor Econômico
Com alta de 2,4% no primeiro trimestre, atividade tem crescimento inferior à média global pela primeira vez em um ano
Alessandra Saraiva
A indústria brasileira teve no primeiro trimestre um desempenho abaixo da média global - a primeira vez que isso acontece em um ano. A atividade industrial brasileira cresceu 2,4% nos primeiros três meses do ano em relação ao mesmo período do ano passado, ante alta de 4% na produção industrial global. No quarto trimestre de 2024, o setor industrial no país avançou 3,8%, enquanto a atividade mundial cresceu 2,8%, também na comparação com mesmo período de ano anterior.
Os dados constam de estudo feito por Rafael Cagnin, diretor-executivo do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), com base em dados da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Unido na sigla em inglês). Juros altos e incertezas na área fiscal no país foram alguns dos fatores que levaram ao atual cenário, de acordo com o pesquisador.
No levantamento, o especialista fez um ranking de produção manufatureira global com 80 países que tinham dados completos disponíveis sobre a atividade industrial do primeiro trimestre. Nesse ranking, o Brasil caiu dez posições em um ano, passando da 27ª posição, no primeiro trimestre do ano passado, para a 37ª colocação, no primeiro trimestre de 2025.
O desempenho não leva em conta ainda o tarifaço do presidente americano, Donald Trump, anunciado no segundo trimestre, mas, segundo Cagnin, mostra que a indústria brasileira já lidava com quadro delicado até o primeiro trimestre.
Ele reiterou a influência do quadro de juros altos - a taxa básica de juros está em 15% ao ano, maior patamar desde 2006. Além de inibir o consumo interno, o que reduz encomendas à indústria, o juro elevado também exerce pressão negativa nos investimentos na produção do setor, intensivo em tomada de capital de giro.
Outro aspecto que impacta o setor é o quadro fiscal do país, destacou o diretor-executivo. Notícias erráticas sobre o tema no começo do ano levaram volatilidade ao câmbio. Com o dólar alto, aumentou o custo de insumos industriais importados pelo segmento.
A perda de tração da indústria não ocorreu com o resto do mundo, acrescentou Cagnin. Dois dos maiores parques industriais do mundo tiveram crescimentos na comparação com o primeiro trimestre de 2024. A indústria chinesa foi um dos destaques positivos, com alta de 1,9%, e a americana teve expansão de 1%.
No caso das decisões do governo americano sobre tarifas de exportação, o contraste entre o Brasil e o resto do mundo desde o primeiro trimestre tem se acentuado, acrescentou Cagnin. “Desde então, as coisas vêm piorando, do ponto de vista internacional das tarifas, para o Brasil e se acomodando com outros players importantes [da indústria]”, disse Cagnin. Ele lembrou ainda que há uma incerteza profunda no comércio internacional, com idas e vindas muito fortes: “Qualquer avaliação, qualquer modelo que se rode para ver impactos, é altamente perecível.”
A incerteza aumenta toda vez que o Trump pega o microfone”
— Stefano Pacini
Stefano Pacini, economista da Fundação Getulio Vargas (FGV) e responsável pela Sondagem da Indústria da instituição, concorda: “A grande questão é o aumento da incerteza. A incerteza aumenta toda vez que Trump pega o microfone para falar sobre a economia de outro país”, disse. Acrescentou ser difícil, neste momento, fazer previsões.
Gustavo Sung, economista-chefe da consultoria Suno Research, disse que setores taxados nas exportações com destino aos EUA e não inclusos em exceções precisam ser prioridade na ajuda do governo, que prepara pacote para auxiliar os segmentos mais afetados pelas tarifas americanas. Entretanto, mesmo com provável ajuda do governo brasileiro, os sinais são de que a indústria não terá bom ano em 2025, como foi o de 2024, afirmou.
No ano passado, a produção industrial subiu 3,1% ante 2023, melhor desempenho desde 2021 (3,9%). Sung reiterou que, mesmo antes do “tarifaço” de Trump, a indústria já caminhava em uma trajetória que inspirava cuidados. “O que precisamos colocar na conta é que a indústria já vinha sofrendo. Não somente por conta dessa questão de tarifas, que devem piorar de fato o desempenho. Temos que colocar na conta os juros em patamares bastante elevados.”
A BGC Liquidez já projeta um aumento de apenas 0,7% na indústria em 2025, segundo Felipe Tavares, economista-chefe da corretora. “A indústria deve ficar praticamente no zero a zero neste ano.”
Tavares não descartou novas revisões na projeção para a indústria nos próximos meses devido às constantes mudanças sobre as tarifas americanas. Ele diz ser necessário esperar mais dados sobre o que efetivamente será taxado e ressaltou que o Brasil continua a negociar com Departamento de Comércio americano, o que pode levar a mais exceções tarifárias. Há, ainda, a possibilidade de o país retaliar os EUA com sobretaxas. “Precisamos ver os próximos capítulos para termos uma ideia um pouco mais assertiva sobre o assunto.”
