IEDI na Imprensa - Brasil exporta aos EUA 3,4% da sua produção industrial
Folha de São Paulo
Para economistas, o baixo percentual ajuda a reduzir o impacto das elevadas tarifas impostas pelos americanos a produtos brasileiros
Maeli Prado
Principal destino da produção da indústria, os Estados Unidos importam o equivalente a 3,4% de tudo o que o setor fabrica no Brasil. O baixo percentual, apontam economistas, é um sintoma do baixo grau de abertura comercial da economia brasileira e ajuda o país a amortecer o choque das tarifas impostas pela maior economia do mundo aos produtos locais.
No ano passado, segundo dados da CNI (Confederação Nacional da Indústria), a produção da indústria de transformação doméstica somou R$ 2,6 trilhões. Desse total, R$ 491 bilhões, ou 18,9%, foram destinados a compradores de outros países, e R$ 91,4 bilhões (3,4%) foram vendidos aos EUA.
Os números revelam que nenhum país possui uma participação elevada quando se mede o coeficiente de exportação, que é o nome técnico do indicador que mede o peso das vendas externas para a produção brasileira de diferentes países e setores.
Em segundo e terceiro lugares no ranking dos destinos com maior peso na produção industrial brasileira aparecem a União Europeia, com 2,2%, e a China, com 2,1%.
"A indústria brasileira há muito tempo é criticada por sua baixa internacionalização. Mas no contexto atual, possuir menor dependência do comércio internacional configura uma certa blindagem da atual incerteza", diz Rafael Cagnin, economista-chefe do IEDI (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial). "É uma barreira, um muro protetor."
O especialista avalia que o tarifaço imposto pelos EUA ao Brasil terá um impacto reduzido quando o que se considera na conta o valor total produzido pela indústria, ao mesmo tempo em que ressalva que o efeito negativo pode ser muito grande para alguns segmentos.
"Nosso baixo coeficiente de exportação ajuda a filtrar impactos negativos do tarifaço, mas isso não é verdade para todo mundo. No detalhe, há setores, empresas e até linhas de produto muito expostos às tarifas", diz Cagnin.
É a mesma avaliação de Fernando Ribeiro, coordenador de estudos em comércio internacional do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).
"Historicamente o foco da nossa indústria é o mercado interno. Então a exportação acaba sendo só uma alternativa para a maioria dos setores, e não necessariamente parte da estratégia de crescimento delas", aponta o especialista. "Sem contar que temos problemas de competitividade em muitos setores."
Quando os números são detalhados, a conclusão é que, entre 23 segmentos levados em conta no levantamento da CNI, o coeficiente de exportação é maior que 5% em quatro deles.
Um dos segmentos mais prejudicados é o de madeira, onde as exportações respondem por 19,4% da produção, com 94,2% das vendas externas sujeitas a tarifas entre 40% e 50%, segundo a CNI. Outro destaque negativo é máquinas e equipamentos, que exporta 2,8% da produção e onde 77% das vendas externas aos EUA estão sujeitas a tarifas de 50%.
Já o subsetor de outros equipamentos de transportes, que inclui aeronaves, é o que mais exporta a sua produção aos EUA, com 31,3% de coeficiente de exportação. Mas nesse caso a maior parte dos produtos foram excluídos das tarifas de 40% impostas por Donald Trump, o presidente americano, em 30 de julho, e apenas 4,8% das vendas à maior economia do mundo estão sujeitas a tarifas mais altas.
Constanza Negri, gerente de comércio e integração internacional da CNI, avalia que o impacto do tarifaço sobre a indústria de transformação será considerável, e destaca que mais de R$ 90 bilhões do que é produzido no Brasil é exportado aos EUA. Segundo ela, os dados confirmam a importância americana como destino de produtos brasileiros.
"Outros destinos também são relevantes para as exportações brasileiras, mas nenhum chegou perto dos EUA na última década", diz. "Em valores, os dados mostram um grande impacto. Mostram a relevância que os EUA possuem para a pauta econômica do Brasil."
O governo anunciou um pacote de socorro aos setores afetados pelo tarifaço com uma linha de crédito de até R$ 30 bilhões para ajudar as companhias que foram prejudicadas pelo tarifaço, além do adiamento de impostos federais, maior ressarcimento de créditos tributários e uma reformulação nas garantias à exportação para facilitar a busca de novos mercados.
Para Ribeiro, do Ipea, essa abordagem faz sentido. "Se o impacto é localizado, e algumas atividades vão sofrer mais, faz sentido que as medidas sejam dar apoio específico a alguns setores, como crédito e garantias de compra, de forma que você possa ao menos minimizar o impacto das medidas no curto prazo, enquanto no meio-termo tenta negociar."
A gerente de comércio da CNI também avalia o pacote de auxílio às empresas como positivo, mas aponta a importância de negociar com os Estados Unidos e trabalhar, paralelamente, para abrir novos mercados.
"As medidas anunciadas de mitigação dos impactos vão na direção correta, de trazer alívio emergencial para as empresas. Mas é um cenário complexo, que precisa de estratégias paralelas, como intensificação de diálogo com os Estados Unidos para tentar reverter esse cenário", diz Negri. "Outra frente é diversificar parceiros comerciais."
Cagnin ressalta que o coeficiente de exportação para os EUA, apesar de baixo, subiu nos últimos anos, e que os da União Europeia e da Argentina aumentaram.
"Nos últimos anos, nós nos expusemos mais ao mercado americano, que tradicionalmente era um parceiro seguro, mas que deixou de ser. A queda nos coeficientes da União Europeia e da Argentina é um exemplo de onde o Brasil poderia trabalhar para ganhar mercado", diz. "Lembrando que o acordo entre Mercosul e União Europeia é o único em vias de ser fechado de fato."
