IEDI na Imprensa - Economia circular não escala sem logística
Valor Econômico
O Brasil já tem estratégia, recursos e iniciativas. O próximo passo é transformar projetos-piloto em infraestrutura econômica
Rachel Maia e Kida Lopes e Jamile Barreto
Economia circular costuma ser apresentada como uma agenda ambiental. É pouco. Para o Brasil, ela precisa ser tratada também como uma agenda de competitividade, produtividade e política industrial.
Essa conclusão ganhou força nas discussões do fórum “Além do Descarte”, dedicado aos desafios da cadeia têxtil. O setor reúne capacidade produtiva, empresas dispostas a investir e iniciativas relevantes de reciclagem, inovação e organização de cooperativas. Mas, quando olhamos para a operação em escala, aparece um gargalo menos glamouroso e decisivo: logística.
Não basta reciclar. É preciso saber onde o material está, em que volume, com qual composição, como será coletado, armazenado, transportado, rastreado e reinserido na produção. Sem essa arquitetura, resíduos que têm valor econômico continuam sendo tratados como descarte e projetos promissores permanecem confinados à condição de piloto.
Esse debate acontece num momento em que o país precisa recuperar densidade industrial. Segundo o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, com base nas Contas Nacionais do IBGE, a participação da indústria de transformação no PIB brasileiro caiu de 27,3% em 1986 para 13,7% em 2025. Economia circular, portanto, não deveria ser vista como uma agenda paralela à reindustrialização. Ela pode ser parte dela desde que tratada com a mesma seriedade de planejamento, investimento e métricas de desempenho que se exige de qualquer política industrial.
No setor têxtil, essa oportunidade é especialmente concreta. A cadeia brasileira está entre as mais completas do mundo e responde por mais de um milhão de empregos diretos, segundo a Abit. Ao mesmo tempo, enfrenta pressão crescente por competitividade, transparência, rastreabilidade e menor impacto ambiental. Isso significa que circularidade deixou de ser apenas reputação: passa a influenciar acesso a mercados, custos, inovação e capacidade de permanecer em cadeias globais. Empresas que não conseguirem comprovar origem e destinação de seus insumos correm o risco de ficar de fora de contratos, editais e parcerias que já exigem esse tipo de evidência.
O primeiro movimento necessário é criar uma infraestrutura de rastreabilidade que conecte os diferentes elos da cadeia. Não imagino um sistema nacional gigantesco nascendo pronto. Faz mais sentido começar por polos produtivos e logísticos, com padrões de dados interoperáveis, capazes de registrar origem, composição, movimentação, destinação e potencial de reaproveitamento dos resíduos. O que funcionar pode ser replicado. Isso exige também um vocabulário comum: hoje, cada iniciativa mede e classifica resíduos à sua maneira, o que dificulta comparar resultados e atrair investimento de maior escala.
O segundo movimento é fortalecer cooperativas com visão empresarial e territorial. Cooperativa sem transporte confiável, espaço de armazenamento, capacidade de triagem e comprador recorrente não se sustenta apenas com boa intenção ou financiamento. Por isso, a expansão deveria priorizar regiões em que geração de resíduos, concentração produtiva e infraestrutura logística já ofereçam condições mínimas de escala. Fortalecer essas cooperativas também significa tratá-las como elo produtivo, e não como beneficiárias de projeto social: com contratos previsíveis, capacitação em gestão e acesso a crédito para equipamentos.
Há dinheiro disponível para testar soluções. A chamada Finep Mais Inovação Brasil, Economia Circular e Cidades Sustentáveis dispõe, em 2026, de R$ 150 milhões em recursos não reembolsáveis para projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação executados por empresas em parceria com instituições científicas e tecnológicas. O prazo atual para propostas vai até 31 de agosto. O desafio é fazer o financiamento chegar a modelos que provem viabilidade operacional e possam ser escalados e não apenas a protótipos que terminam junto com o edital.
O terceiro movimento é usar o poder de compra para criar mercado. A Estratégia Nacional de Economia Circular, instituída em 2024, já prevê o estímulo a compras públicas de bens e serviços circulares, além de investimentos em infraestrutura, tecnologias e cadeias de reciclagem. No setor têxtil, uniformes e vestuário institucional podem funcionar como mercado-âncora para produtos com requisitos verificáveis de origem, durabilidade, conteúdo reciclado, rastreabilidade e destinação pós-consumo.
Esse ponto é importante porque circularidade sem demanda não fecha a conta. Se empresas investem em rastreabilidade, design circular e materiais reciclados, mas o mercado não reconhece essas características na decisão de compra, o incentivo econômico permanece frágil. O Estado pode contribuir para a mudança dessa equação ao estabelecer critérios objetivos e verificáveis, aplicados de forma consistente em licitações e editais. Esses parâmetros devem partir da premissa estabelecida pela Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei nº 12.305/2010), que orienta a gestão adequada dos resíduos e prevê sanções para práticas irregulares.
Há ainda uma dimensão internacional. O Regulamento Europeu de Ecodesign para Produtos Sustentáveis criou o arcabouço para o Passaporte Digital de Produto, que ampliará a disponibilidade de informações ao longo da cadeia de valor. Para uma indústria que deseja competir globalmente, antecipar padrões de rastreabilidade não é burocracia adicional; pode ser preparação para o mercado que está se formando. Empresas exportadoras que se anteciparem a essas exigências chegarão à conversa com compradores europeus já com a documentação pronta, em vez de correr atrás dela sob pressão.
Por isso, vejo três peças que precisam avançar juntas: rastreabilidade, capacidade regional de coleta e processamento e demanda qualificada. Separadamente, cada uma produz iniciativas interessantes. Integradas, podem formar uma nova infraestrutura econômica para o setor.
Talvez essa seja a mudança de perspectiva mais importante. Logística não é uma etapa posterior da economia circular. É sua infraestrutura habilitadora. É o que transforma intenção em fluxo físico, informação em decisão, resíduo em insumo e piloto em escala.
O Brasil já avançou na estratégia, na regulação e nos instrumentos de financiamento. A próxima fronteira é execução. Se conseguirmos conectar produção, resíduos, cooperativas, tecnologia, compradores e poder público por uma arquitetura comum, a economia circular poderá deixar de ser apenas uma boa agenda ambiental e se tornar aquilo que o país precisa: uma agenda de competitividade industrial, geração de renda e criação de valor.
Raquel Maia é CEO da RM Cia 360.
Kida Lopes é doutoranda em Liderança Organizacional, mestre em Educação, ex-oficial da U.S. Coast Guard e diplomata de carreira.
Jamile Jacino Marques Barreto é jornalista, especialista em Direitos Humanos, Diversidade e Violência, mestranda em Economia Política Mundial e à frente da consultoria Rever Diversidade.
