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                          Análise IEDI

                          Crédito
                          Publicado em: 29/01/2020

                          O obstáculo dos juros

                          Em 2019, as operações de crédito continuaram se expandindo, ajudando a injetar dinamismo na economia. As concessões totais de novos empréstimos cresceram +13,2% em termos reais, isto é, já descontada a inflação medida pelo IPCA. Com isso, embora permaneça aquém do patamar anterior à crise 2015-2016, o estoque total de crédito atingiu 47,8% do PIB, referente a R$ 3,5 bilhões.

                          Esta evolução positiva tem sido importante para viabilizar a reação do consumo interno, pois está muito baseada no avanço do financiamento às famílias. Em 2019, a alta das concessões reais às pessoas físicas foi de +14,4% e poderia ter sido mais robusta se os empregos que estão sendo gerados fossem de maior qualidade, permitindo às pessoas que retornassem ao mercado de trabalho melhores avaliações de risco e maior acesso a recursos junto aos credores.

                          Assim, o estoque de crédito às famílias progrediu de 26% do PIB em dez/18 para 27,6% em dez/19. Enquanto isso, o saldo contratado pelas empresas manteve trajetória cadente, passando de 21,3% para 20,2% do PIB no mesmo período, decorrente de estratégias corporativas de redução de endividamento, mas também por um dinamismo fraco de novas concessões às empresas.

                          No acumulado do ano passado, as concessões reais de crédito corporativo cresceram +11,8%, isto é abaixo do total geral, como mostram as variações interanuais a seguir, e em grande medida devido à evolução do segundo semestre (+22,2% no 3º trim/19 e +16,4% no 4º trim/19, frente ao mesmo período do ano anterior).

                               •  Concessões reais de crédito total: +4,1% em 2017; +11,9% em 2018 e +13,2% em 2019;

                               •  Concessões reais de crédito às empresas: -1,3%; +13,8% e +11,8%, respectivamente;

                               •  Concessões reais de crédito às famílias: +8,6%; +10,4% e +14,4%, respectivamente.

                          A contração do financiamento oficial, que em 2019, completou cinco anos, é um dos fatores que dificultam a recomposição mais consistente do financiamento corporativo no país. O encolhimento das atividades do BNDES, notadamente de sua carteira de financiamento ao investimento, é a principal razão desta evolução. No ano passado, as concessões reais do crédito direcionado às empresas caiu -8,1%, já o BNDES  registrou -25,6% ante 2018.

                          Mesmo que o segmento livre do crédito tenha compensado este movimento, aumentando em +13,6% suas concessões reais às empresas em 2019, a menor participação do crédito oficial pode ter impactos qualitativos sobre a estrutura de financiamento corporativo, como por exemplo uma redução do prazo das operações. O prazo médio total para as empresas caiu -3,7% em 2019 e o prazo da parcela do crédito livre, que já é muito inferior ao do crédito oficial, caiu ainda mais: -5,2% frente a 2018.

                          Outro obstáculo à recomposição do crédito que, neste caso, não se restringe ao segmento corporativo e atinge também o financiamento das famílias, tem sido os juros praticados nos empréstimos. De dez/18 a dez/19, a taxa básica de juros (Selic) definida pelo Banco Central, foi reduzida em pouco mais de 30%, passando de 6,5% ao ano para 4,5% ao ano. Os juros ao tomador, em contraste, pouco se mexeram. 

                          Tomando apenas as operações de crédito livre, que refletem melhor as taxas de mercado, o nível médio de juros nominais às empresas saiu de 20,7% ao ano em 2018 para 18,8% ao ano em 2019. Isto é, uma redução inferior a 10%, mesmo que a inadimplência média tenha se reduzido de 3,7% para 2,6% da carteira no mesmo período (queda de 30%).

                          No caso das famílias, as taxas médias de juros em 2019 recuaram tão somente 3%, mantendo os patamares expressivos que têm sido a regra no Brasil. Passaram, no crédito livre, de 53,5% ao ano em 2018 para 51,7% ao ano em 2019. Isso significa que a redução da taxa Selic no ano passado não foi repassada aos juros finais, limitando o número de potenciais tomadores de novos empréstimos. Os spreads e a inadimplência dessas operações mantiveram-se nos mesmos níveis médios de 2018.

                          Os dados de crédito apresentados pelo Banco Central hoje registraram que o saldo das operações alcançou R$ 3,5 trilhões em dezembro, incremento de 1,6% no mês. O saldo de crédito a pessoas físicas registrou acréscimo de 1,5% frente ao mês anterior (R$ 2,0 trilhões), e na carteira de pessoas jurídicas houve variação positiva de 1,8%, alcançando R$ 1,5 trilhão. Na comparação com dezembro de 2018, o saldo total de crédito manteve trajetória de incremento de 6,5%. 

                          A carteira de crédito com recursos livres registrou R$ 2,0 trilhões, incremento de 3,1% em relação ao mês anterior e expansão de 14,1% quando comparado com dezembro de 2018. A parcela destas operações realizadas junto a pessoas físicas ficou em R$ 1,1 trilhão, aferindo acréscimo de 1,9% em relação ao mês imediatamente anterior e crescimento de 16,6% quando comparado com dezembro de 2018. Para as operações junto a pessoas jurídicas aferiu-se R$ 905,0 bilhões, crescimento de 4,6% em relação ao mês anterior e variação positiva de 11,2% na comparação com o mesmo período de 2018. 

                          O estoque de crédito com recursos direcionados registrou valor de R$ 1,5 trilhão em dezembro, em termos nominais, indicando decréscimo de 0,4% frente ao mesmo mês do ano anterior e retração de 2,4% quando comparado ao mês imediatamente anterior. O saldo referente as pessoas físicas registrado foi de R$ 902 bilhões, apresentando um incremento de 6,3% quando comparado ao mês de dezembro de 2018. O saldo relativo a pessoas jurídicas foi de R$ 563,0 bilhões, decréscimo de 13,6% na mesma base de comparação. 

                          Para o mês de dezembro de 2019, foram concedidos R$ 428,8 bilhões em novas operações de crédito, variação positiva de 19,0% frente ao montante de R$ 360,2 bilhões observado em dezembro de 2018. Deste volume, R$ 397,0 bilhões foram originados de recursos livres e R$ 31,8 bilhões de recursos direcionados, o que resultou, frente a dezembro de 2018, em expansão de 22,9% para recursos livres e em retração de 14,5% para recursos direcionados.

                          Para as concessões de crédito às pessoas físicas a partir de recursos livres, destacaram-se as operações de crédito rotativo (R$ 150,7 bilhões), cartão de crédito (R$ 123,7 bilhões), crédito não rotativo (R$ 55,3 bilhões), crédito pessoal (R$ 35,8 bilhões) e cheque especial (R$ 31,7 bilhões). Quanto as pessoas jurídicas, as principais modalidades ficaram para desconto de duplicatas (R$ 48,5 bilhões), capital de giro (R$ 28,8 bilhões), cheque especial (R$ 19,3 bilhões) e conta garantida (R$ 15,5 bilhões). 

                          Nas novas concessões de crédito realizadas com recursos direcionados destacaram-se, para pessoas físicas, as modalidades de financiamento imobiliário (R$ 8,7 bilhões), crédito rural (R$ 7,4 bilhões), microcrédito (R$ 1,4 bilhão) e BNDES (R$ 1,3 bilhões). De outra forma, para as empresas, as principais modalidades ficaram com o crédito rural (R$ 4,9 bilhões), BNDES (R$ 4,1 bilhões) e financiamentos imobiliários (R$ 1,8 bilhões).   

                          Setores. Considerando o saldo total de crédito do sistema financeiro nacional por atividade econômica, a carteira de operações para o setor de serviços registrou R$ 821,2 bilhões, o que significa um acréscimo nominal de 8,6% frente a dezembro de 2018, e as maiores expansões ficaram para: outros serviços (70,5%), serviços financeiros (22,1%), comércio geral – bens de capital (16,6%), demais serviços prestados às famílias (13,1%) e comércio geral – veículos automotores (R$ 11,4%). Para o setor da indústria aferiu-se o valor de R$ 603,9 bilhões, decréscimo de 8,5% frente ao mesmo mês do ano anterior e, por fim, o setor agropecuário registrou crédito de R$ 25,0 bilhões, incremento de 5,0% em termos nominais, quando comparado ao registrado no mesmo mês de dezembro de 2018. 

                          Analisando a distribuição de crédito do sistema financeiro nacional por controle de capital, temos que as instituições financeiras públicas emprestaram R$ 1,634 trilhão, representando 47,1% do volume de crédito, as instituições financeiras privadas nacionais concederam R$ 1,282 trilhão, representando 37,0%, e as instituições financeiras estrangeiras contribuíram com R$ 554,0 bilhões, representando por sua vez 16,0% do volume total de crédito no sistema financeiro.

                          Juros e Inadimplência. A taxa média de juros das contratações de dezembro alcançou 23,0% a.a., com recuos de 0,9 p.p. no mês e de 0,2 p.p. em doze meses. O spread geral das taxas de juros das concessões situou-se em 18,4 p.p., com queda de 0,9 p.p. em dezembro e elevação de 1,4 p.p. no ano. No crédito livre, a taxa de juros atingiu 34% a.a., após reduções de 2,1 p.p. no mês e de 1,6 p.p. em doze meses. No crédito às famílias a taxa média foi de 47,3%, com queda de 2,8 p.p. no mês, destacando-se os recuos em crédito pessoal não consignado (-8,4 p.p.), cheque especial (-4,1 p.p.) e cartão rotativo regular (-6,7 p.p.). No crédito às empresas houve redução de 0,8 p.p. em dezembro, para 16,5% a.a.. Excluindo-se as operações rotativas, a taxa média de juros do crédito livre situou-se em 24,7%, recuando 1,3 p.p. no mês e 2,5 p.p. no ano.

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