Carta IEDI
Megatendências globais e a importância da indústria na superação dos desafios
A Carta IEDI de hoje trata dos principais diagnósticos e recomendações do Industrial Development Report 2026, elaborado pela UNIDO. Intitulado “The Future of Industrialization: Building Future-ready Industries for Sustainable Development”, o relatório aborda os desafios e oportunidades que se apresentam aos países em desenvolvimento no contexto de cinco megatendências que estão remodelando o cenário industrial global.
Tais megatendências, que colocam novos desafios e aprofundam gargalos estruturais existentes nestes países, compreendem: i) a transição verde; ii) a ascensão da inteligência artificial e a digitalização da produção; iii) a reconfiguração das cadeias globais de valor; iv) dinâmica populacional e a transformação da natureza do trabalho; e v) a transformação dos sistemas de produção de alimentos.
A UNIDO alerta que a economia global atravessa um momento decisivo e que as perspectivas para atingir os objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU até 2030 nunca foram tão pessimistas. As projeções da entidade indicam que, caso o curso atual seja mantido, em 2050 o mundo terá atingido níveis críticos de aquecimento global (+2,3oC), agravamento da pobreza e da fome e aumento da concentração das desigualdades entre países e regiões.
Para reverter essa trajetória, a UNIDO defende que a industrialização sustentável se torne prioridade e seja colocada no centro das estratégias de desenvolvimento dos países.
Os benefícios da industrialização decorrem da capacidade do setor de explorar economias de escala, criar encadeamentos produtivos e promover a difusão de tecnologias. Em outras palavras, a indústria importa e ocupa um papel central no progresso dos países.
Ao impulsionar a expansão para atividades econômicas de maior valor agregado, mais sofisticadas e diversificadas — que geram oportunidades de melhores empregos —, a industrialização se consolida como uma alavanca fundamental do avanço socioeconômico. Sua contribuição também está associada ao papel como motor da inovação, ao desenvolvimento de tecnologias verdes e ao aumento da resiliência frente a choques econômicos.
Para que os ganhos advindos da industrialização sejam efetivos no contexto atual, contudo, a UNIDO defende que a estratégia industrial deve ser coordenada com os planos nacionais de desenvolvimento, seguindo duas diretrizes centrais:
•incorporar a sustentabilidade como requisito no desenho e implementação da política industrial; e
•estimular atividades com maior potencial de crescimento e capacidade de geração de empregos de maior qualidade, que assegurem salários justos e condições seguras de trabalho.
Promover a industrialização em países em desenvolvimento, especialmente naqueles de menor desenvolvimento relativo, envolve uma série de restrições, bem nos lembra o relatório em tela.
Algumas são antigas e bem mapeadas, como infraestrutura e financiamento inadequados, capacidade limitada de absorver e criar novas tecnologias, pressões demográficas e persistentes desajustes de habilidades, que continuam a dificultar o desenvolvimento industrial.
Estes obstáculos são amplamente conhecidos e, a menos que sejam abordados de forma decisiva, a industrialização futura não conseguirá alcançar a velocidade e a escala necessárias para enfrentar os desafios globais apontados nas projeções da UNIDO.
Ao mesmo tempo, é preciso lidar com desafios novos e mais complexos que ameaçam ampliar as assimetrias entre países e regiões.
A UNIDO orienta que os países em desenvolvimento precisam se reposicionar em cadeias globais de suprimentos em rápida evolução, gerenciar as oportunidades e os riscos associados às novas tecnologias digitais – com destaque para a IA –, perseguir a sustentabilidade ambiental preservando a competitividade e preparar a força de trabalho para profundas transformações no emprego.
Para fazer frente a esses desafios, no contexto das cinco megatendências mapeadas, o estudo propõe uma ação coordenada em sete frentes interconectadas:
1. Infraestrutura: fator crítico para a geração de ganhos de produtividade e, consequentemente, para o crescimento;
2. Desenvolvimento das instituições: o reforço das capacidades governamentais de formulação, execução e monitoramento é um pré-requisito para que os países sejam bem-sucedidos;
3. Capacitação e habilidades do trabalho: as transformações trazidas pelas megatendências reforçam a demanda por algumas habilidades e tornam outras irrelevantes, exigindo políticas de educação e sistemas de treinamento de mão de obra;
4. Adoção e difusão de tecnologias avançadas: exigindo fortalecer instituições de pesquisa em áreas tecnológicas estratégicas; estimular a colaboração entre o setor privado e universidades; estabelecer hubs de inovação com foco em IA e centros de excelência em manufatura inteligente; estimular a conexão entre startups e grandes empresas para fomentar ecossistemas mais inovadores; e adotar mecanismos de transferência de tecnologia intra e intersetoriais;
5. Integração e coordenação internacional: em um contexto no qual as economias desenvolvidas adotam estratégias de autonomia e busca de resiliência, o relatório recomenda que os países em desenvolvimento explores oportunidades de integração comercial e produtiva regional;
6. Transição verde: implementação de novas tecnologias, processos e modelos organizacionais, tanto dentro das fábricas quanto em todo o ecossistema que as sustenta visando resultados que incluem a descarbonização da geração de energia, avanço no registro das emissões e ampliação da circularidade ao longo das cadeias produtivas, e a maior eficiência dos processos produtivos;
7. Financiamento: como o desenvolvimento industrial é tipicamente capital-intensivo, de longo prazo e envolve riscos, o acesso a financiamento se torna um fator crítico. Em um cenário marcado por espaço fiscal limitado e condições de financiamento restritivas, aponta-se um conjunto de ações que em sua dimensão doméstica inclui melhoria do ambiente de negócios e ao equilíbrio macroeconômico;
Por fim, a UNIDO explora os desafios e oportunidades para a região da América Latina e Caribe à luz das cinco megatendências, enfatizando o cenário de desindustrialização prematura da região observado no último quarto de século e sua trajetória de crescimento caracterizada por uma dinâmica de “stop-and-go”.
Assim como o IEDI vem apontando para o caso brasileiro, a baixa produtividades é apontada pela UNIDO como uma das principais fragilidades a serem superadas. Para reverter a perda de relevância industrial da América Latina e do Caribe, a UNIDO apresenta dois conjuntos de recomendações.
O primeiro, de caráter transversal, é semelhante ao proposto para o conjunto de economias em desenvolvimento e abrange os temas infraestrutura, educação, inovação, comércio e integração, financiamento, entre outros.
O segundo conjunto trata de oportunidades setoriais associadas às megatendências. O estudo argumenta que essas oportunidades oferecem possibilidades para revitalizar o tecido industrial da região e contribuir para a diversificação da base industrial, desenvolvimento de novas competências tecnológicas e maior integração às cadeias globais de valor.
As oportunidades setoriais incluem:
i) processamento de minerais críticos;
ii) equipamentos para energias renováveis;
iii) bioeconomia;
iv) indústria automotiva e mobilidade elétrica;
v) indústria farmacêutica;
vi) agroindústria e;
vii) semicondutores, sobretudo na América Central.
A conclusão é que o desenvolvimento industrial continua sendo um pilar fundamental para o crescimento econômico sustentável e para a redução das desigualdades globais. No caso da América Latina, a região pode alavancar seus recursos naturais e aproveitar as tendências globais emergentes – como a transição energética, a relocalização da produção para países próximos (nearshoring/ friendshoring) e a digitalização – para desenvolver novos setores industriais.
Para que essas oportunidades se materializem, contudo, serão necessárias intervenções políticas direcionadas para reconstruir a capacidade institucional, fortalecer a infraestrutura, reduzir as lacunas de habilidades e tecnologia e promover ecossistemas industriais mais competitivos e sustentáveis.
Sustentabilidade e o papel do desenvolvimento industrial
A economia global passa por transformações em um ritmo sem precedentes que estão remodelando as economias, as sociedades e transformando fundamentalmente as perspectivas para o desenvolvimento industrial nos próximos anos.
Entre essas transformações, a UNIDO destaca a aceleração do avanço tecnológico (notadamente a ascensão da inteligência artificial – IA) mudanças demográficas, aumento da desigualdade, crescentes tensões geopolíticas, aceleração da exploração dos recursos naturais e os impactos das mudanças climáticas.
Caso o curso atual seja mantido, projeções baseadas no modelo International Futures da Denver University indicam um cenário preocupante para o ano de 2050, com destaque para:
• Quadros severos de pobreza e fome, que podem se tornar fontes de instabilidade e conflitos: cerca de 3,15 bilhões de pessoas (7% da população mundial) viverão abaixo da linha de pobreza; 697 milhões estarão na extrema pobreza; 303 milhões de pessoas (3,1% da população mundial) sofrerão com a desnutrição;
• A mudança climática provocará escassez de recursos, amplificando quadros de pobreza e desnutrição: a temperatura global poderá aumentar 2,3°C e as emissões de CO2 atingirão 38 gigatoneladas. O aumento da temperatura provocará o aumento da taxa de mortalidade, resultando em 13,5 milhões de mortes adicionais no mundo até 2050;
• Aumento da desigualdade ao redor do globo: as formas mais graves de privação social ocorrerão de forma concentrada – cerca de 95% das pessoas em extrema pobreza residirão em países de baixa e média-baixa renda, sendo 72% na África.
Para reverter essa trajetória, o relatório da UNIDO defende que a industrialização sustentável se torne prioridade e seja colocada no centro das estratégias de desenvolvimento dos países. Essa estratégia deve, simultaneamente, endereçar desigualdades econômicas, injustiças sociais e desafios climáticos e, ao mesmo tempo, buscar um relacionamento mais equilibrado entre o Sul e o Norte Global.
Os benefícios da industrialização decorrem da capacidade do setor de explorar economias de escala, criar encadeamentos produtivos e promover a difusão de tecnologias. Com a expansão para atividades econômicas de maior valor agregado, mais sofisticadas e diversificadas, que geram mais oportunidades de emprego, a industrialização torna-se uma alavanca do progresso socioeconômico.
A contribuição da industrialização também está associada ao seu papel como motor da inovação, para o desenvolvimento de tecnologias verdes e como uma fonte de resiliência contra choques econômicos. A Pandemia de COVID-19, por exemplo, demonstrou como países com setores industriais mais desenvolvidos foram mais capazes de superar as dificuldades econômicas.
O relatório argumenta, contudo, que a ampliação do setor industrial não garante automaticamente ganhos nas dimensões socioeconômica e ambiental: os benefícios da industrialização dependem de como ela é coordenada com as estratégias nacionais de desenvolvimento, com destaque para as dimensões ambiental e social.
Diante disso, a UNIDO defende que a estratégia industrial siga duas diretrizes: i) colocar a sustentabilidade como requisito no desenho e implementação da política industrial; ii) estimular atividades com maior potencial de crescimento e capacidade de geração de empregos de maior qualidade, que assegurem salários justos e condições seguras de trabalho.
Trabalhos acadêmicos recentes demonstram que mudanças estruturais na direção de um setor industrial mais diversificado e com maior valor agregado, juntamente com ganhos de produtividade, são fontes relevantes de redução de pobreza, particularmente nas regiões em desenvolvimento da Ásia e da África.
Paradoxalmente, contudo, os países que mais precisam de transformação industrial permanecem marginalizados no cenário industrial global: até 2050, mantidas as tendências atuais, as economias de baixa e média-baixa renda representarão apenas 16% da produção industrial global, apesar de representarem 55% da população mundial. Sem ações decisivas, as disparidades na produtividade industrial e no desempenho ambiental entre o Sul Global e o Norte Global continuarão a aumentar.
Trajetórias divergentes: desenvolvimento industrial entre países e regiões
A UNIDO destaca que o desenvolvimento industrial tem sido muito desigual entre países e regiões ao longo das últimas décadas, resultando em concentração expressiva da produção industrial em poucas regiões e países.
No ano 2000, as economias desenvolvidas responderam por 76% da produção global, sendo que a Europa e a América do Norte representaram 55% do total. Em 2025 esse quadro mudou significativamente: as economias em desenvolvimento de alta renda e aqueles de renda média-alta mais que dobraram sua participação, de 20% para 44%.
Esse crescimento, contudo, foi extremamente concentrado nas regiões do Leste Asiático e do Pacífico, com destaque para a China, cuja participação no valor agregado global da manufatura passou de 9% para 35% em apenas 25 anos.
Se nada for feito, o panorama da indústria global em 2050 deverá permanecer marcado por forte desigualdade entre os países e regiões, como indicam projeções baseadas no modelo da Denver University, com destaque para as seguintes:
• A participação da produção manufatureira global proveniente de todas as economias em desenvolvimento de alta e média-alta renda aumentará de 41% para 44%, ultrapassando a das economias desenvolvidas e reforçando o padrão das últimas décadas;
• O Leste Asiático e o Pacífico em desenvolvimento se estabilizarão em torno de 34%, semelhante aos níveis atuais, enquanto as economias de baixa e média-baixa renda do Sul da Ásia praticamente dobrarão sua participação na produção industrial global, de 5% para 9%;
• A participação da América Latina e Caribe ficará estagnada em 5%, e a da África também permanecerá baixa;
• As economias de baixa e média-baixa renda como um todo representarão apenas 16% da produção industrial global, apesar de representarem a maioria da população mundial e abrigarem a grande maioria das pessoas que vivem em extrema pobreza.
Para mudar essa realidade, a UNIDO recomenda que os países em desenvolvimento adotem estratégias de industrialização capazes de enfrentar três problemas críticos que limitam sua capacidade de utilizar o desenvolvimento industrial como meio para promover a redução da pobreza, a criação de bons empregos e o desenvolvimento sustentável: 1) o déficit de intensidade industrial; 2) o déficit de produtividade; e 3) o déficit de eficiência ambiental.
1. O déficit de intensidade industrial está associado ao “indicador de intensidade industrial”, criado pela UNIDO. Este é definido como a relação entre a participação de uma região no valor agregado mundial e a parcela que ela representa da população mundial. Assim, um valor abaixo de 100 significa que a região está sub-representada no cenário da indústria global.
O relatório aponta que em 10 das 12 regiões em desenvolvimento analisadas, a contribuição para o valor agregado industrial global é menor do que o esperado. O “déficit de intensidade industrial”, desse modo, é a diferença entre grau de industrialização que igualaria o índice à participação na população mundial.
2. O déficit de produtividade, reflete a distância de uma determinada região em relação ao nível de produtividade observado nas regiões mais desenvolvidas. A alta produtividade nas economias desenvolvidas decorre tanto de uma maior adoção de novas tecnologias como de um padrão de especialização em setores de maior produtividade. Segundo o relatório, a maioria das regiões sequer atinge 1/3 dos níveis de produtividade das economias de alta renda.
3. Por fim, o déficit de eficiência ambiental é calculado a partir da medição do valor agregado da indústria de um determinado país por unidade de emissões, medido em relação ao nível de referência. De modo geral, o relatório conclui que os países em desenvolvimento possuem uma produção mais intensiva em carbono do que as economias desenvolvidas, o que caracteriza uma baixa eficiência ambiental.
O relatório destaca, contudo, que baixa eficiência ambiental não implica maior responsabilidade climática, haja vista que as economias avançadas são as maiores contribuintes para as emissões globais cumulativas e apresentam emissões per capita muito mais elevadas.
Megatendências e a indústria do futuro
A UNIDO aponta cinco megatendências que estão transformando o panorama da indústria e deverão continuar influenciado o cenário global nas próximas décadas:
i. A transição verde, que, além de uma necessidade ambiental, se tornará um pré-requisito para a competitividade na economia global;
ii. A ascensão da inteligência artificial e a digitalização da produção estão transformando os processos produtivos e redefinindo os fatores de competitividade global.
iii. A reconfiguração das cadeias globais de valor está levando os países a responder às mudanças no poder econômico e às tensões geopolíticas buscando maior autossuficiência e realocando a produção;
iv. O crescimento populacional e a transformação da natureza do trabalho, moldados por tendências demográficas divergentes, incluindo a rápida expansão no Sul Global e o envelhecimento da população no Norte Global. Essas dinâmicas, combinadas com as mudanças tecnológicas, estão exercendo pressão sobre os mercados de trabalho, os sistemas de proteção social e a saúde;
v. A transformação dos sistemas de produção de alimentos, impulsionada pela necessidade de atender à crescente demanda por alimentos processados, adaptando-se aos impactos das mudanças climáticas.
A UNIDO defende que essas megatendências criam oportunidades para novas formas de crescimento industrial ao mesmo tempo que ampliam desafios ligados à agregação de valor, inclusão e sustentabilidade. A adaptação dos países em desenvolvimento a essas transformações será, assim, determinante para a sua capacidade de tirar proveito da industrialização como um instrumento para o desenvolvimento sustentável.
Indústria e Transição Verde
Limitar o aquecimento global a 1,5°C em um contexto de crescimento da demanda por energia cria enormes desafios. Em 2050, espera-se que a demanda de energia seja 36% maior do que no ano de 2020, em parte em resposta ao crescimento populacional e aumento da renda em regiões como a África e o Sul da Ásia.
Diante disso, a transição verde dependerá de esforços relevantes em inovações de produto (como veículos elétricos e a infraestrutura associada) e de processo (como tecnologias de captura, utilização e armazenamento de carbono, tecnologias de refrigeração sustentáveis, modelos de negócios circulares etc.).
O relatório destaca que os desafios enfrentados na transição verde poderão variar muito entre os setores:
1. Indústrias intensivas em energia: a prioridade é reduzir a dependência de combustíveis fósseis e mitigar externalidades ambientais, mas algumas alternativas tecnológicas ainda são mais viáveis em alguns processos do que em outros.
A eletrificação de processos industriais usando energias renováveis pode ser eficaz para substituir os combustíveis fósseis em processos de baixa a média temperatura. Já em indústrias classificadas pela UNIDO como de difícil descarbonização (e.g. siderurgia, cimento e produtos químicos), tecnologias como hidrogênio de baixa emissão se mostram mais viáveis, com potencial para suprir até 14% do consumo global final até 2050.
2. Indústria intensivas no uso de recursos naturais: crescentes requisitos de rastreabilidade exigirão a adoção de práticas de fornecimento sustentável, sistemas robustos de gestão de água e resíduos e avalição de riscos como o desmatamento.
3. Indústrias de baixa tecnologia e intensivas em mão-de-obra: os requisitos ambientais estão aumentando, com foco no uso de água e produtos químicos, poluição e transparência da cadeia de suprimentos. Essas tendências podem beneficiar produtores que invistam em certificações ambientais e que adotem processos circulares e mais limpos.
4. Indústrias de tecnologia média e média-alta: tem sido pressionadas a adotar processos de produção com uso eficiente de recursos, cumprir regras de responsabilização ampliadas, aprimorar a rastreabilidade em redes de suprimentos complexas e atender aos padrões crescentes de divulgação de carbono e ecodesign.
A tabela a seguir sintetiza os desafios e oportunidades para cada um dos perfis acima.
Do ponto de vista dos países em desenvolvimento, a demanda crescente por materiais com baixa intensidade de carbono favorece o alinhamento da ação climática com o desenvolvimento industrial e a busca por “minerais de transição”, como lítio e níquel.
A alta concentração das reservas desses metais no Sul Global cria oportunidades para o desenvolvimento de capacidades locais de refino e fabricação de componentes. Adicionalmente, economias com alto potencial de geração de energia renovável podem ser beneficiadas por estratégias de powershoring, com a atração de investimentos que necessitem de acesso à energia limpa, acessível e abundante.
A UNIDO defende que a transição verde cria oportunidades para mudanças estruturais, permitindo que países retardatários se insiram em novas cadeias produtivas. Para isso, contudo, será preciso fortalecer a capacidade inovadora desses países.
O risco aqui é que os requisitos de conhecimento e capital necessários para viabilizar a transição energética e a descarbonização da indústria possam aprofundar as desigualdades estruturais existentes e reforçar a divisão global desigual do trabalho, com os países de alta renda liderando o desenvolvimento de tecnologias verdes e as nações de baixa renda, ricas em recursos, presas ao “extrativismo verde”, exportando matérias-primas com pouco ou nenhum processamento doméstico.
O estudo também chama atenção para os efeitos contraditórios de políticas adotadas por países desenvolvidos, a exemplo da chamada taxação de carbono na fronteira, de requisitos de divulgação ESG e da criação de normas para compras verdes.
Se, por um lado, essas medidas podem estimular o fluxo de capitais para financiar produtores, por outro, frequentemente elas são acompanhadas de altos custos de compliance para exportadores que resultam em barreiras ao comércio e limitam as oportunidades de ganhos para países em desenvolvimento.
Por fim, o relatório destaca a necessidade ampliar os investimentos em adaptação climática visando a três benefícios: evitar danos e gerar ganhos econômicos e benefícios socioambientais.
IA e a Digitalização da Produção
As tecnologias digitais estão transformando a natureza dos processos industriais, resultando em aumentos de eficiência, flexibilidade, capacidade preditiva e tomada de decisão em tempo real. Entre todas essas tecnologias, a IA aparece como um dos principais motores da transformação digital, com o potencial de transformar setores inteiros e impulsionar mudanças estruturais nas economias.
A UNIDO avalia que a IA traz oportunidades significativas para aumentar a produtividade de países em desenvolvimento, principalmente em setores com processos produtivos mais padronizados.
Para aproveitar essas oportunidades, o relatório recomenda o desenvolvimento de abordagens colaborativas para o compartilhamento de dados, o que pode ser feito por meio de consórcios ou comunidades de compartilhamento de dados industriais para reduzir as barreiras de entrada para a implantação da IA.
Essas estruturas colaborativas podem apoiar o desenvolvimento de aplicações de IA locais e criar oportunidades para que os atores nacionais se tornem usuários e desenvolvedores de soluções. Segundo o estudo, algumas dessas aplicações exigem apenas capacidades técnicas e organizacionais modestas, tornando-as acessíveis a uma ampla gama de empresas que poderiam aproveitar essa tecnologia para melhorar a eficiência, a competitividade e a resiliência.
A entidade ressalta, contudo, que o avanço e disseminação da IA em países em desenvolvimento depende do fortalecendo dos seus ecossistemas industriais, o que requer investimento em capital humano, infraestrutura de conectividade, e melhoria do acesso ao financiamento para as PMEs.
Entre os riscos do avanço da IA e de outras tecnologias digitais avançadas, a UNIDO destaca a concentração em poucas regiões e firmas e possíveis impactos no mercado de trabalho que se reflitam na redução da atratividade de países em desenvolvimento para investimentos.
Com relação ao primeiro risco, o relatório destaca que os avanços no desenvolvimento e difusão da IA estão fortemente concentrados em um pequeno número de países, com destaque para EUA, China, Japão, Coreia do Sul e Reino Unido. Essa forte concentração pode reforçar a dependência tecnológica e as desigualdades não só entre países, mas também entre firmas, pois a adoção da IA continua restrita às grandes empresas, mais produtivas e integradas internacionalmente.
No segundo caso, a UNIDO argumenta que a automação pode reduzir a contribuição do desenvolvimento industrial para a geração de empregos. Isso ocorreria, por exemplo, se a aceleração da digitalização alterar as vantagens competitivas dos países, reduzindo o peso dos custos trabalhistas na produção. Isso poderia, segundo a entidade, restringir a criação de empregos e até mesmo acelerar a desindustrialização prematura no Sul Global.
A reconfiguração das Cadeias Globais de Valor
Entre 2000 e 2025, os países do Sul Global praticamente dobraram sua participação no PIB mundial, de 22% para 40%. A UNIDO prevê que essa proporção atinja 50% até o ano de 2050.
Segundo a entidade, esse crescimento será sustentado pelo desenvolvimento demográfico favorável, rápida urbanização, crescente demanda por matérias-primas críticas, transição para produção de baixo carbono, maior integração regional e fortalecimento do papel de políticas industriais com foco no aumento da agregação de valor local.
Essa previsão, contudo, pode ser frustrada por aspectos geoeconômicos que têm levado muitos países desenvolvidos a reduzir sua dependência dos mercados globais, influenciando fluxos de investimento ao redor do mundo e alterando a geografia da produção industrial.
O relatório argumenta que essas tendências, que já vinham sendo afetadas por choques nas cadeias produtivas como o observado em consequência da Pandemia de Covid-19 e por tensões geopolíticas, se aceleraram com a escalada tarifária promovida pelo governo dos EUA a partir de 2025.
Simulações recentes sobre os efeitos de curto e longo prazo do aumento das tarifas nas principais economias globais indicam que essa mudança na política comercial terá um impacto negativo no PIB global, no valor adicionado da indústria e na pobreza. Os maiores impactos seriam sentidos pelos países menos desenvolvidos e por países em desenvolvimento cujas exportações se concentram em poucos setores e mercados.
Dentre as principais transformações nos fluxos internacionais de investimento com potencial para afetar os países em desenvolvimento, a UNIDO destaca os fenômenos conhecidos como reshoring e o friendshoring.
O primeiro tem sido beneficiado pela tecnologia, principalmente ligada à automação, que vem reduzindo a importância do baixo custo do trabalho em países em desenvolvimento para a atração de investimentos. A nova onda de inovação tecnológica, combinada com o aumento das tarifas, pode intensificar as pressões de relocalização em um futuro próximo. Nesse contexto, segundo o relatório, o reshoring, ainda que limitado a indústrias específicas, pode provocar a desindustrialização prematura de países em desenvolvimento.
A relocalização global da produção, entretanto, também pode criar oportunidade de atração de investimentos para economias em desenvolvimento, facilitando a entrada destas em cadeias de valor emergentes ou o aumento da sua participação em cadeias já existentes. O descolamento (decoupling) entre EUA e China pode favorecer esse movimento à medida em que ambos buscam novos fornecedores.
Com relação ao friendshoring, o relatório identifica oportunidades tanto para economias em desenvolvimento de baixa renda quanto para as de renda média, dependendo de suas capacidades industriais e padrões de especialização. A título de exemplo, produtos suscetíveis ao friendshoring representam mais de 6% das importações dos EUA de produtos manufaturados, o que é uma parcela relativamente pequena, mas representa um valor considerável de US$ 181 bilhões em mercadorias.
O documento, por outro lado, alerta para o risco de que países em desenvolvimento sejam aprisionados em segmentos de baixo valor agregado e menor sofisticação industrial.
Segundo a UNIDO, há evidências de que muitos produtos ligados ao conceito de friendshoring são relativamente simples, o que reforça a importância de políticas industriais que fomentem a entrada de empresas locais em atividades de maior valor agregado, atraiam investimentos para setores estratégicos e estimulem a transferência de conhecimento e tecnologia.
A conclusão do relatório é que, para capturar benefícios associados à relocalização global da produção, os países devem investir em infraestrutura e educação e apoiar as firmas domésticas no desenvolvimento de capacidades produtivas e tecnológicas.
Mudanças Demográficas, Tecnológicas e do Trabalho
A combinação de taxas de natalidade decrescentes e aumento da expectativa de vida tem alterado as pirâmides etárias ao redor do mundo, transformando os mercados de trabalho.
A etapa em que cada país está nesse processo normalmente se relaciona com o seu nível de renda. Em 2025, a taxa de dependência (relação entre a população que não está em idade de trabalho e a que está nessa faixa) nos países de alta renda deverá exceder 90%, enquanto os países em desenvolvimento permanecerão abaixo de 70%.
O estudo destaca o caso dos países africanos, onde a taxa deverá cair de forma significativa à medida que um grande contingente populacional atualmente abaixo de 15 anos entre na força de trabalho.
O saldo final dessas diferentes tendências demográficas é que, por volta de 2050, a população adulta em idade de trabalho deverá se concentrar no Sul Global, principalmente na África. Nesse continente a população economicamente ativa deverá passar de 16,6% para 24,5% nos próximos 25 anos.
Para que os países em desenvolvimento tirem proveito desse bônus demográfico, a UNIDO defende a necessidade de investimentos em educação, inclusive de nível técnico, e de políticas de estímulo à criação de empregos de maior qualidade para jovens.
A entidade reconhece que novas tecnologias estão transformando os mercados de trabalho ao redor do mundo, ameaçando a existência de alguns empregos e abrindo espaço para a criação de novas atividades. Essas mudanças estruturais nos mercados de trabalho podem causar mudanças distributivas significativas, mesmo na ausência de desemprego tecnológico em massa.
As mudanças demográficas e tecnológicas descritas resultarão na necessidade de criação de 1 bilhão de novos empregos até 2050. Destes, 800 milhões se referem ao contingente de pessoas que entrarão no mercado de trabalho, quase exclusivamente em países em desenvolvimento. A parcela restante está ligada à substituição de empregos resultante do avanço da automação.
Diante disso, a criação de empregos de qualidade em países em desenvolvimento será um dos maiores desafios para os governos. O estudo cita os setores de energia renovável e ligados à economia circular como exemplos de indústrias capazes de contribuir com a criação de empregos em países em desenvolvimento, o que poderá ser estimulado por políticas industriais orientadas a missões.
Juntamente com a estratégia de política industrial proposta pela UNIDO, a entidade defende a melhoria dos sistemas de educação, formação profissional, aprendizagem e programas de requalificação, além de iniciativas que aumentem a proteção trabalhista e o poder de negociação dos trabalhadores para manter empregos de alta qualidade.
Para impulsionar a produtividade e a inclusão, a política também deve promover a igualdade de gênero no acesso à educação de qualidade em áreas ligadas às ciências e à matemática, e à expansão da participação das mulheres em indústrias de média e alta tecnologia.
A transformação dos sistemas alimentares
A demanda global por alimentos deverá crescer 35% até 2050. No sul e no oeste da Ásia, esse crescimento deverá chegar a 60% e, na África, poderá dobrar. As regiões onde a demanda por alimento deverá aumentar de forma mais expressiva são, também, aquelas que deverão ser mais dependentes de importações, inclusive de alimentos processados.
Em paralelo, a demanda por alimentos também passa por transformações qualitativas relevantes. O relatório destaca, nesse sentido, que o aumento da renda e a busca por segurança alimentar em países em desenvolvimento tem se refletido na diversificação das dietas, com a inclusão de mais alimentos processados, nutritivos e convenientes.
O maior processamento de alimentos tem levado a mudanças na estrutura produtiva, que incluem o alongamento das cadeias produtivas e a incorporação de tecnologia na indústria e no campo, o que amplia os benefícios potenciais da industrialização de economias agrárias menos desenvolvidas.
Mais recentemente, a transição digital e a IA começaram a remodelar os sistemas alimentares. Tecnologias de edição gênica, produção de alimentos sintéticos e agricultura de fronteira poderão desempenhar um papel cada vez mais significativo. A incorporação crescente de tecnologia à produção agropecuária estimula a demanda por produtos industriais e geram spillovers positivos para a economia.
Por fim, mas não menos importante, em um contexto em que a mudança climática já afeta a capacidade de produção de diversas regiões, a UNIDO alerta que a ampliação da produção de alimento de qualidade precisará ser compatibilizada com a redução dos impactos ambientais.
Construindo Indústrias Preparadas para o Futuro
As cinco megatendências elencadas pela UNIDO estão remodelando o cenário industrial global, trazendo novos desafios e aprofundando gargalos estruturais existentes para os países em desenvolvimento.
Estes países precisam se reposicionar em cadeias de suprimentos globais em rápida evolução, o que envolve aproveitar as oportunidades que estão surgindo e gerenciar os riscos trazidos pelas tecnologias digitais avançadas, buscar a competitividade com sustentabilidade ambiental e preparar a força de trabalho para profundas transformações no emprego.
A adaptação a essas transformações exige ação coordenada em sete frentes interconectadas, segundo a UNIDO: (i) infraestrutura, (ii) instituições, (iii) capacitação e habilidades, (iv) adoção e difusão tecnológica, (v) integração internacional, (vi) transição verde e (vii) financiamento.
A infraestrutura é um fator crítico para a geração de ganhos de produtividade e, consequentemente, para o crescimento. O investimento estratégico em infraestrutura também oferece um caminho direto para a industrialização sustentável e para a criação de empregos ao estimular a demanda em setores de manufatura interconectados.
Além da infraestrutura tradicional, que a UNIDO denomina “infraestrutura de integração”, o documento defende a importância da “infraestrutura de informação” (conectividade, datacenters e outras tecnologias necessárias ao avanço da digitalização), da “infraestrutura de inovação” (que inclui infraestrutura de CT&I e os demais componentes do sistema nacional de inovação) e da “infraestrutura da qualidade”, que engloba as instituições responsáveis pela metrologia, padronização e acreditação, que passa por profunda transformação.
Com relação à infraestrutura da qualidade, o relatório argumenta que a integração de tecnologias avançadas está remodelando e aprimorando os sistemas de medição e padronização, dando origem à Infraestrutura de Qualidade Inteligente, que, ao promover a padronização das tecnologias da Indústria 4.0, pode facilitar a transferência de tecnologia, a adoção de sistemas de manufatura inteligentes e aumentar a produtividade.
Do ponto de vista da sustentabilidade, a definição de padrões e ferramentas avançadas para avaliação da conformidade podem apoiar o desenvolvimento de cadeias de suprimentos verdes e fortalecer a participação dos países em desenvolvimento no comércio internacional.
Quanto ao desenvolvimento das instituições, a UNIDO enfatiza três funções essenciais para o governo dos países em desenvolvimento visando à adaptação às megatendências:
i) liderança para a formulação de uma visão estratégia e estabelecimento de um ambiente propício para produtores e consumidores;
ii) gestão de externalidades e dos desafios do desenvolvimento, incluindo a geração de respostas para questões como a mudança climática, emergências em saúde pública e a difusão equitativa da tecnologia; e
iii) garantir a distribuição equitativa dos ganhos das transições verde e digital, não apenas pela sua importância para a estabilidade social, mas também para sustentar a demanda efetiva doméstica.
Um requisito para que os países sejam bem-sucedidos é o reforço das capacidades governamentais de formulação, execução e monitoramento.
Do ponto de vista da governança, o relatório ressalta a necessidade de uma forte capacidade de cooperação e coordenação entre as diferentes áreas dos governos e destas com o setor privado para atuar em torno de um conjunto de objetivos compartilhados. Coalizões amplas também podem fortalecer o consenso social nos países, o que muitas vezes se mostra valioso para o sucesso das políticas industriais, que devem ter prazo determinado e estar sujeitas a monitoramento e avaliação rigorosos.
As transformações trazidas pelas megatendências reforçam a demanda por algumas habilidades de trabalho e, ao mesmo tempo, tornam outras irrelevantes. Esse contexto pressiona países em desenvolvimento a adotarem políticas de educação e sistemas de treinamento para acompanhar a aceleração das transformações industriais e para evitar uma ampliação da defasagem com os países desenvolvimento.
Sem acesso adequado à educação e requalificação, uma população em processo de envelhecimento pode agravar os problemas decorrentes do fim do bônus demográfico. De forma análoga, mesmo nos países menos desenvolvidos que passarão a experimentar um crescimento da população economicamente ativa, sem medidas eficazes na área de educação o crescimento da população jovem pode se transformar em maior desemprego, salários comprimidos e baixo crescimento.
Com base nas perspectivas e necessidades de desenvolvimento industrial dos países em desenvolvimento, a UNIDO destaca a importância de desenvolver competências nas áreas de sustentabilidade e digitalização e recomenda a adoção de uma abordagem dual que fortaleça a educação e o sistema de ensino técnico e profissional alinhado com as demandas da indústria e, ao mesmo tempo, promova o treinamento no local de trabalho.
Já a adoção e difusão de tecnologias avançadas depende de esforços coordenados de um amplo conjunto de atores, incluindo empresas, universidades e agências governamentais.
O relatório destaca a importância de explorar oportunidades de encadeamentos entre os setores da economia para potencializar os ganhos associados às novas tecnologias. Nesse sentido, com o objetivo de promover o desenvolvimento dos segmentos de bens e serviços associados às tecnologias digitais, o relatório recomenda:
• Fortalecer instituições de pesquisa em áreas tecnológicas estratégicas;
• Estimular a colaboração entre o setor privado e as universidades para facilitar a tradução da pesquisa em soluções para o mercado;
• Estabelecer hubs de inovação com foco em IA e centros de excelência em manufatura inteligente para acelerar a adoção de tecnologias emergentes e elevar a competitividade;
• Oferecer apoio direcionado a startups e estimular sua conexão com grandes empresas para fomentar ecossistemas mais inovadores;
• Adotar mecanismos de transferência de tecnologia intra e intersetoriais, com o apoio de políticas de fomento à PD&I.
Quanto à integração e coordenação internacional, com o aumento das tensões comerciais e a busca das economias avançadas por maior autossuficiência e resiliência das suas cadeias produtivas, muitos países em desenvolvimento correm o risco de serem excluídos das cadeias globais de valor.
Nesse contexto, o comércio Sul-Sul e a integração regional podem se tornar uma alternativa para reduzir a dependência de mercados extrarregionais e amortecer choques externos.
Apesar de defender o potencial das cadeias regionais de valor, contudo, a UNIDO reconhece que, tradicionalmente, o comércio intrarregional é bastante limitado entre países em desenvolvimento.
Diante disso, o relatório apresenta as seguintes recomendações:
• Celebração de acordos comerciais abrangentes, que vão além da redução de tarifas;
• Investimento em infraestrutura que contribua para a maior integração regional;
• Lidar com o desafio da complementaridade produtiva dentro da região;
• Estabelecer cooperação em matéria de investimento para canalizar os fluxos de capital para infraestruturas e áreas subdesenvolvidas.
A transição verde exigirá que os países implementem e ampliem novas tecnologias, processos e modelos organizacionais, tanto dentro das fábricas quanto em todo o ecossistema que as sustenta. Isso demandará ações coordenadas em três frentes inter-relacionadas: i) descarbonização da geração de energia, o que inclui tanto a difusão e desenvolvimento de fontes de energia de baixa emissão como o desenvolvimento de tecnologias de armazenamento de energia; ii) registro das emissões e ampliação da circularidade ao longo das cadeias produtivas; iii) aumento da eficiência dos processos produtivos.
A UNIDO defende que a política industrial, por meio de instrumentos regulatórios e uso de compras governamentais, pode contribuir para o desenvolvimento de capacidades produtivas e tecnológicas domésticas associadas à transição verde. Para isso, a entidade entende que essas medidas devam ser incluídas no planejamento de longo prazo dos países, com metas específicas para energias renováveis, circularidade, eficiência energética industrial, desenvolvimento de infraestrutura e colaboração internacional.
Atingir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU exigirá um investimento anual estimado em US$ 4 trilhões. O ODS 9, que se concentra na indústria e inovação, é um dos objetivos mais subfinanciados, com investimentos em queda nos últimos anos. Somente a infraestrutura vai requerer cerca de US$ 400 bilhões por ano.
Como o desenvolvimento industrial é tipicamente capital-intensivo, de longo prazo e envolve riscos, o acesso a financiamento se torna um fator crítico. Em um cenário marcado por espaço fiscal limitado e condições de financiamento restritivas, contudo, a maioria dos países em desenvolvimento não possui recursos internos suficientes para financiar adequadamente as suas políticas industriais.
Nesse contexto, a UNIDO aponta um conjunto de alternativas para acesso ao financiamento necessário para promover o desenvolvimento industrial:
• Bancos de desenvolvimento, cujo atuação foi, historicamente, fundamental para o financiamento de longo prazo;
• Fundos de assistência internacional e investimentos diretos estrangeiros, ainda que reconhecendo o caráter cíclico e altamente seletivo destes;
• Estruturas de blended finance para apoiar projetos industriais em estágio inicial e novas tecnologias. Para aumentar a atratividade do capital privado nessas estruturas é importante desenvolver instrumentos de mitigação de riscos e de coordenação mais robustos. Agências governamentais de promoção de investimentos e ministérios também podem atuar na elaboração projetos.
• Explorar outros instrumentos, como green bonds, seguros, esquemas de garantia e fundos soberanos de desenvolvimento.
Para que essas possibilidades se tornem realidade e ganhem escala, sobretudo com respeito à atração de capital, a UNIDO reforça a necessidade de reformas em duas dimensões: i) na esfera doméstica, reformas voltadas à melhoria do ambiente de negócios e ao equilíbrio macroeconômico; e ii) na esfera externa, uma reforma urgente da arquitetura financeira internacional para reduzir o custo das dívidas, promover a estabilidade macroeconômica dos países e expandir o espaço fiscal para financiar o desenvolvimento.
América Latina: tarefas a serem feitas
No último quarto de século a economia da América Latina e do Caribe foi marcada por um processo de desindustrialização prematura. O valor agregado da indústria da região cresceu consistentemente abaixo da média dos países em desenvolvimento, em uma dinâmica de “stop-and-go” em parte influenciada pelo superciclo de commodities.
A atividade industrial da região também é marcada pela forte concentração da produção nas suas maiores economias, tendência que deve ser manter até 2050.
Duas fragilidades da região apontadas pelo relatório da UNIDO são a baixa produtividade e a eficiência ambiental heterogênea. A entidade estima que a produtividade continuará a ser um desafio na região até 2050, quando atingirá pouco mais de um quarto da média das economias industriais de alta renda.
No caso da eficiência ambiental, o relatório prevê que um crescimento moderado da produção industrial até 2050, que será acompanhado por emissões desproporcionalmente maiores, sugerindo que os ganhos de produção continuarão a depender de energia baseada em combustíveis fósseis e de processos de baixa eficiência.
Essa tendência é particularmente preocupante, comenta a UNIDO, dada a vulnerabilidade da América Latina e Caribe às mudanças climáticas e sua dependência de indústrias com uso intensivo de recursos.
Para reverter essa trajetória, a UNIDO apresenta um conjunto de recomendações que, para os fins desta resenha, foram agrupadas em dois blocos: “questões transversais” e “oportunidades setoriais”.
A UNIDO apresenta recomendações em sete áreas prioritárias que devem ser trabalhadas pelos governos da região, que não diferem significativamente das propostas apresentadas mais acima neste documento para o conjunto de países em desenvolvimento.
i. Instituições: fortalecimento das capacidades técnicas governamentais e estabilidade políticas são fatores necessários para o planejamento e execução de políticas industriais coerentes ao longo do tempo;
ii. Infraestrutura: a região é caracterizada por níveis insuficientes de investimento em infraestrutura, o que reduz a produtividade, prejudica a integração comercial internacional e aumenta a vulnerabilidade a riscos climáticos. Adicionalmente, a oferta de infraestrutura na região é muito concentrada, o que reforça as disparidades entre os setores formal e informal, entre as áreas urbanas e rurais e entre grupos demográficos;
iii. Educação: o baixo nível educacional e a desigualdade na formação de recursos humanos são vistos como duas das principais causas da baixa produtividade da região. O envelhecimento da população e o fim do bônus demográfico reforçam a urgência de atuar na melhoria da educação, em especial a técnica e profissional;
iv. Inovação: praticamente todos os países da região investem menos de 1% do PIB em P&D. O relatório também destaca o baixo desenvolvimento do mercado de venture capital e as dificuldades de acesso a financiamento para startups e projetos inovadores;
v. Comércio e integração: os países da região continuam muito dependentes de exportações de produtos primários, o que torna suas economias vulneráveis a flutuações dos preços internacionais. Mesmo os países mais desenvolvidos da região enfrentam um processo de desindustrialização prematura e dependem fortemente de importações de bens com maior conteúdo tecnológico. O comércio regional é limitado por barreiras comerciais não-tarifárias, pela baixa complementaridade produtiva entre os países e pelo baixo nível de renda da região, que afeta a demanda;
vi. Financiamento e investimento: volatilidade macroeconômica, flutuações cambiais, pressões inflacionárias, políticas fiscais inconsistentes e elevados níveis de endividamento desencorajam o investimento e restringem o acesso a crédito na América Latina. As PMEs são relativamente mais prejudicadas em virtude de dificuldades de lidar com requisitos de garantia, históricos de crédito limitados e falta de produtos financeiros personalizados. Por outro lado, a UNIDO destaca que a região conta com uma rede dinâmica de bancos de desenvolvimento nacionais e regionais que são cada vez mais capazes de catalisar o investimento do setor privado na região.
vii. Outras questões: a estrutura industrial da região também é prejudicada por aspectos estruturais como: o dualismo produtivo; a participação, ainda grande, de atividades informais, principalmente na América Central; e a desigualdade de gênero no mercado de trabalho, que afeta as oportunidades de renda e acesso à proteção social.
Oportunidades Setoriais para América Latina e Brasil
Em complemento às questões transversais elencadas acima, a UNIDO identifica um conjunto de oportunidades setoriais em indústrias estratégicas, associadas às megatendências. Segundo a entidade, essas oportunidades oferecem possibilidades para revitalizar o tecido industrial da região e contribuir para a diversificação da base industrial, desenvolvimento de novas competências tecnológicas e maior integração às cadeias globais de valor.
Processamento de minerais críticos
A crescente demanda global por minerais críticos e terras raras, combinada com a busca dos países desenvolvidos pela diversificação de seus fornecedores, cria oportunidades de desenvolvimento industrial para países ricos em recursos, especialmente na América do Sul.
O relatório recomenda que os esforços para o desenvolvimento dessa indústria sejam enquadrados em uma política industrial de longo prazo e voltada para o futuro, que priorize ganhos estáveis e sustentados em vez de rendas imediatas e pontuais.
Equipamentos para energias renováveis
Impulsionado pela crescente demanda local e global, o investimento na fabricação de equipamentos para energias renováveis tem crescido na América Latina e Caribe.
Sobre o Brasil, o documento destaca que a produção de equipamentos para geração eólica alcançou cerca de 80% de conteúdo nacional com o apoio do BNDES a fornecedores locais e que o setor foi beneficiado pela sinergia e transferência de conhecimento da indústria aeroespacial madura instalada no país. No caso de painéis solares, o México e o Brasil possuem plantas montadas relevantes, mas ainda muito dependentes da importação de matérias-primas e componentes.
As fontes solar e eólica foram responsáveis pela maior parte desse investimento até o momento, mas o hidrogênio de baixa emissão vem ganhando espaço desde 2022. O relatório também aponta oportunidades ainda pouco exploradas na área de armazenamento de energia.
A ampliação dos investimentos em energias limpas, contudo, esbarra no alto custo de capital e restrições ao financiamento de longo prazo. A fraca integração regional também restringe possibilidades de ampliação da escala na região.
Bioeconomia
A demanda crescente por energia, produtos químicos e materiais sustentáveis cria novas oportunidades para cadeias de valor baseadas na biomassa, incluindo biocombustíveis e bioplásticos, cujo crescimento deverá crescer a uma taxa anual de 8%, ultrapassando os plásticos de origem fóssil.
No caso do Brasil, o relatório destaca a base diversificada de biomassa, abrangendo produtos com alto potencial de industrialização, como soja, cana-de-açúcar e florestas plantadas.
O documento também aponta oportunidades para o desenvolvimento de cadeias de valor mais fragmentadas e menos integradas, como babaçu, açaí, macaúba, licuri e cacau, sugerindo o apoio de cooperativas de financiamento, micro-biorefinarias e esquemas robustos de certificação para facilitar o acesso a mercados globais.
Indústria automotiva e mobilidade elétrica
O avanço global em direção à mobilidade elétrica está transformando a demanda, as cadeias produtivas e a inovação tecnológica, criando oportunidades em áreas como baterias, eletrônica e integração de software.
A UNIDO defende que as oportunidades relacionadas à mobilidade elétrica podem ir além do setor automotivo, a exemplo da iniciativa da Embraer com o eVTOL. O relatório ressalta que, além da manufatura, a companhia vem desenvolvendo um ecossistema de mobilidade aérea que inclui infraestrutura, treinamento, certificação e plataforma de serviços, posicionando o Brasil como líder em inovação para a mobilidade sustentável.
O desafio para os países da região aproveitarem oportunidades na área da mobilidade elétrica estão ligados ao fortalecimento produtivo e tecnológico das cadeias produtivas locais, para não permanecerem dependentes de fornecedores externos.
Para isso, grandes fornecedores que operam no país podem ser incentivados a transferir conhecimento e tecnologia, vinculando os benefícios a resultados verificáveis e fomentando parcerias técnicas e de P&D com instituições públicas, como por meio de programas de desenvolvimento de fornecedores. Ao mesmo tempo, os fornecedores locais podem ser apoiados, por exemplo, como maior acesso a financiamento.
Semicondutores
No caso de semicondutores, o estudo da UNIDO identifica um aumento da atratividade concentrada na América Central, que seria beneficiada pelas estratégias de friendshoring e nearshoring dos EUA.
A região é contemplada por dispositivo do Chips Act dos EUA que visa reduzir a dependência da produção asiática e, para isso, alocou US$ 500 milhões para apoiar parcerias regionais, estimulando investimentos em países como México e Costa Rica.
Além da posição geográfica estratégica, a UNIDO argumenta que a região pode potencializar capacitações existentes relacionadas às indústrias eletrônica, automotiva e um contingente substancial de trabalhadores qualificados para atuar em nichos específicos de montagem, testes e encapsulamento e, no longo prazo, evoluir para a fabricação de wafer.
A entrada no segmento de semicondutores, contudo, permanece desafiadora em função da produção global extremamente concentrada, incerteza tecnológica e limitação de recursos financeiros. Para superar esses desafios, o relatório recomenda casar a política de atração de investimentos com o fortalecimento de encadeamentos com a indústria local, além de adotar medidas complementares para o aumento da competitividade, como programas de treinamento, estabelecimento de centros de pesquisa e investimentos em infraestrutura.
Indústria farmacêutica
Com o envelhecimento da população, o mercado farmacêutico da região deverá passar de um valor de US$ 127 bilhões em 2024 para mais de US$ 234 bilhões até 2033. Os medicamentos genéricos respondem por grande parte do consumo, mas biossimilares já são o segmento com crescimento mais rápido.
O relatório aponta que a América Latina possui uma ampla base de competências nas áreas farmacêutica e biofarmacêutica. No caso do Brasil, o documento destaca uma rede consolidada de laboratórios públicos e grandes empresas domésticas, que viabilizam a cooperação público-privada efetiva em P&D.
Os principais gargalos para o desenvolvimento dessa indústria na região são acesso limitado a mercados, incerteza regulatória, dependência de importações e financiamento insuficiente.
Políticas industriais coordenadas, que integrem incentivos ao investimento, modernização regulatória e desenvolvimento de recursos humanos podem fortalecer as capacitações industriais no setor.
Agroindústria
Além da grande produção agropecuária, a região possui uma importante base industrial que combina multinacionais e grandes grupos domésticos.
O crescimento populacional, a urbanização e uma classe média em expansão estão impulsionando a demanda interna por mais alimentos processados. Em países como México, Brasil, Chile e Colômbia, alimentos processados respondem por um quarto da ingestão calórica, ainda bem abaixo dos níveis observados em economias avançadas.
Ao mesmo tempo, a crescente conscientização sobre questões de saúde relacionadas à alimentação, incluindo obesidade e diabetes, juntamente com uma mudança em direção a padrões de consumo mais sustentáveis, abre oportunidades para empresas inovadoras.
Medidas regulatórias nas áreas de rotulagem e de incentivo produtos mais saudáveis têm estimulado as empresas a inovar e levaram ao surgimento de startups bem sucedidas, algumas já presentes no mercado internacional.
O relatório defende que os governos adotem estratégias com visão de longo prazo para desenvolver segmentos a montante da cadeia de valor incentivar a inovação. A regulação setorial pode estimular a busca de soluções inovadoras, juntamente com um ecossistema de inovação que promova a colaboração entre empresas líderes nacionais, startups e instituições de pesquisa.

